Emoção, energia e corpo
Unificando mente e sentimento
Emotion, energy, and body
Unifying mind and feeling
Resumo
Emoções são energias que circulam no organismo, provocam reações fisiológicas corporais que manifestam essas emoções de forma passageira ou quando se repetem frequentemente, tornam-se um padrão de funcionamento. É deste padrão que vem o estudo da couraça de Wilhelm Reich. A mente consciente esconde traumas emocionais e físicos mas eles ficam registrados na pele, no modo de respirar, nos músculos e vísceras fazendo daquela emoção não mais uma sensação e sim uma atitude em resposta aos estímulos externos. O entendimento e o tratamento das couraças fazem as emoções fluírem energeticamente sem impedimentos, flexibilizando e aumentando a vitalidade corporal. Este artigo tem como objetivo expor algumas questões relacionadas com a formação das couraças.
Palavras-chave: Caráter genital; Couraça; Orgone; Peste emocional; Reich; Segmentos de couraça.
Abstract
Emotions are forms of energy that circulate throughout the organism, producing physiological reactions that manifest emotional states. When these reactions occur repeatedly, they become enduring patterns of functioning. It is from these patterns that Wilhelm Reich developed his study of character armor. Although the conscious mind may conceal emotional and physical traumas, they remain recorded in the skin, breathing patterns, muscles, and internal organs, transforming emotions from temporary sensations into habitual responses to external stimuli. Understanding and treating character armor allows emotions to flow freely, increasing flexibility and enhancing bodily vitality. This article aims to discuss key aspects related to the formation of character armor.
Keywords: Genital Character; Character Armor; Orgone; Emotional Plague; Reich; Armor Segments.
Wilhelm Reich em sua trajetória de estudos científicos e experiência clínica trouxe para a prática psicanalista e terapêutica explicação para os processos emocionais através de testes laboratoriais com amebas. Reich concluiu que a emoção nada mais é que um movimento plasmático. Observou que estímulos agradáveis promovem uma emoção no protoplasma, do centro para a periferia e estímulos desagradáveis provocam uma “remoção” do protoplasma da periferia para o centro do organismo. Define-se assim as emoções como sendo prazerosas ou angustiantes.
Essa corrente plasmática que faz o organismo se expandir ou contrair é movida pela energia Orgone, que está contida em todos os seres vivos e no cosmos; é a energia que pulsa dentro de cada organismo vivo. Assim, integrou a biofísica à análise do caráter e à vegetoterapia, que mais tarde passou a denominar Orgonoterapia. Reich trabalhou o organismo vivo como um todo, onde emoção e corpo interagiam, levando cada paciente para o caminho do movimento expressivo da vida e livre de rigidez.
Primordialmente a formação da couraça muscular e de caráter acontece partindo de estímulos de prazer ou angústia sentidos desde o útero materno, onde o embrião já capta sensações de stress vindas da mãe e até mesmo percebe energeticamente se é aceito ou não.
Quando recém-nascido, o bebê precisa que suas necessidades sejam atendidas. Do contrário surgirão resistências, tensões e rigidez com o objetivo de proteger o indivíduo de experiências dolorosas e ameaçadoras (Volpi e Volpi, 2008). Até chegar à vida adulta, a criança passa por diversas etapas no seu desenvolvimento emocional, onde frustrações comprometedoras dos impulsos naturais da criança vão causando sentimentos que ficam impressos na bagagem genética das células, tornando o caminho da energia mais conturbado, comprometendo o amadurecimento caracterial do indivíduo.
Separando corpo, emoção e mente, não há unidade e pertencimento ao próprio ser. E são nessas etapas que, se bloqueadas ao longo do desenvolvimento emocional, como defesa e em resposta ao que o indivíduo encontra para lidar com a dor, frustração ou trauma, enrijece ou deixa cronicamente flácido o corpo, o pensamento e até o comportamento, formando assim as couraças e os traços de caráter, predispondo o organismo a doenças físicas e psíquicas, desequilíbrios que minimizam o ser da capacidade de desfrutar da vida em sua totalidade, no seu fluir natural e pulsante.
Reich mapeou o corpo em couraças que são apresentadas em sete segmentos, sendo eles:
1. Ocular
2. Oral
3. Cervical
4. Torácico
5. Diafragmático
6. Abdominal
7. Pélvico
Reich também utilizava-se de massagens dentro do processo psicoterapêutico como forma de atingir as couraças. Por meio da massagem, conseguia também mobilizar esses segmentos e atuar sobre o Sistema Neurovegetativo, permitindo muitas vezes que as emoções retidas viessem à luz da consciência para serem analisadas, uma técnica que ele denominou de vegetoterapia.
O trabalho da vegetoterapia trata o indivíduo como um todo. Então, para chegar a um diagnóstico e ao projeto terapêutico, informações como história da gestação, parto, amamentação, doenças, infância, adolescência, idade adulta, observação do corpo e exploração da queixa são elementos de extrema importância, além de todos os demais detalhes relevantes.
O objetivo de Reich era que seus pacientes atingissem um nível de caráter genital, ou caráter maduro, onde isso poderia ser alcançado passando pela técnica da vegetoterapia, flexibilizando suas couraças e amadurecendo seus traços de caráter. Isso trazia a chamada potência orgástica verdadeira.
> “Se toda enfermidade psíquica tem um cerne de excitação sexual reprimida, só pode ser causada pela perturbação da capacidade de experimentar a satisfação orgástica. Por isso, a impotência e a frieza são a chave para entendimento da economia das neuroses. A fonte de energia da neurose tem origem na diferença entre o acúmulo e a descarga da energia sexual. A excitação sexual não satisfeita, que está sempre presente no mecanismo psíquico neurótico, distingue-o do mecanismo psíquico saudável.” (Reich, 2012, p. 98)
Entretanto, vale ressaltar que:
> “A terapia deve levar à descoberta do amor, daquele amor que deveria ser apreendido do corpo materno, e terminar, não com o prazer, mas com a alegria de viver.” (Navarro, 1996, p. 24)
Alunos e seguidores de Reich foram complementando o seu trabalho, que hoje constitui uma forma imprescindível de diagnóstico de couraças, movimentação do fluxo energético, vínculo e muito mais (Volpi, 2021).
Ainda citando Navarro, ele descreve a importância da qualidade energética emocional e física desde a concepção:
> “…o mais indicado é haver um equilíbrio harmonioso, decorrente de uma homeostase fisiológica e dos componentes endócrinos e neurovegetativos determinantes nos períodos embrionário e fetal. Portanto, uma concepção desejada e amorosa, uma gravidez a mais saudável possível em clima sereno, com um teor de vida gratificante e uma alimentação equilibrada, propiciarão um desenvolvimento e funcionamento das células e dos órgãos possivelmente mais saudáveis. Ao contrário, situações de estresse, em particular as frustrações, com o implícito componente de medo, levam os mecanismos homeostáticos a uma situação anormal, que incidirá consideravelmente sobre o comportamento do nascituro.” (NAVARRO, 1995, p. 12)
A luta de Reich para que os indivíduos resgatassem a capacidade natural de amar ia contra uma sociedade doente, doença que ele chamou de peste emocional, que surgiu na primeira repressão em massa da sexualidade genital.
Seus efeitos se mostram no organismo humano e na sociedade como misticismo em sua forma mais destrutiva, sede de autoridade passiva e ativa, moralismo, biopatias do sistema nervoso autônomo, política partidária, peste familiar, métodos sádicos de educação, tolerância masoquista desses métodos ou revolta criminosa contra eles, fofoca e difamação, burocracia autoritária, ideologias de guerra imperialista, criminalidade antissocial, pornografia, agiotagem, ódio racial e muito mais (Reich, 1998).
A peste emocional é tudo que impõe ao outro um modo de viver que não seja o dele, o que vai contra as funções naturais do organismo vivo. É a couraça da sociedade, majoritariamente neurótica, que age em desacordo aos seus impulsos naturais em nome de uma moral repressora, usada como motivo de atitudes inconscientemente sádicas.
Entre todas essas “pestes”, estão os indivíduos lutando para viver, desejando realizar seus objetivos, fazendo grandes esforços por diversos meios para satisfazerem seus desejos e necessidades, quando de fato permanecem de “olhos fechados” para seus reais impedimentos de fluírem na vida: as couraças.
Enxergar, aceitar ou tornar consciente os fatos de que as emoções e os sentimentos estão impressos no corpo e nas atitudes exige mudanças radicais nos assuntos práticos da vida.
Wilhelm Reich cientificamente explicou as emoções, o prazer e o orgasmo do ponto de vista funcional e como essa energia permeia toda existência e é causa da saúde e da doença nos indivíduos e na sociedade.
A análise do caráter, a vegetoterapia, a orgonomia e a bioenergética, entre outras terapias pós e neorreichianas, são ferramentas para unificar e resgatar nos indivíduos a capacidade de adaptar-se às situações de forma flexível, fluida, espontânea e natural, com coerência e respeito aos próprios sentimentos e aos dos outros.
Segundo Lowen:
> “O sentimento não é apenas uma ideia ou uma crença; ele envolve também o corpo e, portanto, é mais do que um processo mental. Ele é constituído por dois elementos: uma atividade corporal e a percepção mental dessa atividade. Assim o sentimento pode ser considerado a força unificadora entre mente e corpo, ligando a mente consciente à atividade corporal.” (LOWEN, 1990, p. 83)
Um caráter maduro, sem couraças ou que as reconheça e saiba flexibilizá-las, cresceu organicamente num corpo verdadeiro, sem negar a realidade da natureza e suas manifestações.
> “E a verdade é o que se revela a cada um, particularmente sem a intervenção de mentes rígidas. Toda verdade como um modo de viver exige uma oportunidade para se expressar livremente. Ela então crescerá por seus próprios meios.” (Reich, 1999, p. 242)
Referências
NAVARRO, F. *Caracterologia pós-reichiana*. São Paulo: Summus, 1995.
NAVARRO, F. *Metodologia da vegetoterapia caractero-analítica*. São Paulo: Summus, 1996.
REICH, W. *A função do orgasmo*. São Paulo: Brasiliense, 2012.
REICH, W. *Análise do caráter*. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
REICH, W. *O assassinato de Cristo*. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
REICH, W. *A linguagem expressiva da vida*. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Apostila do Curso de Especialização em Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2021.
VOLPI, J. H. *Massagem reichiana*. Apostila do Curso de Especialização em Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2021.
VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. *Crescer é uma aventura! Desenvolvimento emocional segundo a Psicologia Corporal*. Curitiba: Centro Reichiano, 2008.
Massoterapeuta. Reikiana. Practitioner em neurolinguística (PNL). Pintora artística autodidata. Cursando Especialização em Psicologia Corporal, no Centro Reichiano – Curitiba/PR. lilianklug@outlook.com
Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psico-corporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. volpi@centroreichiano.com.br
KLUG, Lilian; VOLPI, José Henrique. Emoção, energia e corpo. Revista Científica Eletrônica de Psicologia Corporal, Curitiba, v. 23, p. 36-40, 2022. e-ISSN 3086-1438. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/artigos/emocao-energia-e-corpo/. Acesso em: 04/06/2026.