A importância do corpo na psicoterapia
The importance of the body in psychotherapy
Resumo
Palavras-chave: Corpo; Couraça; Orgonomia; Potência orgástica; Sexualidade.
Abstract
Keywords: Body; Character Armor; Orgonomy; Orgastic Potency; Sexuality.
Introdução
Viver, para cada um de nós, segundo Bernard (2016), é uma assunção carnal dada num organismo estruturado em funções e capacidades que permitem o acesso ao mundo que nos é aberto à presença corporal de outros. Chegamos à vida através de um corpo, como tudo que gira à nossa volta. O Sistema Solar compreende o conjunto constituído pelo Sol e todos os corpos celestes que estão sob seu domínio gravitacional.
Viver o próprio corpo é ambivalente enquanto relação de fenômenos que se opõem mutuamente. O corpo, ao mesmo tempo em que exalta a vida, proclama a finitude essencial que é a morte. O corpo enquanto órgão do possível é concomitantemente a marca do inevitável. E assim vivencia sensações de ambivalência o tempo todo.
Viver é uma constante relação entre corpos. Vivemos em um mundo de corpos animados e inanimados. Corpos em estado sólido, líquido e gasoso. A vida de um corpo é um processo temporal e, segundo Reich (apud Navarro,1996), não tem objetivos, simplesmente funciona, é um devir, que mesmo parecendo um progresso no tempo, para nós, humanos, não há o que falar em futuro. O tempo é, nada mais, nada além, de um contínuo e progressivo presente ligado ao Universo, que sempre existiu e, segundo Lavoisier, existirá.
Assim, neste contexto dissertativo, não há como separar corpo e mente. O corpo humano é unidade física e mental, psique e soma um misto de reações fisiológicas, bioquímicas, energéticas em relação com o ambiente, composto de água e ar. Damásio (1998) demonstra com a neurociência o erro de Descartes em separar corpo e mente, embora Spinoza (apud Navarro,1996) há muito já tivesse apontado para o fato de ser impossível um sujeito poder pensar dispensando o corpo e experimentar emoções que não invadam a consciência.
A dialética entre o homem e o ambiente são questões que norteiam o comportamento humano. E o comportamento humano é o objeto de estudo da psicologia. Há milênios palavras como temperamento, personalidade e caráter, são termos utilizados pelos estudiosos desde a antiguidade. O raciocínio e ideias que formam o pensamento humano se originam de processos que ocorrem entre a conformação do cérebro e do sistema nervoso, se consubstanciam através de um processo corporal.
Segundo Volpi (2020), enquanto o temperamento dos indivíduos é biológico, influenciado pela genética e dotado de características fisiológicas, a personalidade humana é formadora do mundo interno psíquico do sujeito enquanto produto do ambiente social. Daí surge uma relação que abrange questões relacionais interligadas cronológica e culturalmente.
Psicologia, sexualidade e repressão
> Um rápido crepúsculo se teria seguido à luz meridiana, até as noites monótonas da burguesia vitoriana. A sexualidade é, então, cuidadosamente encerrada. Muda-se para dentro de casa. A família conjugal a confisca. E absorve-a, inteiramente, na seriedade da função de reproduzir. Em torno do sexo, se cala. O casal, legítimo e procriador, dita a lei. Impõe-se como modelo, faz reinar a norma, detém a verdade, guarda o direito de falar, reservando-se o princípio do segredo. No espaço social, como no coração de cada moradia, um único lugar de sexualidade reconhecida, mas utilitário e fecundo: o quarto dos pais. Ao que sobra só resta encobrir-se; o decoro das atitudes esconde os corpos, a decência das palavras limpa os discursos. E se o estéril insiste, e se mostra demasiadamente, vira anormal: receberá este status e deverá pagar as sanções (Foucault, 1999, p.09).
Na civilização ocidental, cujo primeiro e mais importante dos interditos é a proibição do incesto, que estabelece a passagem do sexo natural ao sexo cultural. A repressão sexual segundo Chauí (1984), também é fato muito antigo, embora, enquanto conceito, o seu estudo de forma explícita date do século XIX. Controle, proibição e permissão de sexo são práticas muito antigas, ao contrário da pequisa e surgimento da palavra sexualidade. Esta, ainda mais recente, onde o termo sexo passa a ser diferenciado enquanto necessidade, prazer e desejo e não mais apenas como função de reprodução, mas enquanto um fenômeno que revela desde sensações inesperadas até gestos, palavras, afetos, sonhos, humor, erros, esquecimentos, tristezas, atividades sociais, as quais, numa visão superficial, nada teriam de sexual.
Sigmund Freud, nas últimas décadas do século XIX retomou a discussão acerca do sexo. Conforme Roudinesco e Plon (1998), ele consolidou a Psicanálise enquanto técnica terapêutica através da sua Teoria da Libido – o inconsciente, o Complexo de Édipo, a resistência, o recalque e a sexualidade.
Wilhelm Reich, um jovem que, em 1919, organizava o Seminário de Sexologia de Viena na faculdade de medicina onde estava se formando e, desde aquela época, já trazia questões acerca de que a sexualidade era um núcleo em torno do qual girava a vida íntima e social do indivíduo.
Em 1920, ele descobre em suas leituras que há mais alguém que parece pensar parecido e resolve fazer sua primeira visita a nada mais nada menos que o Dr. Sigmund Freud. Naquele mesmo ano Reich ingressa, ainda estudante, na Sociedade Psicanalítica de Viena, fundada por Freud.
Reich: novas buscas em psicoterapia
> Em uma entrevista a dois de seus alunos, Reich menciona: (…) A libido é a energia modelada pela sociedade… A criança traz consigo uma certa quantidade de energia. O mundo se apodera da mesma e a modela. Assim o senhor tem, no mesmo organismo, o sociológico e o biológico (Higgins e Raphael, 1972, p. 23).
Wilhelm Reich (1897 – 1957) nasceu no dia 24 de março na parte germano-ucraniana da Áustria, filho de um abastado agricultor, proprietário de cerca de 1.000 acres de terra. Aponta Raknes (1970), que a língua materna de Reich foi o alemão e que, de 1903 a 1907, foi instruído por um professor particular austro-germânico ao mesmo tempo em que era submetido a todos os exames regulares de uma escola pública austro-germânica.
Narra que, conforme palavras do próprio Reich, ele foi uma criança com interesse pela Biologia e pelas Ciências Naturais, que dos oito aos doze anos colecionava e criava borboletas, insetos, plantas etc., sob a orientação do seu professor particular. Dizia também que a função natural da vida, incluindo a sexual, lhe foram familiares desde a infância e que, muito provavelmente, daí venha o seu interesse como médico psiquiatra pelo fundamento biológico da vida emocional, assim como suas descobertas biofísicas nos campos da Medicina, da Biologia e da Educação.
Quando irrompe a Primeira Guerra Mundial, Reich seguiu para prestar o serviço militar e, ao retornar, ingressa na Faculdade de Medicina da Universidade de Viena em 1918.
Durante a faculdade Reich estagiou junto à Clínica Universitária, bem como no Hospital da Universidade. Já no seu segundo ano de universidade, em 1919, Reich organizou e tornou-se diretor do Seminário de Sexologia para os estudantes de medicina em Viena. No ano seguinte, depois de realizar um breve treinamento analítico com o doutor Paul Federn, tornou-se membro da Sociedade Psicanalítica Vienense, dirigida à época pelo professor Sigmund Freud.
Reich, 41 anos mais jovem do que Freud, conheceu sua teoria já estruturada e estabelecida na utilização do método da associação livre e da interpretação de sonhos. Porém, ao longo de sua atuação clínica, passou a observar que tais métodos não se mantinham.
Segundo Raknes (1970), Reich trabalhou como primeiro assistente de Freud durante seis anos na Clínica Psicanalítica, fundada em 1922, em Viena, e dedicada a pessoas de baixa renda, sendo que, nos últimos dois anos foi o vice-diretor. Lá, ele não se limitava apenas ao atendimento gratuito à população, mas ao fomento de uma clínica educacional, de forma a orientar pacientes com distúrbios sexuais, fato que confirmava a primazia da sexualidade na psicogênese das neuroses.
Para ele, os estudos de caso eram fundamentais na obtenção do domínio técnico e, assim, se destacou por aprofundar a compreensão acerca da função terapêutica da genitalidade.
Diante dos membros da Sociedade Psicanalítica de Viena, da qual fazia parte e, em discordância do que ali se sustentava, a compreensão de Reich (1975) acerca da potência orgástica não era a potência de ereção, ligada à capacidade quantitativa de ejaculação, mas sim a uma capacidade de abandonar-se, “livre de quaisquer inibições, ao fluxo de energia biológica; a capacidade de descarregar completamente a excitação sexual reprimida, por meio de involuntárias e agradáveis convulsões do corpo” (ibidem, p. 55).
Reich descobriu que a libido era muito mais do que um conceito psíquico, mas uma energia concreta, presente no corpo. Segundo Baker (1980), Reich acreditava que no prazer haveria uma corrente elétrica na superfície da pele e, mais tarde, utilizou-se de um galvanômetro para constatar a existência de carga no corpo humano, e pode concluir que quanto maior o prazer, mais forte era a carga registrada no aparelho, ao passo que, em situações desagradáveis, essa corrente desaparecia.
A Economia Sexual apresentada por Reich demonstra que o rompimento da estase libidinal é uma função genital capaz de descarregar energia, que inclui convulsões generalizadas em todo o corpo e perda temporária da consciência, inscrita em sua fórmula do orgasmo, processo em quatro tempos, conforme Reich descreve:
**Tensão mecânica → carga elétrica → descarga elétrica → relaxação mecânica**
A teoria corporal reichiana – da análise do caráter à orgonomia
Em sua obra *Análise do Caráter*, Reich (1998) apresenta alguns tipos de caráter que se formam como couraças contra os estímulos do mundo externo e as pulsões internas recalcadas.
A prática clínica da análise do caráter é um trabalho orientado para o corpo, que traz à tona processos emocionais ancorados no corpo do analisando e que se expressam através do seu corpo.
Ao longo de suas pesquisas, Reich observou amebas vivas em microscópio constatando que quando esses seres unicelulares são submetidos a pequenos estímulos elétricos desagradáveis, os quais lhes provoca uma “emoção”, causadora de uma “remoção” do protoplasma da periferia para o centro do organismo, e compara essas duas direções fundamentais da corrente plasmática biofísica ao prazer e a angústia.
Dessa forma, Reich constatou que um organismo vivo, em situação constante de angústia causada por estímulos externos desagradáveis, é capaz de criar defesas, ou seja, um movimento interno que tem como resultado uma contração muscular a que ele chamou de couraça.
Baker (1980), explica que a couraça se divide em dois tipos: as contrações musculares temporárias ou naturais e as contrações musculares permanentes ou crônicas, que funcionam como uma verdadeira armadura.
A Análise do Caráter vai deixando de ser uma abordagem somente psicológica, dando origem à vegetoterapia caracteroanalítica, onde aparelho físico e psíquico estão inclusos em um único conceito.
A clínica de Reich foi amalgamada a seus estudos de laboratório – o funcionalismo orgonômico – uma sucessão dialética de descobertas baseadas na evidência do que ele chamou de linguagem expressiva da vida.
Reich iniciou pesquisa da matéria orgânica e inorgânica, encontrando culturas que apresentavam uma certa quantidade de energia biológica, a que chamou de bions, emissores de uma energia presente em pequenas vesículas azuis. A essa energia, Reich chamou de orgônio.
Vegetoterapia caracteroanalítica
A vegetoterapia era, lá pelos meados dos anos 30, a clínica reichiana que possuía um tipo de manejo de flexibilização das couraças correspondentes aos traços de caráter definidos por Reich.
Para tanto, ele criou um mapeamento emocional do corpo humano em sete segmentos anelares, onde se trabalha a anulação da rigidez a fim de liberar a energia vegetativa, de forma progressiva, do primeiro até o sétimo nível.
Ola Raknes foi um dos responsáveis por transmitir os conhecimentos reichianos após a morte de Reich. Posteriormente, Federico Navarro sistematizou a metodologia da vegetoterapia clássica.
Segundo Navarro (1996), a vegetoterapia utiliza movimentos específicos denominados actings, movimentos que são propostos ao paciente e que atuam diretamente sobre o sistema neurovegetativo.
O trabalho rigoroso de desbloqueio das couraças parte do primeiro segmento (ocular) em direção ao último (pélvico), seguindo a sequência:
* ocular;
* oral;
* cervical;
* torácico;
* diafragmático;
* abdominal;
* pélvico.
Pós-reichianos e neorreichianos
A partir dos ensinamentos de Wilhelm Reich, outras escolas foram se formando. Algumas seguiram sua metodologia e são chamadas de pós-reichianas. Outras realizaram modificações teóricas e práticas, tornando-se conhecidas como neorreichianas.
Entre elas destacam-se:
* Análise Bioenergética;
* Psicologia Biodinâmica;
* Biossíntese.
A Bioenergética, desenvolvida por Alexander Lowen, manteve a ênfase na respiração e na dissolução das tensões musculares crônicas. Uma de suas maiores contribuições foi o conceito de grounding, que busca restaurar o contato do indivíduo com seu corpo e com a realidade.
A Biodinâmica, criada por Gerda Boyesen, enfatiza o trabalho corporal através de movimentos e massagens específicas, buscando restaurar a capacidade de autorregulação do organismo.
Já a Biossíntese, criada por David Boadella, integra conceitos reichianos, biodinâmicos e bioenergéticos, propondo a reintegração entre pensamento, emoção e ação.
Conclusão
A psicologia psicanalítica freudiana foi o ponto de partida indispensável para a construção da psicologia corporal reichiana. A partir dela, Reich desenvolveu a teoria da economia sexual, a análise do caráter, a vegetoterapia e a orgonomia.
Na psicologia corporal não há como dividir ou particionar o ser humano. O corpo é único, é sensação, é vida pulsante, em constante relação com o ambiente.
A psicoterapia corporal reichiana, em suas diversas abordagens, tem como meta restabelecer a autorregulação biológica natural, estimulando em cada indivíduo sua capacidade de compreender, criar e amar.
Como conclui Reich: ““Amor, trabalho e conhecimento são as fontes de nossa vida. Deveriam também governá-la.” (REICH, 1988, p. 07)
Referências
BERNARD, Michel. *O corpo*. Rio de Janeiro: Apicuri, 2016.
BOADELLA, David. *O que é Biossíntese?* Curitiba: Centro Reichiano, 2021.
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VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara. *Reich: da psicanálise à análise do caráter*. Curitiba: Centro Reichiano, 2003.
Sobre o(s) autor(es)
Maria Tereza Faria
Psicóloga (CRP-05/66486) (USU). Bacharel em Comunicação Visual (UFRJ). Bacharel em Letras (UFRJ). Bacharel em Direito (UNESA). Especialização em Psicologia Corporal, no Centro Reichiano – Curitiba/PR. mtfr@me.com
José Henrique Volpi
Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psico-corporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. volpi@centroreichiano.com.br