Centro Reichiano Centro Reichiano & Volpi Psicologia Corporal
Anais Científicos

Anais dos Congressos Brasileiros de Psicoterapias Corporais

Centro Reichiano • Desde 1997 • Congressos Brasileiros de Psicoterapias Corporais

Trabalho publicado nos Anais

Entre Wilhelm Reich e Jean Piaget

Como afeto e cognição se integram na formação do caráter, segundo definição reichiana

Wilhelm Reich and Jean Piaget

How affect and cognition are integrated in character formation according to the Reichian definition

Fabíola Dantas Soares Centro Reichiano · Rio de Janeiro-RJ · Brasil bibiladantas@hotmail.com
José Henrique Volpi Centro Reichiano · Curitiba · Brasil volpi@centroreichiano.com.br
Anais do 29º Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais
ISBN 978-65-89012-07-8 · Edição 2026

Resumo

A cognição e a afetividade são indissociáveis e complementares no desenvolvimento e funcionamento humano. Nossos mecanismos de defesa e o caráter são exemplos de fenômenos em que há essa superposição. Utilizando o Princípio do Funcionamento Comum, Reich entende essa integração como fisiológica, funcional e energética. O objetivo deste trabalho será descrever as interações entre o afeto e a cognição na formação do caráter durante as etapas do desenvolvimento humano. Ele demonstrará que as interações entre o indivíduo e o ambiente geram esquemas afetivos e cognitivos, responsáveis por estruturar e organizar um corpo em desenvolvimento. A visão de Reich sobre a energia pulsional e os afetos será correlacionada com os estudos de Piaget sobre o desenvolvimento cognitivo infantil. Utilizando metodologias diferentes, ambos os autores concluíram que as condutas, o comportamento e enfim, o caráter, contém simultaneamente elementos afetivos e cognitivos em superposição. Destrinchar e explorar a relação entre emoção e cognição na constituição do sujeito contribuirá para pacificar as discussões em torno dos polos da razão e emoção quando vistos como entidades separadas no entendimento das logias referentes ao homem, na complexidade de seu funcionamento, bem como no exercício da Psicologia.

Palavras-chave: Afeto. Caráter. Cognição. Energia. Funcionalismo orgonômico.

Abstract

Cognition and affectivity are inseparable and complementary in human development and functioning. Our defense mechanisms and character are examples of phenomena in which this overlap occurs. Using the Principle of Common Functioning, Reich understands this integration as physiological, functional, and energetic. The aim of this paper is to describe the interactions between affect and cognition in character formation throughout the stages of human development. It will demonstrate that interactions between the individual and the environment generate affective and cognitive schemas responsible for structuring and organizing the developing body. Reich’s view of instinctual energy and affects will be correlated with Piaget’s studies on children’s cognitive development. Using different methodologies, both authors concluded that conduct, behavior, and ultimately character simultaneously contain overlapping affective and cognitive elements. Unraveling and exploring the relationship between emotion and cognition in the constitution of the individual will contribute to reconciling discussions surrounding the poles of reason and emotion when they are viewed as separate entities in the understanding of disciplines concerning human beings, the complexity of their functioning, and the practice of Psychology.

Keywords: Affect. Character. Cognition. Energy. Orgonomic functionalism.

1. Introdução

O caráter se forma a partir de uma sobreposição entre os processos emocionais e os processos cognitivos decorrentes das vivências durante as etapas do desenvolvimento. Entender os meandros da integração entre o afeto e a cognição na formação do caráter será um exercício da aplicação do Princípio do Funcionamento Comum (PFC) desenvolvido por Reich (1998). O objetivo deste trabalho será descrever as interações entre afeto e cognição na formação do caráter durante as etapas do desenvolvimento humano. Ele se deterá, portanto, ao estudo dessa interação durante as etapas do desenvolvimento psicoemocional, não se comprometendo ao entendimento de como ela é na fase adulta. Ele se norteará por compreender como a cognição e a afetividade interagem continuamente na formação do caráter. E como essa interação resulta numa unidade funcional comum e estável constituindo o sujeito.

As formações reativas engendradas na base da reação neurótica estão presentes no caráter desde a primeira infância e se formam a partir de uma inversão da pulsão original (Reich, 1998). Segundo este autor, a oposição do mundo externo à satisfação das necessidades primárias do indivíduo provoca uma antítese dentro dele à custa de seu próprio reservatório de energia, o qual é investido na cisão e inversão da pulsão original (pulsão do id) para constituir a pulsão do ego opositora ao sujeito, tendo o intelecto participação crítica neste processo.

Segundo Capra (2002), a cognição, o processo de conhecimento, pode ser definida como uma atividade organizadora do processo de viver. O organismo vivo aprende interagindo com o ambiente. Este não determina quais, mas desencadeia mudanças em sua estrutura. E pelo fato de responder às perturbações do ambiente se adaptando, aprendendo e se desenvolvendo, a inteligência é um atributo desse organismo. Afirma o autor “As interações de um organismo vivo – vegetal, animal ou humano – com seu ambiente são interações cognitivas.” (Capra, 2002, p. 50)

A visão de Reich sobre a energia pulsional e os afetos será correlacionada com os estudos de Piaget sobre o desenvolvimento cognitivo infantil. Para os dois pesquisadores contemporâneos, a indissolubilidade do vínculo existente entre afeto e cognição está presente em todas as etapas do desenvolvimento humano. Ambos também reconheceram a existência de um ambiente funcional, incluindo os pais e cuidadores, como fator condicionante para o desenvolvimento saudável da criança.

Destrinchar e explorar a relação entre emoção e cognição na constituição do sujeito contribuirá para pacificar as discussões em torno dos polos da razão e emoção quando vistos como entidades separadas no entendimento das logias referentes ao homem, na complexidade de seu funcionamento, bem como no exercício da Psicologia. Ademais, permitirá uma maior elucidação do funcionamento do ego enquanto defesa e das operações psicológicas utilizadas em sua estruturação e preservação.

A pesquisa se guiará primeiramente pela descrição de como o sujeito consegue se adaptar diante de suas necessidades primárias frente ao meio externo, discorrendo sobre as formações reativas geradas em torno da oposição a essa satisfação. Em seguida será feita uma correspondência dos processos cognitivos decorrentes da afetividade e formações reativas envolvidas nesse contato com o meio ambiente. Por último, será entendido como, utilizando metodologias diferentes, Wilhelm Reich e Jean Piaget concluíram existir uma unidade funcional atuante e estrutural constituindo o sujeito.

2. Afeto x cognição

Ao invés de estudar os processos psicológicos básicos de forma integrada – sensação, percepção, memória, motivação, emoção, atenção, pensamento, linguagem e aprendizagem – a Psicologia se fragmentou no estudo de suas bases científicas a fim de entender a mente e o comportamento humano, originando abordagens com campos de visão distintos e estanques ao longo de décadas (Gazzaniga, 2018). Isso perpetuou a dualidade secular e mecanicista existente entre mente e corpo ou razão e emoção.

Ao discutir o desenvolvimento e interação do pensamento com a linguagem, Vygotsky (2001) faz uma analogia com o que acontece entre a cognição e o afeto quando tentamos analisar um desses elementos em operação. Vinculadas aos pensamentos, logo são percebidas as diversas tonalidades afetivas, compostas por necessidades, interesses, inclinações, sentimentos e impulsos pessoais. Portanto, torna-se impossível a separação de uma unidade, vista assim pelo autor, em objetos de estudo distintos “[…] todas as ideias contêm uma atitude afetiva transmutada com a porção de realidade a que cada uma delas se refere” (Vygotsky, 2001, p. 14).

Segundo Vygotsky (2001), a palavra é um substituto convencional para o gesto, expressão do caráter seguindo o conceito de Reich (1998). As primeiras palavras, como ‘mamãe’, contêm uma orientação afetiva-conotativa em direção a um objeto, além de uma intenção. Esta se desenvolve e evolui conforme a orientação afetiva da criança segundo o primeiro autor.

É possível estabelecer uma fase pré-intelectual no desenvolvimento linguístico da criança, assim como uma fase pré-linguística no desenvolvimento intelectual dela. “A determinada altura estas duas trajetórias encontram-se e, em consequência disso, o pensamento torna-se verbal e a linguagem racional” (Vygotsky, 2001, p. 48). Essa interação antitética parece também ocorrer entre os processos cognitivos e afetivos.

Para Piaget (apud Correa, 2024), as funções afetivas e cognitivas são indissociáveis na conduta concreta, assim como nos processos de aprendizagem. Na conduta concreta o interesse pelo objeto estaria sempre envolvido nas ações de assimilação e acomodação em busca do equilíbrio adaptativo piagetiano, de modo que há uma constante interação entre inteligência e afetividade. Ela desempenharia o papel de uma fonte energética para o funcionamento da inteligência sem modificar suas estruturas.

Estudos da neurociência atualmente já comprovam a indissociabilidade e a superposição dos processos cognitivos e emocionais na medida em que os circuitos neurais que processam a cognição processam igualmente a emoção, a exemplo do sistema límbico cujo papel é exercido tanto na regulação das emoções quanto na formação da memória, sendo esta essencial no processo de aprendizagem – o indivíduo aprende aquilo que o emociona e que julga necessário para viver bem (Correa, 2024).

Pelo objeto de estudo da Psicologia Corporal é possível perceber como se manifesta a integração entre o afeto e a cognição em cada indivíduo analisado, uma vez que na expressão do caráter não é possível distinguir uma atitude puramente afetiva ou puramente cognitiva. Segundo Volpi (2024), a abordagem corporal engloba uma visão de crescimento fisiológico, cognitivo e emocional ao mesmo tempo, não havendo hierarquia entre ambos. Toda estrutura de caráter ao ser analisada revelará, portanto, uma síntese de elementos afetivos e cognitivos que convergiram para sua constituição.

Vygotsky (2001) corrobora esse entendimento afirmando que a compreensão do pensamento de outrem em toda a sua amplitude só é possível acompanhada da compreensão de sua base afetiva-volitiva. Na origem do pensamento está a motivação composta por interesses, desejos, necessidades e emoções, não podendo ser dissociado dos afetos correspondentes. Questiona, por isso, a separação dos planos afetivo e cognitivo no funcionamento psicológico, atribuindo a tal equívoco um dos principais problemas da Psicologia tradicional.

2.1. As necessidades primárias e os mecanismos de satisfação

As necessidades primárias do bebê se traduzem por uma urgência em descarregar tensões internas, sejam elas provocadoras da fome ou da sexualidade expressa por pulsões parciais em zonas erógenas. A satisfação dessas necessidades provirá do contato com o mundo externo, para o qual toda criatura humana dirige seu primeiro impulso na forma de desejo. No entanto, se esse impulso for impedido por uma frustração do meio externo, como a falta do genitor num momento de fome ou de perigo, a tensão interna se transformará em angústia. Caso a transmutação dessa tensão interna em angústia se repita por diversas vezes, essa estase energética terá as matizes características forjadoras de uma proteção afetiva peculiar, tanto no âmbito psíquico, como no âmbito corporal do bebê, denominada caráter (Reich, 1998).

As formações reativas engendradas na base da reação neurótica estão presentes no caráter desde a primeira infância e se formam a partir de uma inversão da pulsão original a cada inibição da corrente plasmática em direção ao meio externo. Porém, esse mecanismo de defesa do ego – aversão, vergonha, timidez, autocontrole – nem sempre é suficiente para domar a pulsão da angústia decorrente de frustrações, tornando-se necessário um encouraçamento crônico e automático do ego responsável por conter tanto a angústia, seja ela real ou estagnada, como as pulsões recalcadas do id. Isso promove um enrijecimento da mobilização psíquica afeito ao bloqueio da motricidade biológica, constituindo as couraças e o caráter correspondente (Reich, 1998).

No entanto, Reich (1998, p. 153) ressalta que “A força motriz por trás de todas essas medidas tomadas pelo ego é, em última análise, o medo consciente ou inconsciente de punição, mantido desperto pelo comportamento prevalecente de pais e professores.” Ele não nega o papel da hereditariedade ou que a criança recém-nascida já tenha seu temperamento no modo de reagir ao que lhe sucede externamente, mas destaca a influência decisiva e determinante do ambiente sobre o desenvolvimento e o fortalecimento ou não de certas tendências.

Há uma multiplicidade de fatores confluentes na formação do caráter, entre os quais estão a fase do desenvolvimento em que ocorre a frustração, a frequência e intensidade delas, o sexo da principal pessoa responsável por elas, a ambivalência e contradições nas próprias frustrações, a natureza das pulsões frustradas. Quando ocorre uma frustração nos moldes da sociedade patriarcal (autoritária e moralista), há um retraimento da libido para o ego, o qual estimula seu fortalecimento com a formação do caráter neurótico. Com a irrupção da couraça, as pulsões biológicas primárias se transformam em impulsos sádico-destrutivos. Se a pessoa responsável pela frustração é amada, desenvolve-se uma atitude ambivalente e mais tarde uma identificação com seus traços de caráter, principalmente com aqueles dirigidos contra a pulsão ora frustrada (Reich, 1998).

Às vezes o indivíduo se identifica com o genitor severo de forma diferente, dependendo da etapa do desenvolvimento em que ocorreram as restrições. É o caso da identificação do menino com a mãe opressiva numa base fálica, determinando o caráter fálico-narcisista, cujo narcisismo e sadismo são dirigidos principalmente contra as mulheres, ou numa base anal, determinando o caráter passivo-feminino em relação às mulheres. O ego do primeiro usa a agressão masculina exagerada para evitar tendências anais, passivas e femininas, já o ego do segundo incorpora forças anais para evitar impulsos agressivos. Esse mecanismo de aliviar o recalque ajustado a cada estrutura caracterológica levou Reich (1998, p. 212) a concluir: “O caráter é determinado não por aquilo que evita, mas pela maneira como o faz e pelas forças pulsionais que o ego utiliza para esse fim.”

A formação do caráter cumpre uma função defensiva de encouraçamento do ego contra o mundo externo e as exigências pulsionais, assim como uma função econômica de consumo da libido não satisfeita transformada em angústia. A absorção dessa angústia gerada pela energia psíquica represada instiga fisiologicamente o caráter. Junto ao conflito familiar, também são incorporados em sua formação os afetos, as memórias e as sensações, fatores responsáveis por elaborar uma forma de manifestação própria no indivíduo: seu comportamento, seus hábitos, sua postura, sua expressão facial, seu modo de falar, de andar, de gesticular, sua maneira de sorrir, de interpretar os fatos, de elogiar ou de criticar, enfim, o conjunto de atitudes ou o modo de existir de uma pessoa revela o seu caráter (Reich, 1998).

2.2. As cognições envolvidas na defesa contra o ambiente externo

Ao buscar o contato com o ambiente a sua volta, o recém-nascido dá início ao processo de viver e conhecer a fim de satisfazer suas primeiras necessidades. As primeiras sensações e emoções esboçam uma percepção que surge como primórdios de uma consciência em desenvolvimento. Os objetos e suas características são conhecidos, comparados e aos poucos distinguidos e agrupados pela criança, numa permanente construção de visão de mundo, a qual se sofistica com a interpretação dos eventos e de sua relação com o objeto (Capra, 2002).

A partir da observação de seus filhos, Piaget (1975), descreve uma forma de inteligência construída, nos dois primeiros anos de vida, por esquemas reflexos como a sucção, hábitos, ações intencionais e representações por combinação mental. Ela é caracterizada por ser pré-verbal, sensório-motora e prática. Para ele, a inteligência é uma adaptação biológica cuja função é estruturar o universo tal como o organismo estrutura o meio imediato. Essa adaptação compreende dois processos dialéticos, complementares e indissociáveis: a assimilação e a acomodação. A assimilação dos objetos aos esquemas e estruturas já estabelecidos e a acomodação destes para se adequarem aos objetos cada vez mais complexos, juntamente com a regulação interior compensatória, contribuem para o estabelecimento de formas cada vez mais estáveis de equilíbrio entre o organismo e o ambiente. A interação com pessoas e objetos é assimilada às estruturas de ação reflexa. Esse processo de estruturação sensório-motora une estruturas orgânicas, motoras e conceituais num só equilíbrio adaptativo.

Assim, a inteligência sensório motora movimenta as operações de assimilação e construção, nas quais não é difícil encontrar o equivalente funcional da lógica de classes e das relações. Do mesmo modo, o comportamento da criança quanto às pessoas, demonstra, desde o princípio, tendências a simpatia e reações afetivas nas quais é fácil encontrar o estofo de todas as condutas morais ulteriores. Apenas, um ato inteligente não poderia ser qualificado de lógico, e um traço de sensibilidade, de moral, senão a partir do momento em que algumas normas imprimam a tais matérias uma dada estrutura e regras de equilíbrio. (Piaget, 1994, p. 296)

No livro “O juízo moral da criança”, Piaget (1994) entende que o desenvolvimento da moralidade está atrelado ao desenvolvimento cognitivo. Para ele, o respeito às regras para a criança se fundamenta no respeito às pessoas, inicialmente representadas pelas figuras de autoridade. Logo, o pesquisador ligava uma dimensão cognitiva – compreensão e conhecimento das regras (o saber moral), a uma dimensão afetiva da moralidade – respeito motivador a agir de acordo com as regras (o querer moral, condicionado ao amor pelos pais).

Embora não haja uma compreensão das regras do nascimento até os dois anos, o autor observa a existência de uma regularidade motora, um “sentimento da repetição” decorrente da “ritualização dos esquemas de adaptação motora”. Dos dois aos três anos, as condutas definidas como egocêntricas[1] por Piaget (1994) substituem as condutas meramente motoras e carregadas de simbolismo individual. Um período pré-social, em que surgem as regras coercitivas em função da coação presente nas relações com o adulto. Ao socializar com outras crianças numa relação de cooperação entre iguais, as regras vão se interiorizando e se tornam regras racionais, passando a ser compreendidas como um produto do acordo mútuo.

O processo natural de socialização pelo qual passa a criança possibilita a internalização das regras e a formação de uma moralidade própria, facultando a evolução da anomia à autonomia. No entanto, um ambiente autoritário pode interromper essa evolução na etapa do respeito unilateral aos mais velhos (regras coercitivas – heteronomia) e impedir o desenvolvimento da autonomia na criança para julgar o que é certo ou errado, justo ou injusto, bom ou mau. Além de fixar o pensamento realista e egocêntrico infantil, o excesso das imposições paternas facultam a perpetuação nas gerações posteriores dos esquemas afetivos assim adquiridos, pois a criança coagida se torna um adulto que coage (Piaget, 1994). A evolução da autonomia está, portanto, relacionada ao desenvolvimento da consciência sobre as regras e aos esquemas cognitivos envolvidos nas relações afetivas com as figuras de autoridade.

É interessante notar que a moral autônoma (7 aos 14 anos) definida por Piaget (1994) começa a se desenvolver na fase final de estruturação do caráter (5 anos até final da puberdade e início da adolescência) segundo as etapas do desenvolvimento psicoemocional descrito por Volpi (2024). Logo, a autonomia na conceituação das regras e por conseguinte a formação da moralidade autônoma é fortemente influenciada pela qualidade dos traços do caráter em finalização.

Superpostos aos esquemas afetivos se desenvolvem os esquemas cognitivos, os quais formam a estrutura, as memórias, as associações inteligentes vinculadas às relações interpessoais, aos interesses e motivações da criança. Piaget (2014) realiza uma correspondência entre estágios afetivos e cognitivos no desenvolvimento infantil, em que a predominância da assimilação e acomodação se alterna em meio a descobertas de estímulos, a sentimentos de prazer e dor, contentamento e descontentamento, estabelecimento de valores, da moralidade e da vontade. Por demonstrar uma constante construção desde o nível sensório-motor a partir da coordenação dos esquemas afetivos, o autor conclui que toda conduta é simultaneamente afetiva e cognitiva, pois se trata dos mesmos esquemas, sendo a afetividade o elemento energético e a cognição o elemento estrutural, interagindo juntos para a constituição do caráter.

É preciso falar de esquemas afetivos da mesma maneira que dos esquemas motores ou esquemas intelectuais (e são, aliás, os mesmos esquemas ou, pelo menos, aspectos indissociáveis das mesmas realidades) e é o conjunto organizado desses esquemas que constitui o “caráter” de cada um, isto é, seus modos permanentes de comportamento. (Piaget, 2013, p. 213)

2.3. O afeto e a cognição na unidade funcional reichiana e piagetiana

A frequência constante de experiências infantis desagradáveis durante o desenvolvimento inibe a pulsação das correntes plasmáticas e deixa marcas psíquicas e corporais profundas, desde o nível microscópico celular ao segmento muscular responsável por um movimento corporal. As posturas corporais podem ser forjadas por um impulso embrionário ou aflições durante os estágios de desenvolvimento, desde os movimentos reflexos do nascimento, passando pelo engatinhar, ficar de pé e andar conscientes (Boadella, 1996). Essa configuração formativa molda as defesas que se estruturam no corpo e na mente através das atitudes corporais e das atitudes psíquicas.

Essas defesas se formam à custa do próprio reservatório de energia do indivíduo, o qual se expressa na antítese dos afetos, na experiência das relações afetivas com os pais e cuidadores. Apenas o conteúdo das adversidades provém do mundo externo: as normas, as proibições, as condições ambientais etc.. O intelecto, por sua vez, acompanha a alteração pulsional decorrente do contato com o ambiente, indo para o mundo ou afastando-se dele, funcionando como um hábil aparelho cuja carga é afetiva e a atividade resultante é vegetativa. Afirma Reich (1998, p. 286) “Não há relação mecânica, absolutamente antagônica, entre intelecto e o afeto, e sim uma relação funcional.”

Para ele, as pulsões do ego são a soma total das exigências vegetativas em sua função de defesa e constituição do caráter. Embora a pulsão do ego seja a pulsão do id dirigida contra si própria ou contra outra pulsão dele derivada, todo o processo psíquico se constitui de uma cisão e subsequente oposição entre tendências que funcionaram como uma unidade. De outro modo, o desenvolvimento do caráter é um processo progressivo de desabrochamento, cisão e antagonismo de funções vegetativas, constituindo uma teia complexa de forças, na qual os elementos que evitam e os que são evitados se enredam numa couraça.

Utilizando uma metodologia de pesquisa diferente, Piaget (2014) entende a interação entre cognição e afeto de modo equilibrado e funcional, resultando numa unidade em que há uma função energética atribuída ao afeto e uma função estrutural atribuída à cognição. O afeto é o combustível que motiva e dá sentido à ação inteligente. Ele argumenta não existir comportamento puramente afetivo ou puramente cognitivo porque os esquemas psicológicos contém simultaneamente esses elementos.

Ambos os autores igualmente reconhecem o ambiente externo como fator desencadeante do desenvolvimento psicoemocional humano. Reich (1998) demonstra isso ao atribuir ao ambiente a causa da angústia desagradável e ao mesmo tempo estimulante dos processos formativos e da busca por contato. Piaget (1994), ao reconhecer a interação com o outro como fundamental para a criança evoluir da fase cognitiva egocêntrica, estabelece a ponte estimulante para o desenvolvimento afetivo e cognitivo simultâneo.

3. Considerações finais

Os processos cognitivos, durante muito tempo, foram estudados de forma separada dos processos emocionais. Estudos contemporâneos da neurociência e da psicologia cognitiva sugerem que os processos psicológicos básicos como memória, atenção, percepção, sensação, linguagem, aprendizagem, motivação são atravessados pela emoção. Esse trabalho possibilitou entender o cruzamento entre as duas instâncias na formação do caráter.

A cognição é a inteligência estruturante dos afetos no corpo. Ela utiliza a energia pulsional das tonalidades afetivas para isso, de modo que há sempre uma carga afetiva inerente à função intelectual, energética e ao tônus muscular. Essa integração é feita através da atividade vegetativa e se radica durante as etapas do desenvolvimento humano. Perceber esse entrelaçamento desde o nascimento assegura afirmar que há um equívoco mecanicista quando abordamos apenas o aspecto cognitivo ou apenas o aspecto afetivo do sujeito em psicoterapia.

Desse trabalho conclui-se que o caráter deve ser estudado como análise e síntese quanto aos elementos afeto e cognição. Durante todo o seu trabalho como pesquisadores, Piaget e Reich, embora utilizassem referenciais teóricos distintos, compreenderam o desenvolvimento humano como resultado da interação entre aspectos afetivos e cognitivos.

Esse trabalho também contribuiu para pacificar as divergências na área da Psicologia e da Psiquiatria quando as entidades afetivas e cognitivas são discutidas em polos separados, antitéticos e dualistas. A aplicação do Princípio do Funcionamento Comum (PFC) reichiano na pesquisa possibilitou assim concluir e contribuir. Esse exercício transformou uma visão apriorista de duas entidades separadas e antitéticas numa visão holística de uma unidade fisiológica, funcional e energética constituindo o sujeito.

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Notas

[1] Egocentrismo: estado cognitivo no qual o indivíduo (tipicamente uma criança) vê o mundo apenas de sua própria perspectiva, sem consciência de que há outras, porque é incapaz de dissociar o seu ego do mundo social, relacionando fatos exteriores com sua própria experiência.

Referências

BOADELLA, David. What is Biosynthesis? Energy and Character – International Journal of Biosynthesis, v. 17/2, Heiden: [s.n.], ago/1996.
CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cultrix, 2002.
CORREA, Crístia Gonçalves Lopes. A relação entre afeto e cognição: perspectivas teóricas. Psicologia Escolar e Educacional. v. 28, 2024. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/pee/a/65R6zmLYGxTT37zmdvYs4pB/?lang=pt >. Acesso em: 15/03/2025.
GAZZANIGA, Michael; HEATHERTON, Todd; HALPERN, Diane. Ciência psicológica. Porto Alegre: Artmed, 2018
PIAGET, Jean. O juízo moral na criança. São Paulo: Summus, 1994.
PIAGET, Jean. O nascimento da inteligência na criança. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
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VOLPI, José Henriquei; VOLPI, Sandra Mara (Org.) Apostila do curso de Especialização em Psicologia Corporal. Módulo 1, Disciplina 2. Curitiba: Centro Reichiano, 2024. Acesso em 12/04/26.
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VYGOTSKY, Lev Semenovich. Pensamento e linguagem.         eBooksBrasil, 2001. Disponível em: <http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/vigo.pdf>. Acesso em: 25/10/2025.

Sobre o(s) autor(es)

Fabíola Dantas Soares
Graduada em Odontologia, UFPB. Graduada em Psicologia, Centro Universitário IBMR/RJ. Cursando Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Psicoterapeuta e Analista Corporal de abordagem reichiana e bioenergética, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR.

José Henrique Volpi
Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psico-corporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento.

Como citar este trabalho

SOARES, Fabíola Dantas; VOLPI, José Henrique. Entre Wilhelm Reich e Jean Piaget. In: Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais, 29, 2026. Curitiba: Centro Reichiano. ISBN 978-65-89012-07-8. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/anais/entre-wilhelm-reich-e-jean-piaget/. Acesso em: 31/08/2026.