A conexão da couraça ocular com os cinco sentidos na formação do feto
The connection between ocular armor and the five senses in fetal development
Resumo
Palavras-chave: Cinco Sentidos; Couraça Ocular; Desenvolvimento; Receptores Sensoriais; Reich.
Abstract
Keywords: Five Senses; Ocular Armor; Development; Sensory Receptors; Reich.
Não há como falar das teorias de Wilhelm Reich a respeito da formação do feto e não falar da mãe.
Aqui, mãe genitora, biológica, que gera outro ser, que dá à luz ao indivíduo.
Mas, mais do que isso, participa ativamente da formação do caráter deste ser que fecunda em seu útero e que, de forma dicotômica, estrutura e organiza sua essência.
Segundo Jung:
Trata-se daquele amor materno que pertence às recordações mais comoventes e inesquecíveis da idade adulta e representa a raiz secreta de todo vir a ser e de toda transformação, o regresso ao lar, o descanso e o fundamento originário, silencioso, de todo início e fim. Intimamente conhecida, estranha como a natureza, amorosamente carinhosa e fatalmente cruel – uma doadora de vida alegre e incansável, uma mater dolorosa e o portal obscuro e enigmático que se fecha sobre o morto. (…) O que mais podemos dizer daquele ser humano a que se deu o nome de mãe, sem cair no exagero, na insuficiência ou na inadequação e mentira – poderíamos dizer – portadora casual da vivência que encerra ela mesma e a mim, toda humanidade e até mesmo toda criatura viva, que é e desaparece, da vivência da vida de que somos os filhos? (JUNG, 2014, p.98).
O ser, em sua natureza, está conectado a estas raízes, como se o útero de sua mãe fosse um universo completo de possibilidades.
E, exatamente por isso, todas as ações desta mãe influenciam sobre o desenvolvimento – físico, emocional e energético – desta criança que se desenvolve em seu mundo particular.
Porque é na gestação que tudo começa, desde a fecundação, que este pequeno universo recebe as intercorrências desta “doadora de vida”.
Federico Navarro (1996) nos explica que a psique, desde o período fetal, já pode ter um desenvolvimento fisiológico alterado por estresses intrauterinos, que atuam de formas diferentes na composição do indivíduo.
Volpi & Volpi (2006) chamam este período de Etapa de Sustentação, que se inicia na fecundação e segue até os primeiros dias de vida do feto fora deste universo.
A etapa ainda divide-se em três fases: Segmentação, Embrionária e Fetal.
E é a fase Fetal que nos interessa neste estudo, que começa no terceiro mês de gestação, finalizando com o nascimento do bebê – e até dez dias após o nascimento (VOLPI & VOLPI, 2006).
Este estágio é importante para este embasamento, pois é nele que acontece o desenvolvimento do cérebro, do sistema neurovegetativo e é quando o feto percebe os primeiros estímulos táteis, auditivos, gustativos, olfativos e visuais – ou seja, nos cinco sentidos.
1. Tato
Esse é o primeiro sentido a ser desenvolvido pelo feto.
Segundo Alves, Tubino & Tubino (2016), é de seis a oito semanas de gestação que a sensibilidade do feto ao tato é percebida na face, nas palmas das mãos e no tórax do feto.
Já na décima segunda semana fetal toda a superfície da pele tem capacidade de perceber o estímulo tátil, exceto as partes superior e posterior da cabeça.
Nessa fase, o feto começa a sentir o contato com o líquido amniótico.
Quando o bebê nasce, o tato passa a ser um dos principais sentidos para transmitir sensação de segurança e afeto entre ele e a mãe.
2. Audição
O segundo sentido a ser desenvolvido pelo bebê é a audição.
Alves, Tubino & Tubino (2016) apontam as primeiras respostas ao som a partir da vigésima sexta semana de gestação.
No útero, os principais estímulos são os ruídos da placenta, dos órgãos maternos e da voz da mãe.
Por isso, é recomendado que a mãe ouça músicas e leia em voz alta durante a gravidez, como forma de estabelecer os primeiros vínculos com o bebê.
3. Olfato e paladar
O odor do útero é o primeiro que o feto reconhece e, logo após o nascimento, passa a distinguir os cheiros de quem está mais perto dele, como da mãe e do pai.
Já o paladar vai evoluindo aos poucos, especialmente depois dos seis meses, quando o bebê começa a comer frutas e papinhas.
Os sentidos químicos estão presentes anatômica e funcionalmente no final do primeiro trimestre e início do segundo trimestre de gestação (ALVES, TUBINO & TUBINO, 2016).
4. Visão
Esse é o último sentido desenvolvido pelas crianças e a função visual é imperfeita ao nascimento.
Recém-nascidos tendem a manter seus olhos fechados a maior parte do tempo, mas podem enxergar, responder a mudanças na iluminação e fixar pontos de contraste.
Alves, Tubino & Tubino (2016) reconhecem que as respostas à luz forte já acontecem com trinta semanas de gestação.
Para Wilheim (2013), o feto em desenvolvimento possui sensibilidade, percepção e características individuais que refletem as situações que atuam desde seu nascimento, podendo influenciar no amadurecimento psicoafetivo e biológico.
Ainda dentro do útero, o feto “expressa suas emoções de alegria, insatisfação, euforia e descontentamento de ações através de seus movimentos”.
Sendo assim, se a fase Fetal for afetada de forma negativa, com traumas e estresses, nota-se um comprometimento direto no comportamento que age nos receptores sensoriais.
Reich relaciona estas interferências com o primeiro segmento mapeado no corpo humano: a couraça ocular – que apesar do nome inclui outros sentidos, como pele, ouvido, nariz, além dos olhos.
Navarro (1996) cita que o feto:
“É capaz de ouvir (não de escutar), de ver (não de enxergar)”.
Rubem Alves (2005, p.22) traz uma perspectiva interessante sobre o tema e diz que “ver é muito complicado” e que “há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem”.
Alberto Caeiro (1993, p.75), um heterônimo criado por Fernando Pessoa, completa:
“Não basta abrir a janela / Para ver os campos e o rio. / Não é bastante não ser cego / Para ver as árvores e as flores. / (…) Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; / E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, / Que nunca é o que se vê quando se abre a janela”.
Voltando ao conceito de couraça, Reich indica como uma defesa associada ao quadro das neuroses de caráter, concebida primeiramente no âmbito psíquico e passa a ser considerada também no campo somático.
Para Almeida & Albertini (2014, p. 1):
“destinada a exercer função protetora, a couraça constitui algo natural e inevitável, porém essa estrutura pode chegar a comprometer o contato com o meio interno e externo, além de afetar a regulação libidinal do sujeito”.
Este bloqueio é caracterizado pelo medo, prejudicando a interpretação da realidade que é, segundo Navarro (1996), formador da caracterialidade Núcleo Psicótico.
De modo geral, neste traço de caráter, o indivíduo tem baixa energia e desorganizada (hipo-orgonótico desorgonótico), com dificuldade de contato físico e certa limitação de percepção do mundo à sua volta.
Pode-se observar, eventualmente, nos indivíduos com bloqueio nesse segmento, problemas de pele e deficiências da visão (miopia, astigmatismo, hipermetropia e presbiopia).
José Henrique Volpi (2021, p.274) resume que:
“a doença é a retenção da carga energética deixando a comunicação e sensação do organismo deficiente, diminuindo assim a sua funcionalidade”.
Ameaças ao desenvolvimento natural do organismo durante a gestação, quando afetado pelas condições de desafeto e até repulsa do útero materno, privam o feto do desenvolvimento essencial – físico, emocional e energético – estabelecendo uma couraça ocular, que reflete na dissociação na personalidade, promovendo doenças nos cinco sentidos e defesas primitivas para sobrevivência, como o isolamento e o fechamento de sua intimidade.
Cria-se, então, um estado somático cauteloso, que influenciará na organização do olhar, evitando o olho no olho, alterando também a forma de sentir e relacionar-se, sendo distante e superficial, como um abraço frouxo, podendo até não querer ser tocado.
A maneira de ver e perceber o mundo pode apresentar limitações, com ilusões sobre a realidade, até com algum grau de fantasia.
Em casos severos de pacientes Núcleo Psicóticos, o indivíduo vai dar preferência à razão sobre a emoção, com uma mente com pensamentos confusos ou sombrios, com falta de identificação com o próprio corpo (VOLPI, 2021, p.167).
E tudo isso pode ser evitado através de um olhar amoroso, cuidadoso e presente da mãe, como fonte de segurança e vínculo.
Em síntese, a mãe genitora, que nos deu à luz, é fonte de estabilidade, uma matriz de confiança que se ativa desde a fecundação.
E a maneira como esta mãe nos olha nos primeiros momentos da nossa vida vai formar o nosso olhar sobre todo o mundo que nos aguarda.
Referências
NAVARRO, Federico. Somatopsicopatologia. São Paulo: Summus, 1996.
VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara. Etapas do desenvolvimento emocional. Curitiba: Centro Reichiano, 2006. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos.htm.
ALVES, Elaine Maria de Oliveira; TUBINO, Paulo; TUBINO, Paulo Victor Alves. Órgãos dos sentidos. Desenvolvimento sensorial, 2016. Disponível em: https://docplayer.com.br/52141050-orgaos-dos-sentidos-desenvolvimento-sensorial.html
WILHEIM, Joanna. O que é psicologia pré-natal. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2013.
ALVES, Rubem. Educação dos Sentidos e mais… São Paulo: Versus, 2005.
CAEIRO, Alberto (Fernando Pessoa). Poemas Inconjuntos. Lisboa: Ática, 1993. 10ª ed.
ALMEIDA, Bruno Prates; ALBERTINI, Paulo. A noção de couraça na obra de Wilhelm Reich: publicações de 1920 a 1933. Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pusp/a/WKdhBTbRp4RVBy78zmNhRbS/?lang=pt
VOLPI, J. H. Sensação de órgão: elemento fundamental para a prática clínica da análise reichiana. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. (Org.). Apostila do curso de Especialização em Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2021.
VOLPI, J. H. Psicodinâmica caracterológica do Núcleo Psicótico. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. (Org.). Apostila do curso de Especialização em Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2021.
Sobre o(s) autor(es)
Valéria Pina
Graduada em Publicidade, Pós-Graduada em Arteterapia e em Gestão Escolar: Administração, Supervisão e Orientação. Terapeuta de Práticas Complementares e Integrativas da Saúde – PCIs. Professora de Yoga. Cursando Especialização em Psicologia Corporal, no Centro Reichiano – Curitiba/PR. valzinhapv@hotmail.com.br
José Henrique Volpi
Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psico-corporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. volpi@centroreichiano.com.br