TDAH
Uma relação com o caráter impulsivo sob a ótica da Psicologia Corporal
TDAH
A relationship with the impulsive character from the perspective of Body Psychology
Centro Reichiano · Goiânia-GO · Brasil
Centro Reichiano · Curitiba-PR · Brasil
Resumo
Houve um aumento significativo em diagnósticos de transtornos mentais em crianças e adolescentes nas últimas décadas. Diante desse cenário, buscou-se, sob a ótica da Psicologia Corporal centrada nas teorias de Reich e Lowen, desenvolver uma linha de raciocínio teórica sobre a construção de estruturas de caráter, as quais geram padrões de comportamentos resultantes do desenvolvimento biopsicossocial. Na perspectiva desses autores, procurou-se discutir o conceito de saúde, as fases do desenvolvimento, seus bloqueios e suas influências na estrutura de caráter, as quais compõem a personalidade e podem resultar em uma condição não saudável. Dentre os transtornos mais diagnosticados, focou-se no critério diagnóstico de comportamento impulsivo e desatenção para os indivíduos diagnosticados com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Acrescenta-se a essa questão a discussão em torno do fenômeno de epidemia de diagnósticos e medicalização da vida, em particular no contexto escolar.
Palavras-chave: Estruturas de caráter; Lowen; Psicologia Corporal; Reich; TDAH.
Abstract
There has been a significant increase in mental disorder diagnoses among children and adolescents in recent decades. In light of this scenario, this study sought, from the perspective of Body Psychology centered on the theories of Reich and Lowen, to develop a theoretical line of reasoning about the construction of character structures, which generate behavioral patterns resulting from biopsychosocial development. From the perspective of these authors, the study discusses the concept of health, developmental stages, their blockages, and their influences on character structure, which together compose personality and may result in unhealthy conditions. Among the most diagnosed disorders, the focus was placed on the diagnostic criteria of impulsive behavior and inattention in individuals diagnosed with Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD). In addition, the study discusses the phenomenon of an epidemic of diagnoses and the medicalization of life, particularly in the school context.
Keywords: Character structures; Lowen; Body Psychology; Reich; ADHD.
A saúde mental de crianças e adolescentes passou a ter maior relevância na recente Reforma Psiquiátrica Brasileira. No Brasil, têm-se observado índices de grande prevalência de transtornos mentais em crianças e adolescentes, atingindo cerca de 12,7% a 23,3% dessa população, sendo que, entre esses, 3% a 4% requerem tratamento intensivo.
Segundo Roch (2010, apud CAMARGO et al., 2023), informações levantadas entre 2015 e 2020 listam, dentre os transtornos mais frequentes, a deficiência intelectual, o autismo, a psicose infantil e os transtornos de ansiedade. Dessa maneira, verifica-se a extrema importância dos cuidados direcionados às crianças e aos adolescentes, com a finalidade de alcançar uma população mais saudável.
Conforme o DSM-5-TR (2023), estudos recentes, baseados em pesquisas populacionais, sugerem que o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ocorra mundialmente em cerca de 7,2% das crianças. Todavia, a prevalência transnacional varia em uma escala mais ampla, de 0,1% a 10,2% das crianças e adolescentes. Esse mesmo manual apresenta o dado de herdabilidade do TDAH em aproximadamente 74%, não existindo um gene único para tal transtorno, mas vários loci enriquecidos em regiões genômicas evolutivamente restritas.
Segundo o DSM-5-TR (2023, p. 32):
> O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento definido por níveis prejudicados de desatenção, desorganização e/ou hiperatividade-impulsividade. Desatenção e desorganização acarretam incapacidade de permanecer na tarefa, parecendo não ouvir, e perda de materiais necessários para as tarefas, em níveis inconsistentes com a idade ou nível de desenvolvimento. A hiperatividade-impulsividade envolve hiperatividade, inquietação, incapacidade de permanecer sentado, intromissão nas atividades de outras pessoas e incapacidade de esperar – sintomas excessivos para a idade ou nível de desenvolvimento. Na infância, o TDAH frequentemente se sobrepõe a transtornos que são frequentemente considerados “transtornos externalizantes”, como transtorno desafiador de oposição e transtorno de conduta. O TDAH geralmente persiste na idade adulta, com prejuízos resultantes do funcionamento social, acadêmico e ocupacional.
Ao considerar o aumento significativo de diagnósticos de transtornos mentais em crianças e adolescentes nas últimas décadas, procurou-se, sob a perspectiva da Psicologia Corporal centrada nas teorias de Reich e Lowen, desenvolver uma linha de raciocínio a respeito dos tipos de caráter que geram padrões de comportamento resultantes do desenvolvimento biopsicossocial, já que o TDAH é definido com base em aspectos comportamentais e neuroanátomo-fisiológicos.
O TDAH é caracterizado por alterações dos sistemas motor, perceptivo, cognitivo e comportamental, além do comprometimento da aprendizagem em crianças e adolescentes, havendo também prevalência em adultos. Nessa perspectiva, conceituam-se saúde para Reich e Lowen, as fases do desenvolvimento e seus bloqueios, os quais influenciam os tipos de caráter que, por sua vez, interferem na personalidade e no desenvolvimento de uma condição não saudável.
Dentre os padrões de comportamento, serão focalizados alguns critérios diagnósticos do TDAH, principalmente relacionados aos comportamentos de impulsividade e desatenção, com o intuito de buscar mais informações que possam auxiliar na identificação e prevenção de problemas de saúde mental em crianças e adolescentes. Há inúmeros trabalhos produzidos sobre TDAH em crianças, mas não um delineamento desse transtorno quanto ao desenvolvimento psicodinâmico dos indivíduos em relação às teorias de Reich e Lowen.
## REICH
A respeito do desenvolvimento da criança, Reich (1995) teoriza sobre a possibilidade de, não havendo estresse e/ou comprometimentos entre seus impulsos naturais e as frustrações impostas, desenvolver-se o caráter genital, autorregulado, sem bloqueios, o que seria o ideal e o saudável. Portanto, trabalhar com prevenção em saúde mental de crianças e adolescentes requer o estudo das etapas de desenvolvimento.
A denominação de cada etapa do desenvolvimento emocional foi adaptada por Volpi e Volpi (2006) nos seguintes termos: sustentação, incorporação, produção, identificação e formação do caráter.
A etapa de sustentação é estabelecida na relação entre o bebê e a mãe, que o nutre energética e emocionalmente e, assim, oferece condições de sustentação para seu desenvolvimento no útero. Essa etapa é subdividida em três fases: segmentação, embrionária e fetal. A fase da segmentação tem início na concepção e finda na nidação (fixação do zigoto na parede uterina).
Já a fase embrionária começa na nidação e vai até o final do segundo mês de gestação. Essa fase consiste na intensa multiplicação celular para formação do embrião, o que demanda grande quantidade de energia autógena (energia da própria célula). Parte dessa multiplicação celular irá formar o cordão umbilical, o qual sustentará e nutrirá a nova estrutura embrionária denominada trofoblasto. Nessa estrutura ocorre o fenômeno de gastrulação (diferenciação celular), que resultará na formação dos folhetos embrionários ectoderma, mesoderma e endoderma.
Posteriormente, tem-se a fase fetal, a qual inicia no terceiro mês de gestação e vai até o nascimento. Nessa fase ocorrem a formação da placenta e o desenvolvimento fetal.
Reich (2013, p. 91) fala sobre o contato orgonótico que se dá nesta etapa:
> O contato orgonótico é a experiência mais essencial, e também o elemento emocional na inter-relação entre mãe e criança, principalmente no período pré-natal e durante as primeiras semanas de vida. O futuro da criança depende dele. Este período parece ser a base do desenvolvimento emocional do recém-nascido, mas ainda sabemos muito pouco sobre isso.
O entendimento desse contato orgonótico é apresentado e utilizado na definição da segunda etapa do desenvolvimento: a incorporação.
Conforme Volpi e Volpi (2006), essa etapa consiste no período do nascimento ao desmame, compreendida cronologicamente até os nove meses de vida. O bebê deixa o envolvimento do útero para se ligar ao seio materno, onde será alimentado e acolhido pelo corpo quente e disponível da mãe. A amamentação cria um vínculo profundo entre mãe e filho através de uma relação simbiótica, que se estenderá durante todo o desenvolvimento humano.
Dessa maneira, Faria (2012) esclarece sobre a capacidade de entender a expressão emocional do bebê, a qual depende da proximidade no contato orgonótico. Ou seja, quanto mais próximo e completo for tal contato, melhor será a compreensão de seu estado emocional.
Tal autora considera que até um ano de vida ocorre o estabelecimento desse sistema orgonótico, o qual perpassa pelo desenvolvimento da fala, sendo que, após essa fase, o desenvolvimento psíquico estruturante se completa até o quinto ano, conforme a visão freudiana do desenvolvimento psicossexual e da influência de cada estágio anterior sobre o posterior.
A terceira etapa é a de produção, constituída pelo período do desmame até o final dos três anos de vida, podendo ocorrer antes. A criança, nessa fase (VOLPI; VOLPI, 2006), está construindo pensamentos, gestos, brincadeiras e relacionamentos, além de produzir sua urina e fezes, desenvolvendo o controle dos esfíncteres.
Ainda nessa fase, pode-se ressaltar a transição corporal do engatinhar para o ficar de pé. Keleman (1992) visualiza uma transição da motilidade para o movimento, estabelecendo um diálogo entre espontaneidade e controle, ou seja, entre volição e controle motores. Esse autor afirma ainda:
> O nascimento psicológico e emocional é paralelo ao desenvolvimento motor, aumentando cada vez mais nosso senso do “eu”. (KELEMAN, 1992, p. 37)
A identificação, conforme Volpi e Volpi (2006), é estabelecida a partir do quarto ano de vida e termina ao final do quinto. Tal etapa é definida pela descoberta dos genitais (diferenças sexuais anatômicas entre os sexos), sendo que a energia da criança volta-se para si própria (individualidade) e ela começa a se identificar com o sexo ao qual pertence.
Essa noção das diferenças entre os sexos leva as crianças aos primeiros conceitos de gênero e à sua identificação com eles. O processo de identificação extrapola a visão de gênero, e a criança, por observação, imitação e afeto, tenta compreender o papel social associado ao seu ambiente.
Atrelado à descoberta dos genitais está o contato com os mesmos, observado pelo surgimento das primeiras masturbações, que não possuem intenção ou fantasia. Nesse período, caracterizado por maior individualidade, é interessante observar a passagem da criança do campo familiar para o campo social.
Na obra *Crianças do Futuro*, Reich (2013) observou que a masturbação infantil não é anormal, mas sim um pré-requisito para a futura primazia genital, possibilitando uma vida sexual estável e saúde mental.
A quinta e última etapa descrita por Volpi e Volpi (2006) é denominada formação do caráter, iniciando-se aos cinco anos de vida e estendendo-se até a puberdade. Nesse estágio completa-se a formação da estrutura básica de caráter.
Reich (2013) fala sobre os limites do trabalho com crianças antes dos quatro ou cinco anos, pois elas ainda não são totalmente encouraçadas e a genitalidade não está completamente desenvolvida.
Faria (2012), em uma releitura da obra *Crianças do Futuro*, apresenta a visão de que a prevenção da saúde humana estaria pautada nas fases iniciais do desenvolvimento, pois, nessa direção, o ser humano teria uma predisposição para ser saudável ao seguir o fluxo vital do desenvolvimento.
Nessa perspectiva, é necessário atentar-se ao desenvolvimento individualizado, priorizado e adequado, de maneira a suprir as necessidades de cada criança e respeitar sua singularidade.
Um outro conceito importante nesse raciocínio é a resiliência, que, segundo Dalgalarrondo (2019), consiste na capacidade de absorver e lidar com fatores precipitantes, como eventos de vida, eventos estressantes e/ou traumáticos que ocorrem proximalmente ao desencadeamento do transtorno mental.
Assim, a resiliência representa um aprendizado do organismo para ajustar-se aos eventos, mesmo quando danosos, ao longo do desenvolvimento humano, de maneira a tratá-los e resolvê-los sem a evolução para quadros de transtornos mentais.
A diferença entre crianças saudáveis e doentes, segundo Reich (2013), não se determina pela apresentação de distúrbios emocionais, mas pela capacidade da criança de sair de uma situação biopática aguda e não permanecer presa nela por toda a vida. Isso dependerá da qualidade do suporte emocional oferecido pelos cuidadores durante seu desenvolvimento.
A saúde e a doença não dependem das ideias e emoções desenvolvidas pelo indivíduo, mas da economia total de um sistema energético voltado para a autorregulação possível, ou seja, mais próximo de uma genitalidade. Portanto, o excesso energético que não pode ser descarregado transforma-se em estase energética e bloqueios energéticos.
Volpi e Volpi (2006) falam sobre os impulsos da criança que, ao sofrerem frustrações e repressão severa, poderão gerar bloqueios e, consequentemente, fixações de energia na etapa de desenvolvimento em que a criança se encontra. Dessa maneira, são criados imprintings, marcas e registros que serão incorporados à estrutura de caráter da criança, que passará a ser neurótica.
É importante salientar que esses imprintings, no processo de encouraçamento, resultam de uma continuidade crônica de estímulos.
Estudante de Psicologia pela Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO) – Goiânia. Licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Goiás. MBA em Perícia, Auditoria e Gestão Ambiental pelo Centro de Pós-Graduação – Faculdades Oswaldo Cruz. Cursando Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Psicoterapeuta Corporal Reichiana e Bioenergética, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR. E-mail: dananica82@gmail.com
Psicóloga (CRP-08/5348) (PUC-PR), Analista Bioenergética (CBT) e Supervisora em Análise Bioenergética (IABSP). Especialista em Psicoterapia Infantil (UTP). Psicopedagoga (CEP-Curitiba). Mestre em Tecnologia (UTFPR). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo) (IBRATE). Diretora do Centro Reichiano, Curitiba/PR. E-mail: sandra@centroreichiano.com.br
Como citar este trabalho:
MIRANDA, Daniella Dias; VOLPI, Sandra Mara. TDAH. In: Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais, 27, 2024. Curitiba: Centro Reichiano. ISBN 978-65-89012-04-7. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/anais/tdah/. Acesso em: 29/05/2026.