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Quem foi Wilhelm Reich? Um retrato falado pela historiografia psicanalítica oficial

Who was Wilhelm Reich? A portrait drawn by official psychoanalytic historiography


José Felipe Rodriguez de Sá
Centro Reichiano · Salvador-BA · Brasil
Revista Científica Eletrônica de Psicologia Corporal
v. 22 · 2021 · p. 59–67 · e-ISSN 3086-1438

Resumo

De pioneiro da terapia corporal a ícone da contracultura, o legado de Wilhelm Reich é vasto. O nosso objetivo é centrar num momento específico da trajetória de Reich: a sua vivência como psicanalista. Qual é o status de Reich na historiografia oficial do movimento? Foi Reich, como muitos dissidentes da Psicanálise, marginalizado e suas contribuições depreciadas? A investigação nos leva a Elisabeth Roudinesco, Ernest Jones e Peter Gay, além do brasileiro Renato Mezan. Os estratagemas dos biógrafos pró-freudianos variam bastante. Vão de varrer Reich da história até taxá-lo de louco, perverso ou paranoico. Apesar disso, nota-se que as contribuições de Reich ao movimento estão sendo, aos poucos, aceitas.

Palavras-chave: Análise do Caráter; Freudo-marxismo; Psicanálise; Wilhelm Reich.


Abstract

From pioneer of body psychotherapy to countercultural icon, Wilhelm Reich's legacy is vast and multifaceted. This article focuses on a specific period of Reich's trajectory: his experience as a psychoanalyst. It examines Reich's status within the official historiography of the psychoanalytic movement and investigates whether, like many dissidents of psychoanalysis, he was marginalized and had his contributions depreciated. Drawing upon authors such as Elisabeth Roudinesco, Ernest Jones, Peter Gay, and Renato Mezan, the study analyzes the strategies employed by pro-Freudian biographers, ranging from minimizing Reich's role to portraying him as irrational or pathological. Despite this, the article argues that Reich's contributions are gradually gaining broader recognition.

Keywords: Character Analysis; Freudo-Marxism; Psychoanalysis; Wilhelm Reich.


Como atesta Turner (2011), é vasto o legado de Wilhelm Reich. Em primeiro lugar, é ainda o maior nome da Psicologia corporal, da qual saíram tantas outras abordagens, entre elas a Bioenergética de Alexander Lowen. As inovações técnicas da análise do caráter foram também cruciais para a evolução da Psicologia do ego e da Gestalt-terapia. Foi o de facto criador do freud-marxismo, levado adiante pela Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer, Marcuse, etc.) e o neofreudismo de Karen Horney e Erich Fromm. Mais tarde, quando a “revolução sexual” varreu o mundo, foi o herói da contracultura.

Mas… Quem foi o Reich da Psicanálise? O melhor analista da segunda geração? Ou foi um comunista fanático, louco ensandecido, pronto para incendiar metade da Terra com a sua anarquia sexual? Qual foi retrato para a posteridade deixado por Reich, na historiografia oficial da Psicanálise?

O critério inicial de seleção da bibliografia foi o número de citações registradas no Google Acadêmico. A priori, pesquisamos dois tipos de obra: as biografias de Sigmund Freud e os dicionários de Psicanálise. Para complementar as leituras, escolhemos obras seletas de Reich (1925/2009, 1933/1988), Webster (1999), Robinson (1971) e Turner (2011), além de uma entrevista de Elisabeth Roudinesco a Milan (2016) e um artigo de Rubim (1998), filha de Wilhelm Reich. Por fim, incluímos também o livro O tronco e os ramos: Estudos de história da psicanálise, escrito por Renato Mezan, ganhador do Prêmio Jabuti de 2015 na categoria Psicologia, Psicanálise e Comportamento. Mezan é Professor Titular do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP.

Ernest Jones – A vida e a obra de Sigmund Freud (1961)

Segundo Webster (1999), a primeira grande biografia de Freud foi a de Ernest Jones, um membro-fundador do movimento psicanalítico. Vida e obra de Sigmund Freud é, inclusive, considerada a biografia oficial do pai da Psicanálise. Apesar de toda a aclamação, é notável sua narrativa tendenciosa. Jones (1961/1979) exagerou no zelo e dotou o Herr Professor de uma grandeza de caráter quase sobre-humana. E assim foi criada a “lenda freudiana”, com Jones (1961/1979) no front, defendendo Freud dos críticos e dos boatos.

Para manter essa imagem idealizada, Jones (1961/1979) omitiu vários episódios constrangedores da vida de Freud. Portanto, é sintomático que nas suas quase 800 páginas de prosa, a biografia de Jones (1961/1979) pouco mencione Wilhelm Reich. Jones (1961/1979) atesta que Freud o tinha em alta conta. O “fanatismo político” de Reich, no entanto, o teria alienado da direção do movimento psicanalítico. Um exemplo disso é a visão marxista de Reich da pulsão de morte; para ele, ela era um produto do sistema capitalista. Freud achou essa crítica “sem sentido”.

Exemplo mais impactante da “lenda freudiana” de Jones (1961/1979) foi a história de Reich ter se demitido da IPA (International Psychoanalytical Association). Lore Reich Rubim, filha de Wilhelm Reich, tem outra versão para essa história. Segundo Rubim (1998), de membro mais jovem da Sociedade de Viena, seu pai chegou à direção da Clínica Psicanalítica de Viena. Essa trajetória meteórica nos círculos psicanalíticos atraiu admiradores – entre eles, o próprio Freud – e inimigos astutos. Uma contratransferência violenta de Paul Federn, seu ex-analista, iniciou um padrão de calúnias e meias-verdades que acompanhariam Reich pelo resto de sua vida. Federn passaria anos tentando convencer Freud a livrar-se de Reich. Foi o começo dos boatos sobre a saúde mental de Reich. Ou melhor: a falta dela. Com muita insistência, Federn conseguiu o seu objetivo.

Rubim (1998) revela que seu pai desenvolveu uma profunda depressão pelo estado das coisas em Viena. A sua solução, primeiro, foi desenvolver a análise do caráter, em reação à desastrosa condução de Federn no seu processo analítico. A segunda foi o seu mergulho no universo político, aproximando-se de grupos socialistas e comunistas. Em 1930, mudou-se para Berlim, em parte para combater a crescente influência dos nazistas. Com a ascensão de Hitler na Alemanha, em 1933, Freud pediu urgência no afastamento de Reich. Queria evitar que Reich fosse preso num instituto psicanalítico, devido às suas convicções ideológicas. Reich se demitiu por cortesia, apesar de haver suspeitas de que isso teria sido solicitado diretamente a ele. No ano seguinte, teve o seu acesso barrado no congresso psicanalítico de Zurich. Confirmava-se a sua expulsão do movimento.

Peter Gay – Freud: Uma vida para o nosso tempo (1988)

Segundo Webster (1999), a outra grande biografia de Freud foi a escrita pelo historiador – e psicanalista – Peter Gay. Apesar de incluir material novo em relação à obra de Jones (1961/1979), Gay (1988/2012) adota o seu mesmo tom reverencial. Por isso Freud: Uma vida para o nosso tempo soa, muitas vezes, como uma versão atualizada da “lenda freudiana”.

E Wilhelm Reich? Se Jones (1961/1979) foi omisso quanto às suas contribuições, a biografia de Gay (1988/2012) foi além. Nela, não há uma única menção à Reich.

Elisabeth Roudinesco e Michel Plon – Dicionário da Psicanálise (1997)

Dos dicionários de Psicanálise em português, o de Roudinesco e Plon (1998) é o mais citado. Segundo o Google Acadêmico, ele é referenciado em dois mil trabalhos. A sua coautora Elisabeth Roudinesco é uma historiadora e psicanalista francesa de renome internacional.

O parecer de Roudinesco e Plon (1998) das contribuições de Reich à Psicanálise é mais ponderado do que a de seus antecessores. Roudinesco e Plon (1998, p. 650) admitem que Wilhelm Reich foi o “maior dissidente da segunda geração freudiana”. E que, de fato, o trajeto de Reich dentro da Psicanálise “foi narrado de forma caricatural pela historiografia oficial”, dizem Roudinesco e Plon (1998, p. 651).

Roudinesco e Plon (1998) também revelam mais detalhes da “demissão-sob-pressão” de Reich. Apesar da sua importância histórica como corrente intelectual, o freudo-marxismo nunca foi aceito pela IPA. Com Ernest Jones no comando, a perseguição a freudianos simpatizantes de Marx recrudesceu. Foi nesse período que os Freuds, junto com Jones, manobraram para expulsar Reich da IPA. A triste verdade é que Ernest Jones compactuou com o Nazismo para salvar a Psicanálise na Alemanha. A marginalização da ala esquerdista da Psicanálise foi parte dessa estratégia política.

Roudinesco e Plon (1998), no entanto, não se furtam de criticar Reich. Fazem um sutil ataque ad hominem, comparando-o com Wilhelm Fliess e Otto Gross. O primeiro, colega de profissão e grande amigo de Freud, viu o nascimento da Psicanálise de perto. A correspondência deles é atravessada pelos casos clínicos de Freud, além da redação de A interpretação dos sonhos, a obra inaugural da Psicanálise. Das ideias do médico de Berlim, Roudinesco e Plon (1998, p. 651) falam de suas “teses extravagantes e inovadoras” sobre a sexualidade humana e da “teoria mística”, de bases darwinianas e biológicas, que as sustentavam. A amizade dos dois ruiu na virada do século. O impacto dessa ruptura foi tal que Freud destruiu toda a sua correspondência com Fliess.

Quanto ao escandaloso Dr. Gross: Roudinesco e Plon (1998) retratam-no como um depravado, um toxicômano, um doente mental. De sobra, as suas teorias eram tão fantásticas quanto as do Dr. Fliess. Gross, na descrição de Roudinesco e Plon (1998), vivia em busca de um “Eros cosmogônico” inspirado tanto pelo matriarcado de J. J. Bachofen quanto pelo dionisíaco em Nietzsche. Em suma: uma bomba-relógio. A sua associação com a Psicanálise era um perigo para o movimento.

Teorias cripto-religiosas, libido desbragada e tendências à loucura. Em conjunto, é o suficiente para abalar qualquer reputação… Que dirá a de um cientista sério. É por isso que, quanto a Reich, a impressão deixada pelo dicionário de Roudinesco e Plon (1998) é de um character assassination. Como vimos, fazem censuras indiretas à Reich via aproximações com Gross e Fliess. Na próxima seção vai ser investigado o quanto esses links, feitos por Roudinesco e Plon (1998), são, de fato, pertinentes.

Elisabeth Roudinesco – Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo (2014)

Numa entrevista cedida à Milan (2016), Roudinesco revelou as suas razões para escrever uma nova biografia sobre Freud. A Biblioteca do Congresso de Washington D.C. recentemente liberou uma leva inédita da correspondência de Freud, guardada nos seus arquivos. Aproveitando a oportunidade, Roudinesco quis fazer uma biografia com um diferencial, focando nos aspectos “novos” e desconhecidos da história de Freud.

O objetivo principal da biografia de Roudinesco, no entanto, foi remediar a situação do legado freudiano no mundo anglófono. Há décadas a Psicanálise sofre pelas críticas cerradas dos historiadores norte-americanos. Como disse à Milan (2016, p. 389), Roudinesco estava preocupada com a “recrudescência da ignorância” em torno da figura de Freud. Pretendia, ainda, “invalidar” os “vários rumores” que continuavam a surgir em torno do pai da Psicanálise (MILAN, 2016, p. 388).

Cum grano salis, nota-se a semelhança desse discurso com a “lenda freudiana” de Jones (1961/1979), mesmo décadas depois. Não é à toa que Roudinesco (2016, p. 478) descreve a biografia autorizada de Freud como “uma obra magistral”. Porém, admite as falhas humanas de seu autor. Cita o caso de Jones tentando colaborar com o Terceiro Reich para salvar a Psicanálise na Alemanha. Roudinesco (2016) admite, novamente, o péssimo tratamento que os primeiros dissidentes da Psicanálise tiveram, incluindo Wilhelm Reich. Tudo em nome do seu Freud mitológico, misto de cientista e herói romântico.

Quanto ao tema da esquerda freudiana, Roudinesco (2016) aponta que Reich era especialmente incômodo para a IPA. Além do seu “bolchevismo”, tinha a insistência na genitalidade (como antítese da sexualidade burguesa) e suas atividades na Sexpol.[1]  Em suma, Roudinesco (2016, p. 402-403) diz que Freud temia Reich pela:

…sua loucura, sua celebridade e seu engajamento político. Quanto a seus discípulos, fizeram tudo para se livrar de um homem que incomodava por seu inconformismo, abalava as suas convicções e reatava com as origens fliessianas da doutrina freudiana, cuja importância eles buscavam relativizar (ROUDINESCO, 2016, p. 402-403).

Nesse ponto Roudinesco (2016) volta a comparar Reich com Wilhelm Fliess e Otto Gross, os dois “médicos loucos” da história da Psicanálise. Roudinesco (2016) se aprofunda na história de ambos. Fica mais claro o porquê dela associar esses três.

Freud e Fliess, de início, se aproximaram pelo interesse no darwinismo e pela dita escola de Helmholtz.[2] O médico berlinense tornou-se amigo íntimo e interlocutor de Freud. Acompanhou de perto, de acordo com Roudinesco (2016, p. 72), a transição de Freud “da neurologia à psicologia”. Ou seja: a separação do psíquico e do orgânico. Por sua vez, a teoria da bissexualidade de Fliess afetaria todo o trajeto teórico da Psicanálise. Freud era fascinado pelas especulações “delirantes” do amigo, cuja influência se esforçou para apagar nos anos vindouros.

Já o Dr. Gross defendia, nas palavras de Roudinesco (2016, p. 160), o “hedonismo, o prazer, o matriarcado, os anormais, o feminismo, a revolta das mulheres”. Roudinesco (2016, Ibid.) acusou Reich de retomar esse “culto” de “êxtase” e de “imoralismo sexual” praticado por Gross “sob outra perspectiva”. Para Roudinesco (2016), as ideias radicais de Gross tinham, no fundo, origem num complexo paterno.

De acordo com Turner (2011), Reich sempre deixou claro que era a favor da liberdade sexual, mas não da libertinagem. Era contra a pornografia, por exemplo, e sempre enfatizou a importância da interligação entre sexualidade e afeto. É bem diferente do retrato pintado por Roudinesco (2016) de Otto Gross: um anarquista sexual, um depravado, cujo radicalismo poderia prejudicar o movimento. Vale a citação de Robinson (1971, p. 57): “Reich parecia temer os seus pretensos admiradores ainda mais do que seus críticos. Era torturado pela ideia de que homens com espírito sórdido abusassem da autoridade dele” com o objetivo de disseminar uma pansexualidade global.

Roudinesco (2016, p. 414) fala do exílio de Reich na Noruega e como, a partir desse momento, ele “começou a se sentir ainda mais perseguido e sua paranoia recrudesceu”. Anteriormente, Roudinesco e Plon (1998) sugeriram que a paranoia de Reich era de ordem eminentemente pessoal. Em outras palavras, um “complexo de perseguição”. Essa “análise selvagem” minimiza o impacto real das perseguições a Reich a partir dos meados de 1930.

Como atesta Turner (2011), Reich foi expulso tanto da IPA quanto do Partido Comunista Alemão por suas atividades “subversivas”. Logo fugiria da Alemanha após a ascensão do Partido Nazista, por ser judeu e por suas inclinações políticas. Voltou a morar em Viena, mas foi marginalizado tanto pelos psicanalistas quanto pelos comunistas austríacos. Passou um tempo na Escandinávia, mas ataques constantes da imprensa fascista e do Partido Comunista forçaram-no a abandonar a Europa. Mudou-se para os Estados Unidos em 1940. No ano seguinte, quando os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha, passou um mês preso. O motivo: o FBI confundiu Wilhelm Reich com William Reich, notório agitador comunista. O evento que selou o destino de Reich foram as matérias escritas pela jornalista Mildred Edie Brady. Em linhas gerais, a descrição feita por Brady de Reich e seu trabalho lembram as de Roudinesco e Plon (1998): Reich, o “cientista maluco” que fundou um culto de anarquia sexual. Foram essas matérias que iniciaram as investigações da FDA (Food and Drug Administration). Reich acabaria preso e, lá no cárcere, encontraria o seu triste fim.

Renato Mezan – O tronco e as árvores (2014)

Mezan (2019) ressaltou a importante participação de Wilhelm Reich na “era dos debates” da década de 1920. Como membro da segunda geração da Sociedade de Viena, Reich fomentou discussões técnicas que mudaram os rumos da Psicanálise. Por isso, Mezan (2019) elogia a originalidade de Reich, ao fazer o analista prestar atenção na expressão corporal do paciente: os silêncios, o sorriso, a fala… Os gestos em geral.

No entanto, Mezan (2019) aponta que as inovações reichianas foram incorporadas às avessas no mainstream psicanalítico. Em outras palavras, as polêmicas em torno da análise do caráter deram forma à “psicologia do ego”. A orientação do movimento foi dada por Anna Freud na publicação do seu livro O ego e os mecanismos de defesa. Foi, de acordo com Mezan (2019), o presente que Freud (1936/2006) deu ao seu pai, no seu aniversário de 80 anos. Mezan (2019) ainda argumenta que a abordagem de Freud (1936/2006) era mais “abrangente” do que a análise do caráter de Reich (1933/1998), apesar de não explicar bem o porquê disso.

Foi nesse período da “era dos debates” que a institucionalização da Psicanálise aconteceu. Curiosamente, Mezan (2019) não relaciona isso ao afastamento de Reich da IPA. Repete a lenda freudiana da “demissão” de Reich, sem detalhar as pressões que ele sofria dentro do movimento. Ainda segundo Mezan (2019), a análise do caráter alienaria as grandes escolas psicanalíticas do universo anglo-saxão: a psicologia do ego norte-americana e os kleinianos ingleses.

Ainda sobre o tema técnica, Mezan (2019) critica o “esquematismo” de Wilhelm Reich. Considera a análise do caráter uma “saída fácil” para o trabalho árduo do setting analítico. Compara a análise de caráter, junto com a tipologia Jungiana de introversão / extroversão, à teoria humoral do “pai” da medicina, Hipócrates. É coincidência Mezan (2019) associar duas personae non gratae da Psicanálise com uma teoria obsoleta e pseudocientífica?

Mezan (2019) não discute outra grande contribuição de Reich à história da Psicanálise. Ele atribui à Helen Deutsch o pioneirismo dos estudos sobre a personalidade borderline. Na verdade, Reich (1925/2009) foi o primeiro tratar desse transtorno no livro O caráter impulsivo. Rubim (1998) revela, inclusive, que Deutsch aproveitava bastante os seminários de técnica dados por Reich. Não seria daí que tirou os seus primeiros insights a respeito da “personalidade limítrofe”?

Discussão

A essa altura, ficam evidentes as linhas gerais do revisionismo histórico freudiano. Com Ernest Jones e Peter Gay, a tática de pecar pela omissão. Já a de Elisabeth Roudinesco é conflacionar Reich com Fliess e Otto Gross. Assim, transfere as piores qualidades dos dois para Reich. De um lado, os “delírios fascinantes” de Fliess. Seria isso um ataque à ciência da orgonomia? Outra forma de taxá-lo (aquela velha acusação) de louco? E não nos esqueçamos do pandemônio sexual de Otto Gross. Primeiro, confunde-se a profilaxia reichiana com a abjeção completa. E, segundo: reduz-se a reforma sexual defendida por Reich – uma luta coletiva – a um trauma infantil. Isso fica claro quando Roudinesco e Plon (1998, p. 320) estranham a falta de homenagem de Reich a Otto Gross, “essa figura maldita da revolta anti-autoritária”. E sabemos onde começa a rebelião de Otto: o conflito Edipiano com Gross sênior. É a análise freudiana na sua versão mais caricata: reduz tudo ao “drama familiar”.

À primeira vista, o teor das críticas de Mezan (2019) parece um meio termo entre as abordagens anteriores. Ele comenta sobre a importância da práxis reichiana para a Psicanálise, à la Roudinesco e Plon (1998). Porém, repete a lenda de Jones (1961/1979) a respeito da demissão de Reich. De diferente, Mezan (2019) não mergulha nas insinuações sobre as tendências orgiásticas e esquizofrênicas de Reich. Traz também novas críticas: o “esquematismo” e a (suposta) inferioridade da análise do caráter frente à psicologia do ego.

Considerações finais

A história nos mostra como a quebra com a ortodoxia psicanalítica pode ser traumática. O destino desses dissidentes varia. Alguns, com o passar dos anos, voltam ao panteão da Psicanálise (Sándor Ferenczi e Otto Rank vêm à mente). Outros serão eternos “Caims”. É o caso de Alfred Adler, Carl Gustav Jung e – é claro – Wilhelm Reich.

Mas, a imagem de Reich tem mudado na historiografia freudiana. Das omissões de Jones (1961/1979) e Gay (1988/2012), temos o tímido reconhecimento da força do pensamento reichiano por Roudinesco (2016) e Mezan (2019). Quem sabe ainda leremos uma história menos partidária da Psicanálise? Com mais fatos e menos lendas, Reich terá o lugar que merece entre os grandes da Psicanálise.

Notas

[1] A Sexpol (Sex-Political) foi a organização fundada por Reich na Alemanha. Tinha como objetivo por em prática as teorias e técnicas da Psicanálise num campo social mais amplo. De acordo com Higgins e Raphael (1967), a Sexpol chegou a ter 50 mil membros no seu auge, incluindo crianças e adolescentes. Apesar de seu alcance, encontrou resistência tanto no campo psicanalítico quanto no comunista. Os analistas estranharam o foco nas causas sociopolíticas das neuroses. Os comunistas pouco se importaram com as metas de saúde física e mental da organização; só viram o Sexpol como ferramenta de influência política.

[2] De acordo com Roudinesco e Plon (1998), a “escola de Helmholtz” foi batizada em homenagem à Herman Helmholtz, médico prussiano. Antifilosófica e positivista, ela só considerava a influência das forças físicas e químicas que podem ser medidas e quantificadas no organismo humano. Essa escola teve um impacto profundo no desenvolvimento da doutrina psicanalítica.

Referências

FREUD, Anna. O ego e os mecanismos de defesa. Porto Alegre: Artmed, 2006. (Trabalho original publicado em 1936).
 
GAY, Peter. Freud: Uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. (Trabalho original publicado em 1988).
 
HIGGINS, Mary; RAPHAEL, Chester M. (Eds.). Reich speaks of Freud: Wilhelm Reich discusses his work and his relationship with Sigmund Freud. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1967.
 
JONES, Ernest. A vida e obra de Sigmund Freud. Rio de Janeiro, RJ: Zahar, 1979. (Trabalho original publicado em 1961).
 
MEZAN, Renato. O tronco e os ramos: Estudos de história da psicanálise. São Paulo: Blucher, 2019.
 
MILAN, Betty. Entrevista com Elisabeth Roudinesco. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 19, n. 3, p. 388-402, jul./set. 2016.
 
REICH, Wilhelm. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1998. (Trabalho original publicado em 1933).
 
REICH, Wilhelm. O caráter impulsivo: Um estudo psicanalítico da patologia do ego. São Paulo: Martins Fontes, 2009. (Trabalho original publicado em 1925).
 
ROBINSON, Paul A. A esquerda freudiana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.
 
ROUDINESCO, Elisabeth. Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2016.
 
ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
 
RUBIM, Lore Reich. Wilhelm Reich e Anna Freud: Sua expulsão da psicanálise. In: Revista da Sociedade Wilhelm Reich. Porto Alegre: SWRRS, 1998, p. 4-14.
 
TURNER, Christopher. Adventures in orgasmatron: The invention of sex. London: Fourth Estate, 2011.
 
WEBSTER, Richard. Por que Freud errou: Pecado, ciência e psicanálise. Rio de Janeiro: Record, 1999.
Sobre o(s) autor(es)

José Felipe Rodriguez de Sá

Bacharel em Psicologia pela Universidade Salvador. Especialista em Psicoterapia Analítica, no Instituto Junguiano da Bahia – Salvador/BA. Mestre em Família na Sociedade Contemporânea na Universidade Católica do Salvador. Sócio-fundador da TRIA – Saúde Integrada. Cursando especialização em Psicologia Corporal no Centro Reichiano, Curitiba/PR. E-mail: jrodriguez@triapsicologia.com.br

Como citar este artigo:

SÁ, José Felipe Rodriguez de. Quem foi Wilhelm Reich? Um retrato falado pela historiografia psicanalítica oficial. Revista Científica Eletrônica de Psicologia Corporal, Curitiba, v. 22, 2021. e-ISSN 3086-1438. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/artigos/quem-foi-wilhelm-reich-um-retrato-falado-pela-historiografia-psicanalitica-oficial/. Acesso em: 04/06/2026.