Corpo, percepção e virtualidade na cultura digital
Contribuições da Arte Org Terapia para atualizações do pensamento de Wilhelm Reich
Body, perception, and virtuality in digital culture
Contributions of Art Org Therapy to contemporary developments in Wilhelm Reich’s thought.
Resumo
Palavras-chave: Corpo. Percepção. Funcionamento virtual. Ausência. Sobre-excitação. Couraça de campo. Cultura digital.
Abstract
Keywords: Body. Perception. Virtual Functioning. Absence. Overexcitation. Field Armor. Digital Culture.
1. Introdução
No atual contexto de desenvolvimento tecnológico, termos como virtualidade, virtual e virtualismo tornaram-se cada vez mais presentes no cotidiano. As formas de viver, trabalhar, estudar, relacionar-se e perceber o mundo passaram a ser atravessadas por dispositivos digitais que modificam as relações com o tempo, o espaço, o corpo e os outros. É possível estar corporalmente em um lugar e trabalhar em outro, conversar com pessoas distantes, participar de reuniões sem deslocamento físico, acompanhar acontecimentos em tempo real e transitar rapidamente entre diferentes espaços de interação. O corpo permanece situado enquanto a percepção e a experiência podem circular por outros espaços. Nesse sentido, aquilo que denominamos virtual adquiriu uma presença concreta na vida cotidiana.
Entretanto, há uma provocação que constitui o ponto de partida deste trabalho: antes que o virtual se concretizasse na presença cotidiana de computadores e celulares e que as redes sociais adquirissem a centralidade que possuem hoje, Jovino Camargo Jr., nas primeiras formulações da Arte Org, já utilizava o termo funcionamento virtual para designar uma transformação observada no funcionamento humano contemporâneo.
Essa formulação não surgiu de uma análise das tecnologias digitais. O termo foi tomado de empréstimo do universo dos computadores — dos “computes”, como dizia Jovino — para falar da experiência clínica e das dificuldades encontradas na utilização dos referenciais reichianos diante de funcionamentos que não apresentavam a relativa estabilidade observada nas estruturas neuróticas de caráter descritas por Reich.
Na experiência que originou a Arte Org, percepção e corpo já não pareciam necessariamente caminhar na mesma direção.
Conforme o procedimento terapêutico ia se aprofundando, foi aparecendo no funcionamento das pessoas uma instabilidade, uma incoerência e um funcionamento interrompido, escorregadio e cíclico que se manifestava tanto na organização perceptiva como na organização corporal sendo que estas contradições se manifestavam até nos níveis mais profundos do funcionamento das pessoas. Enquanto a percepção mostrava uma coisa, o corpo mostrava outra o que indicava uma radical modificação dos paradigmas relacionados com o funcionamento das antigas estruturas neuróticas de caráter. (Camargo Jr., 2013, p. 4)
O problema não parecia ser simplesmente o aparecimento de mais uma estrutura caracterológica. Colocava-se a possibilidade de uma transformação na própria forma de funcionar e de se defender. As investigações passaram então a dar particular atenção aos fenômenos da ausência de si mesmo e da desconexão de si e do mundo. Essas formas de funcionamento chegaram a ser aproximadas, naquele momento, das chamadas personalidades fronteiriças ou borderline, mas receberam na Arte Org a denominação de virtuais, passando a síndrome da ausência a constituir um paradigma central para a compreensão de suas vicissitudes e sofrimentos.
A questão que orienta este trabalho pode, então, ser formulada da seguinte maneira: o que acontece quando uma forma de funcionamento capaz de distanciar corpo, percepção e experiência encontra uma cultura que amplia continuamente as possibilidades desse distanciamento?
2. Da perspectiva reichiana à Arte Org: seguir o caminho das defesas
A Arte Org nasce no interior da tradição reichiana. Sua origem encontra-se na Orgonomia e, particularmente, na tentativa de aplicação da metodologia terapêutica desenvolvida por Reich — Análise do Caráter, Vegetoterapia e Orgonoterapia — aos fenômenos encontrados no funcionamento humano contemporâneo.
As investigações desenvolvidas nesse percurso preservam um eixo fundamental da metodologia reichiana: seguir o caminho das defesas, buscando compreender como as pessoas se defendem de suas próprias emoções. A Arte Org não abandona, portanto, o pensamento de Reich para formular outra concepção do humano; sua construção ocorre por meio da investigação dos próprios fundamentos funcionais reichianos.
No percurso de Reich, a investigação das resistências ultrapassa progressivamente o conteúdo daquilo que o indivíduo diz ou pensa e alcança sua própria forma de funcionar: sua maneira de falar, agir, movimentar-se, estabelecer contato e responder às situações. Posteriormente, essa investigação alcança a organização corporal, estabelecendo relações funcionais entre caráter, corpo e couraça.
A couraça não representa simplesmente um obstáculo a ser eliminado. Constitui uma organização defensiva que participa da maneira pela qual o indivíduo procura lidar com experiências que, em determinado momento, não consegue sustentar de outra forma.
É justamente a relativa estabilidade dessas organizações caracterológicas e musculares que começa a ser questionada pelas observações que originam a Arte Org.
A investigação passa então a perguntar não apenas quais são as defesas, mas onde, como e por meio de quais funções elas estão se organizando.
3. Funcionamento Virtual, Corporalidade, Percepção e Ausência
“Funcionamento Virtual – é o nome que damos para a forma de funcionar do homem contemporâneo”
Virtual: De corpo ausente. Aquele que projeta sua existência ou se sente existindo fora do âmbito do seu próprio corpo; onde seu corpo esteve ou vai estar; ou onde seu corpo nunca poderá chegar; mesmo que estes lugares ocupem exatamente o mesmo espaço físico que ocupa o próprio corpo. Que existe lá no ali depois. (Camargo Jr., 2013, p. 4)
A formulação coloca a percepção em uma posição central. Se corpo e percepção podem seguir movimentos diferentes, acompanhar apenas a organização muscular torna-se insuficiente para compreender o funcionamento. A Arte Org passa, então, a investigar simultaneamente a organização da corporalidade e a organização da percepção.
A percepção, nessa perspectiva, não é compreendida apenas como operação cognitiva. Diferenciam-se a percepção objetiva, diretamente relacionada aos órgãos dos sentidos, e outras modalidades perceptivas investigadas pela Arte Org, entre elas a percepção de campo e a percepção difusa.
Essa ampliação não implica abandonar o corpo. Ao contrário, amplia a investigação da própria corporalidade. Corpo, percepção, movimento e campo passam a ser considerados em suas relações funcionais.
Ausência, desconexão e síndrome da ausência
Ausência – É a forma como nomeamos uma estranha capacidade do homem contemporâneo de se distanciar de si mesmo, do próprio corpo e do mundo ao seu redor e de voltar para si mesmo para seu corpo e para o mundo. Ato manifesto ou subliminar que envolve desde o mais simples distanciar-se de si mesmo até as mais complexas desconexões de si mesmo e do mundo ao seu redor. (Camargo Jr., 2013, p. 4)
A definição contém dois movimentos fundamentais: ausentar-se e voltar para si. Isso significa que ausência não deve ser automaticamente considerada patológica. Há diferentes possibilidades de distanciamento e diferentes graduações de ausência. O problema aparece quando esses movimentos se desorganizam e passam a envolver níveis crescentes de desconexão.
Ausência e desconexão, portanto, não são equivalentes.
Uma pessoa pode afastar-se de si mantendo alguma possibilidade de acompanhar esse movimento e retornar. Em outras situações, os diferentes momentos da experiência podem permanecer pouco relacionados, produzindo interrupções e lacunas entre um estado e outro.
É nesse campo que se situa a síndrome da ausência. O trabalho terapêutico não se dirige simplesmente à eliminação da capacidade de ausentar-se, como se o objetivo fosse produzir uma presença permanente. A direção está relacionada à possibilidade de a pessoa acompanhar seus próprios movimentos de afastamento e retorno, diminuindo as desconexões.
A questão passa a ser: como a pessoa se ausenta? O que acontece com sua corporalidade e sua percepção durante esse movimento? Até onde consegue acompanhar seu próprio afastamento? E como retorna para si, para seu corpo e para o mundo?
- Sobre-Excitação: Corpo, Campo, Ausência e Retorno
A compreensão do funcionamento virtual não se esgota no fenômeno da ausência. Outro processo ocupa posição central na investigação da Arte Org: a sobre-excitação, particularmente quando se manifesta como sobre-excitação de campo.
É necessário, inicialmente, delimitar o conceito. Na perspectiva da Arte Org, a sobre-excitação diferencia-se da excitação energética natural do organismo. Ela é apresentada como uma sobrecarga energética que não encontra formas de descarga, modificando o metabolismo bioenergético corporal e interferindo nas formas básicas de descarga. Esse processo relaciona-se a alterações do funcionamento emocional e do metabolismo periférico, podendo manifestar-se, entre outras formas, por pele seca e fria, sensação concomitante de calor e extremidades frias.
Também são descritos cansaço, irritabilidade, sensação de esgotamento coexistindo com sensação de energia vibrante, aceleração dos pensamentos e dificuldades relacionadas ao sono e à sensação de descanso.
Portanto, sobre-excitação não é sinônimo de vitalidade.
Uma pessoa pode encontrar-se intensamente mobilizada e, simultaneamente, distante de sua corporalidade. Movimento não significa necessariamente presença, assim como intensidade energética não significa necessariamente maior contato consigo mesma.
- Sobre-excitação e ausência
As investigações da Arte Org identificam uma relação dinâmica entre ausência e sobre-excitação.
Enquanto a ausência envolve movimentos de afastamento de si mesmo, do corpo e do mundo, a sobre-excitação pode aparecer como uma força de contraposição a esse movimento.
Entretanto, a relação não é linear. Em determinadas situações, a sobre-excitação não ocorre concomitantemente à ida para a ausência, mas aparece posteriormente, mais próxima do movimento de voltar para si mesmo. Depois do contato ausente, a pessoa pode começar a produzir ou liberar sobre-excitação do corpo para o campo, de modo que ela se apresenta mais próxima do retorno do que do ausentar-se.
Em outras situações, especialmente quando há maior desorganização da ausência, a sobre-excitação pode aparecer antes e assumir claramente uma função defensiva. Pode também aumentar quando a pessoa começa a aproximar-se de determinadas formas de contato ausente.
Assim, a sobre-excitação pode funcionar como uma das forças capazes de dificultar ou interromper a ausência.
É nesse sentido que ela aparece como uma das principais defesas diante da própria ausência e como um dos processos envolvidos no encouraçamento de campo.
- Sobre-excitação e periferia corporal
Tanto a ausência quanto a sobre-excitação pode produzir alterações na periferia corporal.
Na perspectiva da Arte Org, pode ocorrer um tipo de anestesiamento ou paralisia periférica que pode aumentar durante a ausência e a sobre-excitação e diminuir quando a pessoa consegue estar mais presente ou metabolizar a sobre-excitação.
Entretanto, a função desse processo não parece ser necessariamente a mesma nas duas situações.
Na ausência, o anestesiamento periférico estaria relacionado às condições necessárias ao movimento de distanciamento, permitindo o deslocamento da percepção difusa para dentro e para fora da unidade corporal.
Na sobre-excitação, por sua vez, a alteração periférica aparece relacionada ao bloqueio da descarga.
As investigações da Arte Org reconhecem que ainda não está completamente esclarecido se se trata exatamente do mesmo processo nos dois casos ou de fenômenos diferentes e sobrepostos.
Essa ressalva é importante: a Arte Org apresenta esses processos como objetos de investigação, e não como um sistema teórico completamente fechado.
- Sobre-excitação de campo
A sobre-excitação é compreendida como de natureza energética, precipitada do corpo e manifestada no campo, embora permaneça relacionada e provavelmente coordenada desde o próprio corpo.
Em alguns casos, pode-se acompanhar a passagem da sobre-excitação corporal em direção ao campo. Em outros, sua manifestação ocorre depois de determinadas formas de ausência. Há também a hipótese de que funções envolvidas no próprio ausentar-se possam estimular diretamente o campo, promovendo sua sobre-excitação.
Essas possibilidades não devem ser apresentadas como uma sequência universal. As investigações da Arte Org reconhecem a complexidade e a variabilidade desse processo.
A partir da experiência terapêutica, são descritos três movimentos que não precisam ocorrer de forma sequencial ou separada: a precipitação da sobre-excitação no campo pessoal ou do corpo para o campo; a reabsorção da sobre-excitação do campo para o corpo; e o redirecionamento perceptivo da sobre-excitação para o campo do lugar ou em direção à terra/profundidade.
À medida que a pessoa consegue acompanhar perceptiva e sensorialmente sua própria ausência, a relação entre ausência e sobre-excitação pode tornar-se mais clara. Aquilo que inicialmente aparece apenas como consequência — uma espécie de ressaca virtual — pode revelar também sua função de defesa e contraposição à ausência.
- Implicações terapêuticas
Reconhecer a função defensiva da sobre-excitação tem uma consequência clínica fundamental: a prática terapêutica da Arte Org não consiste em atacá-la diretamente.
Se a sobre-excitação participa da formação da couraça de campo e esta cumpre funções de contenção, proteção, defesa e contato, sua desorganização abrupta pode aumentar as dificuldades do funcionamento virtual.
Também por isso não se propõe simplesmente “derrubar” a couraça de campo.
O trabalho precisa ocorrer gradualmente e acompanhar o desenvolvimento do volume corporal e perceptivo, possibilitando que outras condições funcionais e energéticas possam progressivamente substituir determinadas funções anteriormente sustentadas pelo encouraçamento.
- Couraça de Campo: como se encouraça o Funcionamento Virtual?
A pergunta que emerge desse percurso pode ser formulada de maneira direta: se o funcionamento se modificou, como se encouraça o virtual?
“O conceito encouraçamento ou couraça de campo foi criado no âmbito da Arte Org para nomear a forma com que os virtuais se encouraçam. Nestes termos, de acordo com a Arte Org o funcionamento virtual ausente não só derrubou o encouraçamento normal presente no caráter, incluindo o encouraçamento muscular, como criou uma nova versão do encouraçamento.” (Camargo Jr., 2013, p. 51)
A couraça de campo também não é idêntica ao encouraçamento energético de campo proposto por Reich. Na couraça de campo dos virtuais participam campo real, percepção de campo e campo perceptivo, podendo participar também formas sobrepostas da percepção.
Isso não significa que o corpo deixe de participar. Ao contrário, a sobre-excitação é precipitada do corpo e manifesta-se no campo, enquanto a couraça de campo é mantida pela ação conjunta da percepção de campo e da sobre-excitação emanada do próprio corpo. Corporalidade e campo permanecem funcionalmente relacionados.
- Camadas de defesa: do campo ao organismo
Na perspectiva da Arte Org, as defesas podem ser compreendidas em camadas, organizadas da periferia para o centro: defesa de campo, defesa de pele, musculatura periférica, musculatura profunda e órgãos.
Essa formulação ajuda a evitar uma interpretação equivocada da couraça de campo como se ela tivesse simplesmente substituído as defesas corporais descritas anteriormente.
O campo não elimina a pele. A pele não elimina a musculatura. A musculatura periférica não elimina a musculatura profunda. E as diferentes organizações defensivas podem alcançar também o funcionamento dos órgãos.
A perspectiva das camadas permite, portanto, pensar o sistema defensivo em sua relação campo–corpo, sem reduzir toda defesa ao campo e sem retornar a uma compreensão exclusivamente muscular do encouraçamento.
Também reforça a importância clínica de acompanhar onde as defesas estão se organizando e quais recursos permanecem disponíveis em diferentes níveis do funcionamento.
- Sobre-excitação e couraça de campo: contraposição de forças
De acordo com Camargo Jr. “A sobre-excitação de campo já é um tipo de couraça de campo” (Camargo Jr., 2013, 51).
Para compreender essa afirmação é necessário recuperar o princípio da contraposição de forças. A formação de uma couraça envolve forças que se contrapõem, de maneira que uma bloqueia ou limita a outra.
No funcionamento virtual, um dos pontos de partida para compreender essa organização encontra-se no antagonismo entre sobre-excitação de campo e percepção de campo.
Entretanto, a relação é mais complexa porque a percepção de campo também participa da própria ausência.
“É pela percepção de campo que ausência flui” (Camargo Jr, 2013, p.12).
Parte da percepção de campo encontra-se, portanto, comprometida com o movimento da ausência, enquanto outra participa das relações com o campo real, a sobre-excitação e a própria couraça de campo.
Essa complexidade impede que cada função seja previamente classificada como defensiva ou não defensiva. É preciso compreender como funciona e com quais outros processos se relaciona em determinada organização.
A própria Arte Org reconhece que compreender cada uma dessas funções separadamente é diferente de compreender como elas interagem enquanto couraça. Os fenômenos envolvidos são apresentados como mais ricos e diversificados do que a capacidade atual de abordá-los racional e funcionalmente.
- Uma couraça aberta, móvel e dinâmica
A couraça de campo pode fixar-se e manter determinada organização durante algum tempo, mas não se fecha necessariamente da mesma maneira que a antiga couraça caracterológica.
A couraça de campo é descrita como aberta, flexível e extremamente dinâmica, podendo modificar sua direção e reorganizar-se rapidamente. Essa flexibilidade não significa ausência de defesa. Ao contrário, a própria mobilidade pode participar da eficácia defensiva.
Por isso, a questão terapêutica também se modifica. Se a couraça de campo já é flexível por natureza, não se trata simplesmente de flexibilizá-la ainda mais. O eixo passa a ser o voltar a fluir, o desenvolvimento do volume corporal e perceptivo e a aprendizagem da relação da pessoa com suas próprias defesas.
- Desenvolvimento, Corporalidade e Prevenção do Encouraçamento
A discussão sobre funcionamento e encouraçamento não começa na vida adulta.
A preocupação de Reich com as fases mais precoces do desenvolvimento levou-o a investigar não apenas o tratamento das estruturas já encouraçadas, mas também as condições de prevenção do encouraçamento rígido.
Nesse sentido, o desenvolvimento precisa ser considerado desde a vida intrauterina e prosseguir pela primeira infância, período no qual corporalidade, percepção, movimento e relação com o ambiente encontram-se profundamente interligados.
Na perspectiva da Arte Org, o desenvolvimento saudável constitui um processo em que diferentes funções precisam desenvolver-se de maneira relacionada, envolvendo as dimensões corporal/energética, relacional/funcional e a percepção de si, do outro e do mundo que cerca a criança. Isso significa que o desenvolvimento não deve ser avaliado apenas pelo adiantamento de determinada capacidade isolada.
Nessa perspectiva, uma criança pode aprender a ler muito cedo e ser considerada excepcionalmente desenvolvida, mas é necessário perguntar também como se encontra seu desenvolvimento motor, sua agilidade, sua capacidade de correr e brincar, sua relação com brinquedos e com outras crianças.
A questão não está em considerar problemática uma habilidade intelectual precoce. Está em perguntar se outras dimensões do desenvolvimento estão podendo acompanhá-la.
O desenvolvimento infantil é compreendido, assim, de maneira global, envolvendo movimentos corporais, maturação dos sistemas, relações interpessoais e experiências perceptivas.
O brincar livre assume particular importância porque envolve simultaneamente corpo, percepção de si, percepção do outro, movimento, relação e ambiente.
- Crianças na Era Digital/Virtual
É nesse ponto que a discussão sobre cultura digital pode ser retomada sem estabelecer uma relação causal simplificadora entre tecnologia e funcionamento virtual.
As crianças contemporâneas encontram-se, desde muito cedo, em ambientes atravessados por dispositivos digitais. A questão não pode ser reduzida à afirmação de que “as telas fazem mal” nem à ideia de que tecnologias digitais produzam diretamente o funcionamento virtual.
O problema é mais amplo: em que condições as diferentes dimensões do desenvolvimento estão acontecendo?
Nessa perspectiva, é fundamental que a criança possa experimentar corporalmente o mundo: brincar em praças e parques, ter contato com terra, plantas, animais, vento, chuva, sons e outras experiências concretas.
Na cultura digital contemporânea, observa-se entre crianças e, principalmente, adolescentes uma dificuldade crescente de sair de casa e afastar-se de celulares, jogos e telas, com a substituição de parte das experiências concretas por experiências virtuais. Atividades ao ar livre e em grupo, por sua vez, possibilitam vivências como ganhar e perder, reconhecer potencialidades e dificuldades, experimentar o companheirismo e aprender nas relações presenciais.
O ponto central, portanto, não é estabelecer uma oposição abstrata entre “real” e “virtual”, mas perguntar quais experiências corporais, perceptivas e relacionais estão efetivamente disponíveis durante o desenvolvimento.
Se a criança permanece predominantemente em experiências nas quais a percepção pode deslocar-se continuamente enquanto o corpo permanece pouco mobilizado, interessa investigar como corporalidade e percepção estão se organizando e como outras dimensões do desenvolvimento estão sendo acompanhadas.
- Corpo e Virtualidade na Cultura Digital
A cultura digital não criou o funcionamento virtual descrito pela Arte Org.
Essa distinção é fundamental. O conceito antecede a centralidade contemporânea das redes sociais, smartphones e outras tecnologias digitais e surgiu de problemas relacionados à corporalidade, à percepção e às formas de defesa.
Entretanto, algumas características da cultura digital tornam essas formulações particularmente atuais.
Hoje, grande parte das atividades pode ocorrer sem que o corpo acompanhe espacialmente a experiência. O indivíduo pode trabalhar, estudar, relacionar-se, comunicar-se e participar de diferentes situações permanecendo corporalmente no mesmo lugar. A percepção pode deslocar-se continuamente enquanto o corpo permanece praticamente imóvel. Essa condição não significa, por si mesma, ausência no sentido arteorguiano. Mas permite perguntar: o que acontece com a relação entre corpo e percepção quando o deslocamento perceptivo se torna cotidiano e já não exige o correspondente deslocamento corporal?
- Conectados e ausentes?
A cultura digital utiliza intensamente a ideia de conexão. Estar conectado tornou-se quase sinônimo de estar presente. Entretanto, conexão tecnológica e relação consigo mesmo não são equivalentes. Uma pessoa pode estar permanentemente acessível a mensagens, imagens, acontecimentos e outras pessoas sem necessariamente acompanhar aquilo que acontece em sua própria experiência corporal.
A partir da Arte Org, podemos formular uma pergunta: é possível estar intensamente conectado com o mundo e, simultaneamente, distante de si mesmo?
A questão não pretende afirmar que a utilização de tecnologias digitais produza necessariamente ausência. Interessa investigar a função que determinada forma de conexão assume na relação entre corporalidade, percepção, presença e ausência.
- Cultura digital e sobre-excitação: uma aproximação que exige cuidado
Da mesma maneira, é preciso evitar uma equivalência direta entre multiplicidade de estímulos digitais e sobre-excitação de campo.
São fenômenos conceitualmente distintos.
A cultura digital, entretanto, possibilita alternar rapidamente entre mensagens, imagens, atividades, informações e relações. A atenção pode deslocar-se inúmeras vezes enquanto o corpo permanece no mesmo espaço.
Essa condição recoloca uma questão importante: muita excitação significa necessariamente muita presença?
A compreensão do funcionamento virtual sugere que não. Uma pessoa pode estar intensamente mobilizada e, simultaneamente, pouco relacionada à própria corporalidade.
Portanto, não se trata de afirmar que celulares, jogos ou redes sociais produzam sobre-excitação de campo. Trata-se de investigar o encontro entre determinadas condições contemporâneas e formas de funcionamento nas quais ausência, sobre-excitação, percepção e corporalidade já mantêm relações complexas.
- As “coisas” e os “outros”
A formulação arteorguiana segundo a qual as defesas do “um” podem encontrar-se nas “coisas” e nos “outros” abre outro campo importante de reflexão.
As “coisas” e os “outros” encontram-se hoje disponíveis de maneiras que não existiam quando os primeiros conceitos da Arte Org começaram a ser formulados.
Um único dispositivo pode concentrar trabalho, relações, informação, memória, entretenimento e acesso permanente a outras pessoas. Isso não significa que o celular ou uma rede social constituam, por si mesmos, uma couraça de campo.
A questão funcional é: que função esses dispositivos assumem no campo pessoal e na organização da experiência?
Podem participar de movimentos de afastamento? Podem ser utilizados diante da dificuldade de permanecer consigo mesmo? Podem favorecer contato? Podem assumir funções diferentes em momentos diferentes?
A perspectiva funcional não permite responder antecipadamente. O dispositivo não é, em si, defesa ou contato. É necessário compreender a função que assume na relação entre corpo, percepção, campo e experiência.
- Considerações Finais
A Arte Org Terapia desenvolveu-se a partir da tradição reichiana e da necessidade de compreender formas de funcionamento que não pareciam corresponder integralmente à relativa estabilidade das antigas estruturas neuróticas de caráter.
Seguindo o caminho das defesas, as investigações desenvolvidas por Jovino Camargo Jr., junto ao grupo de profissionais e pesquisadores ligados à Associação Wilhelm Reich do Brasil e ao Instituto Wilhelm Reich do Chile, ampliaram a investigação das relações entre corporalidade, percepção, campo e defesa.
O conceito de funcionamento virtual coloca em evidência uma forma particular de relação entre corporalidade, percepção, presença e ausência. O virtual é caracterizado como “de corpo ausente”, apontando para a possibilidade de a experiência perceptiva deslocar-se para além da localização corporal.
A ausência envolve tanto distanciamento quanto retorno. Sua desorganização pode produzir desconexões que comprometem a continuidade da experiência e participam daquilo que a Arte Org denomina síndrome da ausência.
A sobre-excitação, por sua vez, não corresponde simplesmente à intensidade dos estímulos ou a uma excitação energética natural. Trata-se de um processo relacionado à dificuldade de descarga e metabolização e que pode participar, em diferentes momentos, do retorno, da defesa contra a ausência e da organização da couraça de campo.
A couraça de campo amplia o problema reichiano do encouraçamento ao investigar uma organização defensiva aberta, móvel e dinâmica, constituída por relações entre corporalidade, percepção, campo e sobre-excitação. A inclusão da noção de camadas de defesa permite ainda compreender que as defesas de campo não anulam as organizações corporais, mas se articulam a defesa de pele, musculatura periférica, musculatura profunda e órgãos.
Essas formulações assumem particular relevância quando colocadas diante das condições contemporâneas da cultura digital.
As tecnologias não criaram o funcionamento virtual, mas ampliaram extraordinariamente as possibilidades de deslocamento perceptivo sem correspondente deslocamento corporal e transformaram as maneiras pelas quais as “coisas” e os “outros” se tornam continuamente disponíveis no campo da experiência.
No desenvolvimento infantil, essa discussão exige particular cuidado. Não se trata de demonizar tecnologias, mas de investigar as condições em que corporalidade, movimento, percepção, relações e experiências concretas com o mundo estão podendo desenvolver-se de forma integrada.
Diante disso, permanecem questões que não devem ser encerradas prematuramente: o que acontece com a corporalidade quando a percepção pode deslocar-se continuamente sem que o corpo precise acompanhá-la? Como se organizam presença, ausência e sobre-excitação em uma cultura de conexão permanente? Que funções as “coisas” e os “outros” assumem nas formas contemporâneas de defesa? E como crianças que crescem desde muito cedo em ambientes digitais estão organizando a relação entre corporalidade, percepção, movimento, experiência e mundo?
A contribuição da Arte Org para uma atualização do pensamento de Wilhelm Reich talvez esteja justamente na possibilidade de sustentar essas questões sem transformar novas formas de funcionamento em classificações rígidas e sem abandonar o princípio funcional de acompanhar as defesas.
Em uma cultura marcada pela aceleração, pela conexão e pela multiplicidade de estímulos, recolocar a corporalidade no centro da investigação não significa exigir uma presença permanente nem eliminar os movimentos de ausência.
Significa ampliar a possibilidade de acompanhar-se: acompanhar os movimentos da corporalidade e da percepção, da presença e da ausência, da sobre-excitação e do retorno, reconhecendo as formas pelas quais as defesas se organizam e buscando recuperar condições para que a relação consigo mesmo, com os outros e com o mundo possa voltar a fluir.
Referências
RAKNES, Ola. Wilhelm Reich e a orgonomia. Tradução de Antonio Negrini. São Paulo: Summus, 1988.
Sobre o(s) autor(es)
Maria das Graças de Lima
Psicóloga Clínica e Social (CRP-06/43336). Doutora e Mestre em Psicologia Social pela PUC/SP – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Graduação em Psicologia pela Universidade São Marcos (1993). Formação em Teorias e Técnicas Reichianas e Arteorg Terapia pela Associação Wilhelm Reich do Brasil. Sócio Diretora do Instituto Wilhelm Reich Brasil/Arteorg. Docente no Centro Universitário Paulistana – UNIPAULISTANA, desde 2017. Membro da ABRAPSO (Associação Brasileira de Psicologia Social).
Sueli Eduardo Marinho
Psicóloga, formada desde 1990, Psicoterapeuta Reichiana e Terapeuta com práticas e recursos da Arte Org Terapia pela Associação Wilhelm Reich do Brasil. Especialização em neuro psicopedagogia. Atuação como psicoterapeuta especializada no atendimento do desenvolvimento infantil, adolescentes e adultos. Orientação a gestantes.
Laura Cristina C. Galante
Psicóloga com especialização pelo GEPPLI, terapeuta corporal Reichiana, membro fundadora da Associação Wilhelm Reich do Brasil. Terapeuta Familiar Sistêmica formada pelo Instituto Familiae, com experiência e pesquisa em Instituição com crianças com deficiência e trabalho de prevenção com bebês e crianças. Psicoterapeuta Corporal de base Reichiana com crianças, adolescentes e adultos.