A evolução do conceito de resistência na obra de Freud e Wilhelm Reich
The Evolution of the Concept of Resistance in the Works of Freud and Wilhelm Reich
Resumo
Palavras-chave: Resistência; Psicanálise; Wilhelm Reich; Sigmund Freud; Análise do caráter.
Abstract
Keywords: Resistance; Psychoanalysis; Wilhelm Reich; Sigmund Freud; Character analysis.
1 INTRODUÇÃO
A história da psicanálise pode ser compreendida, em grande medida, como a história do enfrentamento das resistências encontradas durante o tratamento. Desde que Freud abandonou os métodos hipnóticos e passou a utilizar a associação livre como principal instrumento clínico, tornou-se evidente que os pacientes apresentavam forças internas que dificultavam o acesso aos conteúdos inconscientes.
A resistência passou então a ocupar lugar privilegiado na técnica psicanalítica. Ao invés de ser considerada mero obstáculo ao tratamento, transformou-se em importante fonte de informações sobre o funcionamento psíquico do paciente.
Wilhelm Reich, algumas décadas mais tarde, aprofundaria essa investigação ao propor que a resistência não se encontra apenas nos conteúdos reprimidos ou nas interrupções do discurso, mas na própria organização da personalidade. Com isso, a técnica psicanalítica sofreria uma transformação significativa.
2 A RESISTÊNCIA NA OBRA DE FREUD
As primeiras referências de Freud à resistência surgem no contexto dos estudos sobre a histeria. Durante o processo terapêutico, o autor observou que determinados conteúdos permaneciam inacessíveis à consciência, apesar dos esforços do paciente e do terapeuta.
Em um de seus textos clássicos, Freud afirma:
“Tudo o que interrompe o progresso do trabalho analítico é uma resistência.”
(FREUD, 1914/1974, p. 193).
A resistência passou a ser entendida como uma força psíquica associada ao recalque, cuja função consiste em impedir que conteúdos incompatíveis com a consciência retornem ao campo consciente.
Posteriormente, Freud ampliou essa concepção ao reconhecer que as resistências podiam originar-se de diferentes instâncias psíquicas. Em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), descreve resistências provenientes do ego, do id e do superego, demonstrando a complexidade do fenômeno.
Nesse período, a técnica psicanalítica concentrava-se na interpretação das manifestações da resistência presentes nas associações livres, nos sonhos, nos esquecimentos e nas interrupções do relato do paciente.
3 O PROBLEMA TÉCNICO DAS RESISTÊNCIAS
À medida que a prática clínica se desenvolvia, tornou-se evidente que a simples interpretação dos conteúdos inconscientes não era suficiente para promover mudanças profundas na personalidade.
Muitos pacientes demonstravam excelente capacidade intelectual para compreender suas dificuldades, mas continuavam reproduzindo os mesmos padrões emocionais e relacionais.
Foi exatamente essa questão que chamou a atenção de Wilhelm Reich.
Trabalhando na Clínica Psicanalítica de Viena durante os anos 1920, Reich observou que frequentemente o paciente aceitava interpretações corretas sem que isso produzisse qualquer modificação significativa em seu funcionamento.
A pergunta que passou a orientar suas pesquisas era simples: por que alguns pacientes compreendem suas neuroses e, mesmo assim, permanecem emocionalmente inalterados?
4 A CONTRIBUIÇÃO DE REICH
A resposta encontrada por Reich representou uma das maiores inovações da técnica psicanalítica.
Segundo ele, a resistência não se limita aos conteúdos reprimidos. Ela está presente na forma de ser do indivíduo.
Em sua obra Análise do Caráter, Reich escreve:
“Não é apenas o que o paciente diz que constitui material analítico, mas também a maneira pela qual ele fala e se comporta.”
(REICH, 1933/1995, p. 54).
Essa afirmação desloca o foco da investigação clínica.
A partir desse momento, o terapeuta passa a observar não apenas os conteúdos das associações, mas também o tom de voz, os gestos, as atitudes, a postura, as expressões emocionais e a forma habitual de relacionamento do paciente.
A resistência deixa de ser vista exclusivamente como um fenômeno verbal e passa a ser compreendida como uma característica estrutural da personalidade.
5 DA RESISTÊNCIA VERBAL À RESISTÊNCIA CARACTEROLÓGICA
A principal contribuição de Reich foi demonstrar que o indivíduo organiza suas defesas de maneira relativamente estável ao longo do desenvolvimento.
Essas defesas acabam formando aquilo que ele denominou caráter.
Segundo Reich:
“O caráter do paciente é o mecanismo de defesa narcisista cronicamente estruturado.”
(REICH, 1933/1995, p. 171).
Essa formulação introduz uma mudança radical na compreensão da resistência.
Na técnica clássica, o analista investigava principalmente o conteúdo reprimido. Na proposta reichiana, torna-se necessário analisar também a estrutura que mantém o recalque.
Em outras palavras, não basta interpretar aquilo que está oculto; é preciso compreender a organização defensiva responsável por mantê-lo oculto.
A resistência passa a ser vista como um modo de funcionamento e não apenas como um conjunto de obstáculos ocasionais ao tratamento.
6 CONSEQUÊNCIAS PARA A TÉCNICA PSICANALÍTICA
As formulações de Reich produziram importantes modificações na prática clínica.
O terapeuta passou a dedicar maior atenção ao comportamento observável do paciente durante a sessão. A análise deixou de concentrar-se exclusivamente nos conteúdos inconscientes para incluir a forma como esses conteúdos são evitados.
Essa ampliação permitiu compreender que determinadas dificuldades terapêuticas não decorrem da falta de insight, mas da rigidez estrutural da personalidade.
Ao analisar a resistência caracterológica, o terapeuta atua sobre os padrões emocionais que sustentam os sintomas, favorecendo transformações mais profundas e duradouras.
Essa perspectiva influenciou significativamente o desenvolvimento posterior das psicoterapias psicodinâmicas e das abordagens corporais derivadas da obra reichiana.
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A evolução do conceito de resistência ilustra de maneira exemplar o desenvolvimento da técnica psicanalítica ao longo do século XX.
Freud foi responsável por identificar a resistência como fenômeno fundamental da dinâmica inconsciente e elemento indispensável para a compreensão das neuroses. Sua contribuição estabeleceu as bases sobre as quais toda a técnica analítica foi construída.
Reich, por sua vez, ampliou essa concepção ao demonstrar que a resistência não se manifesta apenas por meio dos conteúdos reprimidos, mas também através da estrutura caracterológica do indivíduo.
A passagem da resistência verbal para a resistência caracterológica representa uma das mais importantes contribuições para a clínica psicoterapêutica moderna. Ao investigar não apenas aquilo que o paciente diz, mas também a forma como organiza sua existência emocional, Reich ampliou significativamente os horizontes da psicanálise e abriu caminho para novas formas de compreensão do sofrimento humano.
REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974.
FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). Rio de Janeiro: Imago, 1976.
FENICHEL, Otto. Teoria psicanalítica das neuroses. Rio de Janeiro: Atheneu, 1981.
LOWEN, Alexander. Bioenergética. São Paulo: Summus, 1982.
RAKNES, Ola. Wilhelm Reich e a orgonomia. São Paulo: Summus, 1988.
REICH, Wilhelm. Análise do caráter. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
SHARAF, Myron. Fury on Earth: A Biography of Wilhelm Reich. New York: St. Martin’s Press, 1983.
Sobre o(s) autor(es)
Jose Henrique Volpi
Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psico-corporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. E-mail: volpi@centroreichiano.com.br