Centro Reichiano Centro Reichiano & Volpi Psicologia Corporal
📄 Anais dos Congressos de Psicoterapias Corporais
Trabalho publicado nos Anais

A depressão e a compulsão na modernidade líquida

Um olhar da psicologia corporal sobre psicopatologias da oralidade e perspectivas na era da inteligência artificial

Depression and compulsion in liquid modernity

A body psychology perspective on oral psychopathologies and perspectives in the age of artificial intelligence

Kássia Denise de Souza Centro Reichiano · Porto Alegre-RS · Brasil kassiads@gmail.com
Sandra Mara Dall’Igna Volpi Centro Reichiano · Curitiba-PR · Brasil sandra@centroreichiano.com.br
Anais do Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporaisº
ISBN 26 · Edição Especialista em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como terapeuta corporal reichiana e bioenergética, pelo Centro Reichiano – Curitiba/PR. Terapeuta Holística com formação em Reiki, método Matriarcal – base Usui. Massoterapeuta. Bacharel em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Unisinos - São Leopoldo/RS. Especialista em Política Internacional pela PUC-RS – Porto Alegre/RS.

Resumo

Este artigo busca ampliar a compreensão sobre os impactos da modernidade líquida na formação das estruturas de caráter com fortes traços orais e compulsivos, e sobre a estreita relação dos valores líquidos com a depressão – uma psicopatologia da oralidade que é apontada como a principal causa de incapacidade no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Na era do metaverso, novos desafios surgem. Para adentrar nesse labirinto e não se perder é preciso pensar caminhos que fortaleçam as frágeis bases psicoemocionais deixadas pela modernidade líquida, que preservem as dimensões psíquicas, emocionais e espirituais da relação com o corpo. Como terapeuta corporal, meu convite nesta pesquisa é pensarmos essas possibilidades juntos.

Palavras-chave: Compulsão; Depressão; Modernidade Líquida; Moral Sexual; Reich.

Abstract

This article seeks to broaden the understanding of the impacts of liquid modernity on the formation of character structures with strong oral and compulsive traits, as well as on the close relationship between liquid values and depression — an oral psychopathology considered by the World Health Organization as the leading cause of disability worldwide. In the age of the metaverse, new challenges emerge. To enter this labyrinth without getting lost, it is necessary to think of paths that strengthen the fragile psycho-emotional foundations left by liquid modernity, preserving the psychic, emotional, and spiritual dimensions of the relationship with the body. As a body therapist, my invitation in this research is for us to reflect on these possibilities together.

Keywords: Compulsion; Depression; Liquid Modernity; Sexual Morality; Reich.

Introdução

As estatísticas de depressão e suicídio no mundo reforçam um sinal de alerta para as condições psicoemocionais humanas atuais. Ao longo da construção desse artigo, a Organização Mundial da Saúde (OMS, entre 2018 e 2022) apontava mais de 300 milhões de pessoas com depressão – doença que passou a ser identificada como a principal causa de incapacidade no mundo, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS, entre 2017 e 2022). De acordo com a OPAS, o Brasil lidera o ranking de 11 países com maior número de casos. Trata-se de um tipo de sofrimento silencioso, que passa despercebido diante de centenas ou milhares de conexões superficiais, alimentadas nas redes nas quais interagimos.

Estamos conectados com o mundo, seja pelo acesso físico, seja por uma rede infinita de plataformas e aplicativos digitais e seus algoritmos, que parecem conhecer mais de nós do que nós mesmos sobre nossos gostos, interesses e tendências. Entretanto, na “era das aparências”, pouco se fala do vazio interior compartilhado por tanta gente. A inteligência artificial (IA) transformou-se em uma espécie de entidade – impalpável e inalcançável – que assume um papel de “autoridade” em nossas vidas. Captura a atenção, direciona o comportamento, influencia diretamente a estrutura de caráter, que a retroalimenta com seus cliques, comentários e compartilhamentos.

A modernidade líquida (BAUMAN, 2021) provocou uma profunda mudança em nossa forma de viver e na maneira como nos relacionamos, e as estatísticas dos casos de depressão no mundo mostram a dimensão desse impacto. Revelam a fragilidade psíquica e emocional de indivíduos com queixas comuns, entre elas a de uma frustração pelo que “deveriam ser”, uma insegurança por quem, de fato, são, e um grande medo de confrontar o que está por trás das fantasias que alimentam. Navarro (2013) fala da depressão enquanto psicopatologia da oralidade, relacionada à privação da nutrição afetiva e do contato caloroso e seguro na infância. O organismo desenvolve mecanismos defensivos que desviam impulsos do self, para evitar a frustração e o desamparo que permanecem ancorados no corpo. A compulsão – por alimento, por estética, por sucesso, por compras, por sexo, por drogas etc. – nasce da necessidade ansiosa de se preencher, mesmo que ilusoriamente, e de anestesiar a dor interior, o que Reich (1988) chama de expressão secundária do caráter, que se sobrepõe ao cerne biológico e aos impulsos naturais do organismo. Na contemporaneidade, o comportamento oral-compulsivo é acompanhado de outros dois traços que se destacam: a esquizoidia, com pouco contato com as sensações corporais e as emoções, o que contribui para uma percepção confusa da realidade; e a psicopatia / o narcisismo, com um excessivo apreço pelo sucesso, pela admiração e pelo poder. Juntas, essas características revelam uma estrutura de caráter com um “eu” / identidade frágil, que direciona seus esforços à construção de uma autoimagem de êxito e reconhecimento em detrimento ao eu profundo e sua dimensão cósmica, relacionada a uma natureza humana harmônica e equilibrada. Lowen (1983a) há tempos já falava sobre a fragilidade dessa estrutura de caráter, e o grau de loucura e irrealidade que demonstravam ao colocar a ambição do êxito acima da necessidade de amar e ser amado.

Reich (1988) relaciona o inconsciente freudiano à atitude antissocial, que se desenvolve a partir da repressão de exigências biológicas primárias. Disse também que as neuroses são um produto da cultura, que produz em grande escala o tipo de indivíduo do qual necessita para continuar existindo (REICH, 1988), portanto as estruturas de caráter da sociedade e do indivíduo refletem-se mutuamente. Nesse sentido, ao olhar para o caráter depressivo atual é possível perceber os impactos do que Bauman (2001) denominou como modernidade líquida, conceito que capta com clareza a etapa recente da história da modernidade através das metáforas “liquidez” e “fluidez”.

A era da modernidade líquida está atrelada a uma revolução tecnológica e digital que rompeu com limites rígidos, físicos e simbólicos, e inaugurou uma nova concepção do espaço e do tempo, uma nova realidade global. A sensação de distância diminuiu drasticamente com a diversificação dos meios de transporte de cargas e pessoas, e com a ampliação das rotas que conectam os países. As relações de trabalho, em que a solidez era representada pelo carreirismo em uma única empresa ou organização, tornaram-se fluidas por um lado e inseguras por outro. O acesso à informação instantânea popularizou-se na mesma intensidade em que a cultura assumiu como valor o comportamento de consumo da vida. As relações humanas, em seus mais variados aspectos, tornaram-se voláteis e, da mesma forma, o comprometimento se volatilizou.

A modernidade líquida desmanchou a solidez das estruturas rígidas e conferiu ao conceito de liberdade o fim de qualquer obstáculo “[…] aos movimentos pretendidos e concebíveis” (BAUMAN, 2001, p. 19). Ao olhar para a depressão como o problema de saúde mais incapacitante no mundo contemporâneo, o completo desmanche de valores que sustentavam a rigidez cultural e social também refletiu na perda de limites necessários para preservar a estrutura de caráter contra excessos capazes de inundar o ego. O desmanche da rigidez do caráter, apontada por Reich (2000), de fato aconteceu, mas não revelou um self livre para se expressar e colocar sua libido no mundo. Na modernidade líquida, a IA apreende nossa libido, direciona essa energia para um comportamento de consumo e distorce o que entendemos por liberdade de escolha. A ideia de incapacidade para a liberdade das populações de massa duramente adaptadas a sistemas autoritários, apontada por Reich (1988), parece continuar em nossos dias. A modernidade líquida representa um fluxo tão intenso e rápido de transformações que a estrutura humana e social parece inundada pela correnteza violenta de estímulos externos, que capturam o desejo e o moldam com nuances de necessidade.

A depressão mostra que o indivíduo perdeu o que Lowen (1983) chama de fé na vida, que confere sentido à sua existência, e, portanto, não basta apenas encontrar formas de amenizar o sofrimento. Para se mover do congelamento depressivo, sabemos ser necessário ressignificar a relação com o corpo, com as emoções e com a própria história. O que parece mais desafiador é possibilitar ao corpo uma unidade expressiva que seja capaz de integrar realidade física e realidade virtual, para que a libido possa transitar da fantasia do virtual para a descarga na vida real, no encontro com a realidade. Percebemos que o foco do trabalho de base reichiana neste cenário mudou completamente desde Reich. Compreender a transição de um caráter individual e social rigidamente reprimido por sistemas autoritários para um frágil caráter depressivo torna-se relevante para pensarmos possibilidades que nos levem a um caminho com limites flexíveis o suficiente para uma adaptação às mudanças aceleradas da contemporaneidade, e firmes o bastante para a restauração e preservação da integridade do cerne biológico e das expressões primárias, naturais do animal-humano. Na era do metaverso, um caminho do meio parece realmente ser o novo desafio, direção para a qual esta pesquisa também considera importante lançar um olhar.

A moral sexual e a formação da estrutura neurótica

Ainda na primeira metade do século XX, Reich (1981; 1988) escreveu uma série de estudos sobre a psicologia de massas e a moral sexual repressora do sistema autoritário patriarcal. Reich viveu durante um período marcado por crises econômicas e embates político-ideológicos que alteraram o poder geopolítico internacional, provocaram transformações sociais e culturais que impactaram diretamente as massas humanas. Uma nova etapa da sociedade capitalista teve início com a ascensão da grande indústria, a urbanização das cidades e o implemento de linhas de produção que demandavam maior capacidade produtiva em menor tempo, pressão exercida fundamentalmente às classes mais pobres. O famoso ator e diretor Charles Chaplin representou no cinema a realidade do trabalhador comum daquele período, oprimido em longas jornadas de trabalho repetitivo e desgastante dentro das fábricas.

Reich (1981) apontou a repressão da sexualidade, exercida pela rígida moral sexual do sistema patriarcal, como origem central do enfraquecimento geral das funções intelectuais e emocionais do indivíduo. Segundo ele, o papel da família se entrelaça aos interesses econômicos do Estado através de três propriedades básicas: econômica empresarial, no meio rural e na pequena indústria; social, para proteger mulheres e filhos – privados de direitos econômicos e sexuais; política, com a função de manter a ideologia autoritária da estrutura conservadora. A privação da satisfação reproduz as repressões e controles necessários para que o indivíduo se torne adaptado ao sistema. Reich (1981) identifica o extermínio da espontaneidade e o condicionamento do comportamento ainda na etapa inicial da vida como causa principal das restrições adultas, que impactam na capacidade de trabalho e na potência sexual.

Ao analisar os mecanismos psíquicos de seus pacientes, Reich (1981) observa aspectos comuns oriundos da educação repressora, que carregam o inconsciente com representações associais e antissociais. Destaca as fantasias de assassinar o pai para possuir a mãe como reminiscências de posições infantis no meio familiar e, para superar esses impulsos e se tornar capaz existencial e culturalmente. Reich (1981) pontuou a repressão cultural, principalmente familiar, do contato prazeroso com o corpo como fator responsável por fixar o erotismo pré-genital, o que desvia o interesse sexual para o sadismo, e deixa claro que é a estrutura triangular – pai, mãe, criança – que dá origem ao complexo de Édipo. O cuidador do sexo oposto é amado e o do sexo igual é odiado inicialmente. Contra ele, a criança direciona impulsos de ciúme e ódio, mas também de culpa e medo. Reich (1981) diz que a necessidade de reprimir esses impulsos dá origem à maioria dos distúrbios amorosos futuros, o que não aconteceria se a criança tivesse a alternativa de renunciar ao desejo genital pelos pais e dirigir os jogos genitais aos pares de sua idade. Ao ser forçada para dentro do seio da família, a criança adquire uma fixação aos pais de forma sexual e autoritária que, em grande parte, torna-se inconsciente. Quando adulto, possui uma sexualidade carregada de culpa e não consegue recuperar os interesses sexuais, ou expressa esses interesses em ações sexuais impulsivas e incontroladas. Para a ordem social autoritária, a modificação no organismo psíquico influenciada pela moral sexual contribui para a base da psicologia das massas.

A estrutura de vassalo é uma mistura de impotência sexual, indefensabilidade, necessidade de apoio, ânsias de liderança, temor da autoridade, medo da vida e misticismo. É caracterizada pela inclinação para a rebeldia e vassalagem ao mesmo tempo. O temor sexual e a hipocrisia sexual constituem o núcleo daquilo que chamamos de comodismo burguês. Pessoas assim estruturadas são incapazes de democracia. Em suas estruturas esboroam-se as experiências de construir ou manter organizações sob a direção realmente democrática. (REICH, 1981, p. 62).

A estrutura repressora da moral sexual tenta adaptar a criança não por meio de uma identificação amorosa, mas de uma obrigação e pressão moral. Para ser capaz dessa adaptação, aprende a controlar as sensações corporais e imobiliza a expressão natural, o que leva a formas artificiais de movimento. Reich (1998) chama de peste emocional o “[…] medo das sensações orgânicas”, e aponta os “[…] prejuízos incalculáveis ao núcleo biológico de cada criança”.

Neste processo para superar a peste emocional, defrontaremos o que há de pior no homo normalis: a forma do místico virtuoso e do animal humano mecanicista […], o pavor das correntes plasmáticas, num organismo que se tornou incapaz de lidar com fortes emoções bioenergéticas e que perdeu a função natural de autorregulação. […] O horror às forças vitais no animal humano, que ele é incapaz de sentir em si mesmo. (REICH, 1998, p. 459).

Trata-se de uma doença endêmica, como o próprio Reich (1998) define, que se desenvolve na vida social a partir da repressão em massa da sexualidade, que suprime as expressões autorreguladoras naturais da vida desde o nascimento. A esquizofrenia e o câncer seriam consequências da devastação emocional produzida pela peste emocional. “Não se pode supor que algum movimento de liberação consiga atingir seus fins, sem enfrentar, com sinceridade, clareza e rigor, a peste emocional organizada.” (REICH, 1998, p. 466). A angústia do prazer gera o medo da liberdade e da responsabilidade no caráter neurótico, o que o torna rígido e inflexível à mudança de padrão de vida. O pensamento reichiano apresenta com clareza as bases em que se desenvolve a sociedade neurótica: uma sociedade que reprime expressões primárias, relacionadas ao funcionamento natural e saudável do organismo, gerando como consequência expressões secundárias, caracterizadas pelo comportamento confuso, perturbado e frequentemente destrutivo, como aponta Boadella (2021). Reich dedicou a vida para mostrar que era possível regenerar a sociedade – no sentido de reorientar a pulsação de vida em direção a uma vida alegre e satisfatória através da dissolução da rigidez do caráter – e que isso só seria possível a partir de um cuidado amoroso e atento na infância.

A modernidade líquida e o “desmanche” das estruturas

Reich morreu antes de testemunhar os movimentos que insurgiram contra sistemas opressores e abriram caminho para uma nova era, principalmente a partir da década de 60. Delimito duas esferas de atuação envolvidas nesta onda de mudanças, uma delas humana – representada pela criação da Organização das Nações Unidas (ONU) pelos movimentos pela paz e direitos humanos – que abarcava os direitos das mulheres, do povo negro e das populações vulneráveis dos países em guerra; outra tecnológica / digital – que rompeu com a ideia de tempo e espaço, provocou o desmoronamento de instituições que representavam a solidez cultural, econômica e social, e que intensificou os fluxos internacionais de capitais, de transporte de mercadorias, de seres humanos e de informação. Denominada por Bauman (2001) como Modernidade Líquida – impalpável, fluida e impossível de conter – essa nova era alterou os espaços de poder de maneira global, e foi marcada pela derrubada dos limites territoriais e culturais, pela consolidação do capitalismo financeiro e pela atuação transnacional de organizações e empresas que fortaleceram e expandiram a massificação da cultura do consumo. Entre 1970 e 1990, as Startups deram início a uma nova etapa da revolução digital e mudaram novamente as peças do jogo de poder mundial, com novos paradigmas para as relações sociais, políticas, econômicas e culturais de maneira global.

Qualquer rede densa de laços sociais, e em particular uma que esteja territorialmente enraizada, é um obstáculo a ser eliminado. Os poderes globais se inclinam a desmantelar tais redes em proveito de sua contínua e crescente fluidez, principal fonte de sua força e garantia de sua invencibilidade. E são esse derrocar, a fragilidade, o quebradiço, o imediato dos laços e redes humanos que permitem que esses poderes operem. (BAUMAN, 2001, p. 18).

Romper limites e desmanchar estruturas é diferente de flexibilizar limites para ampliar as possibilidades das estruturas. De que forma essa ideia de desmanche pode ser compreendida à luz da revolução sexual de Reich (1981)? Eu diria que está fundamentada em uma ideia de liberdade que corresponde a um fluxo livre. Entretanto, um fluxo livre pode, facilmente, transformar-se em uma inundação. A ideia de não haver barreiras ou limites que impediriam esse livre fluxo – de movimentos, ideias, transformações – pode gerar uma distorção do próprio conceito de liberdade. Reich (1988) coloca que diante de séculos de opressão e repressão, as massas humanas são incapazes de liberdade, porém essa incapacidade não é inata, uma vez que o homem não foi sempre incapaz de liberdade.

[…] o principal objetivo dos nossos estudos sociológicos deixou de incidir em fatores predominantemente político-econômicos, voltando-se para fatores da Psicologia de massas, da Economia Sexual e da estrutura do caráter. O diagnóstico da incapacidade das massas humanas para a liberdade, do fato de que a repressão da vida sexual natural é o principal mecanismo criador dessa incapacidade na própria estrutura de caráter, é, acima de tudo, a atribuição da responsabilidade, não mais a organizações ou a políticos, isolados, mas sim às próprias massas incapazes de liberdade. (REICH, 1988, p. 174).

Para Baumam (2001), a ideia de liberdade da modernidade líquida representa “[…] não experimentar impedimento aos movimentos pretendidos ou concebíveis”. Entretanto, a dissolução dos limites rígidos na era líquida não reverberou exatamente no princípio reichiano do resgate da pulsação do cerne biológico, direcionada à vitalidade. Bauman (2001) aponta que na modernidade líquida o horizonte da satisfação se move rápido demais, ao ponto de ser impossível alcançá-lo. Baseia-se em relações fluidas e livres que acabam objetificadas pelo valor de consumo que assumem, e fadadas a um descarte tão rápido quanto a efêmera sensação de satisfação que produzem. O tempo “acelerou” em vias que passaram do líquido e fluido ao rarefeito. A informação é armazenada em “nuvem”, as relações de trabalho e afetiva migraram para espaços sem forma específica, em um constante movimento que não vislumbra um destino ou ponto de chegada e gera uma tremenda expectativa. Algoritmos recolhem e filtram nossos dados, direcionam nosso comportamento. Plataformas e redes sociais capturam nosso desejo a todo o momento, e revelam um poder ilimitado, impalpável e avassalador sobre o indivíduo distraído. Há uma diversidade de estímulos a comportamentos de consumo instantâneo, ao alcance de um clique em uma tela, em praticamente todas as dimensões da vida – da locomoção ao alimento, da vestimenta à relação sexual, ao entretenimento, etc. Construímos bolhas de entretenimento na segurança de nossas casas, passamos mais tempo “nas telas” do celular, do computador, da TV e menos tempo com familiares e amigos. Sentimos a solidão do excesso de individualidade, e tratamos de compensá-la distraindo um vazio interior que é impossível de ser preenchido. As redes sociais democratizaram a autoexpressão e se consolidaram como meio para satisfazer a necessidade de socialização e autoafirmação, mas ocultam a fragilidade de identidades com extrema dificuldade de concretizar o encontro com a vida real, de lidar com a frustração inevitável que desfaz a fantasia do ideal.

Compartilhar intimidades, como Richard Sennett insiste, tende a ser o método preferido, e talvez o único que resta, de “construção da comunidade”. Essa técnica de construção só pode criar “comunidades” tão frágeis e transitórias como emoções esparsas e fugidias, saltando erraticamente de um objetivo a outro na busca sempre inconclusiva de um porto seguro: comunidades de temores, ansiedades e ódios compartilhados – mas em cada caso comunidades “cabide”, reuniões momentâneas em que muitos indivíduos solitários penduram seus solitários medos individuais. (BAUMAN, 2001, p. 38).

A fragilidade do “eu” torna um grande desafio identificar a diferença entre o desejo oriundo de máscaras sociais e das camadas mais superficiais do caráter, e o desejo profundo do self. Transitar do encontro virtual para o encontro real é um movimento carregado de insegurança e ansiedade quando se torna impossível sustentar a imagem atraente e sedutora da fantasia criada no imaginário. Nesse sentido, parece que não conseguimos avançar para além do dilema que estava no cerne da repressão sexual da época de Reich (1981): o impedimento da expressão primária, do ser em plenitude. A peste emocional na modernidade líquida parece ser representada pela práxis das fakenews, do cancelamento em massa de quem “falha” diante das expectativas da comunidade virtual e da humilhação pública que eterniza o erro em imagens que rodam ad infinitum na Web. Numa cultura competitiva como a nossa, com um apelo tão forte à imagem, a invisibilidade é uma ameaça à sobrevivência do ego que luta para ser, de alguma forma, reconhecido. A enxurrada de estímulos e informações banaliza a complexidade da vida e das relações, e os objetivos enquanto comunidade tornam-se difusos. As tendências do momento pautam as discussões públicas e o público perde a autonomia sobre o que, de fato, importa nestas pautas em termos de impactos sociais, políticos, econômicos, socioambientais.

“A infelicidade dos consumidores deriva do excesso e não da falta de escolha. […] Seu preço é a incerteza perpétua e um desejo que provavelmente nunca será saciado.” (BAUMAN, 2001, p. 62).

[…] quando uma pessoa tem de projetar a imagem de ser “alguém”, isso indica que no seu íntimo se sente como um “ninguém”. Este sentimento é resultante da dissociação entre o ego e o corpo. A pessoa que se identifica com seu ego e nega a importância do corpo, na verdade não tem corpo. A perda da sensação do corpo, que é equivalente à sensação de si mesmo como um “ninguém”, força a pessoa a substituir a realidade do corpo por uma imagem baseada numa posição social, política ou econômica. (LOWEN, 1983a, p. 26).

A estrutura de caráter oral, a depressão e a compulsão

A oralidade é resultado da fragilidade de uma estrutura de caráter que tem como característica um fluxo energético em direção à parte superior do corpo, e uma consequente dificuldade de se apoiar nas próprias pernas e pés – o que significa confrontar a realidade da própria vida (LOWEN, 1983b). A insegurança é uma marca profunda no caráter com forte traço oral. O vazio originado pela nutrição afetiva deficiente em uma etapa muito precoce do desenvolvimento psicoemocional, e a consequente rejeição registrada na memória corporal atribuem características ao comportamento que estão relacionadas à forte dependência emocional (NAVARRO, 2013). Na modernidade líquida a dependência emocional, característica da oralidade, aparece fortemente associada a psicopatia / narcisismo, com uma dependência por aprovação e admiração, e uma hipervalorização do êxito e do reconhecimento; e o esquizoidia decorrente de uma relação confusa com a realidade, e a uma tendência à idealização. Para melhor aproveitar o espaço dessas breves páginas, atenho-me às características orais depressivas e à compulsão.

Na época de Reich (1981) a dissolução da rigidez do caráter era o maior desafio para recuperar a pulsação do organismo. Hoje, a fragilidade do caráter observada no aumento das estatísticas de depressão reforça o sinal de alerta nesta direção. O forte desamparo vivido atualmente reflete uma base emocional frágil, um “eu” frágil de um indivíduo que não pode se sentir amado e atendido em suas necessidades afetivas, e com isso não desenvolveu segurança interior. Pessoas que, em muitos casos, tiveram todas as necessidades materiais atendidas, mas as afetivas não tiveram espaço para serem cultivadas, expressadas, e continuam a ser buscadas de forma inconsciente na fase adulta. Nesse sentido, a compulsão se desenvolve como forma de compensar a ausência de gratificação. “Uma ‘fome’ infantil pode, além disso, ‘deslocar-se’ psicologicamente e se tornar uma pulsão de ser reconhecido, como se se tratasse de uma necessidade primária: sede de reconhecimento ou, ainda, uma pulsão igualitária, sede de justiça.” (NAVARRO, 2013, p. 56). Trata-se de uma fome por atenção que nunca pode ser saciada, que investe energia na sobrevalorização da imagem de quem se deve ser, que aparece no imaginário como oposta ou muito diferente de quem é, de fato. Lowen (1983b) explica que tal comportamento está condicionado por uma necessidade de controle dos impulsos primários, ainda na infância, na busca pela aprovação e reconhecimento paternos (LOWEN, 1983b).

O buraco esteve sempre ali, camuflado talvez por alguns gravetos e folhas que, entretanto, não eram fortes o suficiente para servirem como uma base sólida para a personalidade. O paciente nunca realmente confiou nessa cobertura, pois nunca permitiu que o peso total de seu corpo se apoiasse nela. Tentou se manter por cima através de seu ego ou vontade e caiu em depressão quando este apoio ilusório caiu. (LOWEN, 1983b, p. 35-36).

O comportamento compulsivo atrelado à necessidade de ser reconhecido e admirado para se sentir valorizado forma uma dupla bombástica, que evita o contato com o vazio interior e com a incapacidade de se nutrir verdadeiramente a partir de si mesmo. Além da insegurança, a privação afetiva gera um medo profundo da rejeição que, como descreve Lowen (1983b), desenvolve-se através da retirada do amor quando a expressão da criança não é aceita pelo meio. Mais tarde, a atitude da pessoa adulta acaba moldada para agradar e atender expectativas – projetadas por ele ou alimentadas pelo meio externo – na ilusão de ser aceito e amado por isso.

O que ela sente é uma falta de prazer em sua vida, que a força a intensificar sua impulsão em direção ao dinheiro, fama ou sucesso, ou na obtenção de um objetivo colocado por suas ilusões. Fica presa num círculo vicioso espiralado cada vez mais para o alto até o colapso da ilusão que a joga na depressão. (LOWEN, 1983b, p. 43).

A modernidade líquida, a depressão e o metaverso

A depressão identificada como a doença mais incapacitante no mundo mostra que precisamos olhar para o impacto das demandas da modernidade líquida sobre nossas relações e nossos afetos, e ressignificar sua importância em nossas vidas, sobretudo na infância. A pandemia do coronavírus (COVID-19), doença infecciosa causada pelo vírus SARS-CoV-2, acelerou a criação de condições que possibilitam a vida quase totalmente remota, e a transição para uma nova etapa da revolução digital e tecnológica, que literalmente transporta as relações humanas para uma dimensão totalmente virtual da nossa realidade. Estamos falando da era do metaverso. As relações sociais, econômicas e de consumo já foram deslocadas para um ambiente totalmente virtual, com a inclusão de nossos corpos através de avatares. Uma transição que demanda de todos nós uma reconstrução completa. Mas como fazer essa reconstrução de um modo que preserve o self, sem que ele se perca no labirinto virtual?

Nascer no metaverso sem nos perdermos da dimensão humana / corporal / espiritual da existência parece ser um desafio coletivo. A falta de repertório para dar conta dessa nova realidade atinge a todos, assim como a angústia inevitável do desconhecido. Estar grounded na realidade do corpo diante de um novo mundo e uma nova linguagem para os afetos parece ser o principal desafio. Possibilitar ao homem a satisfação e realização da sua vida seria o fator mais importante em uma revolução social (REICH, 1981). Seria um dever, segundo Reich (1998), dos profissionais comprometidos com a saúde: “[…] capacitar o animal humano a aceitar a natureza que existe dentro de si, parar de fugir dela, e passar a desfrutar daquilo que agora tanto o atemoriza.” (REICH, 1998, p. 459).

Como preservar nossa capacidade de distinguir o natural do artificial? Diante do poder de sequestrar o desejo, manipular os sentidos e direcionar o comportamento, torna-se urgente aprender a metalinguagem do metaverso e dedicar um olhar consciente e atento para o status de autoridade que a IA assumiu em nossas vidas. A inteligência virtual tornou-se parte fundamental da vida atual, e assim buscar compreender seu impacto em nossas vidas e sua influência em nosso comportamento é fundamental se quisermos realmente compreender a nova era, que representa uma revolução da tecnologia, do conhecimento e também do comportamento. Diante do colapso psicoemocional representado nas estatísticas de depressão no mundo, precisamos ampliar nosso olhar para os lugares desse mapa emocional humano revelado durante a modernidade líquida. A experiência dos excessos e dos limites que tivemos na transição da era analógica para a digital pode nos ajudar a transitar para a era do metaverso. Nesse sentido, destaco o que Reich (1998) mostrou com a Análise do Caráter, e ampliou com a descoberta do orgone: compreender a realidade do corpo (o microcosmo) nos ajuda a compreender a realidade da vida (o macrocosmo). No metaverso, somos chamados a ressignificar o corpo nesta espiral evolutiva humana e tecnológica, e aprender uma nova linguagem, com novos repertórios expressivos de interação e novas necessidades. Para preservar os limites que dão grounding ao corpo e à realidade é necessário compreendê-los a partir dessa nova era, e um dos principais desafios é transitar da fantasia do mundo virtual para o encontro com o mundo real, descarregar a libido no mundo objetal e ser capaz de lidar com as frustrações e perdas inevitáveis da vida. Um corpo em depressão perdeu a fé em si mesmo, e com isso perdeu a fé na vida (LOWEN, 1983b). Para resgatá-la é necessário fortalecer sua base, o que significa revisar valores, crenças e comportamentos que funcionam contra a sua pulsação natural, buscar ressignificá-los em favor da pessoa, para que possa desenvolver sentimentos corporais que possibilitem encontrar segurança em si mesmo, para que possa seguir em frente nesta espiral evolutiva sem se perder das dimensões animal e espiritual da própria humanidade.

Considerações finais

Nunca estivemos tão conectados de forma global, e nunca tão desconectados de nós mesmos, de nossos corpos e de nossas emoções. A rigidez da moral sexual deixou de ser a fonte das neuroses da sociedade. No lugar dela, a oralidade compulsiva e os traços esquizoides e narcisistas sinalizam indivíduos com uma intensa frustração afetiva, ensinados a sobrevalorizar o êxito e o desempenho para se adaptarem às demandas da família e da cultura. Abriram mão da natureza do próprio self em nome da necessidade de reconhecimento e admiração, presos em um intenso conflito entre o que verdadeiramente são e o que acreditam que deveriam ser. As estatísticas de depressão e suicídio revelam uma profunda tristeza e solidão ocultas por trás de filtros, poses e recortes da “vida ideal” que são compartilhados nas redes sociais. As facilidades proporcionadas pelo mundo virtual em termos do acesso e do imediatismo dão contornos ainda mais intensos ao comportamento compulsivo, que se desenvolve para evitar o contato com o vazio interior comum da depressão, vazio que sempre esteve presente, e que evidencia uma “fome” insaciável de um preenchimento que não consegue nem ser compreendido e nem alcançado.

O excesso de distração que o mundo virtual proporciona tira tanto a atenção do que acontece na realidade da vida interior, quanto da realidade vivida de forma coletiva. Como aponta Bauman (2001), a infelicidade deriva do excesso e não da falta de escolha, e o bombardeio de estímulos do mundo virtual parece inundar nossas mentes, corpos e emoções. A era da IA tem o poder de capturar o desejo e direcionar o comportamento, e a inconsciência ou distração sobre a dimensão desse poder representa um risco à autonomia. Conforme propus no início dessa pesquisa, pensarmos juntos possibilidades para transitarmos na IA sem sermos consumidos por ela pode ser determinante para não repetirmos resultados tão danosos quanto os que observamos na modernidade líquida. Precisamos conhecê-la, aprender a dialogar com ela e compreender a dimensão de seus impactos em nossa vida para que possamos usá-la ao nosso favor, e não sermos apenas usados por ela.

Referências

BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.

BOADELLA, D. Soma, self e fonte. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. (Org.) Apostila do curso de Especialização em Psicologia Corporal. Módulo 4, Unidade 1. Curitiba: Centro Reichiano, 2021.

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Sobre o(s) autor(es)

Kássia Denise de Souza
Psicóloga (CRP-08/5348) formada pela PUC-PR. Analista Bioenergética (CBT) e Supervisora em Análise Bioenergética (IABSP), Especialista em Psicoterapia Infantil (UTP), Psicopedagogia (CEP-Curitiba) e Acupuntura (IBRATE), Mestre em Tecnologia (UTFPR), Diretora do Centro Reichiano, em Curitiba/PR.

Como citar este trabalho

SOUZA, Kássia Denise de; VOLPI, Sandra Mara Dall’Igna. A depressão e a compulsão na modernidade líquida. In: Anais do Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais, Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais, 2023. Curitiba: Centro Reichiano. ISBN 26. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/anais/a-depressao-e-a-compulsao-na-modernidade-liquida/. Acesso em: 08/06/2026.