O caráter oral na Psicologia Corporal e a importância de seu amadurecimento no contexto da pandemia do COVID-19
The oral character in Body Psychology and the importance of its maturation in the context of the COVID-19 pandemic
Resumo
Palavras-chave: Actings; Caráter oral; Pandemia; Psicologia Corporal; Terapia.
Abstract
Keywords: Actings; Oral Character; Pandemic; Body Psychology; Therapy.
Segundo Navarro (1995), a estrutura de caráter borderline (caráter oral para Reich) se dá quando acontece um estresse ou frustração no período da amamentação do bebê. O desmame pode ter sido precoce ou tardio, quando a mãe deu de mamar mais tempo do que o necessário, ou a mãe não se mostra feliz e disponível afetuosamente no período da amamentação, ou até mesmo pela falta total de amamentação.
Afirma Navarro (1996) que a condição borderline atinge em torno de 45% da população. Os traços orais dizem respeito à boca e têm origem nos primeiros meses de vida da criança até o desmame. A energia do oral está toda concentrada na sua boca e é por esse motivo que eles sentem muita raiva. São emotivos e afetuosos e possuem medo de rejeição e do abandono.
Costumam ser pessoas que guardam mágoas, rancores e essa raiva costuma estar relacionada com as frustrações e decepções na sua vida de uma forma geral. Essas pessoas ficam em constante condição de defesa perante a vida, justamente para não entrarem em depressão. Possuem pescoço rígido e um aspecto narcísico bem aparente. É a forma que escondem o medo de não conseguir sobreviver.
O caráter oral pode ser reprimido (falta de amamentação ou desmame precoce) ou oral insatisfeito (mamou mais tempo que o devido). O oral insatisfeito costuma compensar suas frustrações comendo muito ou bebendo e fumando em exagero, o que pode causar obesidade e dependência química. Já o oral reprimido tem o maxilar apertado, trincado e demonstra muita raiva da vida, costumando desenvolver bruxismo por conta disso. Seu pescoço também acaba ficando bem enrijecido.
Para Navarro (1995), os borderlines possuem uma boa energia, porém ela é desorganizada, ou seja, são desorgonóticos.
Volpi e Volpi (2003) afirmam que o oral é uma pessoa dependente, deprimida, passiva e com uma grande dificuldade de aceitação e excessiva necessidade de chamar atenção e de ter a aprovação de todos. É bem ansioso e um pouco egoísta e narcisista, pois não consegue enxergar com clareza as necessidades dos outros. As suas necessidades costumam vir em primeiro lugar, até mesmo pelo seu forte medo de abandono e da solidão.
O trabalho com esse paciente na terapia é de acolhimento. O terapeuta assume um papel de mãe, que acolhe, mas que sabe dar limites. É de extrema importância que o oral encontre o seu próprio limite. O fundamental para o sucesso da terapia com essas pessoas é trabalhar a boca e dar acolhimento. A análise vai fazer o paciente enxergar como ele funciona no mundo e os exercícios utilizados no tratamento, como os de respiração, massagens e actings, vão ajudar a desbloquear suas couraças e amadurecer seu caráter. As técnicas são importantes, mas o vínculo com o paciente é essencial.
Em contrapartida, na abordagem da Bioenergética, para Lowen (1975), o indivíduo de caráter oral apresenta uma baixa carga de energia e possui grande dificuldade de se sustentar sozinho na vida, em seus próprios pés. Ele coloca sempre sua sustentação e amparo em outro alguém. Precisa estar sempre na companhia de outras pessoas e deposita sua felicidade, literalmente, nas mãos dos outros, apresentando uma grande dependência emocional com parceiros, amigos e familiares.
No contexto da pandemia mundial de COVID-19 (Coronavírus), a humanidade vem enfrentando uma situação limite, onde nosso direito de ir e vir foi podado, nossa liberdade tolhida e sofremos inúmeras perdas de entes queridos e amigos próximos para essa doença devastadora. Foi necessário reaprender a viver essa nova realidade, onde a nossa capacidade de adaptação, a nossa paciência e a nossa resiliência estavam o tempo todo sendo postas à prova.
Com isso, todas as couraças psíquicas e corporais atingiram um limite de enrijecimento na grande maioria das pessoas, que se viram em um contexto de vida totalmente desolador em muitos aspectos, inclusive, para a grande maioria, financeiros. A quantidade de pessoas depressivas por essa nova condição de vida deu um salto enorme por conta dos fatores citados acima e a importância de uma terapia se tornou ainda mais evidente.
Segundo Stolkiner (2008), a oralidade apresenta diversos transtornos, sendo que o mais frequente é exatamente a depressão. A fixação no passado é um dos motivos para o desenvolvimento da depressão oral. Ele rumina mágoas e acontecimentos frustrantes em um ciclo vicioso.
Nesse contexto, ele também fala do suicídio, que vem da vontade insaciável de se satisfazer recebendo amor. E quando essa vontade é frustrada, surge a ânsia de colocar um fim nesse sofrimento. E ele não tem fim.
Então, para Stolkiner (2008), a solução da oralidade e da depressão estaria na reversão desse movimento. A pessoa precisa começar a se amar em primeiro lugar e também a ser grata pela sua vida. Ser grata, inclusive, aos momentos de sofrimento que a fizeram, de alguma forma, evoluir.
Quando o indivíduo começa a nutrir a si mesmo de amor que vem de dentro e não mais espera que esse amor venha de outra pessoa, a vida ganha um sentido mais amplo e mais verdadeiro. Nesse novo movimento, ele desenvolve o real amor próprio, pela vida, pela natureza e pelo próximo.
Ainda pensando no contexto da pandemia, os psicólogos e terapeutas que se utilizam da Psicologia Corporal como ferramenta de trabalho se viram em uma condição totalmente nova e complexa, onde teriam que se readaptar para atender remotamente, pois o atendimento presencial já não era mais uma opção viável a princípio. Então, foi necessária uma boa dose de criatividade e readaptação por parte dos terapeutas também.
Um dos grandes diferenciais da Psicologia Corporal é que ela entende que o corpo e a mente não podem ser separados e que a terapia deve ser não somente uma análise de conteúdo verbal relatado pelo cliente, mas também uma análise corporal detalhada. Tudo que o paciente traz além da fala é tão importante quanto o conteúdo verbal e sua queixa. A maneira como ele se veste para a sessão, seus gestos, postura e tom de voz. Tudo isso é de extrema importância para a análise do caráter e desenvolvimento de um projeto terapêutico especializado para aquele paciente.
Nesse panorama, são utilizadas também algumas técnicas, como exercícios variados de respiração, massagens e actings da Vegetoterapia, que complementam o trabalho de análise do caráter.
Com o aparecimento da pandemia, foi necessário um remodelamento desse tipo de atendimento. Agora os pacientes precisam executar os movimentos propostos à distância e por si só. O terapeuta, por sua vez, auxilia o paciente ativamente na execução de todos os movimentos, como a automassagem.
Devido à problemática da distância, o terapeuta precisa estar com sua energia bem equilibrada e muito presente naquele momento, para conseguir manter uma conexão forte mesmo com essa distância física. Existem alguns actings e exercícios mais apropriados para fazer com o paciente remotamente.
Segundo Volpi e Volpi (2006), o trabalho da Vegetoterapia tem seu início no primeiro segmento (segmento ocular) em direção ao último segmento (pélvico). Esse trabalho tem como objetivo o desbloqueio de couraças, para que a energia circule livremente pelo corpo.
O trabalho com os actings da Vegetoterapia acontece depois da anamnese e da massagem reichiana. A aplicação dos actings não deve ser mecânica. É necessária a intervenção do terapeuta após os actings, que é a parte analítica do processo.
O terapeuta pede que, após o acting proposto, o paciente faça caretas e pergunta quais foram as sensações e pensamentos que vieram à sua mente. Somente assim é possível avaliar o resultado que esse acting teve para o paciente e também para que de fato ocorra o amadurecimento das couraças e, por consequência, o amadurecimento do caráter do paciente.
Alguns actings ajudam de forma específica a amadurecer a oralidade dos pacientes. Como já foi dito, o oral possui muita raiva e um acting que ajuda muito a liberar essa raiva contida, podendo ser feito tranquilamente à distância, é o acting de morder a toalha. Ele ajuda muito a soltar a boca e colocar a raiva para fora.
Também é de grande ajuda pedir para o paciente socar almofadas. Esse exercício é da Bioenergética e é um excelente complemento ao acting acima. Usando ambos, a sessão fica mais completa.
Um outro acting bem interessante é pedir ao paciente para deitar de joelhos dobrados e, enquanto ele morde a toalha, pedir para bater com as mãos no colchão ao mesmo tempo. Depois pedimos para fazer caretas e perguntamos que sensações e pensamentos vieram à tona.
Outro exercício indicado para a terapia online é pedir que o paciente ache um ponto fixo no teto, o encare e imagine ali o objeto da sua raiva, podendo socar esse objeto à vontade. Depois, o terapeuta conversa com o paciente sobre sensações e pensamentos que surgiram nesse acting. Sempre nessa ordem: acting, caretas, sensações e pensamentos.
É essencial lembrar que, para o sucesso do tratamento terapêutico da Vegetoterapia, é preciso sempre começar desbloqueando o primeiro segmento, dos olhos, para então propor exercícios de boca, ligados à oralidade.
Um trabalho em conjunto também é importante. Como exemplo, podemos trabalhar o acting do ponto fixo com a boca aberta, trabalhando olhos e boca ao mesmo tempo. Pedimos ao paciente que projete nesse ponto o que ele quer construir para o próximo ano, por exemplo. Isso ajuda o oral a estabelecer metas para si dentro do que é proposto na terapia.
É interessante lembrar também que, primeiramente, é necessário ser feita uma massagem reichiana antes de propor qualquer acting. No caso, remotamente é sugerida a automassagem, que será guiada cuidadosamente pelo terapeuta.
Para Volpi e Volpi (2006), o indivíduo de caráter oral costuma ser muito ansioso. A ansiedade está presente nas couraças da boca, do pescoço e do peito. Podemos propor diversos actings para a ansiedade, que ajudam muito o oral.
Um acting que podemos propor para ser trabalhado online é o do gato, onde o paciente solta o ar pelo nariz mostrando os dentes. Esse acting trabalha a ansiedade do segmento diafragmático.
Também podemos indicar que o paciente faça longas caminhadas respirando livremente no seu dia a dia para complementar o trabalho na terapia. Esse hábito irá ajudar no desbloqueio diafragmático onde está localizada a sua ansiedade.
Todos esses actings citados acima são da Vegetoterapia Breve Focal, proposta por Henrique Volpi. Ela é chamada de breve porque é feita em curto tempo, média de 15 minutos cada acting. E é focal porque pedimos para o paciente focar na sua demanda, na queixa ou na situação que causa a ansiedade, por exemplo.
Quando conseguimos acessar os conteúdos que aparecem após esses actings, podemos analisá-los junto ao paciente e avançar com a terapia. O conjunto de todas essas técnicas corporais junto à análise de caráter e à análise de conteúdo verbal formam o pilar da Psicoterapia Corporal Reichiana.
É gratificante perceber que, mesmo com todas as dificuldades trazidas pela pandemia, ainda é possível fazer um ótimo trabalho com a terapia corporal, mesmo que à distância. O uso de trabalhos corporais como a Vegetoterapia em atendimentos remotos é possível e está em fase de adaptação e crescimento contínuo com o surgimento de novas ideias nesse sentido dia após dia. A readaptação nos tempos de pandemia veio para todos.
Dentro da nossa sociedade, os traços orais se fazem presentes na maior parte das pessoas. Existe um vazio muito grande que o paciente não consegue explicar e que não sabe de onde vem. Uma carência afetiva enorme, uma necessidade de aceitação, de aprovação (inclusive do terapeuta), de ser amado, compreendido.
Vejo que a pandemia deixou essa sensação ainda mais evidente com a dificuldade dos encontros, perdas e lutos. Para o oral, a solidão se apresentou de forma mais evidente dentro da sua forma de funcionar e de entender o mundo.
Com tudo já colocado, vemos que a oralidade sendo amadurecida no processo de terapia, a vida desse paciente começará a ficar mais leve e com menos drama.
Para isso, o psicólogo corporal precisa utilizar muito mais do que técnicas corporais. Ele tem que analisar cuidadosamente o histórico desse paciente, sua queixa e formar um vínculo sólido com ele.
É importante entender que a pandemia só agravou todos os traços de caráter e couraças já presentes nos pacientes. Nesse momento, acolher o seu sofrimento se faz ainda mais necessário.
O terapeuta tem a missão de fazer o paciente entender como ele funciona nesse novo mundo e como essa perspectiva de ver a vida, de ver a si mesmo e as pessoas que o rodeiam pode mudar, mesmo nesse contexto desfavorável da pandemia.
Dessa forma, ele poderá conseguir abrir seu leque de possibilidades e o seu vazio pode vir a se transformar em preenchimento. Sua vida ficará mais leve e mais funcional, amadurecendo sua oralidade.
Referências
NAVARRO, F. Caracterologia pós-reichiana. São Paulo: Summus, 1995.
NAVARRO, F. Somatopsicopatologia. São Paulo: Summus, 1996.
REICH, W. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
STOLKINER, J. Abrindo-se aos mistérios do corpo. Porto Alegre: Alcance, 2008.
VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Crescer é uma aventura! Desenvolvimento emocional segundo a Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2006.
Sobre o(s) autor(es)
Anamaria Gazir
Psicóloga formada pela Universidade Federal Fluminense. Cursando Especialização em Psicologia Corporal, no Centro Reichiano – Curitiba/PR. anagazir@hotmail.com
José Henrique Volpi
Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psico-corporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. volpi@centroreichiano.com.br