Centro Reichiano
Psicologia Corporal
📄 Anais dos Congressos de Psicoterapias Corporais
Trabalho publicado nos Anais

Dançando o imprevisível

A psicologia corporal como caminho para a expressividade na dança

Dancing the unpredictable

Body psychology as a pathway to expressiveness in dance

Gabriele Lima Centro Reichiano · Curitiba-PR · Brasil limagabriele395@gmail.com
Sandra Mara Volpi Centro Reichiano · Curitiba-PR · Brasil ORCID: 0009-0004-2771-0798 sandra@centroreichiano.com.br
Anais do 28º Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais
· Edição 2025

Resumo

O corpo, ao se movimentar, tende a seguir padrões previsíveis. Esses comportamentos ocorrem devido à linguagem própria do corpo, que busca expressar-se de maneira segura e familiar, refletindo sua história, estrutura de caráter e couraças. A dança de improviso, por sua vez, rompe com essa previsibilidade, possibilitando movimentos mais livres e autênticos. Quando associada à Psicologia Corporal, torna-se um caminho eficaz para ampliar a expressividade. Este trabalho enfoca práticas psicocorporais que promovem maior espontaneidade e liberdade expressiva do corpo, fundamentando-se na teoria da Análise Reichiana e da Análise Bioenergética, articulando-as de modo a incentivar a busca e a exploração de novas possibilidades de expressão corporal.

Palavras-chave: Autoexpressão; Dança de improviso; Exploração; Movimento livre.

Abstract

The body, when in motion, tends to follow predictable patterns. These behaviors arise from the body's own language, which seeks to express itself in ways that feel safe and familiar, reflecting its history, character structure, and armor. Improvisational dance, in turn, breaks with predictability, allowing for freer and more authentic movement. When combined with Body Psychology, it becomes an effective path for expanding expressiveness. This work focuses on body-oriented practices that promote greater spontaneity and expressive freedom, grounded in Reichian Analysis and Bioenergetic Analysis, encouraging the search for and exploration of new possibilities of bodily expression.

Keywords: Self-expression; Improvisational dance; Exploration; Free movement.

O caminho para a autoexpressão

O corpo é nosso meio de sentir, explorar, criar e expressar. No entanto, vivemos em uma sociedade que desconsidera os processos do corpo e da sua própria natureza humana. Segundo Lowen (2022, p. 31): “Para nos conhecermos, temos que sentir nosso corpo”.

A Psicologia Corporal de Wilhelm Reich considera o corpo como sendo o inconsciente visível. Adota uma postura (caráter) e é marcado por “cicatrizes” emocionais, as quais Reich chamou de couraças (Volpi; Volpi, 2009). A couraça serve como proteção contra as adversidades que a pessoa enfrenta ao longo da vida, bloqueia a fluidez de energia e atrapalha nossa capacidade de expressão (Volpi; Volpi, 2015).

Para Lowen e Lowen (2020, p. 47): “Se a capacidade do indivíduo de expressar sensações e sentimentos estiver bloqueada, seu corpo ficará amortecido e sua vitalidade, reduzida”.

Ao falar de expressão, não podemos ignorar o corpo que se expressa. É fundamental considerar sua história, sua estrutura caracterológica, suas marcas e bloqueios. Segundo Keleman (1995), quando se desfaz padrões estabelecidos, há muito tempo automatizados e profundamente enraizados, se experimenta um profundo despertar somático de sensações e sentimentos.

É preciso encontrar caminhos para ajudar o corpo a tornar-se livre a fim de expressar seus sentimentos e sensações (Lowen e Lowen, 2020). O trabalho com o corpo é fundamental para que a energia vital retome seu fluxo natural e orgânico, permitindo assim uma expressão autêntica e fluida das emoções.

A dança

Diversas metodologias reconhecem a necessidade do corpo expressar-se livremente, para que sua linguagem possa ser vista, escutada e compreendida. A dança, em suas diversas formas, é um caminho legítimo para a autoexpressão, pois permite ao corpo se manifestar e criar novos espaços para o movimento.

De acordo com Lisboa (2008), a dança facilita o desenvolvimento do potencial criativo, da autopercepção e da possibilidade de promover mudanças nas relações do sujeito consigo mesmo, com outras pessoas e com o mundo. Dentro dos efeitos possíveis de serem alcançados ao dançar, estão a ampliação da mobilidade do corpo, a expressividade, o aumento do nível da aceitação em si e a sensação de bem-estar.

A dança de improviso

Dentre as muitas possibilidades oferecidas através da dança, existe uma forma de expressão mais livre que se distancia da técnica e abre ainda mais espaço para o processo criativo. A dança de improviso é uma forma de arte que permite a criação de movimentos espontâneos e não planejados. Essa abordagem oferece maior liberdade criativa e pessoal, incentivando a exploração do corpo em novas possibilidades de movimento e expressão, onde o foco está no processo e não no resultado final.

De acordo com Luciano e Volpi (2022), o trabalho de improviso é considerado uma forma espontânea do movimento, sem restrições em sua forma ou conteúdo.

A dança de improviso nos impulsiona a ultrapassar as barreiras do conhecido, explorar novos territórios e acessar sensações ainda desconhecidas. Sendo assim, ela se torna uma porta poderosa para a expressão livre e autêntica dos corpos.

Dança de improviso x expressão

A partir das minhas próprias experiências, observo que o corpo tende a se movimentar de maneira previsível, mesmo dentro de contextos mais espontâneos, como a dança de improviso.  Por possuir sua própria linguagem, quando incentivado a se expressar, o corpo busca aquilo que lhe é seguro e conhecido. Se expressa com base em sua história, caráter e couraças, na própria imagem que criou de si mesmo.

Alcançar a expressão em meio a tantos bloqueios emocionais torna-se um trabalho sutil e exploratório, pois um corpo que permanece em sua obviedade não navega em seu devir. Um caminho de autoexpressão corporal que abandona a performance deve considerar as dificuldades estruturais e emocionais que o corpo enfrenta ao se entregar à experiência.

Para Briganti (1987, p. 106): “O movimento expressa a couraça, que é reflexo virtual da imagem corporal”.

Briganti (1987) descreve o movimento como expressão desta imagem corporal encouraçada, onde sair do lugar predeterminado e preestabelecido provoca a ruptura da imagem sustentada. Essa imagem necessita abandonar a linguagem predeterminada para encontrar a linguagem da organicidade.

A liberdade do movimento desencouraçado, descompromissado com a repetitividade, cria a sensação do encontro harmônico com a arte e sua expressão (Briganti, 1987).

O indivíduo precisa reconhecer sua rigidez, suas couraças e seus padrões de funcionamento e comportamento, conhecer sua própria linguagem corporal. A partir disso, surge a possibilidade de tornar-se mais livre e usufruir da dança de improviso como uma forma de expressar seu verdadeiro self.

Para além da evidência que o corpo assumiu na contemporaneidade, explorar novas condições e possibilidades de desdobramentos permite o resgate do movimento de invenção e criação no corpo. A dança de improviso, aliada às técnicas da Psicologia Corporal, pode ser um caminho possível para esta reinvenção.

Posso pensar que a dança de improviso é uma tentativa de subverter a obviedade do corpo e explorar um devir do corpo em dança. Para quem deseja explorar o movimento e compor um corpo que não está definido em sua forma de expressão, tornando audível o grito da carne (e para isso é necessário gritar literalmente), é indispensável compor sua própria arte e acessar uma vida crua, além de qualquer prévia organização já estabelecida.

Deste modo, observo a relevância de encontrar meios de trabalho com o corpo que agreguem e facilitem a experiência do movimento, utilizando possíveis ferramentas da Psicologia Corporal que podem contribuir para uma maior expressividade dentro do movimento corporal livre.

Sem esse trabalho, a meu ver, a expressividade muitas vezes fica restrita ao seu campo conhecido. Embora seja valiosa de qualquer forma, pode ser ainda mais explorada e aprofundada para um melhor autoconhecimento daqueles que se propõem a essa experiência.

Práticas da psicologia corporal

Com base nas práticas da Psicologia Corporal, fundamentadas em ideias e conceitos das abordagens psicocorporais de Wilhelm Reich e Alexander Lowen, trilho um caminho a fim de explorar recursos que expandam as possibilidades de expressão, permitindo que o corpo encontre novas formas de comunicar sua essência.

As contribuições desses autores são cruciais para compreender a relação entre o corpo e suas expressões emocionais. Segundo Volpi e Volpi (2009), Reich foi o precursor das psicoterapias de abordagem corporal. Ele foi seguido por muitos, que ao longo do tempo desenvolveram novas teorias e práticas, consolidando novas escolas, como a Análise Bioenergética de Alexander Lowen e a Somatopsicodinâmica de Federico Navarro.

A proposta é desenvolver um método baseado nos conceitos e práticas corporais, a ser aplicado em grupos de pessoas que buscam conhecer melhor seu corpo e sua capacidade de expressão através da dança. Sempre desejei trabalhar com grupos de dança e movimento, e acredito que esta pesquisa é um ensaio teórico-prático inicial, que poderá se transformar em um caminho de trabalho e autodesenvolvimento pessoal.

Todas as práticas dentro do método serão aplicadas e integradas ao movimento, sendo assim, serão aplicadas junto ao movimento e não isoladas. Como o intuito é alcançar uma maior espontaneidade dentro da dança de improviso, esta deve ser mantida presente em sua essência ao longo de todo o trabalho.

A ideia é aglomerar ferramentas que auxiliem o corpo a sair da sua obviedade, podendo estas ser utilizadas de forma fluida de acordo com cada etapa do método. Novas práticas podem ser incorporadas futuramente para potencializar o trabalho realizado.

Desenvolvimento do método

O método presente é desenvolvido em sete etapas, cada uma abrangendo conceitos, práticas e exercícios que considero fundamentais serem trabalhados com o objetivo de alcançar uma maior expressividade corporal. Cada etapa é cuidadosamente projetada para abordar diferentes aspectos do corpo, explorando e expandindo seu potencial, promovendo maior entrega e liberdade aos movimentos de dança.

Etapa 1: Corpo-alento

Inicio o trabalho através da respiração e ativação do corpo, pois sabemos o quão importante é a respiração para um corpo vital. Segundo Lowen (2022, p. 31): “A respiração talvez seja a função corporal mais importante, haja vista que a vida depende tanto dela”.

Observa-se a respiração, sem alterá-la em um primeiro momento. Observa-se se está rasa, profunda, lenta, rápida, mais alta na caixa toráxica ou mais baixa (Cardoso, 2023).

Questiona-se: “Existem pontos de tensão? Seu corpo está rígido ou relaxado enquanto respira? Seu diafragma participa do movimento respiratório?”

É importante reconhecer os padrões desorganizados da respiração. Caso seja necessário, pequenos ajustes podem ser feitos através de inspirações mais profundas, seguidas de expirações mais lentas.

O foco é ajudar a pessoa a perceber e liberar as tensões que a impedem de respirar com mais facilidade, profunda e naturalmente (Lowen; Lowen, 2020).

Segundo Lowen e Lowen (2020, p. 32), “A respiração saudável é uma ação do corpo todo; todos os músculos estão envolvidos de alguma forma”. Sendo assim, é imprescindível buscar a conexão e o reconhecimento da respiração, observando os pontos de tensão para melhorar a capacidade da onda respiratória.

Utilizo assim, junto à dança de improviso, a respiração contínua, mais liberta, circular e ativa, em ondulação e vibração, de um corpo que se abre para receber ar, inspirar e expirar, pele adentro e pele afora, buscando alento, o fôlego, o sopro de vida e de encorajamento.

Etapa 2: Corpo-raízes

Na segunda etapa do método, dou ênfase ao contato e ao enraizamento.

Sugiro entrar em contato com o próprio corpo, perceber a sola dos pés, caminhar, correr, ativar as pernas, tocar os pés no chão, sentir o chão, o ambiente no qual se encontra, experimentando a relação tátil e cinética com o corpo (Cardoso, 2023).

Trabalha-se as variações de níveis — deitada, sentada, de pé; transferência de nível, transferência de apoio, contato com o chão, apoiar-se, deslizar, rolar, empurrar o chão (Cardoso, 2023). Busca-se no chão o enraizamento para encontrar os contornos da pele.

A autopercepção consciente do corpo — o corpo todo, da cabeça aos pés — se faz presente quando estamos em contato com nossa realidade. Muitos indivíduos perdem a percepção do corpo, dissociam-se dele para fugir da própria realidade. Cada parte do corpo contribui para o nosso senso de self. Ao estarmos em contato com nosso corpo, nos mantemos vivos, vivas, presentes e entregues ao corpo e às suas sensações (Lowen, 2022).

De acordo com Lowen (2022, p. 38), “A entrega ao corpo está associada à renúncia das ilusões e à volta à realidade”. Estar grounded significa sentir os pés no chão, possuir pés e pernas energeticamente carregados. Consequentemente, estar em grounding é estar em contato com o corpo (Lowen, 2022).

O grounding é um exercício da Bioenergética que, segundo Lowen e Lowen (2020, p. 21), “Representa o contato do ser com as realidades básicas de sua existência”, e será utilizado nesta etapa do método.

Ao adquirir o grounding, o indivíduo sabe onde está e, portanto, sabe quem é, está firmemente plantado na terra, identificado com o seu corpo, em cima dos próprios pés e não “suspenso no ar”. Permite que a pessoa “deixe acontecer”, aumentando seu senso de segurança (Lowen; Lowen, 2020).

Na medida em que se percebe e se conscientiza, aquela que dança torna-se uma investigadora que procura, analisa e experimenta todas as suas partes (Cardoso, 2023). Com os pés firmemente enraizados no chão e os olhos atentos na realidade, lançamos adiante a dança que habita nosso corpo.

Etapa 3: Corpo-fenda

Aqui, a proposta é abrir a boca, esticar a língua, desatar a garganta, relaxar o maxilar, emitir uma leve vocalização; deixar a voz, tanto tempo calada, ocupar seu espaço novamente. A fenda simboliza uma possibilidade de abertura, uma rachadura, que permite o surgimento de um orifício de expressão. Quando boca e voz se unem para abrir essa fenda, inicia-se um processo de liberação e dissipação de energias acumuladas e esquecidas.

Dança-se emitindo o som de “a”, sons de alívio, gritos, sussurros, gemidos. Desatam-se os tantos nós da garganta, indo para fora dos domínios da boca fechada, vomitando as palavras engolidas à força, iluminando as vísceras.

De acordo com a Vegetoterapia Caracteroanalítica de Navarro (2022), a vocalização do “não” e do “eu” são importantes ferramentas de autoexpressão. Trabalham a capacidade de dizer “não” e fortalecer o “eu” localizado no peito. Através da vocalização, podemos não apenas usar o tom de voz para expressar assertividade e estabelecer limites, mas também desenvolver uma maior consciência do nosso espaço pessoal e das nossas necessidades.

Etapa 4: Corpo-devir

O “devir” é um termo filosófico que aborda a transformação e a mudança constante, representando o movimento contínuo de vir a ser, tornar-se e transformar-se. Nesta etapa do método, o ponto central é trabalhar a capacidade de entrega, que conduz o corpo à permissão de dançar.

Buscamos o desejo da revelação da dança que já está no corpo, capaz de ir além de técnicas e vocabulários preestabelecidos. A dança, neste contexto, pretende soltar o controle que despe as inscrições sociopolíticas e identitárias do corpo (Cardoso, 2023).

A entrega ao corpo está ligada à rendição do ego narcisista e à soltura do controle. De acordo com Lowen (2022, p. 29): “Sem uma rendição do ego narcisista é impossível se entregar ao amor. Sem essa entrega, a alegria é inatingível”.

Render-se significa deixar o corpo vivo e livre, permitindo-o sentir plenamente suas sensações. O pescoço, sendo a sede do controle e do narcisismo, é uma região que comumente retém muita tensão. É crucial relaxar essa área para uma maior fluidez do corpo.

Questiona-se: “Quão rígido o pescoço está para sustentar a mente controladora? Existem pontos de tensão perceptíveis ao toque?”

Sugere-se mover o pescoço para a direita, para a esquerda, em círculos e em espiral, de modo que, junto à dança, o pescoço relaxe, a garganta se abra e a vocalização ocorra novamente.

Algumas técnicas podem ser eficazes para flexibilizar a região do pescoço, incentivando o corpo a se movimentar com maior entrega. O acting de abrir e fechar as mãos trabalha o segmento cervical e induz à capacidade de deixar ir, de abrir mão do controle e de estar disponível para receber.

O surrendering, exercício de cair da Bioenergética, propõe a rendição ao corpo e às emoções. Trata-se, literalmente, de se deixar cair sem controle, permitindo que o corpo experimente plenamente sua própria vivência.

Etapa 5: Corpo-mar

O mar e as emoções possuem uma ligação profundamente simbólica. As misteriosas águas do mar refletem a profundidade das emoções humanas. Expressa Cardoso (2023, p. 11): “Mergulhar com mais ar respirável no mar sem fundo que há tempos descobri me habitar”.

Um peito fechado guarda as más águas de um caminho hostil e reprimido de afeto, o qual provoca aperto nesse peito, um tórax vazio e encolhido para dentro, um peito que deixou de sentir.

Dançar as águas em ondulações, rítmicas ou fora de ritmo, lento quando deveria ser rápido ou rápido quando deveria ser lento. A natureza não segue uma regra, por que nós, humanos, insistimos em seguir? Desorganizar-se para organizar, é mistério profundo da desordem das emoções que não são lineares, mas sim cíclicas.

Já um peito que se abre, confia no que a vida tem a oferecer, permite o fluxo das águas novamente. É um peito que incorpora a coragem de se lançar para o mundo, se mostra e abre-se para receber.

O longing é uma prática da Bioenergética que, através do gesto dos braços estendidos, simboliza a atitude de busca e abertura para o mundo, com a intenção de encontrar respostas para suas necessidades e desejos. Essa prática trabalha o movimento de buscar e receber afeto e também será utilizada nesta etapa do método.

Etapa 6: Corpo-serpente

A serpente rasteja no mais profundo escuro da terra e da consciência, que rasga o espaço mais alto em direção ao sublime (Cardoso, 2023). A proposta é nos questionarmos: “Habita em nós a possibilidade da troca de pele? Despir-se do velho para alcançar o novo? Abrir-se para o prazer sem medo de senti-lo?”

Busca-se ir além dos conteúdos reprimidos que saltam à pele, buscando por debaixo desta pele os movimentos peristálticos da vida, de expansão e contração, permitindo à pelve reencontrar o prazer que nos foi arrancado.

Para Lowen e Lowen (2020, p. 39): “Se alguém procura ser vibrantemente vital, sua pelve deve ser liberada e seu fluxo de sensações sexuais, desobstruído”.

Tensões musculares na pelve inibem a capacidade de se expressar. Lowen e Lowen (2020) sugerem práticas específicas para a área pélvica que podem melhorar a expressividade corporal e aumentar a soltura desta região, como a rotação dos quadris, o balanço da pelve e movimentos pélvicos conectados à respiração.

Considerando os actings da Vegetoterapia Caracteroanalítica de Federico Navarro, avalio utilizar nesta etapa do método o exercício da cauda ou rabo, que trabalha o balanço da pelve e o jogo de cintura, e o exercício do remador, que atua nas áreas do diafragma, abdômen e pelve.

Nossa cultura teme o prazer, e é dirigida mais pelo ego do que pelo corpo, de tal forma que o poder se transformou no principal valor, reduzindo o prazer a uma situação secundária (Lowen, 2020). Devemos trocar as peles, como a serpente que, em sabedoria, reconhece seu momento. Abandonar as amarras do prazer para nos abrir à potência de estar vivas, vivos e pulsantes em corpo e alma. Dançar como uma serpente que desliza suavemente, sentindo cada movimento de seu corpo, despindo-se da velha pele que não lhe cabe mais.

Etapa 7: Corpo-manifesto

Corpo-manifesto é um anseio, um desejo talvez alcançado, um “corpo resultante” deste método. Um corpo íntegro, que vai além da sua forma física e performance, revelando intenções, desejos e transformações. É um corpo político, fluido, descolonizado e em contínua reinvenção. Um corpo que existe, resiste e também comunica… que agora dança, guiado por seu próprio movimento, sua linguagem única e suas novas possibilidades.

Nesta última etapa do método, o foco recai unicamente sobre a dança e o movimento, permitindo a manifestação de tudo que foi observado, acolhido, compreendido, trabalhado, transformado e integrado. É o momento de dar forma e expressão a todo o processo vivido, deixando o corpo manifestar seu próprio fluxo. É onde a dança se torna uma linguagem viva.

Considerações finais

É fundamental compreender que a dança de improviso estará presente em todas as etapas do método, permeando o processo como um elemento essencial. As ferramentas serão utilizadas de maneira integrada e conectada ao movimento, em uma proposta onde o manifesto da dança é vivo. Acredito que o acesso a um movimento mais autêntico só é possível por meio da experiência do próprio movimento, permitindo que o corpo explore, etapa por etapa, novas possibilidades em si mesmo. Reconheço que algumas práticas, como o grounding, por exemplo, devem ser aplicadas em sua inteireza, assim como outras que fazem parte do método. No entanto, meu objetivo é sempre que possível priorizar o movimento contínuo e integrado.

Cada etapa do método incorpora conceitos que considero essenciais para promover uma maior flexibilização do corpo em movimento. As práticas psicocorporais abordadas em cada etapa estão intimamente relacionadas à proposta de trabalho daquele momento específico. No entanto, o método permanece aberto à inclusão de novas técnicas que possam emergir ao longo do processo de desenvolvimento, prática e estudo contínuos, enriquecendo ainda mais a experiência.

As aplicações do método podem se desdobrar em dois cenários distintos. O primeiro envolve a implementação completa do método, garantindo tempo adequado para que os participantes vivenciem plenamente a experiência, passando por todas as etapas em uma imersão de dança e movimento. O segundo cenário contempla encontros independentes, correspondentes às etapas específicas do processo, permitindo aos participantes uma experiência isolada, mas ainda alinhada aos princípios do método.

Ao final da experiência, espera-se que as pessoas se sintam mais seguras e livres em sua expressão corporal, descobrindo através da dança de improviso novas formas de se conectar com suas emoções e liberar tensões. Essa liberdade na expressão corporal facilita a autorregulação emocional, promovendo uma conexão mais profunda e consciente com o próprio corpo.

Assim nos propomos, pela dança, desestruturar e desorganizar, para que haja possibilidade de percorrer outros caminhos, aprender e formar uma nova resposta, fazer uso de outros modos, criar novas sinapses, ensaiar outras expressões, abrir no corpo espaços possíveis às forças do vivo que insistem em transpassar e emergir (Cardoso, 2023).

Referências

BRIGANTI, C. R. Corpo virtual: reflexões sobre a clínica psicoterápica. 2ª ed. São Paulo: Summus, 1987.

CARDOSO, M. S. O tempo da corpa é o tempo da terra: Danzamedicina e a (po)ética do gesto que gesta. 2023. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) – Departamento de Psicologia, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. Disponível em: http://repositorio.pucsp.br/jspui/handle/handle/40079. Acesso em: 12/02/2025.

KELEMAN, S. Corporificando a experiência: construindo uma vida pessoal. 3ª ed. São Paulo: Summus, 1995.

LISBOA, M. R. A dança, a Bioenergética e a Vegetoterapia como elementos flexibilizadores das couraças. 2008. Monografia (Especialização em Psicologia Corporal) – Centro Reichiano, Curitiba.

LOWEN, A. Alegria: a entrega ao corpo e à vida. 4ª ed. São Paulo: Summus, 2022.

LOWEN, A. Prazer: uma abordagem criativa da vida. 9ª ed. São Paulo: Summus, 2020.

LOWEN, A.; LOWEN, L. Exercícios de Bioenergética: o caminho para uma saúde vibrante. 9ª ed. São Paulo: Summus, 2020.

LUCIANO, C.; VOLPI, S. M. A dança como expressão do si mesmo, sob a visão da Psicologia Corporal. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. (Org.). 25º Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2022. Disponível em: https://www.centroreichiano.com.br/anais-doscongressos-de-psicologia. Acesso em: 14/04/2024.

NAVARRO, F. Actings: reações e advertências e ab-reações emocionais. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. (Org.). Apostila do curso de Especialização em Psicologia Corporal. Módulo 2, Unidade 2. Curitiba: Centro Reichiano, 2022.

VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Dinâmicas da Psicologia Corporal aplicadas a grupos, v. 1. Curitiba: Centro Reichiano, 2009.

VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Dinâmicas da Psicologia Corporal aplicadas a grupos, v. 2. Curitiba: Centro Reichiano, 2015.

Sobre o(s) autor(es)

Gabriele Lima
Graduada em Farmácia e Bioquímica pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba/PR. Terapeuta de Técnicas Holossistêmicas pelo Instituto Terceira Visão, curso EAD. Pós – Graduada em Psicologia Analítica com ênfase em Contos, Mitos e Artes pelo Instituto Freedom, curso EAD. Especialista em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Terapeuta e Analista Corporal de abordagem reichiana e bioenergética, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR. E-mail: limagabriele395@gmail.com

Sandra Mara Volpi
Psicóloga (CRP-08/5348) (PUC-PR), Analista Bioenergética (CBT) e Supervisora em Análise Bioenergética (IABSP). Especialista em Psicoterapia Infantil (UTP). Psicopedagoga (CEP-Curitiba). Mestre em Tecnologia (UTFPR). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo) (IBRATE). Diretora do Centro Reichiano, Curitiba/PR. E-mail: sandra@centroreichiano.com.br

Como citar este trabalho

LIMA, Gabriele; VOLPI, Sandra Mara. Dançando o imprevisível. In: Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais, 28, 2025. Curitiba: Centro Reichiano. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/anais/dancando-o-imprevisivel/. Acesso em: 05/06/2026.