Centro Reichiano Centro Reichiano & Volpi Psicologia Corporal
📄 Anais dos Congressos de Psicoterapias Corporais
Trabalho publicado nos Anais

Trabalhando as resistências latentes no contexto das psicoterapias corporais

Working with latent resistances in the context of body psychotherapies

Levindo Antunes de Oliveira Jorge Centro Reichiano · Monte Azul-MG · Brasil levindel@gmail.com
José Henrique Volpi Centro Reichiano · Curitiba-PR · Brasil ORCID: 0009-0004-2771-0798 volpi@centroreichiano.com.br
Anais do 28º Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais
ISBN 978-65-89012-06-1 · Edição 2025

Resumo

Através do desenvolvimento da Psicologia Corporal é possível compreender o valor da percepção das tensões ao longo do corpo, o modo como elas reagem e contra o que reagem. O aspecto desagradável que acompanha as tensões induz defesas contra si mesmas, tão rígidas quanto a própria tensão. Isso promove, no âmbito terapêutico, a continuidade da rigidez, expressando-se como resistências que dificultam o progresso entre analista e analisando. A busca pelo relaxamento da tensão, propriedade inerente ao princípio do prazer-desprazer, dificulta o entendimento da própria tensão, pois o organismo encouraçado interpreta a si mesmo e o mundo ao seu redor de acordo com suas sensações enrijecidas. A Psicologia Corporal busca o contato com as tensões e com o modo como reagimos, conscientemente ou de forma semivoluntária, diante dessas rigidezes.

Palavras-chave: Defesa; Psicologia corporal; Relaxamento; Resistência; Tensão.

Abstract

Through the development of Body Psychology, it is possible to understand the value of perceiving tensions throughout the body, how they react, and what they react against. The unpleasant aspect that accompanies tension induces defenses against itself, becoming as rigid as the tension itself. In the therapeutic setting, this promotes the continuation of rigidity, expressed as resistances that hinder progress between therapist and client. The search for tension release, an inherent property of the pleasure-unpleasure principle, makes it difficult to understand tension itself, since the armored organism interprets itself and the surrounding world according to its rigidified sensations. Body Psychology seeks contact with tensions and with the ways we react, consciously or semi-voluntarily, to these rigidities.

Keywords: Defense; Body psychology; Relaxation; Resistance; Tension.

O presente trabalho originou-se da dificuldade em lidar com algumas tensões físicas do corpo, cuja busca pelo modo como agiam e contra que se dirigiam, mostraram-se insuficientes para aproximarmos de um relaxamento aceitável. Esse processo está relacionado ao que Reich (1995), apresentou sobre a técnica de interpretação e de análise da resistência, no Seminário para a Terapia Psicanalítica, em Viena no ano de 1926, em que a interpretação era realizada sistematicamente de acordo com a estrutura individual da neurose. Nesse período, levava-se em conta a importância da experiência para o reconhecimento das resistências latentes e de seus sinais: “Quando o analista apreende o sentido de tais resistências, conscientiza-as por meio de uma interpretação consistente, isto é, primeiro esclarece ao paciente que ele tem resistências, depois o mecanismo do qual estas se servem e finalmente aquilo contra o que se dirigem” (Reich, 1995, p. 40).

Algumas páginas antes, em seu livro Análise do Caráter, Reich (1995) estabelecia que o inconsciente não devia ser consciencializado de forma direta, mas pela percepção inicial da resistência, depois como resiste e finalmente contra o que age tal resistência. Em psicologia corporal, nunca é demais estar sempre determinando as definições dos termos em uso. Isso pode exigir que se recorra a muitos conceitos formulados por Freud na criação e desenvolvimento da psicanálise. Citar Freud pode parecer uma regressão quando se está a tratar de psicologia corporal. No entanto, uma das intenções é mostrar justamente que a psicologia corporal não nasceu a partir do corpo, mas de um histórico de desenvolvimento, partindo de noções na esfera psíquica, chegando até Reich. O objetivo de citarmos o processo psíquico, mesmo em se tratando de Reich, um dos pioneiros das abordagens somáticas para tratamento de desordens psicológicas, visa mostrar o desenvolvimento progressivo da psicologia corporal. Inclusive fica patente nesse processo a reatividade de uma geração contra a aceitação do corpo.

Vale dizer que resistência é representada como uma defesa que se opõe a uma força de sentido contrário. Em se tratando de psicanálise, Freud (1987) define resistência em termos de defesa transferencial nas relações entre analisando e analista. Já em Reich (1986) é possível distinguir melhor o uso do termo defesa, como um fator somático. A resistência fica mais circunscrita ao processo transferencial, como bem definiu Freud, dentro de uma análise. A defesa abrange a resistência transferencial, indo mais além.

Na base desses procedimentos temos o fator tensão, expressão física da natureza em geral, compreendendo fatores inorgânicos e orgânicos. A tensão tem seu aspecto especial como processos facilmente acessíveis à percepção a que estão sujeitos os seres vivos, animais e particularmente os humanos.

Como oposto da tensão temos o relaxamento. São opostos como força de expressão, pois do ponto de vista funcional, a existência de um é, por si só, a inexistência do outro, ou seja, o relaxamento de um espasmo somático não é uma segunda força que se sobrepõe à tensão, pois o relaxamento em um dado segmento indica justamente o alívio tensional.

Para o conceito de tensão, podemos usar algumas noções da teoria do estresse. Conforme Hans Selye (1959), pioneiro na pesquisa de reações fisiológicas semelhantes em diferentes organismos, o estresse é uma resposta inespecífica a diferentes estímulos, que se manifesta através da Síndrome Geral de Adaptação (SGA). Tal síndrome desenvolve-se em três fases, sendo a primeira fase caracterizada por manifestações de luta ou fuga. A fase seguinte é a de resistência, quando as primeiras manifestações cedem lugar a novos sintomas em que há acúmulo da tensão e o organismo começa a adaptar seu metabolismo para suportar os estímulos causadores do estresse. Caso o problema persista, pode levar à terceira fase (exaustão), com pronunciadas alterações fisiológicas capazes de levar até a morte.

Voltando à fórmula reichiana da análise de resistências, ela poderia ser interpretada sob o conceito de defesa, onde a tensão é uma forma de expressão defensiva. A detecção de uma

resistência transferencial no ambiente terapêutico, ou a percepção de uma tensão no cotidiano é apenas a reprodução de um mesmo processo. O estudo do caráter não invalida alguma diferença nisso, pois a rigidez nas várias formas de ação e percepção de um indivíduo estão presentes em sua rigidez e resistência transferencial como analisando. Reagir contra uma idéia desagradável, contra a blindagem do caráter ou contra a couraça muscular (corporal) pode ter como base o mesmo formato tensional, ou seja, o mesmo modo de perceber e reagir, expressivos do caráter do indivíduo em questão.

Quando lidamos com tensões, estamos trabalhando com um fator contra o qual o corpo busca reagir. Não precisamos nos exercitar muito a associação de idéias para observar nossa busca por tranqüilidade. A vigília, sono e sonhos, como processos fisiológicos diários, são suficientes para nos mostrar alterações comuns entre a excitação e o relaxamento.

Para citar o embate entre o prazer e o desprazer, podemos reduzi-los ao conceito que envolve a tensão e o relaxamento. Primeiramente trataremos de alguns termos, entre eles a tensão, base de muitos conceitos freudianos, ainda que este tenha reduzido a tensão somática à percepção da representação psíquica. Reich (1986) dá uma nova dimensão ao conceito de tensão, ampliando-o a ponto de cogitar um princípio comum e universal, no que chamou de fórmula da vida: “tensão mecânica-carga bioelétrica-descarga bioelétrica-relaxação mecânica”.

Reich (1986) cita Freud assinalando o fenômeno característico da tensão sexual, que tem um caráter agradável, ao contrário dos outros tipos de tensão. Comumente, toda tensão é desagradável. Somente a relaxação causaria prazer. A antecipação mental do prazer da satisfação gera a impressão de que a tensão sexual seja prazerosa, antes mesmo do relaxamento pleno. Isso deriva da descarga de uma quantidade de excitação sexual, mesmo durante o período pré-orgástico, ainda sob congestão tensional.

A tensão é um cenário de contradições por si mesmo, o que exige o uso do conceito de Unidade Funcional Antitética para explicar sua relação com o prazer. Tal conceito permite explicar contradições que parecem existir entre os processos psíquicos e somáticos referentes às tensões, assim como defesas que se dirigem contra tais tensões. A dicotomia da relação tensão-relaxamento explica também o princípio do prazer que rege a pulsão como o limite entre o somático e o psíquico.

Freud (citado por Reich, 1975) descreveu o funcionamento psíquico através do princípio do prazer-desprazer, onde o excesso de excitação, ou tensão, leva ao desprazer e a sua diminuição, ao prazer. A tensão agradável seria desejada e buscada, enquanto a desagradável seria evitada.

Apesar de reconhecer os processos emocionais vinculáveis à tensão, Freud concentrou-se mais no processo da representação psíquica, diferentemente de Reich, o qual levou em conta as referências a partir do cerne somático em termos econômicos da energia biológica.

Para Reich: “A tensão psíquica e o alívio não podem existir sem uma representação somática, porque a tensão e o relaxamento são estados biofísicos” (Reich, 1995, p. 315), mas reconhece que não basta corrigir a noção de direcionamento de conceitos fisiológicos para a esfera psíquica, pois é preciso levar em conta a unidade que há entre as funções psíquicas e somáticas.

Observa-se que Reich (1995), ao descrever seu trabalho “Contato Psíquico e Corrente Vegetativa”, cita muito a couraça psíquica, para no mesmo trabalho adotar o termo couraça muscular. Faltava à psicanálise o entendimento de que ideias são processos abstratos e que duas ideias em conflito não podem caracterizar, por si só, um processo físico palpável. Era preciso um fator somático, uma reação típica da contração muscular, equivalente à mesma defesa psíquica dos freudianos.

Em outro livro, Reich (1986), já havia assinalado que todo impulso ou defesa psíquica equivale a uma excitação somática definida. Os mecanismos somáticos não são independentes dos mecanismos psíquicos e estes não exercem influência sobre o somático, como preferem julgar os defensores do livre-arbítrio. Em seguida descreve a relação entre o psíquico e o somático, onde a percepção de um perigo gera um estado defensivo simpaticotônico, capaz de intensificar a angústia, gerando um encouraçamento (couraça muscular), dificultando a possibilidade de descarga. A ausência de descarga aumenta a tensão. Como toda tensão é primariamente desagradável, isso mantém o ciclo da repressão.

Mas como explicar que o conceito de defesa corporal contra um pensamento desagradável continue desvinculado da psicanálise? Freud (citado por Reich, 1975) não exclui a força da excitação sexual somática que atua periódicamente como estímulo psíquico. Porém Freud parece se preocupar mais com a representação psíquica dos processos somáticos. Para Reich (1986), é estranho que Freud tenha psicologizado processos biológicos. Mais estranho é o fato de Freud ter citado o biológico em muitas bases de seu trabalho, a ponto de biologizar fatores culturais, e ainda assim, fugir de processos biológicos, tão íntimos à psicologia corporal. Isso levanta a questão das defesas que o ser humano tende a erguer contra as tensões, afastando-se do contato corporal. Freud foi vítima disso, mas é possível notar algumas situações na vegetoterapia reichiana que nos chama a atenção para as reações defensivas contra as tensões. Assim é que Reich propõe liberar a couraça diafragmática, “fazendo o paciente liberar, repetidas vezes, o reflexo de vômito, enquanto lhe ordenamos rigorosamente não suspender a respiração durante o esforço para vomitar, e sim continuar a inspirar e a expirar energicamente.” (REICH, 1995, p. 355). Isso não condiz com a própria noção de Reich sobre a espontaneidade dos instintos, calados pela ação de contra-investimentos que mantêm reprimidas tais ações instintivas. Nesse procedimento, Reich parece trabalhar diretamente o sintoma tensional de um segmento, sem que o paciente esteja em contato com defesas somáticas que temos contra a liberdade respiratória.

A vegetoterapia caractero-analítica, foi descrita originalmente na publicação de 1937 sob o título original em alemão: “Orgasmusreflex. Muskelhaltung und Körperausdruck. Zur Technik der charakteranalytischen Vegetotherapie”. Este artigo será acrescentado de forma inalterada cinco anos depois, sob a forma do capítulo VIII de “A Função do Orgasmo”, sofrendo apenas alguns acréscimos ao final do referido capítulo. Anos mais tarde, haverá algumas pequenas adições de novos conceitos no método vegetoterapêutico, conforme se vê no livro Análise do Caráter com edição prefaciada em 1948, mas deixando muitos fatos por explicar. Posteriormente ficará claro que Reich, ocupado em suas atividades laboratoriais desde sua mudança para Oslo, incumbirá Ola Raknes do objetivo de trabalhar uma técnica melhorada de vegetoterapia, tarefa esta repassada diretamente a Federico Navarro, que elaborará substanciais acréscimos na técnica vegetoterapêutica e nos conceitos de caráter. Portanto, o corpo não tem sido tão acessível para Reich e após este. As diferentes metodologias nas várias abordagens derivadas de Reich, sejam elas neo ou pós reichiana, mostram o quanto permanece remota uma unificação de procedimentos.

Temos acesso fácil ao conhecimento atual dos muitos métodos usados nas práticas terapêuticas corporais. Trabalhos sérios foram desenvolvidos desde Reich, cada um a seu modo, chegando a técnicas como a Análise Bioenergética (Alexander Lowen), Biodinâmica (Gerda Boyesen), Biossíntese (David Boadella), Psicologia Formativa (Stanley Keleman), Somatopsicodinâmica (Federico Navarro), e tantos outros.

A tensão tende a ser detectada pelo aspecto rígido e defensivo que lhe deu origem. Nesse sentido, motilidade opõe-se a tensão. Isso torna interessante a característica da tensão como fator desagradável, promotora de reações contra si mesma. Tais reações podem promover a fuga do indivíduo, justamente pela desagradabilidade do fator tensional contra o qual as reações se dirigem. É essencial distinguir então fuga e enfrentamento da tensão. O enfrentamento da tensão exige entender nossas defesas a ela, para então aceitá-la como parte de nossa rigidez de caráter. São defesas sutis, na medida em que dificulta o contato com o fator contra que reagimos. Isso pode ser explicado com a noção seguinte: “A defesa do ego contra os desejos sexuais proibidos é, ela própria reprimida.” (REICH, 1986, p. 126).

Ao expor seu brilhante assunto a respeito da sensação de órgão, Reich (2003) expõe que o ser vivo percebe o mundo a seu redor e a si mesmo somente através de suas sensações. Nisso ele faz uma analogia entre o organismo móvel, desencouraçado e o organismo rígido, encouraçado. Assim tem-se dele a seguinte afirmação:

“O ser desencouraçado percebe a si mesmo e ao mundo circundante de uma maneira essencialmente diferente do organismo encouraçado.” (REICH, 2003, p. 60).

Pode-se pensar aqui dois organismos de características opostas, em que o fator econômico-sexual de cada corpo determina que no indivíduo desencouraçado, as reações e pensamentos sejam livres, dedutivos, associativos, enquanto no segundo caso as atitudes são rígidas, imperativas, indutivas. Uma outra característica disso é que o avanço analítico lida inicialmente com um organismo rígido no objetivo de torná-lo móvel. O organismo encouraçado acostuma-se a sentir sua rigidez como um processo ideal, pois ali está o seu caráter, sedimentado ao longo dos anos diante de uma sociedade que a tudo nega. Isso faz com tal organismo interprete como prejudiciais as alterações em sua motilidade, essencial para sua cura. Quando o organismo vai deixando o peso da rigidez, sentindo a leveza da motilidade, as novas sensações podem ser interpretadas como noções errôneas, portanto a serem evitadas já que são estranhas a um corpo normal. Não é apenas uma questão de discutir as interpretações e efeitos de dois indivíduos diferentes, mas as mudanças de comportamento a que um mesmo indivíduo terá que enfrentar ao passar de estágios rígidos para estágios de atitudes e pensamentos móveis, até então rigidamente combatidos por tal pessoa.

Progredindo da análise de resistências para a análise de caráter, o conceito de resistência transferencial se mantém, sendo interessante o termo defesa caracterológica, como ênfase para além da soma de forças defensivas:

Quando Reich propõe a análise da resistência como prioritária à dos conteúdos, em princípio não faz mais que reafirmar o postulado freudiano de que se deve partir sempre da superfície psíquica; contudo, em dois pontos vai além de Freud. (…). Agora, o caráter reintegra-se à teoria psicanalítica, graças principalmente a Reich, sem se afastar de modo algum da explicação causal, pulsional, da teoria da libido. Este é um elemento fundamental, que não está formalmente presente em Freud, nem sequer em Ferenczi, Abraham e Jones, que fizeram uma teoria do caráter, mas não uma teoria da defesa caracterológica. Isto corresponde a Reich. (ETCHEGOYEN, 1987, p. 221).

Não é demais entrar aqui na noção de defesa como a base da resistência que se manifesta entre analista e analisando, indicando que resistência transferêncial é um tipo específico de defesa. A defesa, carregando consigo a característica tensional, pode ser vista como um sinal para o corpo, principalmente quando um emaranhado de defesas do caráter forma um bloco sedimentado, emocionalmente retraído, com rígido acesso à percepção, funcionando como um sintoma inscrito no corpo. Sendo qualquer tensão um fator desagradável, o mesmo se dá com a defesa e, num grau maior, com a couraça muscular. Então qualquer um desses estágios, particularmente o estágio estável-crônico da couraça corporal é capaz de gerar uma série de reações no sentido de resolver tal sensação angustiosa, embutida nas defesas corporais.

É nesse sentido que defesas latentes poderão estar despercebidas por ação do contra-investimento do ego em querer resolver a tensão. Nesses momentos o livre-arbítrio, à mercê de atitudes rígidas que o encouraçamento induz ao ego, se empenha em busca de resolução antes de qualquer entendimento da situação, como se as tensões presentes pudessem ser dissolvidas por simplesmente estarem conscientes e estarem numa forma indutiva.

Extrapolando os conceitos da análise de resistências para a análise do caráter e, posteriormente, para a vegetoterapia, o contato com as tensões mantém-se como regra básica. O contato com o corpo na vegetoterapia proporciona maior contato com a expressão muscular, base da tensão, das defesas e das resistências transferenciais, visto que a rigidez do analisando determina sua inibição o andamento analítico.

Podemos observar em Reich (1986) a importância dada à liberação do reflexo orgástico a partir da intensificação das inibições vegetativas, o qual cita não haver sentido intensificar impulsos vegetativos antes da dissolução das inibições. Em seguida relata a falta de unidade na autopercepção e a importância em descobrir tais inibições e os pontos onde a fragmentação obstrui tal unificação.

Ganha atenção aqui o empenho criado para a dissolução, muitas vezes em segmentos isolados, sendo que o próprio Reich (1986) chama a atenção para o fato de que um espasmo sério da garganta não é descoberto enquanto a excitação pélvica não tenha se dissolvido até certo ponto. Disso vem a proposta do contato com as tensões ao longo dos vários segmentos e a partir desse contato viria a busca por resistências à conjugação desses vários segmentos.

A massagem reichiana, usada na vegetoterapia caractero-analítica, para detecção de tensões ao longo dos segmentos corporais reichianos, pode também ser utilizada como foco para despertar sensações corporais. A detecção de tensões ao longo do corpo pode ser pensada como situações contra as quais tendemos a buscar por dissolução, podendo tal dissolução ser considerada como uma forma de reação contra aquelas tensões.

Os actings propostos por Navarro (1996), são interessantes em seu aspecto integrador dos segmentos que vão desde o segmento ocular até segmento pélvico, com um avanço gradual ao longo do corpo.

Outra proposta envolve um trabalho de psicoterapia breve e focal. Segundo Volpi e Volpi (2017): “Alguns pacientes tem um limite de tempo bastante estrito, o que os angustia e os coloca numa situação de extrema ansiedade em ter que “esperar”, agitação essa que está ligada a uma questão temperamental.” A queixa mais imediata do paciente ganha maior importância, deixando de seguir, num primeiro momento, a ordem céfalo-caudal de desbloqueio das couraças.

Lowen (1977), em sua abordagem de Análise Bioenergética, usa como base de conceitos as funções de apoio e locomoção, obtidos a partir da postura ereta adquirida ao longo da evolução. A postura ereta é responsável pela mobilidade adquirida pelos seres humanos. Para Lowen, a metade superior do corpo é vinculada à carga de energia, enquanto a metade inferior encontra-se mais especializada na função de descarga. Assim temos na região superior os órgãos sensitivos em suas funções visuais, auditivas, olfativas, gustativas, além sistema digestório, responsável pela incorporação de energia alimentar para o corpo. Na parte inferior tem-se a funcionalidade de descarga do sistema digestório, sistema excretório renal, além do sistema reprodutor, essencial à perpetuação da espécie e descarga orgástica genital.

A conjugação entre vegetoterapia caractero-analítica, análise bioenergética, e o trabalho breve e focal, podem proporcionar situações facilitadoras e efetivadoras de uma proposta analítica. As diferentes funções do corpo podem determinar uma ordem diferente da análise céfalo-caudal. A garganta e boca, como segmentos de ingestão ativa tem sido um foco perceptível de tensões comuns à maioria das pessoas, o que torna interessante a conjugação da análise do contato oral/cervical aos actings do contato com o segmento ocular. Nisso se inclui os vários pontos da cabeça. Também é sensata a prática de contato do segmento oral/cervical ao segmento abdominal, sendo este intimamente vinculado ao segmento diafragmático, como peça fundamental no controle respiratório. O sistemas, digestório, respiratório, circulatório, muscular, visceral, exercem funções diferenciadas e conjugadas, que merecem atenção especial. As diferentes expressões do interior e periferia corporal, assim como do mundo exterior ao corpo, complementam os sistemas funcionais. É nesse sentido que ganha dimensão a recuperação da unidade somática sã, através de um caminho inverso pelo qual passa a recuperação consciente da unidade tensional da couraça muscular, tão espontânea no corpo rígido, quanto é a cobrança do corpo pelo reflexo orgástico, fragmentados pela contínua soma de reações repressivas que sobre eles se impõem. Daí parte a noção de que a couraça muscular como soma dessas reações, também sofre reações no sentido de ter a percepção rejeitada em sua unidade rígida, compacta.

Assim, se o contato com a couraça corporal é um fator neurotizante, que dizer da rejeição ao contato com ela? Estar consciente da couraça corporal não é suficiente para a cura, mas evitar o contato com tal couraça equivale à rejeição de um pré-requisito na busca pelo tratamento da sexualidade reprimida. Daí a importância de buscar nas manifestações corporais as formas sutis das reações erguidas contra a couraça, escondida sob a rigidez que o corpo não teve como evitar. Muitas vezes reage contra o ato de saber como rejeita, muitas vezes teme saber dessa rejeição. Na base disso encontra-se o medo, forma sutil, próximo à mobilidade emocional, mas também muito próximo das percepções e sensações que deram início àqueles conflitos.

Em termos de técnica, aplicável na prática, tal trabalho não determina a escolha por um método. É interessante o uso de qualquer atividade da técnica usual pelo interessado e, a partir das ações de tais atividades, não desprezar a busca por reações que acompanham esta atividade, já que o foco básico é o contato com as reações que agem contra um aspecto angustioso, tensional, raivosa ou mesmo contra uma atitude prazerosa, interpretada como desprazerosa. A base é estar em contato com a tendência que a rigidez induz de buscar resolver os conflitos antes que ela mesma seja entendida.

Referências

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Sobre o(s) autor(es)

Levindo Antunes de Oliveira Jorge
Farmacêutico-Bioquímico pela Universidade Federal de Ouro Preto-MG – 1992 (CRF-MG-8728). Cursando Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Terapeuta e Analista Corporal de abordagem reichiana e bioenergética, pelo Centro Reichiano, Curitiba, PR. E-mail: levindel@gmail.com

José Henrique Volpi
Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psico-corporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. E-mail: volpi@centroreichiano.com.br

Como citar este trabalho

JORGE, Levindo Antunes de Oliveira; VOLPI, José Henrique. Trabalhando as resistências latentes no contexto das psicoterapias corporais. In: Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais, 28, 2025. Curitiba: Centro Reichiano. ISBN 978-65-89012-06-1. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/anais/trabalhando-as-resistencias-latentes-no-contexto-das-psicoterapias-corporais/. Acesso em: 05/06/2026.