O corpo que pulsa no pulsar da vida
Oficinas de movimento consciente, educação vital e psicologia corporal
The body that pulses with the pulse of life
Conscious movement workshops, vital education, and body
Resumo
Palavras-chave: Psicologia corporal. Movimento consciente. Consciência corporal. Vitalidade. Self somático. Transcendência.
Abstract
Keywords: Body Psychology. Therapeutic movement. Body awareness. Vitality. Somatic self. Transcendence.
Introdução
O presente artigo apresenta o relato de experiência do trabalho Corpo, Vitalidade e
Consciência, realizado no Centro de Dança de Brasília, no campo das práticas corporais, da arteterapia, da Educação Vital e da Psicologia Corporal. A experiência foi organizada como um processo vivencial voltado ao resgate da consciência corporal do movimento, compreendido simultaneamente como impressão interna e expressão vital. Nesse sentido, o movimento foi tomado como via de acesso à percepção de si, à reorganização somática e à ampliação da presença no contato consigo, com o outro e com o ambiente.
A proposta partiu da compreensão de que o corpo registra experiências, organiza padrões de defesa, de presença, dispondo de recursos próprios de vitalização, autorregulação e transformação. As oficinas buscaram favorecer um estado de escuta sensível através do corpo, no qual a respiração, os apoios, o ritmo, os gestos, os estímulos – visuais, sonoros, luminosos -, a pausa e deslocamento pudessem revelar modos singulares de sentir, perceber e estar em relação.
Como relato de experiência, este texto descreve de forma multidimensional o percurso de quatro oficinas, seus fundamentos teórico-vivenciais, os efeitos observados nos participantes e as reflexões produzidas a partir do diálogo com referenciais de Rolf Gelewski (1978), Peter Levine, Liana Netto, Sonia Gomes e com princípios da Psicologia Corporal principalmente através da voz de Wilhelm Reich (1977) e Alexander Lowen (1970, 2022). O foco recai sobre o potencial do movimento consciente como recurso de acesso ao self somático, à consciência sensório-emocional-espacial, à vitalidade e à integração entre pensamento, emoção e movimento, e mais além.
Objetivos
O objetivo geral das oficinas foi resgatar e ampliar a consciência corporal do movimento como impressão e expressão vitais, favorecendo a harmonia interna e a qualidade do contato consigo, com o outro e com o ambiente. Como objetivos específicos, buscou-se: promover práticas de percepção corporal, interiorização e presença; estimular a escuta do pulsar da energia vital; ampliar a consciência sensório-emocional-espacial; favorecer estados de autorregulação e consciência no corpo; reconhecer, acolher e experimentar limites, ritmos e sensações; e possibilitar a integração entre pensamento, emoção e movimento por meio de vivências corporais orientadas e espontâneas.
Metodologia do relato
Trata-se de um relato de experiência de natureza descritiva e reflexiva, elaborado a partir da realização das oficinas Corpo, Vitalidade e Consciência no Centro de Dança de Brasília, em quatro oficinas com duração de 3 horas cada, envolvendo 6 participantes. O material de reflexão foi composto pelas observações do processo, pelas percepções emergentes nas práticas, pelas partilhas dos participantes e pela articulação com os textos de apoio utilizados. A experiência foi compreendida qualitativamente, considerando os sentidos produzidos no encontro entre corpo, movimento, consciência e vínculo grupal.
Descrição das oficinas
As oficinas seguiram uma estrutura organizada em etapas complementares: acolhimento do grupo, preparação corporal, práticas de interiorização, vivências de movimento consciente, integração sensório-emocional e partilha final. No acolhimento, criou-se um campo de segurança, cuidado e disponibilidade, convidando os participantes a reconhecerem seu estado corporal inicial, sua respiração, seus pontos de apoio, seus limites e sua relação com o espaço. A preparação corporal envolveu exercícios simples de atenção ao eixo, ao peso, ao contato dos pés com o chão, à respiração e à percepção do ambiente ao redor.
As práticas de interiorização propuseram pausas, escuta da respiração, percepção das sensações internas, movimentos lentos, contato com micro movimentos e atenção às variações de tônus, temperatura, ritmo e impulso. A partir desse estado de presença, os participantes foram conduzidos a explorar movimentos espontâneos ou orientados, observando a relação entre gesto, contenção, expansão, silêncio, repouso, relaxamento profundo e vitalidade. O movimento foi trabalhado como linguagem do corpo vivo: não como execução estética ou técnica, mas como manifestação da energia vital e como possibilidade de autorregulação.
Ao longo das oficinas, a experiência corporal foi articulada à consciência do ambiente e do outro. Foram exploradas variações de ritmo, direção, distância, presença, contato visual, orientação espacial e percepção dos limites pessoais, favorecendo a ampliação da consciência sensório-emocional-espacial. Ao final de cada encontro, a partilha verbal permitiu integrar as vivências, nomear sensações e reconhecer os efeitos do movimento sobre o estado interno, os sentimentos, a vitalidade e a qualidade do contato.
Onde a teoria ganha vida
A compreensão do corpo como território de memória, expressão, vitalidade, transformação e transcendência, ancorados pelas distintas bases epistemológicas, favoreceram a construção de um ambiente multidimensional para a expressão livre da imagem e experimentação deste corpo pelos participantes. O que favorece mais uma visão sintetista do que analista sobre o processo.
Em diálogo com Gelewski (1978), o movimento foi compreendido como caminho de presença, interiorização, consciência expressiva e integração entre gesto e sentido. A partir de Levine, destacou-se a importância da percepção sensorial, da atenção aos sinais sutis do corpo e dos recursos de autorregulação na reorganização das respostas corporais. Com base na teoria reichiana, Volpi e Volpi (2000) compreendem a potência orgástica como a capacidade do organismo de experimentar o prazer, vivenciar a entrega emocional, criar vias de descarga saudável da tensão acumulada e soltar-se em relaxamento pleno. Em articulação com Lowen (1970), o prazer foi compreendido como expressão criativa da vida, ligada à vitalidade, à entrega emocional e à possibilidade de o corpo viver o movimento com mais presença.
As contribuições de Liana Netto ampliaram a leitura do corpo como campo sensível, relacional e somático, no qual experiências internas podem ser percebidas, acolhidas e transformadas por meio da presença corporal e do movimento consciente. Tal perspectiva aproxima-se da compreensão junguiana do Self como totalidade integrada, na qual corpo e psique constituem uma unidade indivisível. Como destaca Jung, “o Self é ambas as coisas: corpo e psique; o corpo é sua manifestação externa […] a alma, a vida do corpo” (JUNG apud ZIMERMANN, 2011, p. 175). Nessa direção, a dança terapêutica busca favorecer o acesso ao inconsciente somático, ampliando a comunicação com a história inscrita no corpo, com um acervo autobiográfico (NETTO, 2012), reafirmando o movimento consciente como via de contato com a memória corporal, a vitalidade e os processos de transformação Por fim, em Lowen (2022), a expressão genuína da vitalidade no corpo aparece associada ao espírito e à possibilidade de experimentar o sagrado no próprio corpo, quando a pessoa se volta para o seu íntimo para ouvir a voz de Deus ou senti-lo no pulsar rítmico de suas células.
Na experiência relatada, esses referenciais permitiram compreender as oficinas como um dispositivo de integração entre sensação, emoção, pensamento, movimento, fluxo energético e consciência. A escuta do pulsar vital, a atenção aos apoios, a alternância entre expansão e recolhimento, a observação dos limites corporais, a quietude, a graciosidade dos movimentos, e a percepção do espaço favoreceram uma aproximação com o self somático, e mais além. Assim, a teoria não foi apresentada como conteúdo separado da prática, mas como lente para reconhecer os processos que emergiam na vivência corporal e na relação entre presença, vitalidade, transformação e transcendência.
“[…] chama da vida queima luminosa e eles percebem que seu espírito reflete o amor de Deus” (Lowen, 2022, p. 266).
“[…] ela é o fator central de nossa existência, o veículo que tudo transporta, o poder que tudo possibilita: ela é, justamente, a própria vida” (Gelewski, 1978, p. 38).
Resultados e discussão
Os efeitos observados incluíram aumento da vitalidade, maior disponibilidade para o movimento e ampliação da percepção das sensações corporais. Participantes referiram mudanças na respiração, na sensação de presença, na relação com o espaço e na qualidade do contato consigo. A consciência corporal apareceu como um processo gradual, construído pela atenção aos pequenos sinais do corpo e pela possibilidade de permitir que o movimento emergisse de dentro para fora.
Outro resultado relevante foi a ampliação da consciência sensórioemocionalespacial. Ao perceberem a relação entre tensão, emoção, gesto e deslocamento, os participantes puderam reconhecer padrões corporais habituais e experimentar novas possibilidades de organização diante do cotidiano, reavaliando suas próprias escolhas e comportamentos. O trabalho com os sons, os textos, as gravuras, o movimento, com os relatos, com o espaço, com o outro, com o próprio corpo e com o grupo, contribuiu para qualificar o contato, favorecendo maior presença, escuta, limite, disponibilidade relacional, entrega emocional e autopercepção da potência vital.
A integração entre pensamento, emoção e movimento, e a consciência deste estado diante da vida no dia a dia, mostrou-se um dos aspectos centrais da experiência. Ao final das práticas, muitos conteúdos vividos corporalmente puderam ser simbolizados pela palavra, sem que a fala substituísse ou reduzisse a experiência. Esse trânsito entre corpo e as diversas linguagens de expressão favoreceu estados de autorregulação, consciência no corpo e presença, indicando o potencial do movimento consciente como caminho para reorganização somática, percepção da vitalidade, expressão livre e expansão da consciência, proporcionando novas rotas.
Ainda foi possível observar que sinais clássicos de tensões nos segmentos ocular, oral, cervical e pélvico, emergiam à consciência a partir das interações. De forma progressiva, cada qual a sua medida, as expressões vividas e verbalizadas pareciam alargar o hall de possibilidades em direção ao inexplorado.
Considerações finais
O trabalho Corpo, Vitalidade e Consciência evidenciou a potência das oficinas de movimento consciente como espaço de cuidado, investigação, autorregulação e integração em Psicologia Corporal. A experiência favoreceu o resgate da consciência corporal em diversos níveis desde o mais concreto e grosseiro quanto níveis mais sutis. O contato com a vitalidade e a percepção do corpo como campo de memória, expressão, transformação e transcendência. Ao integrar interiorização, movimento, partilha e reflexão, as oficinas contribuíram para ampliar a presença dos participantes e a qualidade do contato consigo, com o outro, com o ambiente e com o Todo que o transcende.
Como contribuição aos Anais do Congresso, este relato reafirma a relevância das práticas psicocorporais que compreendem o corpo vivo como via de consciência, autorregulação, transformação e transcendência. O movimento, quando sustentado por escuta multidimensional, presença e cuidado, pode tornar-se recurso profundo de acesso ao self somático, de autorregulação e de expansão da consciência, proporcionando mais liberdade de expressão da autopercepção.
Referências
LEVINE, Peter A.; FREDERICK, Ann. O despertar do tigre: curando o trauma. Tradução de Sonia Augusto. São Paulo: Summus, 1999.
NETTO, Liana Rodrigues. Dança e expressão corporal: uma análise Junguiana sobre a terapêutica artística. In: MACIEL, Carla; CARNEIRO, Celeste (org.). Diálogos criativos entre a arteterapia e a psicologia junguiana. Rio de Janeiro: Wak, 2012. p. 151-174.
LOWEN, Alexander. Alegria: a entrega ao corpo e à vida. São Paulo: Summus, 2022.
LOWEN, Alexander. Prazer: uma abordagem criativa da vida. São Paulo: Summus, 1970.
REICH, Wilhelm. A função do orgasmo. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1977.
VOLPI, Jose Henrique; VOLPI, Sandra Mara. Sexualidade e saúde emocional na teoria reichiana. Revista Científica Eletrônica de Psicologia Corporal, Curitiba, v. 1, p. 33-37, 2000. e-ISSN 3086- 1438. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/artigos/sexualidade-e-saude-emocionalnateoriareichiana/. Acesso em: 04.08.2026.
Sobre o(s) autor(es)
Joselita de Jesus Santos
Formação em dança espontânea com Rolf Gelewski, psicopedagoga e pós-graduada em Arteterapia Junguiana. Possui formação em Pedagogia Waldorf e integra a Dinâmica Energética do Psiquismo (DEP) desde 1998. É coautora do livro Crescer-dançando-agindo 2 e autora de Corpomovimento – Vivências em Arteterapia. Atua na interface entre movimento expressivo, processos criativos e práticas integrativas, desenvolvendo vivências corporais fundamentadas em princípios da arteterapia, da educação somática e da Psicologia do desenvolvimento.
Mariângela Almada Viana Lima
Psicóloga clínica (CRP-01/17753) e comunitária, com especialização em Psicologia Transpessoal e em Intervenção em Crise/Prevenção do Suicídio. Possui formação pela Escola da Dinâmica Energética do Psiquismo, em Biodanza para crianças e adolescentes, e em Síntese e Análise Transacional – Ecologia do Ser (UNIPAZ/DF). Cursa Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Psicoterapeuta e Analista Corporal de abordagem reichiana e bioenergética, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR. É Terapeuta Comunitária Integrativa, com atuação em processos grupais e práticas corporais. Facilita danças tradicionais brasileiras como recurso de integração e saúde coletiva.