O tratamento da obesidade em indivíduos com traços de caráter oral segundo a terapia corporal reichiana
Treatment of obesity in individuals with oral character traits according to Reichian body therapy
Resumo
Palavras-chave: Emagrecimento; Obesidade; Oralidade; Psicologia; Reich.
Abstract
Keywords: Weight Loss; Obesity; Orality; Psychology; Reich.
Nos últimos anos, é possível observar o crescimento significativo nos casos de excesso de peso e obesidade, de forma que essa doença multifatorial vem tornando-se uma questão global. De acordo com o Atlas Mundial da Obesidade (2023), a projeção é que, em 2035, 1 em cada 4 pessoas (quase 2 bilhões) estará com obesidade e mais da metade da população mundial (cerca de 4 bilhões) viverá com sobrepeso. Essa doença é preocupante, pois gera consequências tanto na saúde do indivíduo, tais como distúrbios metabólicos, como a diabetes tipo 2 e a resistência à insulina, osteoartrite, diversos tipos de câncer, doença renal crônica e outras condições que aumentam o risco de mortalidade, além de que indivíduos obesos estão vulneráveis a questões sociais, como isolamento e discriminação, o que aumenta o risco de desenvolver doenças psicológicas (DA CRUZ et al., 2023).
O crescente número de métodos e informações disponíveis para o tratamento da obesidade não reduz os desafios para o seu tratamento e controle, tanto para os pacientes como também para os profissionais da área. De forma que, mesmo a obesidade sendo identificada como um evento de controle prioritário, observa-se uma lacuna nas ações voltadas para um tratamento do indivíduo obeso, incluindo até as próprias diretrizes do Ministério da Saúde, que priorizam o modelo biológico, enfocando aspectos como orientação nutricional, atividades físicas e tratamento clínico de comorbidades, deixando a desejar sobre os fatores psicológicos e sociais que podem contribuir para a complexidade da obesidade, especialmente quando associada à depressão (MORAES, ALMEIDA; SOUZA, 2013).
Dessa forma, uma possibilidade de olhar o paciente obeso através de um olhar integral é por meio da psicoterapia corporal reichiana. A psicoterapia corporal, que tem sua origem com Wilhelm Reich (1897-1957), médico e ex-discípulo de Sigmund Freud (1856-1939), é uma abordagem que concebe o ser humano como uma entidade onde mente e corpo são inseparáveis e interdependentes, com origem na energia biológica (CASTRO, 2019). Dentro dessa abordagem surgiu a análise do caráter, que é uma técnica que tem como objetivo analisar a história e o comportamento do paciente através da observação das couraças pela leitura corporal e, assim, tornar conscientes os conflitos inconscientes presentes no corpo e na mente.
Para Lowen (apud MACHADO; VOLPI, 2014), o caráter é como o cavaleiro medieval e a armadura sua defesa, de forma que este pode ser determinado através da observação do comportamento de uma pessoa. Dentro de cada grupo dos tipos de caráter, o desenvolvimento de cada um deles depende de muitos fatores, de forma que as classificações variam tanto qualitativa quanto quantitativamente no grau de oralidade, analidade e falicidade de cada pessoa.
Dentro dessa classificação, Volpi e Volpi (2003) definem o oral como uma pessoa dependente, passiva, com tendência à depressão e uma necessidade excessiva de atenção, além de ter um forte medo do abandono, que gera um comportamento de dependência ou fantasia. Ainda pode apresentar ansiedade, narcisismo, dificuldade em compreender desejos e necessidades dos outros e distúrbios ortodônticos, bruxismo, bulimia, obesidade, alcoolismo etc. Esse caráter é formado durante a etapa de desenvolvimento chamada de oral, que é a fase entre o décimo dia de vida e os dezoito meses. O ideal nessa fase seria uma amamentação de qualidade, com contato e carinho, e um desmame gradativo. Quando isso não acontece, pode ocorrer um bloqueio nesta fase, que é justamente o que gera o caráter oral e um indivíduo dependente, com todas as características supracitadas.
Essas características fazem com que indivíduos orais tenham uma maior tendência à obesidade, como também apresentem dificuldades no tratamento da doença, visto que o medo do abandono gera uma dor inconsciente que pode provocar comportamentos compulsivos em relação à alimentação, além de uma falta de maturidade emocional para lidar com as frustrações da vida adulta e com as próprias ações propostas pelos profissionais em seu processo de perda de peso.
Pensando em facilitar o manejo do tratamento da obesidade em indivíduos com alta oralidade, Lima (2020), através da abordagem do método de Emagrecimento Comportamental®, classifica os indivíduos orais como “compulsivos emocionais” e propõe uma abordagem que busca oferecer o tratamento de perda de peso levando em consideração sua forma de funcionar.
Ao levar em consideração as características físicas e comportamentais desses indivíduos, Lima (2020) propõe uma lista de ações que podem ser implementadas para que a adesão ao emagrecimento seja mais efetiva:
* A alimentação deve estimular a mastigação. Ex.: evitar sopas, vitaminas e shakes, pois não vão matar a fome.
* As comidas devem proporcionar prazer e conforto.
* No começo do tratamento, não são recomendadas estratégias com muita restrição, como proibição de alimentos, jejum intermitente, low carb restritiva ou dieta cetogênica.
* Devem dar preferência às atividades em grupo, como crossfit, aulas de ginástica coletiva e treinos em grupo.
* Devem buscar compreender melhor suas emoções e perceber seus sentimentos quando forem comer sem fome.
* Quando sentirem vontade de chorar, devem evitar prender o choro e, se possível, compartilhar suas emoções com alguém que lhes dê afeto, ao invés de comer.
* Mesmo quando não entenderem ou não souberem explicar o motivo pelo qual não estão bem, seus sentimentos e emoções devem ser acolhidos e respeitados.
* Para evitarem abandonar o processo, precisam buscar profissionais que se mantenham próximos durante o tratamento. Caso sintam-se abandonados, podem desistir do tratamento.
* Funcionam bem em grupos de emagrecimento, pois além de se sentirem acolhidos, vão acolher os outros participantes.
Além dessas ações, Leitner (2014) sugere, para o tratamento da obesidade em indivíduos orais, que a agressividade também seja trabalhada, pois pode estar reprimida nesses pacientes. A respiração, como meio de se energizar sem precisar recorrer à alimentação a todo momento, exercícios e grounding também podem ser efetivos.
Levando em consideração o cenário da pandemia da COVID-19, Gazir e Volpi (2022) sugerem um projeto terapêutico de amadurecimento para indivíduos orais que também pode auxiliar no tratamento da obesidade. A orientação é uma terapia com foco no acolhimento, mas também na imposição de limites, para que o oral encontre o seu próprio limite; a análise do caráter, para que o paciente enxergue como funciona no mundo; exercícios através da respiração, massagens e actings para ajudar a desbloquear suas couraças e amadurecer seu caráter, evidenciando ainda que as técnicas são importantes, mas o vínculo com o paciente é essencial.
Assim, podemos concluir que, para que os orais possam ter sucesso no tratamento da obesidade, é preciso que um projeto terapêutico holístico seja desenvolvido com foco em amadurecer a sua oralidade, reduzindo a dependência e aumentando a sua sustentação e autorresponsabilidade. A implementação de ações e hábitos saudáveis deve levar em consideração a forma de funcionar desse paciente, assim como um trabalho corporal e respiratório para desbloqueio das couraças.
A sugestão é que os segmentos de couraça ocular e oral sejam levados em consideração nesse processo, tanto para reorganizar a visão e aumentar a percepção da realidade, possibilitando sair do mundo da fantasia — que pode gerar em alguns indivíduos a falta de percepção do ganho de peso (transtorno dismórfico corporal) — como também para que as emoções possam ser expressas de uma forma saudável e madura, ao invés de serem depositadas na comida.
Referências
DA CRUZ, E. P. R. et al. Obesidade na atualidade: abordagem das principais consequências a longo prazo. Brazilian Journal of Health Review, v. 6, n. 2, p. 5407-5416, 2023.
GAZIR, A.; VOLPI, J. H. O caráter oral na psicologia corporal e a importância de seu amadurecimento no contexto da pandemia da COVID-19. Psicologia Corporal. Revista Online. Curitiba: Centro Reichiano, v. 23, 2022.
LEITNER, P. C. C. A obesidade como um sintoma psicossomático. In: VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara (Org.). Anais do 19º Congresso Brasileiro e 3ª Convenção Brasil-Latinoamérica de Psicoterapias Corporais. Curitiba: Centro Reichiano, 2014.
LIMA, A. L. Emagrecimento consciente. Recife: Editora Panda, 2020.
MACHADO, C. C.; VOLPI, J. H. Caráter oral e suas coberturas. In: VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara (Org.). Anais do 19º Congresso Brasileiro e 3ª Convenção Brasil-Latinoamérica de Psicoterapias Corporais. Curitiba: Centro Reichiano, 2014.
MORAES, A. L.; ALMEIDA, E. C.; SOUZA, L. B. Percepções de obesos deprimidos sobre os fatores envolvidos na manutenção da sua obesidade: investigação numa unidade do Programa Saúde da Família no município do Rio de Janeiro. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 23, p. 553-572, 2013.
VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Reich: a análise bioenergética. Curitiba: Centro Reichiano, 2003.
WORLD OBESITY FEDERATION. Atlas Mundial da Obesidade. 2023.
Sobre o(s) autor(es)
Ana Larissa Lima
Bacharel em Educação Física pela ESEF-UPE. Bacharel em Nutrição pela Estácio de Sá. Especialista em Nutrição esportiva, bioquímica do exercício e fisiologia do exercício para grupos especiais. Estudante de psicologia, Saint Leo University-FL/USA. Cursando Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Terapeuta Corporal Reichiano //ou// Bioenergético, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR. emagrecacomlari@gmail.com
José Henrique Volpi
Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psico-corporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. volpi@centroreichiano.com.br