Entre a menoridade e o zé-ninguém
Um diálogo entre Immanuel Kant e Wilhelm Reich
Between immaturity and the little man
A dialogue between Immanuel Kant and Wilhelm Reich
Resumo
Palavras-chave: Epistemologia da Psicologia; Immanuel Kant; Menoridade; Wilhelm Reich; Zé-ninguém.
Abstract
Keywords: Epistemology of Psychology; Immanuel Kant; Immaturity; Wilhelm Reich; Little man.
1. Introdução
Dois autores de épocas e contextos distintos, cujas ideias parecem convergir no que diz respeito às mazelas do cidadão. De um lado, Immanuel Kant, importante filósofo, fundador do Criticismo, que viveu e desenvolveu seu trabalho no século XVIII. De outro lado, Wilhelm Reich, fundador da Psicologia Corporal, que viveu e desenvolveu seu trabalho no século XX. Um breve histórico de cada um desses autores se faz relevante para melhor compreensão do contexto desta pesquisa.
Immanuel Kant foi um filósofo, nascido na Prússia, no ano de 1724, que dedicou sua vida à investigação do universo espiritual do homem (CHAUÍ, 2000). A maior parte de sua carreira profissional foi como professor de lógica e metafísica na Universidade de Konigsberg (DURANT, 1996). Seu pensamento filosófico se desenvolveu em um contexto no qual as ciências da matemática, da física e da metafísica se destacavam (CHAUÍ, 2000). Além disso, a questão religiosa também foi relevante na constituição do seu pensamento, devido a influência que recebeu de sua mãe desde muito cedo (DURANT, 1996).
Juntamente à ascensão do Iluminismo – movimento filosófico do século XVIII que defendia a ciência e a racionalidade crítica (JAPIASSÚ e MARCONDES, 2008) – Kant dedicou seus estudos à análise das reais possibilidades de se alcançar o conhecimento. De acordo com Chauí (2000), os estudos do autor tiveram como principais elementos condutores a fundamentação do conhecimento (considerando suas possibilidades, limites e esferas de aplicação) e a compreensão de especificidades acerca da ação humana (o problema moral). Dentre as suas obras derivadas dessas reflexões, podemos citar: Crítica da Razão Pura (1781), Crítica da Razão Prática (1788) e Crítica da faculdade de julgar (1790). Dentro deste mesmo período de produção teórica, o autor escreveu o texto Resposta à pergunta: Que é “Esclarecimento2”? (1784/2013), no qual se debruça sobre o problema da busca individual e pública pelo conhecimento e traz o conceito de menoridade e de esclarecimento. Kant faleceu em 1804, na sua cidade natal. A filosofia contemporânea segue sendo fortemente influenciada pelo trabalho desenvolvido pelo autor (JAPIASSÚ e MARCONDES, 2008).
Wilhelm Reich, o segundo autor cujo foco desta pesquisa também se direciona, nasceu em 1897, na Galícia, e foi médico, psicanalista e fundador da psicoterapia orientada para o corpo (FADIMAN e FRAGER, 2002). Se formou em Medicina pela Universidade de Viena, em 1922, e foi membro da Sociedade Psicanalítica de Viena por 14 anos, sendo, inclusive, assistente direto de Freud. Para além da área clínica, a teoria e as respectivas propostas de Reich também envolveram distintos processos sociais como, por exemplo, o combate ao fascismo. Deste modo, é correto afirmar que a perspectiva reichiana abarca, mesmo que parcialmente, o que hoje chamamos de uma Psicologia Social.
A teoria psicológica desenvolvida por Reich se destaca, principalmente, pela sua perspectiva somatopsicodinâmica. Ou seja, nela encontramos uma visão integrada entre o corpo (somático), a mente (psíquico) e a energia biológica. As principais fases do seu trabalho foram: a teoria da Economia Sexual, a técnica da Análise do Caráter, a Vegetoterapia Caracteroanalítica e a Orgonomia (VOLPI, 2019). Seus estudos na área da Orgonomia se desenvolveram, especialmente, a partir de 1939, quando ele se mudou para os Estados Unidos e fundou o Orgone Institute3. Seu trabalho de pesquisa a respeito da energia orgone sofreu diversos ataques entre os anos de 1947 e 1957 por parte da Food and Drug Administration (FDA). Reich acabou sendo preso por não comparecer aos tribunais e faleceu de parada cardíaca na penitenciária federal de Lewisburg, na Pensilvânia, no ano de 1957 (VOLPI, 2012).
Ao longo de sua carreira Reich publicou diversas obras, entre elas: Análise do Caráter (REICH, 1933/1998), Psicologia de Massas do Fascismo (REICH, 1933/2001), A Função do Orgasmo (REICH, 1942/2012) e Escute, Zé-Ninguém! (REICH, 1948/2007). Nesta última, diante das ameaças difamatórias contra seu trabalho, o autor faz um manifesto contra aqueles que o atacaram e escancara a perversa ordinariedade do homem comum (REICH, 2007).
Diante do exposto, o objetivo deste artigo foi investigar os sentidos relativos aos conceitos de “menoridade”, proposto por Immanuel Kant, e de “Zé-Ninguém”, apresentado por Wilhelm Reich, de modo a estabelecer um diálogo entre as perspectivas dos respectivos autores. Para tanto, cada conceito foi analisado, visando compreender suas especificidades, tal como explorou-se as convergências e divergências entre eles. A busca por estabelecer uma relação entre a Filosofia e a Psicologia, através de uma perspectiva epistemológica, se faz relevante uma vez que ambas tratam de temas que permeiam a vida humana e podem auxiliar na compreensão da psykhé, seus fenômenos e os impactos desta na realidade individual e social através dos tempos. Por fim, a partir de um levantamento teórico prévio, pudemos identificar uma escassez de produções científicas nacionais que estabelecessem uma relação entre os dois conceitos aqui analisados. Fato que reforça ainda mais a relevância desta pesquisa.
2. Método
O presente artigo foi desenvolvido através do método de revisão de literatura, que tem como objetivo organizar, integrar e avaliar estudos relevantes sobre determinado tema. Neste método os autores: definem e esclarecem um determinado problema a partir da sumarização e avaliação crítica de materiais já publicados dentro da temática abordada; informam os leitores o estado em que determinada área de investigação se encontra; consideram as possíveis relações, contradições, lacunas e inconsistências na literatura; e apresentam sugestões para a resolução de problemas (KOLLER, COUTO e HOHENDORFF, 2014).
Como procedimento para condução dessa pesquisa, foi realizada, inicialmente, a seleção dos textos condutores da pesquisa, que foram: Resposta à pergunta: Que é “Esclarecimento”? de Immanuel Kant, escrito em 17844; e Escute, Zé-ninguém! de Wilhelm Reich, escrito em 1946, nos quais os autores apresentam os conceitos de “menoridade” e “zé-ninguém”, respectivamente. Na sequência, através da leitura prévia dos textos, foi realizado o tratamento inicial do material selecionado, seguido da releitura do mesmo a fim de definir o conteúdo a ser apresentado na pesquisa.
A partir disso, foi elaborada a síntese das ideias dos autores relativas aos conceitos estudados, com o objetivo de favorecer uma análise mais precisa dos sentidos atribuídos por eles a estes conceitos. Por fim, foi elaborado um efetivo diálogo entre os conceitos selecionados de modo a explorar as relações de convergência e divergência entre eles.
3. Resultados e discussão
3.1 a menoridade em Kant
O conceito de menoridade é definido por Kant (2013) como a incapacidade de um indivíduo fazer uso do seu próprio entendimento diante das situações de sua vida e da sociedade na qual está inserido. Segundo o autor, a causa da menoridade é a falta de decisão e de coragem deste indivíduo em servir-se de si mesmo em matéria de pensamento. Ou seja, permitir-se avaliar criticamente os conhecimentos previamente produzidos e fazer uso de sua própria razão na construção do seu conhecimento, na expressão do mesmo e na condução da sua vida.
O autor aponta o indivíduo como culpado de sua própria menoridade, pois apesar de ter capacidade para alcançar o entendimento por si mesmo, através de uma análise crítica pessoal, por preguiça e covardia, deixa que outros se constituam como seus tutores. Desta forma, pode-se perceber que na perspectiva kantiana, ser menor tende a ser cômodo ao ser humano comum, pois deixar que um outro, especialmente uma figura de autoridade, se responsabilize em oferecer o entendimento segundo suas próprias concepções, exige menos esforço do que tomar essa responsabilidade para si próprio. O autor destaca que, apesar do conforto aparente em receber preceitos e fórmulas de outrem, tal posição aprisiona o indivíduo na condição de menoridade (KANT, 2013).
Como agravante deste cenário, a forma de atuação dos tutores do povo perpetua a condição da menoridade. Estes, por sua vez, ao invés de estimularem os indivíduos a transcenderem esta condição, podendo assim, aprenderem por si mesmos, os aterrorizam sobre os riscos e erros que podem incorrer no caminho da construção do próprio entendimento. Isso faz com que a maioria do povo considere a saída da menoridade difícil e perigosa. Diante dessa dinâmica, o autor diz que “[…] são muito poucos aqueles que conseguiram, pela transformação do próprio espírito, emergir da menoridade e empreender então uma marcha segura.” (KANT, 2013, p. 64-65).
Por outro lado, o autor apresenta o conceito de esclarecimento5, definido por ele como “a saída do homem de sua menoridade” (KANT, 2013, p. 63). Segundo ele, a premissa do esclarecimento é que o homem tenha liberdade “[…] de fazer um uso público de sua razão6 em todas as questões.” (KANT, 2013, p. 65). Ou seja, que tenha liberdade de construir e de divulgar livremente suas próprias ideias e análises críticas acerca do conhecimento previamente produzido.
Um fator relevante apontado pelo autor para que os indivíduos alcancem o esclarecimento é a libertação daqueles que se constituem como seus tutores de sua própria menoridade. Ao fazerem isso, mostram ao público “[…] o espírito de uma avaliação racional do próprio valor e da vocação de cada homem em pensar por si mesmo” (KANT, 2013, p. 65). O autor destaca que, ainda que alguns membros da sociedade não possam desrespeitar e desobedecer aos requisitos básicos atrelados aos seus papéis sociais – por exemplo ao ocupar um cargo público ou a posição de sacerdote – enquanto sábios, não deveriam renunciar à liberdade de falar publicamente sobre suas discordâncias e releituras a respeito dos pensamentos, credos e regras aos quais estão submetidos.
Em defesa do esclarecimento, o autor destaca que um conhecimento que não possa ser questionado ou refletido pelo homem não tem validade. Assim como, uma época que coloque a seguinte em um estado no qual não seja possível ampliar seus conhecimentos constitui-se como “[…] um crime contra a natureza humana, cuja determinação original consiste precisamente neste avanço.” (KANT, 2013, p. 68). Segundo Kant (2013), uma limitação como essa, além de aniquilar o caminho de aperfeiçoamento humano por um período de tempo, torna-o “[…] infecundo e prejudicial para a posteridade.” (KANT, 2013, p. 69).
Por fim, o autor provoca uma reflexão acerca dos riscos imaginados a respeito do esclarecimento. Segundo ele, apesar da preocupação e da tendência dos chefes de estado em limitar a liberdade civil e religiosa, como se isso pudesse levar a um cenário de desobediência aos princípios do governo, “Os homens se desprendem por si mesmos progressivamente do estado de selvageria, quando intencionalmente não se requinta em conservá-los nesse estado.” (KANT, 2013, p. 70). Ou seja, o autor defende que quanto mais esclarecimento é permitido ao homem, mais ele se torna capaz de agir de acordo com a liberdade recebida e, com isso, cumprir as regras e leis estipuladas pelo Estado.
Apesar disso, Kant (2013) destaca em seu texto que ainda não vivia em uma época esclarecida, mas sim em uma época de esclarecimento. Ou seja, uma época na qual o uso da análise crítica e da própria razão estava em processo de desenvolvimento, tanto na esfera teórica como prática. Ademais, de acordo com a perspectiva do autor, ainda levaria muito tempo para que os homens conseguissem, efetivamente, romper com a condição de menoridade e que fossem capazes de fazer uso de seu próprio entendimento.
3.2 o zé-ninguém em Reich
O conceito de “zé-ninguém”, no entendimento de Reich (2007), encontra-se associado ao que ele chama de “homem comum” ou “pequeno homem”7. Segundo o autor, o zé-ninguém é aquele que tem medo de assumir a responsabilidade pelos seus pensamentos e atos, renunciando a importância que ele tem na construção do futuro da humanidade. É um indivíduo com capacidades intrínsecas, porém escolhe ser covarde, desprezando a si mesmo, comportamento que evidencia ainda mais sua qualidade de homem comum.
É aquele que, diante da liberdade, não sabe fazer uso dela com sabedoria. Confunde-a com insolência, desrespeitando limites, instituições e regras. Não consegue equilibrá-la com o respeito, bom senso ou obediência. Confunde o direito à liberdade de expressão e de crítica com o direito de ser irresponsável em suas falas e ações (REICH, 2007).
Diante da possibilidade de escolher aqueles que irão representá-lo, escolhe homens de má índole; confere mais poder aos poderosos, sente orgulho de seus grandes generais, mas não de si mesmo ou de seus amigos. Segundo o autor, apesar de demonstrar preocupação com a nação, não se expõe a riscos, pois coloca a sua segurança na frente da verdade e da felicidade.
Juntamente, o zé-ninguém vive a partir de uma inversão de valores, na qual considera que a segurança, o dinheiro, a opinião pública ou um partido tem mais valor do que sua própria força vital, tornando-se um indivíduo encouraçado8. Tem medo de críticas, é manipulador e esconde sua insignificância e estreiteza por trás de ilusões de força e grandeza. Sente-se inferior, mas ataca o outro para se sentir superior e aliviar a sensação de sua própria pequenez. Gosta de resultados imediatos e não de ideias e problemas levantados por pesquisadores, ainda que suas descobertas possam beneficiá-lo no futuro. Quanto menos entende sobre alguma coisa mais firme é sua crença nela. Carrega “verdades eternas” (REICH, 2007, p. 24), que segundo o autor, não sobrevivem nem mesmo a alguns anos de desenvolvimento social. Baseia sua opinião pessoal na opinião pública, construída pelo conjunto de opiniões de todos os zés-ninguéns e, por medo, deixa de expor uma opinião diferente, coerente, que poderia ser trazida à luz. Fica preso então, em um círculo vicioso que ele mesmo criou e do qual apenas ele mesmo é capaz de se libertar (REICH, 2007).
Reich (2007) aponta que o zé-ninguém costuma se apossar do conhecimento alheio, pois diante do seu estado de dependência, não se sente capaz de fazer algo sozinho. Desta forma, precisa do outro para extrair conhecimento, segurança, visão de mundo e desenvolvimento pessoal e profissional. Desprovido do conhecimento próprio e do desejo em construí-lo, seu comportamento aponta para o vazio existencial e infelicidade que sente.
Em consonância com tais elementos, Reich (2007) destaca que o zé-ninguém tem medo de olhar para si mesmo, empoderar-se e gerir sua própria vida. Tem dificuldade de acessar suas profundezas, agir espontaneamente e abrir-se para a vivência da intimidade e do amor. Juntamente, tende a apresentar aversão a quem vive em uma condição oposta a ele. Para ele, se expor a uma expressão ou movimento livre, vivo e natural seria um risco, pois poderia fazê-lo enxergar a enormidade de sua própria desgraça. Portanto, segue fazendo escolhas que o protejam disso. Pode-se perceber então, que é mais cômodo para o zé-ninguém ficar nessa posição do que agir, tomando para si a responsabilidade pela sua vida e pelo seu futuro.
Em contrapartida à definição dada por Reich (2007) ao zé-ninguém, o autor diz que um grande homem é aquele que reconhece sua pequenez e a estreiteza de seus atos e pensamentos e, diante disso, dispõe-se a se libertar da peste emocional9 à qual está predisposto.
Através do entusiasmo por uma vida autêntica, o grande homem manifesta sua força vital por meio do trabalho, do amor e do conhecimento. Tem respeito pelas leis que fazem sentido, e combate, com sabedoria, aquelas que são obsoletas ou absurdas. Tem consciência da sua responsabilidade e da importância da sua cooperação para a construção de uma sociedade melhor. Considera sua opinião pessoal digna e faz uso de sua liberdade de expressão visando o bem. Por fim, também se configura como aquele que confia em si mesmo e não permite que sua vida seja conduzida por políticos e diplomatas, tomando seu destino nas próprias mãos (REICH, 2007).
Apesar de expor em sua obra a pequenez do zé-ninguém e a crença de que ainda levaria muitos séculos para a transformação deste em um grande homem, o autor sinaliza ter confiança nessa transformação. Ou seja, Reich (2007) compreende um potencial intrínseco do zé-ninguém em tornar-se um grande homem10.
3.3 um diálogo entre a menoridade e o zé-ninguém
Analisando os conceitos apresentados, pôde-se identificar convergências e divergências entre eles, de modo a viabilizar o estabelecimento de um diálogo acerca dos mesmos.
Desde a definição dos conceitos, é possível perceber que ambos tratam da falta de coragem do indivíduo em fazer uso de seus próprios pensamentos na condução de sua vida e na construção da sociedade. No entanto, a menoridade, para Kant (2013), se referia especialmente à esfera da produção de conhecimento e à liberdade de pensamento. Temática esta, estimulada pela ascensão do Iluminismo naquela época (século XVIII), por sua vez, caracterizado como um movimento filosófico marcado pela defesa da ciência e da racionalidade crítica (JAPIASSÚ e MARCONDES, 2008). Já o zé-ninguém, para Reich (2007), referia-se não apenas à esfera do pensamento e da construção do conhecimento, mas também aos fenômenos emocionais e relacionais da vida do indivíduo. Enfoque marcado pela área de pesquisa e atuação de Reich (2007), que considerava relevante em sua abordagem psicológica fatores como a liberdade de movimento, a intimidade e a espontaneidade.
Outro fator importante de diferenciação é que, na época da obra de Kant (2013), conforme ele nos indica, a possibilidade de cada indivíduo construir seu próprio pensamento e sua capacidade de análise crítica estava em desenvolvimento inicial. Uma vez que, até certo ponto, a autoridade religiosa ainda imperava em matéria de pensamento. Já na época da obra de Reich (2007), de acordo com aquilo que é evidenciado pelo autor, havia uma maior abertura social para que os indivíduos exercessem sua liberdade de pensamento. Porém, mesmo que inconscientemente, os indivíduos escolhiam renunciar a ela devido à peste emocional e ao estado de encouraçamento que os assolavam. Inclusive, para Reich (2007), a peste emocional fazia do zé-ninguém não apenas um fenômeno individual como também social, pois esta atua coletivamente, limitando o desenvolvimento da população e da sociedade.
De toda forma, é possível dizer que a condição final do indivíduo em estado de menoridade ou de zé-ninguém é semelhante: um estado de pequenez em seus atos, correlacionado à carência de coragem em servir-se de si mesmo em matéria de pensamento e assumir para si a responsabilidade de sua vida e de sua ação na construção do futuro da humanidade. Percebe-se então, que salvas as características pertinentes ao momento histórico de cada obra, estes conceitos podem ser equiparados.
Os termos utilizados pelos autores para se referirem ao indivíduo nas referidas condições também reforça uma proximidade entre eles. Kant (2013), utiliza o termo “menoridade”, enquanto Reich (2007), utiliza “pequeno homem” – se considerarmos o termo original de sua obra, proveniente de “kleiner mann”, em alemão, e “little man”, da tradução para o inglês. Desta forma, os significados atribuídos a esses termos remontam a uma condição semelhante, de “pequenez”, conforme apontado na discussão acima.
Ambos os autores compreendem que este estado de pequenez afeta o funcionamento social de maneira abundante. Apontam a dependência, a passividade e o comodismo como marcas do estado de pequenez, visto que é mais fácil atribuir responsabilidade ao outro do que tomá-la para si mesmo. Porém, não deixam de sinalizar que, apesar do aparente conforto dessa posição, a escolha do indivíduo em se manter nela o aprisiona, pois este segue repetindo dinâmicas de funcionamento pessoal e social nocivas para ele mesmo.
Apesar disso, os autores indicam ter confiança no potencial dos indivíduos para transcender esta condição. Kant (2013) define esse estado de transcendência como “esclarecimento” ou “maioridade”, e Reich (2007) o define como “grandeza”. Porém, destacam que, assim como a escolha de estar na condição de pequenez é de responsabilidade do indivíduo, sair dela também depende dele e, para isso, é necessário coragem.
Também, no que concerne à possibilidade de o indivíduo alcançar o esclarecimento ou o estado de grandeza, os autores problematizam a dinâmica de funcionamento das relações de poder que permeiam a sociedade. Seja através do poder religioso e monárquico, que limita a produção de conhecimento por parte do povo, ou através do poder de governantes e políticos, que interferem no desenvolvimento e transcendência do estado de pequenez.
Ademais, Kant (2013) e Reich (2007) sinalizam que para alcançar o esclarecimento e o estado de grandeza é necessário que haja liberdade do indivíduo para assumir quem se é, guiar sua própria vida, construir e divulgar livremente suas próprias ideias e análises críticas. Apesar de apontarem a preocupação que normalmente permeia as autoridades e a sociedade acerca da liberdade individual, os autores concordam que o indivíduo esclarecido, ou o grande homem, tenderia a fazer bom uso desta liberdade, respeitando leis, limites e regras, de modo a assumir com responsabilidade o seu papel na construção do futuro da humanidade.
Um aspecto essencial, destacado por ambos os autores, para a viabilização do desenvolvimento humano, individual e social, é que o conhecimento e as tradições sejam constantemente questionados, refletidos e ampliados, de forma a se tornarem compatíveis com cada época. Ou seja, é essencial que o caráter dinâmico do conhecimento e das tradições seja preservado. Por fim, os autores apontam em concordância que, apesar do potencial do indivíduo para o esclarecimento ou estado de grandeza, ainda levaria muitos anos para que este fosse capaz de romper totalmente com sua condição de menoridade ou de zé-ninguém.
4. Considerações finais
Através da pesquisa realizada, foi possível compreender o sentido atribuído por cada autor aos conceitos estudados (menoridade e zé-ninguém), além de elaborar um diálogo entre eles, explorando as suas convergências e divergências. Apesar de as obras terem sido escritas em épocas tão distintas, pôde-se perceber que tratavam de questões similares no que diz respeito à produção de conhecimento (ou autoconhecimento), tal como aos sofrimentos e desafios que permeiam a vida humana.
As divergências evidenciaram-se especialmente, no que condiz às estruturas e convenções sociais que imperavam na época de cada obra. Porém, em relação aos conceitos em si, destacaram-se as convergências. Ambos os conceitos apontam para os impactos negativos que o estado de menoridade ou de zé-ninguém têm no âmbito individual e social. E destacam a importância que o estado de esclarecimento ou de grandeza tem, através de uma atitude autônoma, responsável e corajosa, na construção do futuro e do avanço da humanidade. Apesar de ambos os autores sinalizarem a influência que as relações de poder têm no processo de desenvolvimento, destacam que ele depende especialmente da escolha e da ação do próprio indivíduo.
É possível refletir, diante do resultado desta pesquisa, que a tentativa de limitar a busca pelo esclarecimento ou estado de grandeza dos indivíduos é uma atitude prejudicial para o futuro da humanidade. Uma vez que, conforme apontado pelos próprios autores, o ato de questionar e ampliar o pensamento, o conhecimento e as tradições vigentes em cada época é necessário para o desenvolvimento e avanço da humanidade. Diante disso, propõe-se os seguintes questionamentos: Vivemos, hoje, em um estado de maior esclarecimento, ou de grandeza? Mais ainda, algum dia conseguiremos efetivamente sair do estado de menoridade ou da condição de zé-ninguém?
Pode-se considerar, para além de ilusórias garantias, que o próprio movimento de nutrir o livre pensamento, a capacidade de análise crítica e a coragem, constitui-se como um elemento favorável à possibilidade de transcendência do estado de pequenez. Uma vez que, o movimento é, justamente, o que nos garante o avanço e desenvolvimento humano.
Conclui-se então, que os resultados da pesquisa se mostraram relevantes para uma compreensão mais aprofundada dos impactos da psykhé e seus fenômenos na realidade individual e social. Além de apresentar, através de uma perspectiva epistemológica, uma correlação entre áreas do conhecimento distintas, Filosofia e Psicologia, que se mostraram igualmente valiosas para a compreensão dos fenômenos humanos.
Ao refletir a respeito do campo da Psicologia, especificamente, fica o questionamento: A construção do conhecimento a partir da liberdade de pensamento é nutrida e valorizada dentro deste campo? Mesmo não nos arriscando a fornecer uma resposta definitiva, esperamos que as discussões fornecidas neste estudo possam, de alguma forma, contribuir para que um estado de esclarecimento e de grandeza seja cada vez mais cultivado nesta área de estudo e atuação.
Referências
DURANT, W. A história da filosofia. Rio de Janeiro: Record, 1996.
FADIMAN, J; FRAGER, R. Teorias da personalidade. São Paulo: Harbra, 2002.
JAPIASSÚ, H; MARCONDES, D. Dicionário Básico de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
KANT, I. “Resposta à pergunta: O que é esclarecimento?”. In: KANT, I. Textos Seletos. Traduzido por: Floriano de Sousa Fernandes. 9° ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2013, p. 63-71.
KOLLER, S. H.; COUTO, M. C. P. P.; HOHENDORFF, J. V. Manual de produção científica. Dados eletrônicos. Porto Alegre: Penso, 2014.
CHAUÍ, M. S. Vida e obra. In: Os pensadores: Kant. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 5-18.
REICH, W. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
REICH, W. Psicologia de massas do fascismo. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
REICH, W. O Éter, Deus e o Diabo: a superposição cósmica. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
REICH, W. Escute, Zé-Ninguém! São Paulo: Martins Fontes, 2007.
REICH, W. A biopatia do câncer. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
REICH, W. A função do orgasmo: problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Brasiliense, 2012.
VOLPI, J. H. Um panorama histórico de Wilhelm Reich. In: Volpi, J. H.; Volpi, S. M. Psicologia Corporal. Revista online. ISSN-1516-0688. V. 13. Curitiba: Centro Reichiano, 2012.
Disponível em: https://www.centroreichiano.com.br/artigos/Artigos/Um-panorama-historico-deWilhelm-Reich-VOLPI-Jose-Henrique.pdf
VOLPI, J. H. Psicoterapia corporal – um trajeto histórico de Wilhelm Reich. Curitiba: Centro Reichiano, 2019.
Notas
1 Primeira publicação: Perozin, N. P., & Vieira Corrêa, C. (2024). Entre a Menoridade e o Zé-Ninguém: Um Diálogo entre Immanuel Kant e Wilhelm Reich. REVISTA LATINO-AMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL, 11(17), 9–21. https://doi.org/10.14295/rlapc.v11i17.175
2 Termo original utilizado na obra de Kant é Aufklärung, do alemão. Devido à dificuldade em encontrar uma palavra com correspondência direta deste termo ao português, algumas publicações traduzidas para a língua portuguesa utilizam o termo “esclarecimento” e outras “iluminismo”. Nesse artigo será utilizado o correspondente “esclarecimento”.
3 O Orgone Institute, também chamado de Instituto Orgone ou de Orgonon, foi uma propriedade de Wilhelm Reich em Rangeley, Maine, nos Estados Unidos da América (EUA), criado com o objetivo de realizar pesquisas referentes a energia orgone. Após a morte de Reich as atividades do Instituto foram gradualmente interrompidas e, hoje, o espaço faz parte do Wilhelm Reich Infant Trust Fund (REICH, 2009).
4 Dependendo da publicação consultada para esta pesquisa, há divergência na data de publicação desta obra. Algumas publicações indicam o ano 1783 e outras o ano de 1784. Pelas pesquisas realizadas concluiu-se que o ano de escrita do texto foi 1783 e o ano da primeira publicação foi 1784. Nesse artigo será utilizada a data da primeira publicação, 1784.
5 O termo esclarecimento, utilizado por Kant, assim como sua reflexão proposta no texto em torno desse tema, relaciona-se diretamente com o Iluminismo, que foi, segundo Japiassú e Marcondes (2008), para além de um período histórico (Século das Luzes), um movimento filosófico, literário, artístico e político que se desenvolveu no século XVIII e se caracteriza pela defesa da ciência e da racionalidade crítica. De acordo com os autores, os iluministas consideravam que a emancipação do homem ocorre através da razão e do saber, ao qual ele deveria ter livre acesso.
6 Referente a ideia de “uso público da razão” Kant diz: “Entendo contudo sob o nome de uso público de sua própria razão aquele que qualquer homem, enquanto sábio, faz dela diante do grande público do mundo letrado.” (KANT, 2013, p. 66).
7 O termo “zé-ninguém”, escolhido para a tradução da obra para o português, deriva do termo “kleiner mann”, do alemão, ou “little man”, do inglês, que significa “pequeno homem” ou “homenzinho”. O conhecimento do termo original utilizado por Reich favorece uma efetiva compreensão do sentido atribuído por ele a este conceito. Sem este conhecimento, o termo “zé-ninguém”, como comumente utilizado na língua portuguesa, pode trazer uma interpretação diferente da pretendida pelo autor.
8 Para Reich (1998), o caráter relaciona-se às características pessoais de um indivíduo, desenvolvidas ao longo da sua história de vida, e expressas em seu padrão de comportamento habitual. A couraça ou encouraçamento do caráter, por sua vez, manifesta-se através de padrões fixos e enrijecidos de comportamento e pode ser compreendida como uma defesa psíquica construída a partir de frustrações e situações de estresse vivenciadas pelo indivíduo.
9 A peste emocional, também chamada de “chaga emocional” (REICH, 2012, p. 9) ou “chaga psíquica” (REICH, 2012, p. 14), pode ser definida como um processo de adoecimento social que se expressa pela tendência destrutiva do homem e pelo entrave da sociedade diante do próprio progresso. Tal fenômeno de resistência à mudança e de conservação de elementos sociais preestabelecidos tende a ocorrer mesmo com a existência de condições sociais desfavoráveis à vida dos sujeitos (REICH, 2001; REICH, 2003; REICH, 2007; REICH, 2012). Ademais, Reich (2012, p.196) caracteriza a peste emocional como sendo a “estrutura irracional do caráter humano”.
10 “Você é grande, zé-ninguém, quando não é mesquinho e pequeno. Sua grandeza, zé-ninguém, é a única esperança que nos resta.” (REICH, 2007, p. 125).
Sobre o(s) autor(es)
Nathalie Pailo Perozin
Graduanda do curso de Psicologia (Universidade Tuiuti do Paraná), especialista em Psicologia Corporal (Centro Reichiano) e professora de Terapia Bioenergética. E-mail: nathaliepp@hotmail.com
Cairu Vieira Corrêa
Psicólogo (Universidade Tuiuti do Paraná), mestre em Psicologia Clínica (Universidade Federal do Paraná), especialista em Psicologia Corporal (Centro Reichiano), professor universitário e psicólogo clínico. E-mail: cairupsico@hotmail.com