Dinâmica corporal com as figuras curandeiro, guerreiro, bandoleiro, mago e sábio
Body dynamics with the figures Healer, warrior, bandit, magician, and sage
Resumo
Palavras-chave: Autorregulação. Bioenergética. Vivência. Grounding. Terapia corporal
Abstract
Keywords: Self-regulation. Bioenergetics. Experiential practice. Grounding. Body therapy.
A compreensão do corpo na tradição ocidental foi definida por uma dicotomia herdada do pensamento cartesiano, que relegou o corpo à condição de mero objeto ou apêndice da mente. O corpo era visto como uma máquina a ser controlada, silenciada ou treinada, desprovido de uma inteligência própria ou de uma participação ativa na constituição da subjetividade. Segundo Leder (1984 apud SCORSOLINI-COMIN e AMORIM, 2008, p. 203), “o paradigma trazido por Descartes está presente na ciência e na cultura popular nos últimos trezentos anos, dificultando uma visão dos atos corporais para além dos aspectos físicos”.
A ruptura desse paradigma surge com o trabalho de Wilhelm Reich, que propõe a identidade funcional entre psique e soma. Para ele, o corpo contém a história do sujeito e é a própria expressão da totalidade psíquica em movimento. Como aponta Lowen (1982, p. 120), “a identidade funcional do caráter psíquico com a estrutura corporal ou a atitude muscular é a chave da compreensão da personalidade”. A terapia corporal estabelece-se como uma via de acesso privilegiada ao inconsciente, permitindo que os processos de autorregulação do organismo, muitas vezes obstruídos por defesas crônicas, sejam restabelecidos.
O presente artigo propõe uma reflexão sobre a prática de Reorganização das Funções do Organismo pelo Movimento, técnica desenvolvida e apresentada pela psicóloga Márcia de Oliveira (CRP 4674-06) no Congresso Reichiano de Orgonomia, do qual a autora integrou a comissão científica, há aproximadamente vinte anos¹[1]. A presente reflexão articula-se a partir da vivência da autora como paciente em grupos terapêuticos conduzidos por Márcia de Oliveira, orientados por essa técnica.
Fundamentada na perspectiva reichiana, essa abordagem compreende o movimento como um ato expressivo e regulador, no qual o movimento organizado, quando ancorado nos princípios da pulsação, do enraizamento e da livre circulação energética, opera como um catalisador da autonomia do organismo. Ao acessar diferentes qualidades de presença e ação, o sujeito pode desarticular padrões de rigidez e resgatar a capacidade de resposta flexível diante das demandas da vida, promovendo uma reorganização de suas funções vitais.
Fundamentação Reichiana e Bioenergética
O conceito de couraça caracterológica, desenvolvido por Reich (1995), ajuda a compreender como as experiências emocionais se tornam estruturas físicas. A couraça surge nas tensões musculares crônicas que funcionam como uma defesa psíquica erguida contra a angústia e impulsos não integrados. Sob essa ótica, a forma como as vivências moldam o corpo é descrita por Lowen:
A estrutura de corpo da pessoa nos diz alguma coisa sobre sua história. Todas as experiências deixam suas marcas no corpo. Experiências significativas modelam o corpo do mesmo modo como modelam a personalidade (LOWEN, 1980, p. 67).
Onde há um bloqueio no movimento, há uma restrição na capacidade de sentir e de agir. O organismo encouraçado perde sua plasticidade e sua capacidade de autorregulação, ficando aprisionado em padrões repetitivos de resposta que no passado foram necessários para a sobrevivência, mas que no presente limitam a vitalidade.
A saúde, sob a ótica reichiana, está ligada à equação funcional: tensão, carga, descarga e relaxamento. Esse ciclo permite que o organismo processe a energia vital e retorne à sua pulsação natural, princípio que será aprofundado adiante. Um organismo saudável é aquele que transita com fluidez entre os polos de expansão e contração, sem ficar fixado em nenhum deles. Quando a couraça impede essa alternância, a vida se torna estagnada e a energia deixa de circular de forma saudável.
Alexander Lowen, ao expandir o legado de Reich com a Análise Bioenergética, introduziu o conceito de grounding, ou enraizamento. Para Lowen, a energia não pode circular de forma segura e eficaz se o indivíduo não possuir uma base de sustentação sólida no próprio corpo e na realidade. Estar enraizado significa ter os pés no chão, sentir o apoio da terra e permitir que o fluxo energético percorra todo o organismo até as extremidades. Conforme diz Lowen (1980, p. 17), o “Grounding refere-se à conexão energética entre os pés da pessoa e a terra ou chão. Reflete o montante de energia ou sensação que ela permite fluir para a parte inferior de seu corpo.”
Com o grounding a descarga ocorre de forma consciente, fortalecendo o self e permitindo que o organismo se reorganize em um novo patamar de equilíbrio. A integração entre o físico e o analítico é descrita por Lowen da seguinte forma:
A análise bioenergética emprega muitas técnicas e exercícios físicos ativos que ajudam a pessoa a fortalecer sua postura, aumentar sua energia, ampliar e aprofundar sua autopercepção e acentuar sua autoexpressão. O trabalho corporal é realizado em coordenação com o processo analítico; corpo e mente se combinam para o enfrentamento dos problemas emocionais (LOWEN, 1980, p. 17).
A técnica de Reorganização das Funções do Organismo pelo Movimento utiliza a base teórica reichiana, buscando oferecer ao sujeito um caminho de retorno à sua potência vital através de movimentos que respeitam a integridade somatopsíquica. A leitura articulada entre essa base e as cinco figuras que estruturam a prática, apresentada nas seções seguintes, constitui elaboração da presente autora, construída a partir de sua experiência vivencial como paciente da técnica.
As Figuras como qualidades energéticas
Na proposta de reorganização do organismo pelo movimento, as figuras do Curandeiro, Guerreiro, Bandoleiro, Mago e Sábio devem ser compreendidas como qualidades energéticas e organizadores funcionais que residem no organismo humano. Cada uma dessas figuras representa uma função biológica e psíquica para a manutenção do equilíbrio e para a expressão da saúde. Ao teorizar sobre essas qualidades a partir de sua vivência nos grupos citados acima, percebe-se que elas compõem um mapa da dinâmica energética que permite ao sujeito transitar por diferentes estados de consciência e de ação no mundo.
A qualidade do Curandeiro refere-se à função de regulação, acolhimento e segurança, permitindo ao organismo sentir-se seguro o suficiente para explorar o ambiente interno, identificando as tensões. É a função de presença e nutrição, o solo fértil no qual a reorganização pode começar.
O Guerreiro personifica a qualidade de ativação, força e direção. É a energia da afirmação no mundo e do estabelecimento de fronteiras claras. Na economia energética, o Guerreiro representa o tônus necessário para ocupar o próprio espaço e defender a própria integridade. É uma força que permite que o sujeito se carregue e se coloque de forma assertiva.
O Bandoleiro representa a função de ruptura e descarga. É a qualidade que desorganiza padrões e desafia a rigidez da couraça para abrir espaço para o novo. É uma desestruturação criativa necessária para que a energia estagnada seja liberada e encontre seu caminho.
A qualidade do Mago introduz a transformação, a fluidez e a criação. É a capacidade de transmutar a energia que foi liberada pela ruptura (como tremores) em novas formas de expressão. O Mago é a função que integra os opostos, permitindo que o organismo transite entre a força e a suavidade, entre o dar e o receber, com naturalidade e plasticidade.
O Sábio representa a qualidade de testemunha e integração. É a consciência que observa, acolhe e dá sentido à experiência vivida. Ele é o lugar da presença, no qual o sujeito pode perceber as transformações ocorridas em seu corpo sem julgamento, permitindo a síntese final do processo.
Princípio organizador: a Pulsação
O ciclo de expansão e contração constitui a matriz de toda a vida orgânica, como o batimento cardíaco e o movimento respiratório. Na dinâmica corporal proposta, esse princípio é o eixo que sustenta toda a prática.
A alternância entre momentos de maior ativação energética e momentos de receptividade e quietude espelha o ritmo da natureza. A saúde é a capacidade de pulsar ritmicamente. Quando o movimento é organizado respeitando essa alternância, o organismo encontra o caminho para a autorregulação sem a necessidade de muitas intervenções externas impositivas.
A dosagem surge aqui como um princípio ético e clínico. Na tradição reichiana, compreende-se que forçar a abertura das defesas pode ser violento e contraproducente, gerando mais resistência ou fragmentação. A proposta da reorganização do organismo pelo movimento oferece ao corpo a oportunidade de se reorganizar em seu próprio ritmo, respeitando o tempo biológico e os limites de cada sujeito.
A respiração e o grounding desempenham papéis fundamentais. A respiração atua como ferramenta que permite que a energia se acumule e encontre canais de expressão e descarga, facilitando a dissolução gradual das tensões da couraça e o restabelecimento do fluxo vital. O grounding garante a segurança e a presença no corpo durante todo o trabalho. As investigações de Weigand (2005, p. 35) demonstram que “as posturas de grounding e as vibrações aumentam as ondas respiratórias e a excitação geral do organismo”, facilitando esse processo de liberação das tensões crônicas.
A música funciona como um organizador rítmico externo que dialoga diretamente com a pulsação interna do organismo e com cada qualidade energética acessada. As frequências, os timbres e as dinâmicas musicais são escolhidas para evocar as qualidades de cada figura correspondente.
A música opera como um convite ao movimento espontâneo, criando uma moldura segura para que a experiência se desenrole sem a necessidade de comando verbal constante. Ela é parte integrante do processo de reorganização, um veículo sonoro que acompanha e sustenta cada figura em sua função específica dentro do ciclo.
Considerações finais
A terapia do corpo, fundamentada nos preceitos reichianos e da bioenergética, deve ser vista como uma técnica que busca compreender o ser humano a partir de sua totalidade somatopsíquica. Afinal, como afirma Lowen (1982, p. 102), “o self não pode divorciar-se do corpo e a autopercepção não pode separar-se da consciência corporal”. A prática busca criar as condições seguras para que o organismo encontre seu caminho de cura e equilíbrio.
O papel do facilitador nesse contexto é o de sustentar o campo e garantir a segurança necessária para que o processo de reorganização ocorra. A reorganização do corpo é uma potência do próprio organismo que, ao ser liberado de suas amarras crônicas, tende naturalmente para a saúde e para a expansão. Ao devolver ao corpo sua dignidade como sujeito da experiência e ao movimento sua função de via para a pulsação vital, abre-se caminho para uma existência mais íntegra, consciente e conectada com a essência da vida.
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Notas
[1] Informação em mensagem de áudio fornecida por Márcia de Oliveira à autora, 2026, autorizando a citação da técnica como base deste trabalho. Segundo relato da autora da técnica, o trabalho encontra-se registrado junto à Fundação Biblioteca Nacional sob o título Reorganização das Funções do Organismo pelo Movimento.
Referências
LOWEN, Alexander. Bioenergética. São Paulo: Summus, 1982.
LOWEN, Alexander. Narcisismo: a negação do verdadeiro self. São Paulo: Summus, 1983.
REICH, Wilhelm. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
SCORSOLINI-COMIN, Fabio; AMORIM, Katia de Souza. Corporeidade: uma revisão crítica da literatura científica. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 14, n. 1, p. 189-214, jun. 2008. Acesso em: 1 agosto. 2026
WEIGAND, Odila. Grounding na análise bioenergética: uma proposta de atualização. 2005. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2005.
Sobre o(s) autor(es)
Antônia Rangel
Gestora e produtora cultural com mais de 20 anos de experiência em projetos nas esferas pública e privada, em níveis federal e estadual. Formada em História (Mestrado/UNESP e Graduação/UFG). Especialista em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Terapeuta e Analista Corporal de abordagem reichiana e bioenergética, pelo Centro Reichiano. Atuou em cargos de liderança no Ministério da Cultura e Governo do Maranhão, desenvolvendo expertise em coordenação de processos, articulação institucional, planejamento e execução de projetos culturais e audiovisuais. Atualmente trabalha como Assessora Institucional na CONTEE e Produtora Executiva na Arte & Alma Terapias e Produções.