Destrave o dinheiro, destrave sua vida
Unlock your money, unlock your life
Resumo
Palavras-chave: Dinheiro. Psicologia corporal. Sistema familiar. Fluxo de vida. Crenças financeiras. Corpo e emoção.
Abstract
Keywords: Money. Body Psychology. Family System. Flow of Life. Financial Beliefs. Body and Emotion.
Quando pensamos em dinheiro, acreditamos que decidimos de maneira racional? Essa foi uma das primeiras perguntas que permearam a construção deste trabalho.
É comum supor que ganhar, gastar, poupar e investir sejam ações determinadas fundamentalmente por cálculos objetivos e decisões conscientes. Entretanto, a economia comportamental e a psicologia cognitiva demonstram que a relação humana com o dinheiro é consideravelmente mais complexa.
Ariely e Kreisler (2019) discutem diferentes situações nas quais nossas escolhas financeiras são influenciadas pelo contexto, pelas emoções e pela forma como percebemos valor. Entre os exemplos apresentados pelos autores está a diferença comportamental observada entre pagamentos realizados em dinheiro e por meio de cartão de crédito: embora o valor monetário possa ser idêntico, a experiência psicológica do pagamento não necessariamente o é.
Complementando essa perspectiva, Mullainathan e Shafir (2016) demonstram que a experiência da falta — ou a percepção constante de limitação de recursos — consome a chamada “largura de banda mental” (bandwidth). Para os autores, a preocupação recorrente com a escassez opera como um ruído de fundo que reduz a capacidade cognitiva e o autocontrole do indivíduo, forçando a mente a uma “visão de túnel” (tunneling) centralizada nas urgências imediatas.
Os autores sustentam, ainda, que compreender os mecanismos envolvidos nas decisões financeiras possui implicações que ultrapassam a gestão monetária, uma vez que forças semelhantes participam da maneira como administramos o tempo, estabelecemos prioridades, construímos relacionamentos e atribuímos valor às diferentes dimensões da existência (ARIELY; KREISLER, 2019; MULLAINATHAN; SHAFIR, 2016).
Essa constatação conduz à questão central deste trabalho: se a relação com o dinheiro não acontece exclusivamente no campo racional, em quais outras dimensões ela pode ser experimentada?
Propõe-se investigá-la a partir de três territórios: o corpo, a história individual e as relações familiares que participam da constituição do sujeito.
Não se pretende, portanto, oferecer educação financeira, prescrever comportamentos econômicos ou estabelecer fórmulas para prosperidade. A investigação proposta antecede essas questões. Interessa compreender o que acontece com o indivíduo quando o dinheiro entra em cena: o que ocorre com sua respiração e seu corpo; quais emoções são mobilizadas; quais frases aprendidas ao longo da vida reaparecem; quais histórias familiares são recordadas; e como experiências de receber, guardar, gastar, perder e trocar são subjetivamente vivenciadas.
Tal perspectiva permite substituir, ainda que momentaneamente, a pergunta “o que faço com meu dinheiro?” por outra: “o que o dinheiro mobiliza em mim?”
É nesse ponto que a Psicologia Corporal oferece uma importante possibilidade de investigação.
A compreensão da relação com o dinheiro proposta neste trabalho parte do pressuposto de que essa experiência não ocorre apenas no plano cognitivo. Se pensamentos, emoções e experiências de vida participam da forma como o indivíduo se relaciona com o mundo, o corpo também integra esse processo. É nesse ponto que as contribuições de Alexander Lowen e da Análise Bioenergética oferecem um importante referencial para esta investigação.
A Bioenergética compreende corpo e mente como dimensões indissociáveis do indivíduo. Para Lowen, não se trata simplesmente de possuir um corpo, como se este fosse um objeto separado da identidade, mas de reconhecer a experiência corporal como constitutiva do próprio ser. Nas palavras do autor, “se você é seu corpo e seu corpo é você, este poderá expressar quem você é. É a sua forma de estar no mundo” (LOWEN, 2017).
Essa concepção amplia a compreensão das emoções, uma vez que elas não são consideradas fenômenos exclusivamente mentais. Lowen observa que os estados emocionais encontram expressão por meio da postura, dos movimentos, da respiração, da musculatura, da voz e das diferentes formas pelas quais o indivíduo se apresenta corporalmente no mundo. Dessa perspectiva, o corpo participa da experiência emocional e pode revelar aspectos que nem sempre se encontram imediatamente disponíveis à consciência.
O autor sustenta, ainda, que as experiências vividas participam da constituição da personalidade e encontram expressão corporal. Conforme afirma, “uma pessoa é a soma total das suas experiências de vida, cada uma das quais é registrada na sua personalidade e estruturada em seu corpo” (LOWEN, 2017). Para ilustrar esta concepção, Lowen compara o corpo aos anéis de crescimento de uma árvore: assim como estes permitem reconhecer aspectos de sua história, a observação corporal possibilitaria ao terapeuta bioenergético acessar marcas da trajetória de vida do indivíduo.
Ao aproximar a Bioenergética da economia comportamental, compreende-se que a sobrecarga cognitiva gerada pela escassez (MULLAINATHAN; SHAFIR, 2016) não permanece restrita ao plano abstrato do pensamento. A demanda constante imposta pela urgência financeira mantém o organismo em um estado de alerta e contenção prolongados. O que Mullainathan e Shafir (2016) identificam no campo cognitivo como perda de largura de banda mental, Lowen (2017) observa no plano somático sob a forma de padrões de tensão muscular crônica, restrição respiratória e diminuição da vitalidade.
Essa compreensão é particularmente relevante para o presente trabalho. Ao longo da vida, experiências relacionadas à segurança, à privação, ao trabalho, à dependência, à autonomia, às perdas, às conquistas e às relações familiares podem adquirir significados emocionais importantes. O dinheiro participa de muitas dessas experiências. Assim, ainda que Lowen não tenha formulado uma teoria específica sobre o comportamento financeiro, seus pressupostos permitem formular uma questão pertinente: se nossas experiências emocionais também são vividas corporalmente, o que acontece no corpo quando o dinheiro entra em cena?
A proposta não é estabelecer correspondências fixas entre determinada manifestação corporal e um comportamento financeiro específico. Não se pretende afirmar, por exemplo, que uma tensão em determinada região do corpo signifique medo de perder dinheiro ou que determinada postura indique dificuldade de receber. Na perspectiva adotada neste trabalho, a manifestação corporal deve ser observada em sua singularidade e compreendida no contexto da história do indivíduo.
O interesse está, portanto, na percepção da experiência. Ao falar ou pensar em dinheiro, pode-se observar se há alterações na respiração, contrações musculares, mudanças posturais, sensações de peso ou leveza, impulso de aproximação ou afastamento, conforto ou desconforto. Tais manifestações não constituem diagnósticos financeiros, mas podem funcionar como portas de entrada para o reconhecimento das emoções e dos significados associados ao tema.
Lowen destaca que, “não se pode ser bem-sucedido na vida lutando contra si próprio” (LOWEN, 2017). A afirmação adquire especial interesse para a proposta deste estudo não como explicação para sucesso ou insucesso econômico, mas como convite à percepção das possíveis contradições entre aquilo que conscientemente se deseja e as respostas emocionais e corporais que acompanham esse desejo.
Dessa maneira, a Psicologia Corporal oferece uma mudança de perspectiva. Antes de buscar modificar comportamentos financeiros, propõe-se observar como o sujeito se organiza diante deles. Antes de perguntar somente “o que penso sobre dinheiro?”, acrescenta-se outra questão: “o que acontece em meu corpo quando penso em dinheiro?”
É a partir dessa pergunta que a dimensão corporal deixa de ser apenas objeto teórico e passa a integrar a experiência proposta neste trabalho.
Importante mencionar, também, que, entre aquilo que vivenciamos e a maneira como nos comportamos diante do dinheiro existe uma dimensão fundamental: aquilo em que acreditamos.
Para Stibal (2018, p. 101), crença é a aceitação por parte da mente de que algo é verdadeiro ou real. E, dependendo do grau com que é aceita, pode se tornar um “programa” armazenado no subconsciente, influenciando a maneira como a pessoa pensa, sente e age.
Na Psicologia Cognitiva, as crenças podem ser compreendidas como estruturas cognitivas por meio das quais o indivíduo interpreta a si mesmo, os outros e o mundo. Para Judith Beck, a partir do modelo cognitivo desenvolvido por Aaron Beck, as crenças mais profundas são construídas ao longo da vida e influenciam a maneira como as situações são percebidas e interpretadas. Essas interpretações, por sua vez, relacionam-se às respostas emocionais e comportamentais do indivíduo (BECK, 2022).
As crenças não correspondem necessariamente a fatos objetivos. Funcionam como lentes através das quais atribuímos significado às experiências. Uma vez estabelecidas, podem favorecer a atenção a informações que parecem confirmá-las e influenciar expectativas, escolhas e comportamentos.
Quando transportamos essa compreensão para o campo financeiro, podemos falar em crenças financeiras como concepções, pressupostos e significados construídos acerca do dinheiro, do trabalho, da riqueza, da escassez, do merecimento, do sucesso, do consumo, do recebimento e da segurança material.
Expressões como “dinheiro não nasce em árvore”, “é preciso trabalhar muito para ganhar dinheiro”, “dinheiro é sujo”, “rico não presta”, “quem ganha muito alguma coisa errada fez”, “dinheiro não traz felicidade”, “não posso gastar porque amanhã pode faltar” ou “eu não sei lidar com dinheiro” podem, quando reiteradas e incorporadas, ultrapassar a condição de simples frases e participar da forma como o indivíduo interpreta suas experiências financeiras.
Algumas dessas crenças podem exercer funções protetivas e adaptativas em determinados contextos. Uma família que enfrentou períodos prolongados de privação, por exemplo, pode desenvolver uma valorização intensa da economia e da segurança. Em determinado momento histórico, tal postura pode ter contribuído para sua sobrevivência. Em outro contexto, entretanto, a mesma lógica pode permanecer operando mesmo quando as condições objetivas se modificaram.
Nesse sentido, é importante diferenciar a realidade financeira concreta da interpretação construída acerca dela. Mullainathan e Shafir (2016) demonstram que a experiência real de escassez pode capturar a atenção e reduzir recursos cognitivos disponíveis para outras demandas. Isso significa que nem toda preocupação financeira deve ser interpretada como produto de uma crença disfuncional: dificuldades materiais concretas produzem efeitos reais sobre a cognição e o comportamento.
Por outro lado, experiências passadas de falta, mensagens repetidas e aprendizagens familiares podem continuar participando da maneira como novas situações são interpretadas. Uma pessoa pode, por exemplo, possuir atualmente condições diferentes daquelas vivenciadas em sua infância e, ainda assim, perceber determinadas decisões financeiras a partir de referências construídas naquele período.
Ariely e Kreisler (2019) contribuem para essa discussão ao demonstrar que o valor atribuído ao dinheiro e às decisões financeiras não depende exclusivamente de cálculos objetivos. Contexto, comparação, expectativas e mecanismos psicológicos interferem na percepção de valor e na tomada de decisão. Assim, aquilo que pensamos sobre dinheiro participa da forma como nos relacionamos com ele.
As crenças financeiras podem envolver não apenas o ter, mas também o receber. Quanto vale o meu trabalho? Posso cobrar por aquilo que faço? É aceitável ganhar mais do que meus pais ganharam? Preciso trabalhar até a exaustão para considerar meu dinheiro merecido? Guardar significa segurança ou medo? Gastar representa prazer, culpa ou irresponsabilidade? Receber ajuda gera gratidão ou imediatamente produz sensação de dívida?
Essas perguntas demonstram que falar sobre dinheiro pode significar falar também sobre valor, segurança, autonomia, pertencimento e merecimento.
A perspectiva corporal acrescenta outra dimensão a essa investigação. Se, conforme Lowen (2017), experiências emocionais encontram expressão no organismo, torna-se possível observar não apenas o conteúdo de uma crença, mas também como o indivíduo a experimenta corporalmente. Ao dizer “eu preciso trabalhar muito para merecer dinheiro”, por exemplo, o interesse desta proposta não está em determinar uma manifestação corporal universal para essa crença, mas em convidar o indivíduo a perceber o que acontece consigo ao pronunciá-la: como respira, como se posiciona, quais sensações aparecem e que emoções são mobilizadas.
A investigação das crenças, portanto, não busca simplesmente classificá-las como verdadeiras ou falsas, positivas ou negativas. Busca reconhecer sua origem, sua função e sua pertinência no presente.
Diante de uma crença relacionada ao dinheiro, algumas perguntas podem ampliar essa consciência: Onde aprendi isso? Essa ideia corresponde à minha realidade atual? Ela me protege de quê? Ainda preciso dela da mesma maneira? O que acontece em meu corpo quando acredito nisso?
É justamente a primeira dessas perguntas — “onde aprendi isso?” — que conduz à próxima dimensão deste trabalho.
Porque nossas crenças não são construídas no vazio. Antes de formularmos nossas próprias concepções sobre dinheiro, já pertencíamos a uma família na qual o dinheiro possuía uma história, uma linguagem e significados particulares.
É nesse território que passamos, então, do indivíduo para o sistema familiar. Porque, se o corpo carrega uma história, essa história também foi construída em relações.
Muito antes de possuir salário, conta bancária ou compreender conceitos econômicos, o indivíduo já observa como sua família se relaciona com recursos materiais. Expressões como “dinheiro não nasce em árvore”, “é preciso trabalhar muito para ganhar dinheiro”, “não podemos gastar”, “guarde para uma emergência” ou “dinheiro não traz felicidade” podem participar da aprendizagem familiar sobre segurança, trabalho, consumo, merecimento e valor.
A escassez vivida por gerações anteriores pode consolidar uma “visão de túnel” (MULLAINATHAN; SHAFIR, 2016) compartilhada pela família, na qual a existência é percebida prioritariamente sob a ótica da sobrevivência e da ameaça de falta. Quando essas crenças são repetidas, o sistema transmite mais do que sentenças verbais: transmite uma postura relacional e somática diante dos recursos materiais.
Nesse ponto, a perspectiva sistêmica desenvolvida por Bert Hellinger, na obra “Ordens do Amor” (2007), oferece outro campo de reflexão. Ele descreve princípios que denominou “Ordens do Amor”, isto porque estão relacionados ao pertencimento, à precedência ou hierarquia e ao equilíbrio nas relações. Em sua formulação, todos aqueles que pertencem a determinado sistema possuem direito ao pertencimento; existe uma ordem relacionada à precedência dos integrantes do sistema; e determinadas relações demandam movimentos de equilíbrio entre dar e receber.
O princípio do pertencimento refere-se ao direito de todos os membros do sistema familiar de ocupar um lugar, independentemente de suas histórias. Quando há exclusões — como falências, perdas financeiras, injustiças ou destinos difíceis —, pode haver uma tendência inconsciente à repetição desses padrões por gerações posteriores, como forma de compensação ou lealdade. (HELLINGER, 2007)
A ordem diz respeito ao reconhecimento da hierarquia dentro do sistema, especialmente na relação entre pais e filhos. Quando essa ordem é invertida, seja por julgamentos, rejeições ou tentativas de compensação, podem surgir dificuldades na fluidez da vida, incluindo aspectos financeiros. (HELLINGER, 2007)
Já o equilíbrio entre dar e receber está diretamente relacionado à dinâmica das trocas. Nas relações saudáveis, há uma reciprocidade que sustenta o vínculo. Quando esse equilíbrio é rompido — seja pelo excesso de entrega ou pela dificuldade em receber —, o fluxo tende a se interromper ou se tornar disfuncional, impactando também a relação com o dinheiro. (HELLINGER, 2007)
Entretanto, é necessário distinguir o pensamento sistêmico de uma afirmação causal sobre prosperidade. Não se pode concluir que dificuldades financeiras sejam necessariamente provocadas pela exclusão de um familiar, pela relação com os pais ou por um suposto desequilíbrio sistêmico. Neste trabalho, os conceitos são empregados como recursos de reflexão sobre pertencimento, reciprocidade e histórias familiares, e não como instrumentos diagnósticos da condição econômica dos participantes.
Assim, em vez de perguntar “qual antepassado está bloqueando meu dinheiro?”, propõe-se investigar questões como: o que aprendi sobre dinheiro em minha família? Quem podia ganhar? Quem administrava? Como eram percebidas as pessoas que possuíam muito ou pouco? Como minha família compreendia trabalho, sucesso, dívida, perda, ajuda, receber e dar?
Essa mudança preserva a dimensão sistêmica sem transformar a história familiar em explicação determinista para a situação financeira presente.
A aproximação entre os referenciais utilizados neste trabalho não pretende afirmar equivalência teórica entre eles. Ariely e Kreisler investigam processos decisórios relacionados ao dinheiro; Mullainathan e Shafir analisam o impacto cognitivo da escassez; Lowen desenvolve uma abordagem psicoterapêutica centrada na unidade corpo-mente; Hellinger formula uma perspectiva sistêmica acerca das relações familiares.
O ponto de encontro proposto encontra-se na experiência humana.
O dinheiro pode mobilizar pensamentos, emoções, sensações corporais, comportamentos e memórias. Pode também evocar mensagens aprendidas na família e experiências relacionadas à segurança, à autonomia, à dependência, ao trabalho, ao reconhecimento, à perda, ao dar e ao receber.
A integração entre essas abordagens permite compreender que os bloqueios financeiros não se restringem a comportamentos ou decisões conscientes, mas envolvem uma complexa rede de fatores somáticos, cognitivos e sistêmicos. Dessa forma, torna-se fundamental a criação de espaços que possibilitem ao indivíduo acessar essas dimensões de maneira experiencial.
A proposta de vivência “Destrave seu dinheiro. Destrave sua vida” baseia-se justamente nessa integração, oferecendo ao participante a oportunidade de reconhecer, no próprio corpo, os sinais de bloqueio ou fluidez relacionados ao dinheiro, bem como identificar possíveis vínculos com sua história familiar. Por meio de exercícios de percepção corporal, respiração e representação simbólica no espaço, busca-se ampliar a consciência e favorecer a reorganização interna.
Ao promover essa integração, abre-se a possibilidade de ressignificação da relação com o dinheiro, permitindo que este retome sua função essencial como recurso de sustentação e expressão da vida, em vez de fonte de conflito, medo ou limitação.
CONCLUSÃO
A reflexão proposta neste trabalho convida a uma mudança de paradigma na forma de compreender o dinheiro, deslocando-o de uma dimensão estritamente material para reconhecê-lo como expressão do fluxo de vida. Ao integrar as contribuições da economia comportamental, da psicologia corporal e da abordagem sistêmica, evidencia-se que a relação com o dinheiro é atravessada por processos cognitivos, registros somáticos e dinâmicas familiares que operam, em grande parte, de forma inconsciente.
Nesse percurso, as crenças relacionadas ao dinheiro assumem papel relevante, uma vez que funcionam como lentes por meio das quais o indivíduo interpreta suas experiências financeiras e orienta suas escolhas. Construídas ao longo da vida e atravessadas por aprendizagens individuais, sociais e familiares, essas crenças podem permanecer atuantes mesmo quando as circunstâncias que contribuíram para sua formação já se modificaram. Reconhecê-las não significa classificá-las simplesmente como positivas ou negativas, mas compreender sua origem, a função que desempenharam e sua adequação à realidade presente. Ao torná-las conscientes, abre-se a possibilidade de questionar padrões automatizados e construir formas mais flexíveis e conscientes de se relacionar com o dinheiro.
A vivência teórico-prática revelou que o corpo não apenas acompanha essa relação, mas a expressa com precisão. Tensões, contrações e padrões respiratórios restritivos surgem como indicadores de bloqueios no fluxo, enquanto movimentos de expansão apontam para maior disponibilidade interna. Assim, o corpo se apresenta não apenas como lugar de registro, mas também como via de acesso e transformação.
Sob a perspectiva sistêmica, inspirada nos ensinamentos de Bert Hellinger, compreende-se que o dinheiro também responde às leis que regem os vínculos humanos. Pertencimento, ordem e equilíbrio entre dar e receber não apenas organizam as relações, mas influenciam diretamente a forma como o fluxo financeiro se estabelece na vida do indivíduo. Nesse sentido, dificuldades recorrentes podem ser compreendidas como expressões de lealdades invisíveis, exclusões ou desordens no sistema familiar.
A articulação entre corpo, mente e sistema revelou-se, portanto, um campo fértil para a ampliação da consciência. Ao reconhecer e integrar esses níveis, o indivíduo pode liberar a largura de banda mental antes aprisionada pela urgência da escassez, deslocando-se de uma relação marcada por tensão, culpa ou escassez para uma postura mais alinhada, em que o dinheiro deixa de ocupar um lugar de conflito e passa a assumir sua função essencial: sustentar e ampliar a vida.
Ainda que os resultados desta proposta se situem no campo da experiência subjetiva, seus efeitos apontam para a potência de abordagens integrativas que considerem o ser humano em sua totalidade. Mais do que “destravar o dinheiro”, trata-se de permitir que o fluxo vital reencontre caminhos onde antes havia contenção.
Assim, quando o dinheiro deixa de ser um fim em si mesmo e passa a estar a serviço da vida, não é apenas a relação com os recursos que se transforma — é o próprio modo de estar no mundo que se reorganiza.
Referências
BECK, Judith S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.
HELLINGER, Bert. Ordens do amor: um guia para o trabalho com constelações familiares. 7.ed.Trad. Newton A. Queiroz. São Paulo: Cultrix, 2007.
LOWEN, Alexander. Bioenergética. 12. ed. Tradução: Maria Silvia Mourão Netto. São Paulo: Summus, 2017. E-book.
MULLAINATHAN, Sendhil; SHAFIR, Eldar. Escassez: uma nova forma de pensar a falta de recursos na vida das pessoas e nas organizações. Trad.: Bruno Casotti. Rio de Janeiro: Best Business, 2016.
STIBAL, Vianna. ThetaHealing: uma das mais poderosas técnicas de cura energética do mundo. Trad. Giti Bond e Gustavo Barros. São Paulo: Madras, 2018.
Sobre o(s) autor(es)
Iáscara Fredrich da Silveira
Licenciada em Ciências Biológicas (PUC/RS) e em Letras Inglês (UNIJUI/RS), Especialista em Ciências Aeronáuticas (CESUMAR/PR). Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Terapeuta Corporal, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR. Escritora; Consteladora; Thetahealer; Alinhamento Energético, Terapeuta floral (IBRATE, Curitiba/PR); Reikiana e Terapeuta quântica.@iascarafsilveiraterapeuta.
Tatiana Karin de Miranda
Empresária, Advogada, Pós-graduada em Direito Civil, em Auditoria e Licenciamento Ambiental. MBA em Administração Global. Formação em Mentoring, Coaching e Advice Humanizado ISOR – Instituto Holos. Formação em Análise Corporal e Comportamental – O Corpo Explica. Curso de Psicossomática e Depressão. Atriz de teatro. Co-escritora da peça “Quer Brincar Comigo? Um espetáculo teatral que fala sobre a infância e o futuro de todos nós”. Criadora do Diário da Meia-idade, publicado na página do Instagram “@eutatimiranda”.