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A conexão da couraça ocular com os cinco sentidos na formação do feto

The connection between ocular armor and the five senses in fetal development


Valéria Pina
Centro Reichiano · Curitiba-PR · Brasil
José Henrique Volpi
Centro Reichiano · Curitiba-PR · Brasil
Revista Científica Eletrônica de Psicologia Corporal
v. 22 · 2021 · p. 03-07 · e-ISSN 3086-1438

Resumo

O desenvolvimento fetal é permeável às impressões deixadas por mãe. Cada individuo formado é um reflexo direto de suas raízes, que abastecem seu desenvolvimento físico, emocional e energético. Diretamente conectado ao estresse causado a partir do 3º mês de gestação, a formação dos receptores sensoriais tem relação total com a estruturação da couraça ocular, interferindo na percepção do mundo ao redor do feto que vai nascer.

Palavras-chave: Cinco Sentidos; Couraça Ocular; Desenvolvimento; Receptores Sensoriais; Reich.


Abstract

Fetal development is permeable to the impressions transmitted by the mother. Each individual is a direct reflection of their roots, which nourish their physical, emotional, and energetic development. Directly connected to stress occurring from the third month of pregnancy onward, the formation of sensory receptors is closely related to the structuring of ocular armor, influencing the perception of the world surrounding the fetus before birth.

Keywords: Five Senses; Ocular Armor; Development; Sensory Receptors; Reich.


Não há como falar das teorias de Wilhelm Reich a respeito da formação do feto e não falar da mãe.

Aqui, mãe genitora, biológica, que gera outro ser, que dá à luz ao indivíduo.

Mas, mais do que isso, participa ativamente da formação do caráter deste ser que fecunda em seu útero e que, de forma dicotômica, estrutura e organiza sua essência.

Segundo Jung:

Trata-se daquele amor materno que pertence às recordações mais comoventes e inesquecíveis da idade adulta e representa a raiz secreta de todo vir a ser e de toda transformação, o regresso ao lar, o descanso e o fundamento originário, silencioso, de todo início e fim. Intimamente conhecida, estranha como a natureza, amorosamente carinhosa e fatalmente cruel – uma doadora de vida alegre e incansável, uma mater dolorosa e o portal obscuro e enigmático que se fecha sobre o morto. (…) O que mais podemos dizer daquele ser humano a que se deu o nome de mãe, sem cair no exagero, na insuficiência ou na inadequação e mentira – poderíamos dizer – portadora casual da vivência que encerra ela mesma e a mim, toda humanidade e até mesmo toda criatura viva, que é e desaparece, da vivência da vida de que somos os filhos? (JUNG, 2014, p.98).

O ser, em sua natureza, está conectado a estas raízes, como se o útero de sua mãe fosse um universo completo de possibilidades.

E, exatamente por isso, todas as ações desta mãe influenciam sobre o desenvolvimento – físico, emocional e energético – desta criança que se desenvolve em seu mundo particular.

Porque é na gestação que tudo começa, desde a fecundação, que este pequeno universo recebe as intercorrências desta “doadora de vida”.

Federico Navarro (1996) nos explica que a psique, desde o período fetal, já pode ter um desenvolvimento fisiológico alterado por estresses intrauterinos, que atuam de formas diferentes na composição do indivíduo.

Volpi & Volpi (2006) chamam este período de Etapa de Sustentação, que se inicia na fecundação e segue até os primeiros dias de vida do feto fora deste universo.

A etapa ainda divide-se em três fases: Segmentação, Embrionária e Fetal.

E é a fase Fetal que nos interessa neste estudo, que começa no terceiro mês de gestação, finalizando com o nascimento do bebê – e até dez dias após o nascimento (VOLPI & VOLPI, 2006).

Este estágio é importante para este embasamento, pois é nele que acontece o desenvolvimento do cérebro, do sistema neurovegetativo e é quando o feto percebe os primeiros estímulos táteis, auditivos, gustativos, olfativos e visuais – ou seja, nos cinco sentidos.

1. Tato

Esse é o primeiro sentido a ser desenvolvido pelo feto.

Segundo Alves, Tubino & Tubino (2016), é de seis a oito semanas de gestação que a sensibilidade do feto ao tato é percebida na face, nas palmas das mãos e no tórax do feto.

Já na décima segunda semana fetal toda a superfície da pele tem capacidade de perceber o estímulo tátil, exceto as partes superior e posterior da cabeça.

Nessa fase, o feto começa a sentir o contato com o líquido amniótico.

Quando o bebê nasce, o tato passa a ser um dos principais sentidos para transmitir sensação de segurança e afeto entre ele e a mãe.

2. Audição

O segundo sentido a ser desenvolvido pelo bebê é a audição.

Alves, Tubino & Tubino (2016) apontam as primeiras respostas ao som a partir da vigésima sexta semana de gestação.

No útero, os principais estímulos são os ruídos da placenta, dos órgãos maternos e da voz da mãe.

Por isso, é recomendado que a mãe ouça músicas e leia em voz alta durante a gravidez, como forma de estabelecer os primeiros vínculos com o bebê.

3. Olfato e paladar

O odor do útero é o primeiro que o feto reconhece e, logo após o nascimento, passa a distinguir os cheiros de quem está mais perto dele, como da mãe e do pai.

Já o paladar vai evoluindo aos poucos, especialmente depois dos seis meses, quando o bebê começa a comer frutas e papinhas.

Os sentidos químicos estão presentes anatômica e funcionalmente no final do primeiro trimestre e início do segundo trimestre de gestação (ALVES, TUBINO & TUBINO, 2016).

4. Visão

Esse é o último sentido desenvolvido pelas crianças e a função visual é imperfeita ao nascimento.

Recém-nascidos tendem a manter seus olhos fechados a maior parte do tempo, mas podem enxergar, responder a mudanças na iluminação e fixar pontos de contraste.

Alves, Tubino & Tubino (2016) reconhecem que as respostas à luz forte já acontecem com trinta semanas de gestação.

Para Wilheim (2013), o feto em desenvolvimento possui sensibilidade, percepção e características individuais que refletem as situações que atuam desde seu nascimento, podendo influenciar no amadurecimento psicoafetivo e biológico.

Ainda dentro do útero, o feto “expressa suas emoções de alegria, insatisfação, euforia e descontentamento de ações através de seus movimentos”.

Sendo assim, se a fase Fetal for afetada de forma negativa, com traumas e estresses, nota-se um comprometimento direto no comportamento que age nos receptores sensoriais.

Reich relaciona estas interferências com o primeiro segmento mapeado no corpo humano: a couraça ocular – que apesar do nome inclui outros sentidos, como pele, ouvido, nariz, além dos olhos.

Navarro (1996) cita que o feto:

“É capaz de ouvir (não de escutar), de ver (não de enxergar)”.

Rubem Alves (2005, p.22) traz uma perspectiva interessante sobre o tema e diz que “ver é muito complicado” e que “há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem”.

Alberto Caeiro (1993, p.75), um heterônimo criado por Fernando Pessoa, completa:

“Não basta abrir a janela / Para ver os campos e o rio. / Não é bastante não ser cego / Para ver as árvores e as flores. / (…) Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; / E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, / Que nunca é o que se vê quando se abre a janela”.

Voltando ao conceito de couraça, Reich indica como uma defesa associada ao quadro das neuroses de caráter, concebida primeiramente no âmbito psíquico e passa a ser considerada também no campo somático.

Para Almeida & Albertini (2014, p. 1):

“destinada a exercer função protetora, a couraça constitui algo natural e inevitável, porém essa estrutura pode chegar a comprometer o contato com o meio interno e externo, além de afetar a regulação libidinal do sujeito”.

Este bloqueio é caracterizado pelo medo, prejudicando a interpretação da realidade que é, segundo Navarro (1996), formador da caracterialidade Núcleo Psicótico.

De modo geral, neste traço de caráter, o indivíduo tem baixa energia e desorganizada (hipo-orgonótico desorgonótico), com dificuldade de contato físico e certa limitação de percepção do mundo à sua volta.

Pode-se observar, eventualmente, nos indivíduos com bloqueio nesse segmento, problemas de pele e deficiências da visão (miopia, astigmatismo, hipermetropia e presbiopia).

José Henrique Volpi (2021, p.274) resume que:

“a doença é a retenção da carga energética deixando a comunicação e sensação do organismo deficiente, diminuindo assim a sua funcionalidade”.

Ameaças ao desenvolvimento natural do organismo durante a gestação, quando afetado pelas condições de desafeto e até repulsa do útero materno, privam o feto do desenvolvimento essencial – físico, emocional e energético – estabelecendo uma couraça ocular, que reflete na dissociação na personalidade, promovendo doenças nos cinco sentidos e defesas primitivas para sobrevivência, como o isolamento e o fechamento de sua intimidade.

Cria-se, então, um estado somático cauteloso, que influenciará na organização do olhar, evitando o olho no olho, alterando também a forma de sentir e relacionar-se, sendo distante e superficial, como um abraço frouxo, podendo até não querer ser tocado.

A maneira de ver e perceber o mundo pode apresentar limitações, com ilusões sobre a realidade, até com algum grau de fantasia.

Em casos severos de pacientes Núcleo Psicóticos, o indivíduo vai dar preferência à razão sobre a emoção, com uma mente com pensamentos confusos ou sombrios, com falta de identificação com o próprio corpo (VOLPI, 2021, p.167).

E tudo isso pode ser evitado através de um olhar amoroso, cuidadoso e presente da mãe, como fonte de segurança e vínculo.

Em síntese, a mãe genitora, que nos deu à luz, é fonte de estabilidade, uma matriz de confiança que se ativa desde a fecundação.

E a maneira como esta mãe nos olha nos primeiros momentos da nossa vida vai formar o nosso olhar sobre todo o mundo que nos aguarda.

Referências

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014.
NAVARRO, Federico. Somatopsicopatologia. São Paulo: Summus, 1996.
VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara. Etapas do desenvolvimento emocional. Curitiba: Centro Reichiano, 2006. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos.htm.
ALVES, Elaine Maria de Oliveira; TUBINO, Paulo; TUBINO, Paulo Victor Alves. Órgãos dos sentidos. Desenvolvimento sensorial, 2016. Disponível em: https://docplayer.com.br/52141050-orgaos-dos-sentidos-desenvolvimento-sensorial.html
WILHEIM, Joanna. O que é psicologia pré-natal. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2013.
ALVES, Rubem. Educação dos Sentidos e mais… São Paulo: Versus, 2005.
CAEIRO, Alberto (Fernando Pessoa). Poemas Inconjuntos. Lisboa: Ática, 1993. 10ª ed.
ALMEIDA, Bruno Prates; ALBERTINI, Paulo. A noção de couraça na obra de Wilhelm Reich: publicações de 1920 a 1933. Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pusp/a/WKdhBTbRp4RVBy78zmNhRbS/?lang=pt
VOLPI, J. H. Sensação de órgão: elemento fundamental para a prática clínica da análise reichiana. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. (Org.). Apostila do curso de Especialização em Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2021.
VOLPI, J. H. Psicodinâmica caracterológica do Núcleo Psicótico. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. (Org.). Apostila do curso de Especialização em Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2021.
Sobre o(s) autor(es)

Valéria Pina

Graduada em Publicidade, Pós-Graduada em Arteterapia e em Gestão Escolar: Administração, Supervisão e Orientação. Terapeuta de Práticas Complementares e Integrativas da Saúde – PCIs. Professora de Yoga. Cursando Especialização em Psicologia Corporal, no Centro Reichiano – Curitiba/PR. valzinhapv@hotmail.com.br

José Henrique Volpi

Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psico-corporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. volpi@centroreichiano.com.br

Como citar este artigo:

PINA, Valéria; VOLPI, José Henrique. A conexão da couraça ocular com os cinco sentidos na formação do feto. Revista Científica Eletrônica de Psicologia Corporal, Curitiba, v. 22, p. 03-07, 2021. e-ISSN 3086-1438. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/artigos/a-conexao-da-couraca-ocular-com-os-cinco-sentidos-na-formacao-do-feto/. Acesso em: 04/06/2026.