Reich vive!
Estudo bibliográfico sobre a biopatia do câncer a partir do referencial reichiano
Reich lives!
A bibliographic study on the biopathy of cancer from a Reichian perspective
Resumo
Trata-se de um estudo de revisão sobre as descobertas inovadoras acerca da biopatia do câncer desenvolvidas pelo médico psiquiatra austríaco Wilhelm Reich (1897-1957). Como objetivo geral, buscou-se mapear os escritos de Reich sobre o câncer e sua etiologia, assim como os possíveis mecanismos preventivos e de “cura”; como objetivo específico, buscou-se identificar e analisar os estudos realizados tendo como base a teoria de Reich, atualizando o pensamento reichiano acerca da biopatia do câncer a partir de extensa e sistemática revisão bibliográfica nacional e internacional. Conclui-se que as formulações reichianas acerca da temática têm gerado estudos inovadores, replicação de experimentos originais com modernos métodos de controle, bem como práticas complementares em tratamentos oncológicos ao redor do mundo.
Palavras-chave: Biopatia do câncer; Processo saúde-doença; Revisão bibliográfica; Wilhelm Reich.
Abstract
This review study examines the innovative discoveries concerning the biopathy of cancer developed by the Austrian psychiatrist Wilhelm Reich (1897–1957). The primary objective was to map Reich's writings on cancer and its etiology, as well as the possible mechanisms of prevention and “healing.” The specific objective was to identify and analyze studies based on Reichian theory, updating Reichian thought on the biopathy of cancer through an extensive and systematic review of both national and international literature. The study concludes that Reich's formulations on this subject have inspired innovative research, replications of original experiments using modern control methods, and complementary practices in cancer treatment around the world.
Keywords: Cancer Biopathy; Health-Disease Process; Literature Review; Wilhelm Reich.
Introdução
Este trabalho foi realizado no contexto de um projeto de Bolsa de Auxílio Permanência (BAP, Edital Prosis – Pró-Reitoria de Ações Afirmativas – 04/2020) a estudantes, com duração de 12 meses (05/2020 a 05/2021), e teve a participação de dois discentes bolsistas e três voluntários (na ocasião todos regularmente matriculados em cursos de primeiro ciclo da Universidade Federal do Sul da Bahia/UFSB, Campus Sosígenes Costa/CSC, em Porto Seguro, Bahia), além de dois professores efetivos na coordenação da proposta. É dedicado ao Professor Paulo Albertini, que mantém vivo o pensamento de Wilhelm Reich desde a década de 1990 a partir do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
Trata-se de um estudo teórico de revisão sobre as descobertas inovadoras acerca da biopatia do câncer desenvolvidas pelo médico psiquiatra austríaco Wilhelm Reich (1897-1957), a partir de meados da década de 1930, nos EUA. Reich migra para a cidade de Nova York em 1934, fugindo da perseguição nazista da Alemanha. O estudo justificou-se, do ponto de vista social, devido ao grande número de pessoas acometidas pela doença do câncer, gerando grande sofrimento pessoal e familiar, bem como elevados custos de saúde envolvidos no seu tratamento. Do ponto de vista científico, o estudo justificou-se ao buscar atualizar o pensamento reichiano acerca da biopatia do câncer e seus mecanismos de cura.
Como objetivo geral, buscou mapear os escritos de Reich sobre o câncer e sua etiologia, mitigação ou possíveis mecanismos de “cura”, e como objetivo específico buscou-se identificar e analisar os estudos sobre o câncer realizados tendo como base a teoria de Reich, possibilitando assim atualizar o debate sobre a validade ou não das descobertas reichianas acerca do câncer, livre do obscurantismo científico e da perseguição política ao pensamento e à Ciência, pois, como já bem documentado, as pesquisas científicas e o pensamento de Reich foram alvos de forte censura, perseguição, difamações e destruição (queima de arquivos), e mesmo o autor foi encarcerado e acabou morrendo na prisão, às vésperas de sua saída condicional.
Há diversos estudos sobre este contexto adverso ao autor e sua obra (ver BRADY, 1948; SINELNIKOFF, 1971; SCHATZBERG, 1972; PAWEL, 1973; FRANZEN, 1980; SHEAFFER, 1996; PIETIKAINEN, 2002; WEBB, 2004; BENNETT, 2010a, 2014; CERVENY, 2011; SANDBROOK, 2011; BENNETT & PEGLAU, 2014; MTVIYENKO, 2019, entre outros).
Reich adverte-nos desde sempre que não encontrou a cura milagrosa do câncer:
O presente volume contém o resultado de um trabalho realizado ao longo de um período de dezessete anos, entre 1930 e 1947 […] Não publico este livro sem séria preocupação, principalmente que muitos leitores de nossa literatura agora assumirão que uma cura para o câncer foi encontrado. Este não é o caso. É verdade que o enigma do câncer tornou-se totalmente acessível através da descoberta da energia orgone. Mas é incorreto acreditar que toda vítima de câncer pode agora ser salva. (REICH, 2009a, in Prefácio de “A biopatia do câncer”).
Em nosso estudo, buscando compreender a biopatia do câncer, identificamos os trabalhos de Reich que mais oferecem subsídios ao intento aqui proposto.
Tal sistematização é apresentada por Xavier Serrano (2017), em “Notas sobre Wilhelm Reich”, publicado no blog da Escuela Española de Terapia Reichiana (Es.Te.R, em 31/01/2017).
Eis os trabalhos desta trilha temática, em ordem cronológica de produção:
* Inibição respiratória e couraça muscular (1928-34);
* O reflexo do orgasmo (1934);
* Natureza bioelétrica da sexualidade e da ansiedade (1935-36);
* Os bíons (1936-39);
* Origem da célula cancerígena a partir de tecido animal bionicamente desintegrado (1936-39);
* Descobrimento da bioenergia (energia orgônica) nos bíons – SAPA (1939) e na atmosfera (1940);
* Invenção do Or.Ac. (1940) e de um medidor de campos de energia orgônica (1944);
* Investigação experimental da biogênese primária (1945);
* Efeitos da radiação antinuclear pela Energia Orgônica – experimento Oranur (1947-51);
* Teoria da enfermidade baseada na acumulação de D.O.R. (energia negativa fruto do estancamento de energia vital ou orgônica pelos bloqueios musculares) nos tecidos (1954-55);
* Equações orgonométricas (1950-57).
Dado o escopo e as limitações do presente artigo, apenas deixaremos indicadas as obras.
Desenvolvimento
Como método, foram realizados levantamentos bibliográficos sistemáticos sobre os escritos de Reich, bem como sobre comentadores e estudiosos que pesquisaram sobre o câncer a partir do referencial reichiano.
Os estudos selecionados foram analisados a partir de técnicas de análise de conteúdo (BARDIN, 1988; LONGO & NARITA, 2014).
Foram inicialmente pesquisadas as seguintes bases de dados: Portal de Periódicos Capes, Google Acadêmico, BVS-PSI, BIREME, BDTD, Medline, Les Classiques des Sciences Sociales e Cairn.Info.
Resultados e discussões
O quadro abaixo busca sintetizar quantitativamente o que encontramos em nosso esforço de revisão.
**Quadro 1. Síntese quantitativa do levantamento bibliográfico realizado**
| Bases em redes bibliográficas | Descritores | Documentos encontrados/selecionados |
|---|---|---|
| GOOGLE ACADÊMICO https://scholar.google.com.br/?hl=pt |
“BIOPATIA” and “CÂNCER” | 136 / 47 |
| PORTAL DE PERIÓDICOS CAPES https://www.periodicos.capes.gov.br/ |
“WILHELM REICH” and “CÂNCER” | 202 / 58 |
| BVS-PSI http://www.bvs-psi.org.br/php/index.php |
“REICH” | 50 / 16 |
| MEDLINE http://www.ncbi.nlm.nih.gov/sites/entrez?cm |
“WILHELM REICH” | 48 / 26 |
| BIBLIOTECA VIRTUAL EM SAÚDE (BVS) https://bvsalud.org/ |
“WILHELM REICH” | 138 / 86 |
| BTDT http://bdtd.ibict.br/vufind/ |
“REICH” | 203 / 37 |
| Les Classiques des Sciences Sociales http://classiques.uqac.ca/ |
“WILHELM REICH” | 2 / 2 |
| Cairn.Info https://www.cairn.info/ |
“WILHELM REICH” & CANCER | 64 / 12 |
Neste esforço sistemático de revisão e busca de informações, nos deparamos ainda com diversos sites, vídeos documentários e filmes de interesse ao estudo, todos acessíveis online.
Sites internacionais de interesse, acessíveis a partir de busca com o nome: “Wilhelm Reich Infant Trust Fund”; “American College of Orgonomy”; “The Institute for Orgonomic Science”; “National Cancer Institute”; “Istituto Reich per la prevenzione primaria e la psicoterapia corporea”.
Alguns vídeos e filmes de interesse: “Man’s Right To Know (The Wilhelm Reich Story)”; “A Energia do Orgônio – Documentário de Wilhelm Reich”; “A importância de Reich na psicanálise (Christian Dunker)”, “O Estranho Caso de W.Reich”; “Quem tem medo de Wilhelm Reich?”; “Os mestres da energia: Tesla, Reich e Frederico de Marco”; “Wilhelm Reich e la scoperta Dell ‘orgone’”; “Wilhelm Reich’s bion – biogenesis discoveries – Experimental verification”; “Biopatia do câncer – Bioenergia – Dr. Luiz Moura – Caixa orgônica”.
Feito tal registro, passamos agora propriamente ao “estado da arte” do pensamento reichiano.
A obra de Reich e os estudos sobre Reich, como se verificou, são vastos em todo o mundo ocidental e atualmente também no oriente.
A partir das bases e redes listadas no Quadro 1, levantamos 843 documentos (livros, capítulos de livros, teses e dissertações, artigos e trabalhos completos apresentados em eventos científicos) de potencial interesse ao estudo, dois quais selecionamos 284, aos quais aplicamos técnicas de análise de conteúdo para categorização inicial.
Obviamente não poderemos citar todos os trabalhos selecionados neste artigo, e focaremos em apenas uma parte dos achados.
Chegamos em nossa análise inicial a 15 categorias temáticas bibliográficas, que se relacionam mais direta ou indiretamente com nosso foco de investigação, isto é, a biopatia do câncer e seus possíveis mecanismos preventivos e de mitigação ou “cura” desta condição orgânica:
1. “História do pensamento reichiano e biografias”;
2. “Difamação e perseguição política à Reich e sua obra”;
3. “Reich, sociedade & cultura”;
4. “Reich, personalidade autoritária e fascismo”;
5. “Reich, democracia, poder e política”;
6. “Reich e a análise do caráter”;
7. “Reich e a educação”;
8. “Reich, energia vital, orgone, bioenergia e energia cósmica”;
9. “Reich e a sexualidade”;
10. “Reich, o corpo e o processo de encouraçamento”;
11. “Reich e as psicoterapias corporais/bioenergéticas”;
12. “A clínica reichiana vegetoterapia”;
13. “Reich e psicossomática”;
14. “Reich e processo saúde-doença”;
15. “Reich e o câncer”.
Isto porque, em Reich, o entendimento da questão do câncer não pode situar-se somente no estudo do câncer em si, mas em todo seu processo de formação ao longo de uma vida individual, concreta.
Por exemplo, a educação infantil e o processo de encouraçamento tal como descrito por Reich fazem parte necessariamente da compreensão dos processos de saúde-doença.
Há uma grande diversidade de perspectivas sobre a vasta obra do autor.
Estudos recuperados versam sobre aspectos históricos, biográficos e bibliográficos da vida e obra de Reich (como exemplo, OLLENDORFF DE REICH, 1972; ATWOOD & STOLOROW, 1977; SHARAF, 1983; ANGELINI, 1984; ROAZEN, 1985; MATTHIESEN, 2001, 2007; YOUNG, 2008; DANTO, 2011; LUCCA, 2012; ANTHI & HAUGSGJERD, 2013; BESSANI, 2016; HRISTEVA & BENNETT, 2018).
Deparamo-nos com estudos sobre sociedade e cultura (PEIXOTO JUNIOR, 1998; ALBERTINI, 2003; ABRAHÃO, 2007; CÂMARA, 2009; THOMAZ, 2009; BENETT, 2010; JOVANOVIÉ, 2020), poder, política e democracia (BARRETO, 1997, 2007; BEDANI & ALBERTINI, 2009; BENNETT, 2010b; KOVEL, 2010; RICHTER, 2017), fascismo e personalidade autoritária (REICH, 1974; OOSTERHUIS, 1995; RAMALHO, 2001; IGNACIO DOBLES, 2003; LOTHANE, 2019).
Muitos outros documentos selecionados versam sobre as ideias reichianas no campo educacional e da educação infantil (ACCARDO, 1989; ALBERTINI, 1992a, 1992b; BELLINI, 1993; GARCIA, 2010; MATTHIESEN, 2005, 2017; VOLPI & VOLPI, 2005; OLIVEIRA, 2008; SANTOS, 2008; AVILA, 2010; FARIA, 2013; PIZZI, 2014).
Outras versam sobre a análise do caráter (OLIVEIRA & SILVA, 2001; SILVA, 2001; SHAPIRO, 2002; REICH, 2009b; SILVA & ALBERTINI, 2005; FARJE & DELGADO, 2014; GARCIA, 2014), entre outros temas, que de alguma forma contribuem para nossa discussão.
Buscamos focar em temas relacionados ao entendimento da biopatia do câncer e seus determinantes, tanto biológicos como socioculturais.
Assim, interessa-nos a questão da educação de crianças, neurose, a noção de caráter, das couraças corporais, da angústia, da função orgástica, do orgone e da circulação energética, do impulso vital, da psicossomática e assim por diante.
Ora, se o problema do câncer trata-se de uma questão que tem sua etiologia na estase energética celular, portanto no encolhimento, constrição, encouraçamento, fica clara a relevância da educação infantil e do estilo de parentagem sobre o global entendimento da nossa questão.
A educação pode ser profilática — ou causadora — da neurose, a depender de sua configuração e, portanto, influencia diretamente no curso do aparecimento e desenvolvimento das patologias.
Para Santos (2008), a ação pedagógica tem um papel importante na profilaxia da neurose, sendo a escola agente importante para possibilitar uma “educação natural”, desde que possua uma “estrutura biopsíquica saudável”.
A temática da clínica reichiana ou vegetoterapia interessa-nos mais especialmente, caminhando em direção ao entendimento do adoecimento, bem como a temática fundamental da bioenergia, energia vital ou energia orgone.
No primeiro grupo, sobre a clínica reichiana, elencamos: Miranda (1997); Rego (2003); Paula e Volpi (2008); Carneiro (2012); Weinmann (2009); Sletvold (2011); Amaral e Ribeiro (2016), entre outros.
No segundo grupo, destacamos: Reich e Zornanszky (1998); Calegari (2001); Maluf Jr. (2005, 2014); Bedani (2007); Garcia Valdes et al. (2008); Kaiser (2009); Perez (2014), entre outros diversos.
A temática da sexualidade, obviamente, é tema central e recorrente nos estudos reichianos (REICH, 1968, 1984; BAKER, 1980; FOZOONI, 2014, entre outros), assim como o também importante tema do processo de encouraçamento, processo este que está na base reichiana para a compreensão dos processos de saúde-doença (ver, a este respeito, ALMEIDA, 2012; ALMEIDA E ALBERTINI, 2014; AMARAL et al., 2019, entre outros trabalhos).
O câncer se dá no corpo. O corpo em Reich precisa ser compreendido (ver, para tanto, CÂMARA, 1997; CSILLAG, 2000; XAVIER, 2000; SILVA, 2008, 2013; MENDES, 2011; LEITE, 2012; SALVADEO, 2015; OLIVEIRA, 2015, entre outros).
Conforme Salvadeo (2015), o corpo manifesta as estratégias de enfrentamento dos conflitos através de um nível baixo de energia e dos bloqueios no fluxo da energia.
Reich chamou esta energia bioelétrica de orgone ou bioenergia. Bloqueios no fluxo desta energia provocam tensões, tornando-se crônicas nos grupos musculares, ocorrendo de forma inconsciente e imperceptível ao indivíduo (SALVADEO, 2015).
Segundo Reich (apud JEBER, 2006), a capacidade intencional de escolha e de ação é característica essencial e exclusivamente humana e está enraizada nas funções biológicas naturais.
A liberdade, na ótica reichiana, é o resultado evolutivo da autorregulação, função que está presente em todas as formas de vida, fundamental ao processo do organismo vivo e que o distingue dos sistemas não vivos.
É a aptidão que o ser vivo possui para administrar suas necessidades sem interferência externa, um princípio básico da própria existência da vida.
Não se pode pensar em vida sem autorregulação. A sua falta é o primeiro passo para a doença e a decomposição (JEBER, 2006).
Não poderíamos deixar de considerar a vasta produção temática acerca das psicoterapias corporais e bioenergéticas, que nos ajuda a compreender possíveis aspectos dos mecanismos (biofisiológicos) de “cura” ou melhora no estado geral da saúde de pacientes não oncológicos e oncológicos: Neidhoefer (1994); Gilbert (1999); Xavier (2004); Geuter et al. (2010); Oliveira (2014); Oliveira Juínior (2016); Elias (2018); Ferraz (2018); Pandolfi (2018); Vieira et al. (2018), entre diversos outros trabalhos que poderiam aqui ser elencados.
Optamos, por questões de tempo e escopo de produção desta investigação, em deter-nos mais especificamente na análise sistemática da bibliografia selecionada nas categorias “REICH E PSICOSSOMÁTICA”, “REICH E PROCESSO SAÚDE-DOENÇA” e “REICH E O CÂNCER”, chegando a 68 documentos.
Estes estudos foram recuperados, lidos e fichados de forma sistemática, e aqui trazidos em parte à discussão conforme foco de interesse da investigação.
Como exemplos mencionamos os estudos de Blasband (1973; 1984), Seguin et al. (1999), Costa (2002), Moss (2004), Irineu (2006), Lev-Ari et al. (2006), Camargo (2007), Correa e Correa (2010a; 2010b), Mazzocchi e Maglione (2010), Amud (2011), Demeo (2013), Amaro e Sass (2013), Barros e Oliveira (2014), Barreto et al. (2015), Lubavy e Reichow (2016), Aprile et al. (2018), Bissoli Neto (2019).
Reich, ao longo de sua vasta obra, chama a atenção para os processos corporais e suas bases fisiológicas.
O autor parte da “teoria da libido” de Freud, situando na base das psiconeuroses as perturbações sexuais.
A base da saúde humana está na saudável economia libidinal, na potência orgástica, da capacidade de descarga da tensão.
A vegetoterapia reichiana propõe-se agir diretamente no corpo, liberando o diafragma e favorecendo a respiração e os processos energéticos no corpo, evitando a estase e o consequente adoecimento orgânico.
Podemos entender o câncer, a partir de Reich, como um comprometimento do fluxo de energia no corpo — circulação orgonal.
Orgone é uma radiação.
A radiação orgone está na atmosfera, em todo lugar, daí Reich falar em termos de “energia orgone atmosférica”: “A energia que governa tudo o que está vivo é necessariamente idêntica à energia atmosférica.” (REICH, 2009a, p. 99).
Nesse sentido, energia orgone é energia vital, energia biológica.
O organismo absorve a energia da atmosfera e do sol.
A energia orgone (radiação orgone) nos “bíons azuis” (pequenas vesículas) descritos por Reich matava as células cancerígenas em seus experimentos controlados.
Reich propõe a utilização da energia orgone como recurso no tratamento do câncer:
“Hoje, com a energia orgone mensurável e com a utilização prática de pacientes cancerosos (…)” (REICH, 2009a, p. 96).
Conforme Barreto et al. (2015), Reich foi pioneiro em instalar uma visão de unidade do adoecimento mental-corporal, através de uma compreensão clara das influências culturais adoecedoras.
Em seus estudos, as neuroses não eram compreendidas separadamente das repressões sexuais, desigualdades socioeconômicas, bem como dos adoecimentos físicos.
Tudo fazia parte de uma mesma realidade funcional, que expressava o adoecimento humano em uma cultura nociva.
Esta crítica reichiana parece bastante atual e necessária nos tempos de hoje, onde adoecemos cronicamente ou morremos de forma prematura pelo que produzimos biográfica e culturalmente.
Em seu percurso investigativo, Reich percebeu como as emoções têm uma função na saúde e no desenvolvimento humano.
Denominou de “peste emocional” a principal praga do adoecimento em sua época, conseguindo associá-la tanto ao sofrimento mental como também percebê-la claramente presente em casos de pretensos adoecimentos físicos crônicos (como no câncer e na hipertensão arterial) (BARRETO et al., 2015).
A estase da energia sexual é a conexão entre a peste emocional e as biopatias que podem ser curadas, a partir do restabelecimento da capacidade natural de amar (SILVA e VOLPI, 2016).
A “peste emocional” é um organismo em movimento que teve sua origem na instituição da própria sociedade humana.
Reich a considera uma biopatia endêmica que tem seus efeitos tanto no organismo do indivíduo como na sociedade; é alimentada por impulsos secundários e sua reação é fomentada pela energia derivada da frustração genital, visto que a estase da energia sexual é o ponto comum entre a peste emocional e todas as biopatias (SILVA e VOLPI, 2016).
Por trás desta compreensão encontra-se o paradigma de que os distúrbios emocionais do paciente estão encarnados no corpo sob a forma de tensões, posturas contraídas, bloqueios de energia, tipos característicos de movimento e rigidez/flacidez muscular.
Por outro lado, essa estrutura defensiva teria sua sustentação no corpo na estase, ou seja, a libido (na concepção freudiana) como energia que impulsiona para a vida e o prazer, estando bloqueada, acumulada negativamente no organismo devido às frustrações das necessidades emocionais básicas do desenvolvimento, causando as couraças e dificuldades no fluxo energético (NASCIMENTO, 2012).
Considerando o homem um sistema complexo e único, a terapia reichiana não separa e nem confere ao psiquismo a primazia em relação ao somático.
Soma e psique são expressões da unidade energética, assim, o psiquismo é apenas parte de um sistema muito maior que é o homem:
“[…] a terapia reichiana tenta recuperar o equilíbrio do sistema neurovegetativo através do desbloqueio das tensões corporais cronificadas que impedem o livre fluxo da energia vital” (NASCIMENTO, 2012, p. 29).
Para Navarro (1995, apud NASCIMENTO, 2012), quanto mais primitivo for o estresse traumático, ou seja, quanto mais superior for o entrave energético (estase) em nível de anéis (na direção céfalo-caudal), mais sério é o problema do indivíduo, a nível psicopatológico e psicossomático, pois o sistema nervoso autônomo sofrerá uma hiperativação simpática, um funcionamento defensivo de contração basal, o qual comprometerá a homeostase e o metabolismo dos tecidos, deixando o organismo em uma predisposição para o desenvolvimento de diversas doenças.
Conforme Nascimento (2012), Reich conceitua como biopatias os estados mórbidos nos quais a medicina oficial da época não reconhecia a etiologia em termos orgânicos.
De acordo com o autor, a medicina psicossomática compreende essas doenças como quadros patológicos sistêmicos e/ou degenerativos dos quais se conhece apenas a patogênese, em que um componente de ordem psicológica (trauma, constelação psicodinâmica, dificuldades emocionais) determinaria, desencadearia ou influenciaria a disfunção dos aspectos biológicos do indivíduo.
“Reich vai além: o processo biopático estaria intimamente relacionado a um transtorno global da função pulsatória natural do organismo, decorrente de uma perturbação na capacidade de descarga da excitação biossexual, conforme o pensamento funcional orgástico do processo vital” (NASCIMENTO, 2012, p. 32).
A biopatia seria uma forma de “resignação biológica”, associada a uma situação existencial em que o indivíduo encontra-se incapaz de viver prazerosamente, impossibilitado de descarregar a energia orgástica nos diferentes âmbitos da vida.
Em Reich, o câncer é basicamente uma putrefação ativa do tecido, resultante da falta de impulsos para a expansão energética a nível orgânico — ou seja, uma alta potencialidade para a contração e a estase, mas sem possibilidades de expandir-se, canalizar-se, de forma que o fluxo de energia diminui, interrompe-se.
Nos casos de câncer, o organismo desistiu de fazer sua energia circular, causando no indivíduo um estado contínuo de resignação emocional (NASCIMENTO, 2012).
Geralmente os tumores ocorrem em locais onde a simpaticotonia e a contração estásica provocam fortes couraças musculares nos indivíduos, decorrentes de processos crônicos de estresse mantidos sobre os sistemas fisiológicos de resposta — neuromuscular, vegetativo, endócrino e imunológico (NASCIMENTO, 2012).
De acordo com Navarro (1991, apud NASCIMENTO, 2012), um tumor pode ser conceituado como toda produção celular patológica constituída de um tecido neoformado sem fenômenos inflamatórios.
Nesse sentido, o câncer enquadraria os tumores considerados como malignos, caracterizados por células irregulares, deformadas, que se reproduzem e podem se alastrar por todo o corpo: “Alguns tumores benignos podem ser herdados desde o nascimento, podendo tornar-se malignos em condições de imunodepressão do organismo, em situações de estresse profundo e ou prolongado para o indivíduo.” (NASCIMENTO, 2012, p. 34)
Essa predisposição hereditária, somada a condições estressantes ambientais, rompe os frágeis mecanismos de defesa do indivíduo, em que, para reagir à morte emocional, o organismo produz a vida de um tumor.
Conforme Lubavy e Reichow (2016), a psicossomática reichiana apresenta um entendimento do organismo como um sistema biológico, energético, emocional e autônomo.
Ou seja, nossas células vão se autoconstruindo a partir das interações de uma rede de moléculas que as produziu e por trocas com o meio externo.
Em Reich, essa autoconstrução celular muitas vezes acontece longe de uma condição de equilíbrio, o que significa dizer que nossos sentimentos, nossas emoções e o ambiente externo influenciam neste processo, liberando substâncias e alterando a dinâmica celular, provocando uma patologia que tem origem numa contração do sistema nervoso autônomo, a biopatia:
Para Navarro (1991) as células são elementos que garantem o ritmo biológico em nosso organismo. Segundo ele, esse ritmo tem a função de distribuir a energia de que precisamos por todo o corpo, partindo do centro para a periferia, é a forma de exteriorização de saúde do sistema biológico. Quando ocorre a contração do organismo e essa energia não é distribuída de maneira correta, a estase ou a descarga excessiva dessa energia pode ser responsável pelo surgimento de diversos quadros patológicos, inclusive o câncer. (NAVARRO, 1991, apud LUBAVY e REICHOW, 2016, p. 3).
E adiante:
“No interior de nosso DNA possuímos genes que são programados para controlar o crescimento e a divisão das células, os oncogêneses. Outros genes retardam ou levam as células à morte no momento certo, os supressores de tumor. O câncer pode ser resultado da desativação ou transformação desses genes, alterando o comportamento natural da célula.” (LUBAVY e REICHOW, 2016, p. 3).
Jorde et al. (2000, apud LUBAVY e REICHOW, 2016, p. 3) afirmam que o câncer é uma doença genética pertencente a um grupo de distúrbios que surgem por alterações em nossos genes, das quais 90% delas são induzidas pelo meio ambiente.
“Reich (2009a) é categórico ao dizer que o câncer é na verdade um resultado de uma doença em estágio final. Todas as biopatias agem da mesma forma, ou seja, é um distúrbio na função da pulsação de carga e descarga da energia orgone, que em um corpo saudável encolhe e expande. No caso do câncer ele somente encolhe e o movimento celular realiza apenas a contração.” (LUBAVY e REICHOW, 2016, p. 6).
Eis as fases do processo de adoecimento:
Fase de contração: incapacidade crônica de expansão, por resignação. Suas características biológicas são: espasmo muscular, palidez da pele, enfraquecimento dos tecidos, impotência orgástica e anemia, esta fase não é específica do câncer. > Fase de encolhimento: perda da substância corporal, fraqueza física, perda de resistência biológica em todo o organismo. > Fase de putrefação: perda de energia orgone nas células e nos tecidos, transformação do material canceroso em matéria pútrida, intoxicação geral dos bacilos T, escaras de putrefação, odor corporal e morte. > (REICH, 2009a, p. 236, apud LUBAVY e REICHOW, 2016, p. 7).
E adiante:
Entende-se então que, na tentativa de manter-se vivo, o organismo, quando chega ao ponto máximo de encolhimento, inicia uma reprodução celular acelerada. Porém, devido ao fato do DNA se encontrar alterado pelo movimento de contração e encolhimento, esta reprodução celular, que na verdade é de defesa, acaba sendo atacada pelo sistema imunológico, que não a reconhece e que, devido à fragilidade em que se encontra e por não conseguir reagir para eliminar o material desintegrado, o organismo acaba morrendo devido a uma intoxicação geral. (LUBAVY e REICHOW, 2016, p. 7-8).
Conforme Seguin et al. (1999, p. 1):
“Nossas emoções e sentimentos reprimidos desde a infância ou até mesmos traumas da vida intra-uterina se estruturam no corpo formando uma couraça que, se não for liberada, pode levar à formação de doenças.”
Todo o estresse ocorrido durante as fases primitivas do desenvolvimento somato-emocional do indivíduo acaba por gerar, em cada organismo humano, reações energéticas específicas, que servem de base para o desenvolvimento de doenças, no futuro, desse organismo (SEGUIN et al., 1999).
Conforme apontado por Seguin et al. (1999), valendo-se de outros autores, o reconhecimento da utilização do modelo biopsicossocial na investigação oncológica advém do insucesso da concepção exclusivamente biomédica em restringir o aumento da doença.
A doença deve ser avaliada sob a perspectiva biopsicossocial, que dirige a atenção para as dimensões comportamentais, psicológicas e sociais da doença, ao contrário do paradigma biomédico, no qual a doença pode ser explicada por desvios da norma de variáveis biológicas mensuráveis (SEGUIN et al., 1999).
Conclusões
Esperávamos com nosso estudo recolocar a discussão sobre as possibilidades da prevenção, “cura” ou mitigação do câncer, a partir das teses e técnicas reichianas, historicamente desacreditadas, abafadas e mesmo banidas do pensamento científico por questões alheias à teoria em si e seu valor de verdade, ou sua “evidência” científica, mas, sobretudo, por questões políticas e ideológicas da época do pós Segunda Guerra Mundial e contexto da chamada “Guerra Fria”.
Constatamos, por fim, com grata alegria e honestidade intelectual, que o pensamento e a obra de Wilhelm Reich continuam vivos e pulsantes no mundo científico, clínico e terapêutico, tendo sido amplamente revisados, postos à prova e testados, com o crivo científico (livre da ideologia obscurantista) desde a década de 1970 até a atualidade.
A árvore do pensamento reichiano está viva e gerando inúmeros frutos ao redor do mundo!
Esperamos que nosso modesto estudo de revisão seja também um desses.
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Psicólogo, Mestre e Doutor em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Pós-Doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor Associado da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Centro de Formação em Ciências Humanas e Sociais (CFCHS). cristianolongo@ufsb.edu.br
Psicóloga e Licenciada em Psicologia, Bacharel em Filosofia (USP), Mestre em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Doutora em Integração da América Latina (PROLAM-USP). Professora Associada da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Centro de Formação em Ciências Humanas e Sociais (CFCHS). stellanarita@ufsb.edu.br
Bacharel Interdisciplinar em Humanidades pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). veracristinacamposcarvalho@gmail.com
Bacharel Interdisciplinar em Saúde pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). dhessicalorranidhk@gmail.com
LONGO, Cristiano da Silveira; NARITA, Stella; CARVALHO, Vera Cristina Campos; ANTONIO, Dhéssica Lorrani Alves. Reich vive!. Revista Científica Eletrônica de Psicologia Corporal, Curitiba, v. 23, p. 72-92, 2022. e-ISSN 3086-1438. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/artigos/reich-vive/. Acesso em: 04/06/2026.