Terapia bioenergética em grupos online
Bioenergetic therapy in online groups
Resumo
Palavras-chave: Bioenergética; Corpo; Grounding; Grupos online; Terapia corporal
Abstract
Keywords: Bioenergetics; Body; Grounding; Online groups; Body therapy.
A pandemia de COVID-19 alterou o contexto da prática clínica; a migração abrupta dos atendimentos para o ambiente online gerou importantes desafios para abordagens corporais, cuja efetividade depende tradicionalmente da observação integral do corpo, da presença energética compartilhada e do manejo sensório-motor. Volpi (2024, p. 3) observa que a ausência de contato físico modifica a experiência sensorial e “Pode gerar sentimentos de desconexão ou frustração, que devem ser abordados com sensibilidade e criatividade”. A adaptação de técnicas se torna necessária, exigindo do terapeuta um refinamento perceptivo compatível com as especificidades do meio virtual.
A Terapia Bioenergética visa restaurar o fluxo natural de energia no corpo, promovendo equilíbrio emocional e físico. De acordo com Lowen (1980), o medo de viver plenamente está enraizado na repressão da nossa própria energia vital. Quando reprimimos emoções dolorosas, bloqueamos o fluxo de energia em áreas-chave do corpo, o que nos impede de sentir prazer e de nos conectarmos verdadeiramente com o mundo ao nosso redor. Esses bloqueios energéticos, quando cronificados, afetam diretamente o bem-estar emocional, e o trabalho bioenergético busca liberar essas tensões, permitindo ao indivíduo experimentar vitalidade e uma maior conexão com a vida.
Para Lowen, criador da Bioenergética, a compreensão terapêutica depende da leitura do corpo como expressão viva da história emocional. A abordagem, inspirada nos fundamentos reichianos, considera corpo, emoção e energia como uma unidade funcional inseparável. Experiências afetivas significativas se inscrevem diretamente na estrutura corporal, como descreve Lowen (1980, p. 67) “a estrutura de corpo da pessoa nos diz alguma coisa sobre sua história”, ressaltando que todas as experiências deixam marcas no corpo, modelando-o da mesma forma que modelam a personalidade. Defesas psíquicas, traumas e conflitos tornam-se tensões crônicas que restringem a vitalidade.
Lowen (1983, p. 11) sustenta que a compreensão é a chave da terapia: sem ela, nenhuma técnica terapêutica é eficaz em nível profundo, e somente por meio dela é possível oferecer real ajuda. Ainda em Lowen (1982, p. 120), vemos que “A identidade funcional do caráter psíquico com a estrutura corporal ou a atitude muscular é a chave da compreensão da personalidade” (LOWEN, 1982, p. 120), reforçando que a leitura da postura, do tônus, da respiração e da mobilidade é parte essencial do trabalho clínico.
As raízes desse entendimento remontam à formação de Lowen com Wilhelm Reich, de quem foi aluno e analisando. Ele próprio afirma: “[…] foi meu professor de 1940 a 1953 e meu analista de 1942 a 1945” (LOWEN, 1982, p. 13). A partir dessa convivência, absorveu a noção reichiana de que o sintoma não deve ser compreendido isoladamente, mas dentro da configuração de caráter que se manifesta no corpo.
O trabalho terapêutico na abordagem bioenergética envolve o manejo das tensões musculares, a análise de comportamentos e processos transferenciais, bem como a compreensão da dinâmica energética e do papel da sexualidade. Esse conjunto de diretrizes demonstra que a técnica bioenergética integra prática física, expressão emocional e análise relacional.
Outro conceito central é o de grounding, entendido como base energética e sensitiva da personalidade. Lowen (1980, p. 17) descreve: “Grounding refere-se à conexão energética entre os pés da pessoa e a terra ou chão […] Sensações de segurança e independência estão intimamente relacionadas à função das pernas e dos pés”. A vitalidade depende da livre circulação de energia, como o autor formula em outro trecho: “O ser é reduzido a cada tensão crônica que restrinja a mobilidade do corpo, que diminua sua respiração e que bloqueie sua expressividade.” (LOWEN, 1980, p. 114). Esta integração entre corpo e processo analítico aparece descrita de modo direto:
A análise bioenergética emprega muitas técnicas e exercícios físicos ativos que ajudam a pessoa a fortalecer sua postura, aumentar sua energia, ampliar e aprofundar sua autopercepção e acentuar sua autoexpressão. O trabalho corporal é realizado em coordenação com o processo analítico; corpo e mente se combinam para o enfrentamento dos problemas emocionais (LOWEN, 1980, p. 17).
Assim, a Bioenergética articula movimento, sensação, relação terapêutica e elaboração consciente, e esta mesma lógica corporal e energética pode ser desenvolvida também no trabalho em grupo, no qual o encontro entre pessoas potencializa a expressão, amplia o campo de percepção e fortalece processos de autorregulação.
O trabalho em grupo, nas abordagens reichiana e bioenergética, é um espaço em que o corpo pode expressar sua história emocional e recuperar o fluxo natural de sua energia vital por meio do encontro com outras pessoas. O grupo favorece a percepção das tensões crônicas e dos bloqueios energéticos (couraças), ampliando a consciência corporal e permitindo a expressão das emoções. Seu objetivo é restaurar a autorregulação, fortalecer a vitalidade e desenvolver a capacidade de vínculo, reconhecendo que o desenvolvimento humano acontece na relação, pois “somos seres relacionais e não individuais, e assim necessitamos do outro para nos desenvolver e sobreviver” (VOLPI; VOLPI, 2015, p. 15).
O grupo constitui talvez a forma mais habitual de convivência do ser humano […] Os grupos são sistemas com especificidades próprias, perante os quais cabe àqueles que os coordenam uma atitude de ousadia, mas acima de tudo, de respeito e responsabilidade. (VOLPI; VOLPI, 2015, p. 16).
O trabalho grupal, contudo, introduz desafios adicionais no ambiente online. As condições dos espaços domésticos, o enquadramento restrito da câmera, as limitações de privacidade e a impossibilidade de supervisão corporal plena configuram um contexto diferenciado, que exige reorganização cuidadosa do método clínico. Ainda assim, estudos indicam que os grupos online se consolidaram como importantes espaços de acolhimento e regulação emocional durante a pandemia, especialmente diante do agravamento global do sofrimento psíquico. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 359 milhões de pessoas convivem com transtornos de ansiedade no mundo, o que corresponde a aproximadamente 4,4% da população global (WHO, 2021), evidenciando a ampliação da demanda por cuidado em saúde mental.
Apesar da expansão do atendimento digital, a literatura científica sobre grupos terapêuticos online ainda se encontra em estágio inicial. Costa (2024, p. 12) aponta que “[…] os estudos na área são incipientes e a prática, impulsionada e expandida pela pandemia por COVID-19, ainda requer investigações e avaliações”. A autora observa ainda que “[…] o uso de referenciais teórico-técnico capazes de abarcar a complexidade do atendimento por videoconferência ainda ocorria de forma bastante sutil, quando não inexistente” (COSTA, 2024, p. 9). Essa limitação não se restringe à Bioenergética, mas caracteriza o desenvolvimento geral das práticas corporais em grupo mediadas por tecnologias digitais.
Diante desse cenário, este trabalho busca contribuir reunindo, sistematizando e analisando criticamente a literatura disponível sobre Terapia Bioenergética em grupos online. A intenção é articular fundamentos teóricos da abordagem, desafios contemporâneos da clínica mediada por tecnologias e reflexões sobre as possibilidades e limites da prática corporal em formato de grupo no ambiente virtual.
A Terapia Bioenergética no setting virtual
Lowen (1982, p. 102) afirma que “O self não pode divorciar-se do corpo e a autopercepção não pode separar-se da consciência corporal”. Esse princípio sintetiza a base da Bioenergética, na qual o corpo é via primordial de acesso ao caráter e à experiência emocional.
No ambiente virtual, a observação é mediada pela câmera, o que fragmenta o corpo e reduz o campo perceptivo. Silva e Antúnez (2023, p. 121) afirmam que, “quando as distâncias geográficas não possibilitam um contato físico, o corpo pode ser visto e apreendido a partir da subjetividade do terapeuta[…]”. Isso exige uma observação intencional, voltada para nuances expressivas captáveis pela tela, como modulação vocal, pausas e microgestos.
A leitura corporal permanece possível, mas de forma reorganizada. Lowen (1982) lembra que a linguagem corporal envolve sinais e expressões que revelam aspectos da personalidade. No contexto digital, esses sinais precisam ser reconstruídos a partir de pistas indiretas.
A presença terapêutica também se transforma no contexto das práticas online em grupo, na medida em que o espaço clínico deixa de ser compartilhado fisicamente e passa a se constituir de forma distribuída entre os diferentes ambientes dos participantes, assumindo características espaço-temporais variáveis a cada encontro. Embora Silva e Antúnez (2023) se refiram originalmente ao atendimento individual, suas formulações permitem compreender que, no ambiente digital, o encontro clínico se configura como um espaço construído na interseção desses múltiplos contextos. No trabalho grupal, essa configuração se amplia, exigindo do terapeuta uma atuação menos centrada no controle das condições materiais do setting e mais voltada à sustentação de um campo compartilhado, marcado pela coparticipação dos participantes e pela imprevisibilidade das interações no ambiente virtual.
Na prática grupal, Pacheco (2023) demonstra que ressonâncias internas continuam atuando mesmo à distância. “Analistas Bioenergéticos costumam ter uma intuição afinada que aumenta a conexão energética e favorece o sentimento de presença” (PACHECO, 2023, p. 83). Mesmo assim, a autora reconhece que “em um grupo online, meus canais mais aguçados são sempre o visual ou o auditivo” (PACHECO, 2023, p. 88).
A condução terapêutica em grupos online exige uma reorganização da percepção clínica. No ambiente virtual, a câmera limita o campo visual, o enquadre fragmenta cada corpo e os diferentes ambientes domésticos introduzem estímulos variados que influenciam a presença de cada participante e a coesão grupal. Isso para não falar na qualidade da conexão, que, às vezes, limita a nitidez da imagem e do som, restringindo ainda mais a percepção do terapeuta. Essas condições tornam o trabalho corporal mais complexo, especialmente porque o terapeuta perde parte da observação integral do tônus, da postura e da respiração, elementos essenciais para a leitura bioenergética da experiência emocional.
Diante disso, o terapeuta precisa desenvolver uma escuta ampliada, capaz de integrar múltiplas fontes simultâneas de informação, como ritmos respiratórios audíveis, microgestos faciais e oscilações atencionais, compreendidas como variações sutis na qualidade do foco, da responsividade e da presença dos participantes ao longo do encontro. Essas nuances, perceptíveis na voz, no olhar, nas pausas e no fluxo relacional entre as janelas, tornam-se pistas fundamentais para acompanhar a dinâmica emocional do grupo. Apesar das reconfigurações sensoriais impostas pelo meio digital, a modalidade online preserva a possibilidade de um trabalho corporal profundo, mantendo os princípios centrais da Bioenergética e inaugurando novas formas de acesso ao corpo no contexto coletivo mediado por tecnologia.
Desafios perceptivos, técnicos e éticos
A relação entre movimento, sentimento e percepção corporal é central na Bioenergética. Lowen afirma que “a vida do corpo é sentimento” (LOWEN, 1982, p. 61), indicando que a expressão emocional depende diretamente da vitalidade corporal. No ambiente online, porém, essa relação se torna mais complexa, pois o terapeuta tem acesso apenas a recortes do corpo mediados pela câmera, o que reduz a percepção global da motilidade, da respiração e do tônus.
Essa limitação perceptiva é descrita por Pacheco (2023), ao notar que a tela “geralmente nos permite um close-up do rosto e da parte superior do corpo”, deixando de fora informações essenciais sobre coluna, pernas e contato com o chão. O que antes era acessado pelo olhar integral precisa ser reconstruído por meio de pistas indiretas, como pausas, microgestos e ritmos vocais. O ambiente digital também pode acentuar retraimentos. Como observa Lowen (1982, p. 47), quando a vitalidade diminui, “a tendência é retrair-se”, e fatores como autoconsciência diante da própria imagem, privacidade limitada e interferências externas podem intensificar esse retraimento emocional durante encontros grupais.
No ambiente virtual, a observação do grounding se torna particularmente comprometida. A câmera raramente capta pés e pernas, justamente as regiões que, segundo Lowen, sustentam o fluxo energético do corpo. Como descreve Weigand (2005):
Lowen descobriu a postura do arco que foi uma de suas primeiras experiências com grounding […] para ele foi uma experiência nova e reveladora. Além de facilitar a respiração profunda, descobriu que essa postura proporcionava contato com a parte inferior do corpo e uma sensação de segurança, com o aumento da percepção de vitalidade e integração” (WEIGAND, 2005, p. 41)
Fortalecer o contato com o chão intensifica a sensação de segurança e vitalidade. No formato online, esse contato energético torna-se apenas parcialmente visível, exigindo do terapeuta uma leitura indireta por meio de pistas. Essa limitação perceptiva reforça a necessidade de cautela técnica e de atenção ampliada aos sinais que substituem a observação integral do corpo.
No trabalho em grupo, esses desafios se ampliam. O terapeuta precisa acompanhar múltiplas janelas simultaneamente, cada uma com enquadramentos diferentes, silêncios particulares, ruídos externos e tempos emocionais próprios. Como relata Pacheco (2023), as informações “vêm de tantos lados” que o terapeuta pode sentir-se inundado, o que exige reorganização da atenção e dos canais perceptivos para sustentar a qualidade do vínculo terapêutico. Esse cenário exige uma escuta mais distribuída e refinada, capaz de integrar expressões fragmentadas e oscilações relacionais em tempo real.
Além dos desafios perceptivos, o ambiente digital impõe dificuldades técnicas. Instabilidade da conexão, interrupções externas, falhas de áudio e falta de privacidade são obstáculos que interferem tanto na segurança quanto na continuidade emocional das sessões. Esses fatores obrigam o terapeuta a adotar cuidados adicionais no manejo do setting, como verificar previamente as condições do ambiente doméstico e garantir que o participante tenha espaço físico seguro para práticas corporais.
Do ponto de vista ético, essas condições ampliam a responsabilidade do terapeuta. Intervenções corporais exigem avaliação cuidadosa dos riscos e não podem ser realizadas sem considerar o grau de supervisão possível por meio da tela. A ausência de contato físico e a impossibilidade de avaliar integralmente o corpo tornam essencial adaptar exercícios, reduzindo intensidades e priorizando práticas de percepção interna, grounding suave e mobilização leve. A segurança emocional e física passa a depender não apenas das técnicas, mas da capacidade do terapeuta de ler nuances sensoriais e antecipar possíveis desconfortos.
Nesse cenário, torna-se necessário reconhecer também a coparticipação do paciente na sustentação das condições de segurança do trabalho corporal no ambiente online. Embora o terapeuta seja responsável pela organização do setting, pela condução das práticas e pela avaliação dos riscos, parte das condições básicas para a realização do trabalho depende diretamente do próprio participante. Isso envolve estar em condições físicas adequadas, alimentado, desperto e inserido em um ambiente que favoreça a atenção e a execução das propostas terapêuticas. A construção de acordos prévios de autocuidado torna-se um elemento importante do manejo clínico, ampliando a dimensão ética do processo e configurando uma responsabilidade compartilhada no contexto da clínica mediada por tecnologias digitais.
A presença terapêutica permanece possível e relevante. Pacheco (2023) aponta que processos como empatia, ressonância e regulação relacional permanecem ativos no trabalho terapêutico, sendo compreendidos como dimensões corporais e relacionais que se constroem no encontro entre terapeuta e cliente. No contexto digital, esses processos não desaparecem, mas passam a operar sob novas condições perceptivas, exigindo maior intencionalidade e refinamento da escuta clínica. Essa presença, portanto, precisa ser sensorialmente expandida, já que a observação integral do corpo, base da concepção bioenergética de self corpóreo, é apenas parcialmente acessível pela câmera.
Em síntese, os desafios perceptivos, técnicos e éticos da clínica corporal online não inviabilizam o trabalho bioenergético em grupos, mas exigem reorganização dos procedimentos clínicos, ampliação da escuta sensível e manejo cuidadoso do enquadre. A prática permanece possível e potente, desde que o terapeuta utilize estratégias compatíveis com as limitações do formato digital.
Adaptações clínicas para grupos online
Lowen (1980, p. 113) afirma que “ser é o estado de vitalidade do corpo”. No ambiente virtual, esse princípio exige métodos seguros e compatíveis com a limitação perceptiva da câmera. Embora originalmente formulada para o contexto presencial, a orientação de Volpi e Volpi (2015, p. 17) também se aplica ao trabalho online ao lembrar que “não há certo ou errado e sim a forma de se aplicar um trabalho, cujo resultado estará de acordo com esta forma”, destacando que a disponibilidade, energia, flexibilidade e criatividade de quem facilita o grupo são elementos fundamentais para o resultado.
A construção do vínculo grupal é essencial. Souza e Nascimento (2023, p. 33) demonstram que muitos pacientes passaram a estabelecer em casa o próprio setting terapêutico, criando um campo compartilhado formado pela constelação de casas, telas e enquadres. Silva e Antúnez (2023) reforçam que a forma como cada participante aparece no vídeo expressa sua “presença psicofísica” (p. 114), na medida em que o corpo continua se manifestando por meio de expressões, gestos e variações de voz. Assim, ao afirmarem que o “corpo afetado continua atuando” (p. 123), indicam que o sujeito segue sendo mobilizado e se expressando corporalmente, mesmo à distância. Essa configuração reestrutura o vínculo e pode favorecer formas específicas de proximidade no contexto grupal online.
Para sustentar essa presença distribuída e favorecer o enraizamento emocional no ambiente virtual, o setting doméstico torna-se parte ativa da clínica. Rosa e Volpi (2021) recomendam que os participantes preparem ambientes confortáveis e silenciosos, capazes de acolher a vivência corporal. Guest e Parker (2021 apud SOUZA; NASCIMENTO, 2023, p. 26) destacam ainda a importância de roupas confortáveis e de espaço suficiente para pequenos movimentos, garantindo que o corpo possa participar do processo terapêutico com liberdade e segurança.
Técnicas adequadas para grupos online incluem respiração profunda, mobilização segmentar suave e exercícios que preservem estabilidade e segurança. Intervenções que envolvem risco, como descargas intensas ou posturas que comprometam o equilíbrio, devem ser evitadas. O grounding também precisa ser reinterpretado e adaptado ao ambiente digital. Como aponta Weigand (2005, p. 35), retomando a formulação de Lowen, “[…] as posturas de grounding e as vibrações aumentam as ondas respiratórias e a excitação geral do organismo[…]”, favorecendo integração e vitalidade. No formato online, esse trabalho pode ser mantido por meio de orientações verbais específicas, uso de apoios estáveis, exploração da percepção das pernas e dos pés e exercícios simples de enraizamento.
Como grande parte do corpo fica fora do enquadre, o terapeuta deve acompanhar indiretamente o estado postural do participante por meio da respiração, da expressão facial, do ritmo, das pausas e das variações de tônus. O grounding permanece possível e clinicamente relevante, desde que conduzido com atenção às condições de segurança do espaço doméstico e aos limites impostos pela câmera. Conforme indica Volpi (2024), a prática da terapia corporal online exige do terapeuta uma condução ética cuidadosa, atenta às condições de segurança e bem-estar do paciente. No trabalho grupal, essa responsabilidade se amplia, implicando o cuidado com a segurança física e emocional dos participantes durante a realização das práticas corporais à distância.
Sola et al. (2021, p. 73) observam que grupos online se tornaram espaços de fortalecimento de vínculos durante a pandemia, funcionando como “alternativa efetiva para oferta de cuidados psicológicos […] e manutenção da rede de apoio”. A verbalização das sensações corporais torna-se recurso indispensável para compensar a limitação da visibilidade do corpo mediado pela câmera. Costa (2024, p. 12) mostra que intervenções grupais online são promissoras, especialmente quando o atendimento presencial é inviável. Entre efetuar o atendimento online e não efetuar nenhum, em muitos casos é preferível optar pelo primeiro, ainda que não se configure como alternativa ideal.
A limitação de estudos sobre terapia corporal em grupos online
A literatura revela lacuna significativa no estudo de grupos corporais online. Leitão (2003, apud SILVA; ANTÚNEZ, 2023, p. 109) afirma que as repercussões da mediação tecnológica ainda são pouco estudadas no Brasil. Proudfoot et al. (2011, apud SILVA; ANTÚNEZ, 2023, p. 109) apontam a ausência de padronização de descritores científicos.
Persistem fragilidades na formação profissional. “Continuam escassos os cursos de formação” para o desenvolvimento da área (RODRIGUES; TAVARES, 2017, apud SILVA; ANTÚNEZ, 2023, p. 110). A expansão dos atendimentos digitais ocorre muitas vezes “com pouco fundamento científico” (OHANNESSIAN et al., 2020, apud SILVA; ANTÚNEZ, 2023, p. 109).
Essas limitações comprometem a segurança física e emocional dos participantes, pois intervenções corporais exigem avaliação cuidadosa dos riscos envolvidos. As obras de Lowen (1980; 1982; 1983) reforçam que a observação direta do corpo é fundamental. No entanto, a migração para o ambiente digital exige reorganização perceptiva.
Considerações Finais
A Terapia Bioenergética em grupos online representa uma fronteira emergente no campo das psicoterapias corporais e um desafio metodológico significativo. A revisão bibliográfica demonstra que práticas corporais podem ser conduzidas de forma ética e eficaz no ambiente digital, desde que o terapeuta adapte técnicas, refine a percepção clínica e mantenha atenção constante às limitações impostas pelo enquadre virtual. A mediação tecnológica reorganiza a experiência sensorial, mas não elimina a profundidade do trabalho corporal. Exige maior rigor técnico, sensibilidade e presença terapêutica responsiva.
A limitação de estudos sistematizados sobre intervenções corporais em grupos online constitui um entrave ao desenvolvimento seguro da modalidade. A falta de protocolos, pesquisas empíricas e diretrizes clínicas evidencia a necessidade de uma construção teórica mais consolidada. Pensa-se que isso seja importante tanto em relação ao online quanto até mesmo ao presencial, aos processos de grupo e aos atendimentos individuais. Talvez seja por isso que a transposição dessas abordagens ainda pareça escassa.
O atendimento virtual amplia o acesso, permite continuidade terapêutica e oferece alternativas relevantes em contextos de isolamento. O formato online não reduz a potência da clínica corporal. Apenas desloca sua ênfase sensorial e exige ajustes perceptivos que preservam a integridade da abordagem.
Este trabalho mostrou que a Terapia Bioenergética em grupos online é viável e potente, desde que o terapeuta adapte as técnicas e refine a escuta para lidar com as limitações do enquadre virtual. As reflexões apresentadas não esgotam o tema, mas oferecem subsídios iniciais que podem ser aprofundados, especialmente por meio de estudos empíricos, da sistematização de protocolos clínicos, da investigação das dinâmicas de vínculo e da leitura corporal no contexto grupal mediado por tecnologias e de estudos comparados entre grupos presenciais e online, considerando suas especificidades, limites e potencialidades.
Sobre o(s) autor(es)
Antônia Rangel
Gestora e produtora cultural com mais de 20 anos de experiência em projetos nas esferas pública e privada, em níveis federal e estadual. Formada em História (Mestrado/UNESP e Graduação/UFG). Especialista em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Terapeuta e Analista Corporal de abordagem reichiana e bioenergética, pelo Centro Reichiano. Atuou em cargos de liderança no Ministério da Cultura e Governo do Maranhão, desenvolvendo expertise em coordenação de processos, articulação institucional, planejamento e execução de projetos culturais e audiovisuais. Atualmente trabalha como Assessora Institucional na CONTEE e Produtora Executiva na Arte & Alma Terapias e Produções.
Sandra Mara Volpi
Psicóloga (CRP-08-5348), Especialista em Psicologia Clínica, Psicopedagogia, Ludoterapia, Psicoterapia Infantil, Psicologia Corporal, Análise Bioenergética (Certified Bioenergetic Therapist/CBT e Supervisor), Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado que mede a energia dos meridianos do corpo). Mestre em Tecnologia pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Organizadora e presidente dos Congressos Brasileiros de Psicoterapias Corporais.