Perturbações no desenvolvimento psicoafetivo e suas manifestações corporais
Disturbances in psychoaffective development and their bodily manifestations
Resumo
O modo como o ser humano experimenta as etapas do desenvolvimento psicoafetivo, desde a concepção até a idade adulta, molda não apenas o seu funcionamento psicológico, como também afeta diretamente o corpo e suas funções biológicas. Compreender a integração dinâmica entre mente e corpo contribui para a restauração do equilíbrio perdido entre ambos. Este trabalho se propõe a descrever o impacto das perturbações no desenvolvimento psicoafetivo, bem como os consequentes bloqueios energéticos e emocionais causados por situações estressantes ao longo da vida, sobre o corpo e o comportamento humano, na visão reichiana.
Palavras-chave: Corpo; Energia; Psicossomática; Reich; Vínculo.
Abstract
The way human beings experience the stages of psychoaffective development, from conception to adulthood, shapes not only their psychological functioning but also directly affects the body and its biological functions. Understanding the dynamic integration between mind and body contributes to restoring the balance that may be lost between them. This study aims to describe the impact of disturbances in psychoaffective development, as well as the resulting energetic and emotional blockages caused by stressful situations throughout life, on the body and human behavior from a Reichian perspective.
Keywords: Body; Energy; Psychosomatics; Reich; Bonding.
O processo de formação da psique humana tem o seu início no momento da concepção. Segundo Navarro (1996), trata-se de um fenômeno biopsicológico com potencial de causar manifestações somatopsicopatológicas, caso o amadurecimento não ocorra de modo adequado ao longo da vida. Sabe-se que a base para a compreensão da psicologia de um ser vivo é o seu comportamento, que também é um movimento energético, influenciado pelo meio em que o indivíduo se encontra. O psiquismo afeta o corpo e é por ele afetado (NAVARRO, 1996).
Cada criança nasce com um sistema bioenergético moldável, passível de assimilar quaisquer impressões oferecidas de modo contínuo pelo ambiente no qual se desenvolve (VOLPI; VOLPI, 2015). Nesse sentido, o eixo teórico da Psicologia Corporal apresenta a perspectiva de que mente e corpo estão interconectados, a partir da observação do fluxo energético vital no organismo e dos bloqueios a esse fluxo, que se formam como mecanismo de defesa desde o período gestacional, incluindo a infância e a adolescência.
Volpi e Volpi (2014) esclarecem que o corpo abriga todas as histórias vivenciadas pelo indivíduo ao longo da sua trajetória e é esculpido pelas experiências emocionais que as acompanham. O corpo é, portanto, constituído por uma carga energética própria, que pode ser considerada alta (hiperorgonótica), normal (orgonótica) ou baixa (hipoorgonótica). Os autores citam ainda a observação de Reich (1995), que constatou que o corpo guarda em si todos os conflitos emocionais que compõem as experiências biográficas humanas, e é dotado de uma linguagem particular, que se expressa por meio de movimentos, vestuário, tom de voz e postura, dentre outras formas.
Conforme assinala Volpi e Volpi (2014, p. 2), “A gestação é um período de íntimo contato corporal, emocional e energético entre a mãe e o bebê”. Por essa razão, as etapas do desenvolvimento podem ser comprometidas por ocorrências de estresse envolvendo a díade mãe e filho. Os autores esclarecem, contudo, que os comprometimentos não atingem todas as crianças do mesmo modo. Isso porque a fixação da experiência adversa no corpo e no psiquismo é influenciada por diversos fatores, dentre os quais a intensidade e a frequência do estresse sofrido. Além disso, cada criança possui uma dinâmica fisiológica particular, com uma resistência maior ou menor ao estresse (VOLPI; VOLPI, 2014).
O entendimento dos bloqueios psicológicos e emocionais com os seus correspondentes somáticos levou Reich (1995) a mapear o corpo humano em sete níveis de couraças, dispostos horizontalmente e perpendiculares à coluna vertebral, sendo eles: ocular, oral, cervical, peitoral, diafragmático, abdominal e pélvico. Os desequilíbrios funcionais biológicos ou psicológicos decorrem do acúmulo ou do déficit de energia nos segmentos de couraças, o que impede o funcionamento harmônico do organismo e cria condições energéticas favoráveis à instalação das biopatias (VOLPI; VOLPI, 2014).
O desenvolvimento psíquico pode sofrer perturbações ainda no período embrionário, tanto por alterações genéticas quanto por interferências externas, dentre as quais destacam-se os mecanismos endócrinos materno-embrionários, como aponta Navarro (1996). Desse modo, uma gravidez indesejada, tentativas de aborto, intoxicações ou predominância de emoções maternas aflitivas como o medo, impactam o embrião exercendo sobre ele uma ação estressante, que impede o desenvolvimento harmonioso e determina uma condição grave de baixa energia vital. Durante o período fetal, etapa em que o cérebro e o sistema neurovegetativo estão em formação, a psique também pode sofrer alterações no seu desenvolvimento fisiológico, em decorrência de situações de estresse no meio intrauterino (NAVARRO, 1996).
De acordo com Navarro (1996), o amadurecimento cerebral é determinado pela carga de energia do feto e pelo contato deste com o campo energético da mãe. Em condições de estresse, o feto se defende por meio da ativação do sistema nervoso simpático, o qual promove uma elevada secreção de adrenalina, com consequente mecanismo de contração do organismo e bloqueio da livre circulação plasmática e energética. Sendo assim, a contração seguida do bloqueio promove apenas descarga de energia, o que implica numa condição de hipoorgonia, do tipo desorgonótico, em diversos segmentos do corpo (NAVARRO, 1996).
Do mesmo modo que ocorre com o embrião, o feto submetido cronicamente ao estresse materno, perde a ligação energética com o meio uterino e o seu campo energético se torna reduzido. É essa condição de hipoorgonia que possibilita a instauração do núcleo psicótico intrauterino, o qual resultará em excessiva dificuldade de contato consigo e com os outros nas etapas subsequentes do desenvolvimento psicoafetivo (NAVARRO, 1996).
O parto é outro momento crucial para o desenvolvimento psíquico humano. Por esse motivo, situações estressantes ou violentas no momento do nascimento, incluindo o trabalho de parto e os primeiros dias de vida, devem ser evitadas. Navarro (1996) reitera que o estresse do medo do abandono nos primeiros dez dias de vida dificulta o processo de integração dos cinco sentidos, com a consequente formação de um núcleo psicótico. Volpi e Volpi (2015) corroboram a importância dos sentidos (atuando de forma isolada ou em conjunto) e o seu papel na comunicação, uma vez que possibilitam o contato entre o que se encontra no meio externo e o que está dentro do organismo. Os autores defendem também o valor dessa comunicação para o desenvolvimento emocional, visto que “O isolamento sensorial pode provocar danos até mesmo irreparáveis à capacidade de contato com o mundo.” (VOLPI; VOLPI, 2015, p.4).
Corporalmente, o núcleo psicótico se apresenta como um bloqueio hiperorgonótico no primeiro nível (olhos, ouvidos e nariz) e hipoorgonótico no quinto nível (diafragma). Ressalta Navarro (1996) que a presença de um núcleo psicótico no indivíduo pode se exacerbar sob condições de estresse ao longo da vida, adquirindo o potencial de se transformar num quadro psicótico, em que ocorre a perda de contato com a realidade, e o surgimento de sintomas como delírios e alucinações.
Navarro (1996) reforça ainda que, para prevenir a instalação do núcleo psicótico no período neonatal, é imprescindível que as necessidades do recém-nascido sejam atendidas pela mãe. A amamentação, realizada de modo satisfatório, com um bom vínculo entre mãe e filho, por período de tempo suficiente (do momento do nascimento até o oitavo ou nono mês de vida), também é essencial para a prevenção do núcleo psicótico na visão de Navarro (1996).
De modo contrário, se o vínculo simbiótico entre mãe e filho for experienciado de modo frustrante no período neonatal, ocorre o surgimento do núcleo psicótico neonatal extrauterino, como assegura Navarro (1996). Significa que um processo de amamentação e desmame deficitários, do ponto de vista qualitativo ou quantitativo, implicará numa experiência de frustração emocional e afetiva para o bebê, que se apresentará como um núcleo psicótico distímico (borderline), caracterizado por uma condição de carência afetiva e personalidade dependente. O núcleo psicótico distímico pode ser exacerbado ao longo da vida, em consequência de condições estressoras, principalmente aquelas relacionadas a separações e perdas, ocasionando o refluxo da energia do segundo nível (boca) para o primeiro nível (olhos), com oscilações comportamentais entre estados maníacos e depressivos como resposta (NAVARRO, 1996).
O período pós-natal (do desmame até a puberdade) é marcado pelo desenvolvimento das funções neuromusculares ativas, determinantes para a formação do caráter ou da caracterialidade. O bebê passa a usar a musculatura de forma voluntária e intencional para responder aos estresses emocionais ocasionados pelo meio externo (NAVARRO, 1996). Vivências emocionais que impactem negativamente o desenvolvimento satisfatório nessa etapa, enfatiza Navarro (1996), criam a condição para o surgimento das psiconeuroses:
Como assinalou Reich, o período comporta uma problemática que o indivíduo resolverá mais ou menos bem antes de entrar na puberdade (período pseudogenital). A solução válida para a fase edípica abre a porta para a maturidade caracterial, ou seja, para o caráter genital; uma solução edípica precária ou inválida se transforma em um complexo edípico, provocando características psiconeuróticas da personalidade. (NAVARRO, 1996, p.26).
Navarro (1996) destaca que o modelo de educação vigente, moralista e punitiva, impede o processo natural de formação do caráter genital (maduro). Contrariamente, as experiências de castração da expressão saudável da sexualidade, sobretudo no período da puberdade, levam à estruturação de uma caracterialidade de cobertura, como mecanismo de defesa. A cobertura caracterial psiconeurótica, ancorada corporalmente no pescoço (terceiro nível) e no diafragma (quinto nível), pode se desenvolver também sobre uma estrutura psicopatológica intrauterina ou neonatal preexistente.
Após a puberdade, inicia-se o processo de formação da caracterialidade neurótica, a partir das vivências emocionais e existenciais que geram ansiedade e o medo de não viver em plenitude, fixando-se corporalmente no diafragma (quinto nível) e na pélvis (sétimo nível). Salienta Navarro (1996) que, no âmago da condição neurótica, se encontra o medo da entrega completa ao orgasmo, sempre acompanhado de uma ansiedade autodestrutiva, cuja manifestação é consequência da repressão individual, imposta pelo superego, para atender às exigências socioculturais. A cobertura caracterial neurótica se estrutura na personalidade que alcançou uma solução minimamente satisfatória para o Complexo de Édipo, uma vez que a resolução completa desse conflito é coibida pela culpa, tão presente e estimulada em nível cultural (NAVARRO, 1996).
A Terapia Corporal Reichiana, abordagem psicoterapêutica que atua sobre a mente, emoções, corpo e energia, desenvolvida pelo médico austríaco Wilhelm Reich (1897-1957), tem por objetivo a flexibilização das couraças musculares, bem como a restauração do fluxo energético saudável do organismo para que o indivíduo possa alcançar um estado de maturidade e integração psíquica e somática. A esse respeito, Volpi e Volpi (2015) salientam:
Em se tratando das doenças emocionais, os recursos ainda são escassos, e a valorização desse tipo de trabalho ainda é pequena. Há uma série de questões que precisam urgentemente ser modificadas no âmbito da educação, da ecologia e da saúde emocional, se ainda pretendermos um dia ter um mundo composto de pessoas mais humanas, mais afetivas, mais equilibradas. E essa prevenção deve começar antes mesmo da concepção, orientando os futuros pretendentes a pais sobre suas responsabilidades com o filho e com o mundo. (Volpi; Volpi, 2015, p.1).
Considerando-se o impacto das experiências adversas para o desenvolvimento psíquico e corporal humano, desde a concepção até a idade adulta, torna-se evidente a relevância do trabalho terapêutico sobre os bloqueios que impedem a livre circulação do fluxo de energia vital, cujo resultado se manifesta em maior capacidade de regulação emocional e melhora da condição de saúde física e mental.
Referências
REICH, W. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara. Vivenciando as etapas do desenvolvimento emocional e mapeando as emoções no corpo humano. In: VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara. Psicologia Corporal. Revista Online. ISSN-1516-0688. Curitiba: Centro Reichiano, Vol.15, 2014. Disponível em: [http://www.centroreichiano.com.br/artigos-cientificos/](http://www.centroreichiano.com.br/artigos-cientificos/). Acesso em: 21/09/2024.
VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara. A prevenção da neurose como melhor caminho para as crianças do futuro. In: VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara. Psicologia Corporal. Revista Online. ISSN-1516-0688. Curitiba: Centro Reichiano, Vol.16, 2015. Disponível em: [http://www.centroreichiano.com.br/artigos-cientificos/](http://www.centroreichiano.com.br/artigos-cientificos/). Acesso em: 21/09/2024.
Bacharel em Nutrição (UFBA), Especialista em Nutrição Clínica pelo Programa de Residência (UFBA/SESAB). Formada em Pintura Espontânea® (Unipaz/DF). Cursando Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Terapeuta e Analista Corporal de abordagem reichiana e bioenergética, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR. E-mail: m.lorena.fraga@gmail.com
Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psico-corporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. volpi@centroreichiano.com.br
FRAGA, Lorena Magalhães; VOLPI, José Henrique. Perturbações no desenvolvimento psicoafetivo e suas manifestações corporais. Revista Científica Eletrônica de Psicologia Corporal, Curitiba, v. 25, p. 53-57, 2024. e-ISSN 3086-1438. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/artigos/perturbacoes-no-desenvolvimento-psicoafetivo-e-suas-manifestacoes-corporais/. Acesso em: 04/06/2026.