Cristo como símbolo do si-mesmo reichiano
A integração entre Jung e Reich sobre a figura do Cristo
Christ as a symbol of the Reichian self
The integration between Jung and Reich regarding the figure of Christ
Resumo
Palavras-chave: Caráter genital; Carl Gustav Jung; Jesus Cristo; Si-mesmo; Wilhelm Reich.
Abstract
Keywords: Genital character; Carl Gustav Jung; Jesus Christ; Self; Wilhelm Reich.
“Nenhuma ideia preconcebida determinou o desenvolvimento do trabalho científico de Reich”, escreveu Boadella (1985, p. 15).
Frase de impacto, abre a biografia de Wilhelm Reich: brilhante psicanalista, idealizador do freudo-marxismo, o de fato criador da psicoterapia corporal e cientista natural.
No entanto, essa noção do bravo cientista desbravador, capaz de enxergar a realidade tal como ela é, deve ser abandonada. Noção ao mesmo tempo romântica e platônica, ela soa, atualmente, ingênua (e quiçá, até perigosa). Desde a ideia de “paradigma”, lançada por Khun (2013), sabe-se como toda e qualquer teoria pertence a um zeitgeist, um “espírito de época”.
Feyeraband (2011) argumentou que o próprio método científico é, em si, inerentemente falho. Não existem “fatos nus”. Os fatos são conhecidos sempre através de um certo viés, o que dá margem a todo tipo de erros e interpretações, muitas delas em franca contradição.
No caso das ditas “teorias da personalidade” da Psicologia, esse fator subjetivo é ainda maior. Os estudos de Atwood e Tomkins (1976) e Atwood e Stolorow (1977) revelaram o quanto a biografia dos autores (Carl Rogers, p. ex.) ditaram os contornos de suas respectivas teorias da personalidade.
No caso de Reich, a sua tragédia familiar, com toda a sua culpa, raiva, dor e desespero, culminou numa vocação quase messiânica de salvar esse mundo encouraçado, de lutar contra a repressão do sexo, do amor, da vida e da energia universal que dá forma e nutre o cosmos.
Após as devidas reflexões, quais “ideias preconcebidas” – para retomar a expressão de Boadella (1985) – teriam norteado o trabalho de Reich? Soube-se, pelo depoimento dado à Higgins e Raphael (1979), o quanto Sigmund Freud foi vital para a sua formação profissional e intelectual. De início, o conceito da repressão, tão central para a Psicanálise, continuou central na obra de Reich. Reich afirma como ele manteve, sozinho, a teoria da libido viva, provando a sua existência concreta. Conta como as pulsões de vida e morte freudianas – Eros e Tânatos – ressurgiram na sua obra tardia via o OR (Orgone) e o DOR (Deadly Orgone).
No decorrer de sua obra, Reich (2003) cita outros: Fiódor Dostoiévski, escritor, o maior expoente do dito “romance psicológico”; Friedrich Engels, empresário, coautor do Manifesto Comunista e parceiro de Karl Marx na criação do método do materialismo histórico e dialético; Charles Darwin, naturalista, pai da teoria da evolução das espécies e da seleção natural; Friedrich Nietzsche e Henri Bergson, filósofos – o primeiro, importante crítico da moral cristã e precursor do niilismo moderno; o segundo, defensor do elã vital, impulso criador responsável pela evolução das formas mais primitivas de vida até o homem autoconsciente; Bronislaw Malinovski, antropólogo, primeiro a mostrar, via pesquisas etnográficas nas Ilhas Trobriand, que o complexo de Édipo, tão caro aos freudianos, pode não ser universal.¹
Pontuar a influência desses grandes filósofos, escritores e homens da ciência, bastiões da modernidade, no pensamento Reichiano não é o suficiente. Retrospecto. Não é o suficiente para explicar a origem de certas ideias. Como teria dito Pierrakos (1989, p. 14): “[…] as mesmas ideias expressas por Reich têm aparecido e reaparecido ao longo da história da humanidade, com muitas formas e nomes diferentes.” Outro conhecido dissidente da Psicanálise, o psiquiatra suíço C. G. Jung, tinha muito interesse nessas ideias “eternas”, transculturais. Jung (2015) chamou-as de “imagens primordiais”, ou arquétipos.
Estaria Wilhelm Reich ciente das imagens arquetípicas que apareciam na orgonomia, sua obra tardia? Estaria ele, na expressão de Jung (2011a, p. 16), em plena Era Atômica, a resgatar o “tesouro de imagens eternas” do seu inconsciente? Estava ciente de que, nas longas noites de laboratório, entre microscópios, béqueres e caixas de orgone, construíra também um rico imaginário pós-religioso? Saturado, como foi, do jargão das ciências naturais e suas metáforas hi-tech? Justo Reich (1999, p. 2), que tinha dito que todas “as religiões se revelaram, sem exceção, instrumentos de opressão e miséria”?
Coincidência ou não – sincronicidade?² – tanto Jung (2011a) quanto Reich (1999) escreveram sobre “o filho do Homem”: Jesus Cristo. Jung, com o seu “Aion”, de 1950, e Reich com o seu “O assassinato de Cristo”, pouco depois. Jung (2011a) comparou símbolos cristãos com símbolos de origem gnóstica, alquimista e astrológica, na intenção de chegar ao fundo de seus significados e traduzi-los para a “consciência moderna”. Reich (1999) contou a triste história da humanidade, a crucificação de Cristo como o seu “fio de Ariadne” dessa tragédia global. Pode também o “Cristo Reichiano” ser interpretado como um símbolo do Si-mesmo específico à Orgonomia?
O objetivo desse trabalho, com base no repertório teórico da Psicologia Analítica de C. G. Jung, é apontar como Jesus Cristo foi um símbolo do Arquétipo do Si-mesmo na Orgonomia de Wilhelm Reich. Nesse momento, faz-se necessário descrever as várias etapas para atingir o objetivo desse trabalho. Começa-se com um breve mapeamento da psique humana de acordo com a teoria Junguiana. Disso segue a distinção Reichiana entre o caráter genital e o caráter neurótico. Na terceira etapa trata-se da figura de Cristo como símbolo do Si-mesmo, o arquétipo central, e como símbolo do caráter genital. Dessas relações é feito um entrecruzamento teórico, onde é estabelecido que Cristo é um símbolo do Si-mesmo Reichiano. Tal conclusão abre uma nova avenida de investigação: a sexualidade sagrada.
A estrutura da psique de acordo com C. G. JUNG
Segundo Jung (2013; 2015), a psique humana é formada por metades desiguais: a consciência e o inconsciente. A consciência vive no presente, atenta à orientação no tempo-espaço. O centro da consciência é o “eu” (ego). Dotado de autorreflexão e uma porção limitada de livre-arbítrio, o ego é regido por códigos morais e, portanto, voltado à adaptação social. Para além dos limites da consciência há o inconsciente. A porção subjetiva do inconsciente é chamada de inconsciente pessoal. Nele, há uma soma do que foi reprimido (pensamentos, sentimentos, sensações), esquecido e percebido via estímulos subliminares. Numa camada mais profunda do inconsciente está o inconsciente “impessoal”, vulgo inconsciente coletivo. Essa é a base instintiva da psique, regida pelos instintos e pelos conteúdos herdados do inconsciente. A esses fatores hereditários do inconsciente coletivo foi dado o nome de “arquétipos”. Também chamados de “imagens primordiais” ou “mitologemas” (Jung, 2013), os arquétipos são formas universais de pensamento e comportamento. Carregam, em si, sempre, um significado único com múltiplas variações.
Para Jung (2013), os arquétipos transcendem o espaço/tempo e estão por toda parte da vida humana. A sua presença é sentida em sonhos, fantasias, arte, religião, astrologia, contos de fada, mitologia, ideologias políticas e até mesmo nas alucinações e delírios da esquizofrenia. Temas universais como ordem e caos, luz e trevas, o Yin-Yang taoísta e outras dualidades estão contempladas. Símbolos geométricos, como o quadrado e a cruz (quaternidade) ou o círculo e a esfera (rotação) também. Essas “imagens eternas” também se manifestam num formato antropomórfico: os arquétipos do pai, da mãe, dos filhos etc.
O caráter neurótico e o caráter genital
Reich (1998) atesta que a familiaridade com a Psicanálise é vital para entender o seu conceito de caráter. A sua chamada “Análise do Caráter” é uma produção do seu período psicanalítico. Portanto, é mister ir para a fonte. A primeira menção feita por Freud (1996b) ao tema do caráter foi feita no seu curto ensaio “Caráter e erotismo anal”. Sua teoria do caráter é indissociável das fases de desenvolvimento psicossexual, exploradas por Freud (1996e) num trabalho anterior, “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”. Reich (1998) confirma essa associação, entre tipos de caráter e as fases específicas do desenvolvimento da sexualidade.
Bem em verdade, esses trabalhos inaugurais de Freud (1996b) sobre o caráter não falam da origem do caráter; no máximo especulam se a excitação de zonas erógenas específicas não teria uma influência em outros tipos de caráter, que não o caráter anal. Ocupam-se em descrever os “traços” de caráter anal, ou seja, a sua característica parcimônia, obstinação e senso de ordem. Reich (1998) vai depois confirmar que a fase do desenvolvimento psicossexual onde houve a estagnação da libido determina o caráter que será produzido. Exemplos: a fixação oral gera um caráter depressivo; a fixação anal, o compulsivo; a fálica, o narcisista.
Para o próprio Reich (1998), ainda resta entender os pontos de vista do modelo estrutural de Freud (1996d). A priori, a Psicanálise apresenta um modelo “topográfico” de aparelho psíquico, formado pelo consciente, pré-consciente e inconsciente. O inconsciente, em especial, foi vital na investigação da etiologia sexual das neuroses. A partir de 1923, Freud (1996d) propõe outra divisão da psique: o modelo estrutural. Esse novo sistema psíquico, também tripartite, é composto pelo id, ego e superego. O ego, de relação estreita com a consciência, é voltado para a percepção do mundo externo. O ego terá um papel fundamental na formação do caráter, algo reconfirmado por Reich (1998) na sua própria teoria do caráter. Ainda segundo Freud (1996d), o ego trava uma luta com o seu inimigo perene, o id, a parcela instintiva da psique. O ego resiste aos impulsos oriundos do id, mas nem sempre isso é o bastante para mantê-los fora da consciência. Para tal, é preciso de um processo mais dispendioso: a repressão. O impulso reprimido acaba transformado em sintoma, um sinal da neurose que consome o sujeito. O superego tem a sua origem no núcleo familiar e será, principalmente, um representante interno da figura paterna. Atuará, muitas vezes de forma punitiva, como bússola moral e ética do ego. O superego manterá firme essa autoridade sobre o ego através do reforço de um sentimento de culpa inconsciente.
Reich (1998) vai então estipular que o caráter é o “parachoque-do-parachoque”. Ou seja: é a camada externa do ego e o seu escudo protetor. E não só: o caráter vai também representar os traços típicos do ego, a exemplo da postura corporal, da forma de andar, gesticular, falar, o tom de voz etc.
Reich (1998) faz uma distinção entre o caráter neurótico e o caráter genital. Do neurótico, consumido por conflitos internos, temos o seu comportamento infantil, irracional, não-autêntico; a forma compulsiva, reativa de ser, amar e trabalhar. Já o caráter genital é livre para expressar, sem medo, a sua sexualidade e as suas emoções mais profundas. Reich (1998, p. 303) usa adjetivos como “simples”, “naturais”, “simpáticos” e “atraentes” para descrever os “traços” do caráter genital. Isso acontece porque ele tem uma economia de libido regulada. Ou seja: o seu ciclo de carga e descarga de energia sexual (através do orgasmo) acontece de forma saudável. Assim, também consegue sublimar – ou seja, transformar uma pulsão inconsciente num trabalho pró-social, sem maiores dificuldades. Ele não tem necessidade do que Freud (1996d) chamou de superego. Ele é equilibrado – ou melhor, “autorregulado”, no jargão de Reich (1998). Não precisa mais de regras morais, externas à sua natureza.
O Cristo Junguiano
Desde a infância, Jung (2015) foi assombrado pela sua vivência do sobrenatural e do espiritual. O pai era um pastor em crise, e a mãe, a espiritualista que fazia séances em casa. Cedo teve sonhos e visões impressionantes; passaria uma parte considerável da vida adulta para decifrá-los. A escolha pela carreira da Medicina foi, em parte, instigada pela vontade de estudar, cientificamente, esses fenômenos. Jung pesquisou, do rico acervo milenar de tradições religiosas, filosóficas, mitológicas, lendas, contos de fada e clássicos da literatura mundial, para além de sua prática clínica, de forma a alicerçar a sua teoria dos arquétipos e do inconsciente coletivo. No fim da vida, foi encontrar na alquimia as raízes de sua Psicologia do Inconsciente.
Sobre o(s) autor(es)
José Felipe Rodriguez de Sá
Bacharel em Psicologia pela Universidade Salvador. Especialista em Psicoterapia Analítica no Instituto Junguiano da Bahia – Salvador/BA. Mestre em Família na Sociedade Contemporânea pela Universidade Católica do Salvador. Cursando Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Psicoterapeuta Corporal Reichiano, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR. E-mail: zefelipe@yahoo.com
Sandra Mara Volpi
Psicóloga (CRP-08/5348) (PUC-PR), Analista Bioenergética (CBT) e Supervisora em Análise Bioenergética (IABSP). Especialista em Psicoterapia Infantil (UTP). Psicopedagoga (CEP-Curitiba). Mestre em Tecnologia (UTFPR). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Diretora do Centro Reichiano, Curitiba/PR. E-mail: sandra@centroreichiano.com.br