Corpo, movimento e espiritualidade
A dançaterapia e a bioenergética na ativação dos chakras
Body, movement, and spirituality
Dance therapy and bioenergetics in chakra activation
Resumo
Palavras-chave: Bioenergética. Corpo. Dançaterapia. Movimento
Abstract
Keywords: Bioenergetics. Body. Dance Therapy. Movement.
O que acontece com uma pessoa quando ela pode dançar livremente? Sensações, emoções, imagens e lembranças talvez possam encontrar no movimento uma forma de se manifestar, enquanto internamente se amplia a percepção sobre o próprio corpo e sobre aquilo que está vivendo. A dança e o movimento podem constituir recursos para essa expressão, a comunicação e o autocuidado, envolvendo a pessoa em uma experiência que articula dimensões corporais, emocionais e relacionais (Levy, 1992). O movimento ocupa um lugar importante na experiência de si, favorecendo presença, percepção e cura. É nesse território entre corpo, movimento e experiência que se situa este estudo.
Quando essa experiência é ampliada para um grupo, o corpo também passa a encontrar o outro. Agora o movimento ocupa um lugar diferente, compartilhado, onde ritmos, ações, olhares e diferentes formas de expressão podem se encontrar. Cada participante traz sua própria maneira de se movimentar e, ao mesmo tempo, percebe a presença dos demais. Um movimento pode despertar outro, o ritmo pode ser compartilhado e a experiência de cada pessoa pode ganhar novos sentidos a partir desse encontro. A dança em grupo cria uma dimensão relacional na qual o corpo também se torna lugar de comunicação, troca e pertencimento (Levy, 1992).
É nesse espaço de encontro entre corpo, movimento e relação que esta proposta aproxima a Dançaterapia da Bioenergética e da Espiritualidade. Os sete chakras são utilizados como uma referência simbólica para percorrer diferentes energias da experiência humana, criando uma possibilidade de diálogo entre aspectos corporais, emocionais e espirituais. A dança, a respiração, o ritmo, a voz e os recursos da Bioenergética oferecem diferentes caminhos de exploração corporal ao longo desse percurso. Nesse contexto, a bebida do Cacau Sagrado participa como elemento ritual e sensorial, contribuindo para a criação de um ambiente de conexão ancestral e de expansão de consciência.
A construção desta proposta parte de diferentes maneiras de compreender o corpo em movimento. Whitehouse (1999) traz para a Dançaterapia a importância de escutar aquilo que vem do próprio corpo. Em seu trabalho com o movimento espontâneo, a atenção volta-se para as sensações, imagens e emoções que podem surgir durante a experiência, permitindo que o corpo encontre formas próprias de expressão e que cada pessoa reconheça os sentidos presentes em seu próprio movimento.
Dessa forma, a dança oferece um caminho importante para essa vivência, pois coloca a pessoa em relação íntima com seu interior, com o espaço, com a música e com os outros corpos presentes. Essa perspectiva estará presente nos momentos de dança livre que serão propostos na vivência, nos quais cada participante poderá explorar o corpo a partir dos estímulos oferecidos pela música, pelas representações simbólicas de cada chakra e pelos elementos da natureza. O movimento poderá ser descoberto durante a própria experiência, respeitando as características, os limites e o ritmo de cada pessoa.
Também serão experimentados movimentos mais concretos. Para Laban (1978), o movimento possui qualidades próprias relacionadas ao espaço, ao tempo, ao peso e ao fluxo, elementos percebidos na maneira como cada pessoa se desloca, se posiciona e estabelece relação com o ambiente. Essas qualidades aparecem em movimentos firmes, pesados, leves, fluidos, expansivos e contidos, acompanhando diferentes momentos da experiência.
A música e o ritmo participam fortemente desse processo. Artaxo e Monteiro (2013) discutem a relação entre ritmo, música e movimento, destacando como os estímulos sonoros podem ampliar as possibilidades de percepção e expressão corporal. Uma seleção de músicas de diferentes frequências, uma para cada atividade proposta, o que se torna fundamental para os processos emocionais dos participantes.
E ainda abordando a importância das danças coletivas, estudos recentes feitos por Fong Yan et al. (2024) apontam relações entre a participação em dança coletiva, o fortalecimento de vínculos sociais e o bem-estar, indicando que a experiência compartilhada pode ter um papel significativo na qualidade das relações e na percepção de bem-estar. Esse estudo encontrou efeitos positivos de intervenções de dança em diferentes desfechos psicológicos e cognitivos, reforçando o interesse da dança como prática relacionada à saúde e ao bem-estar. Foi observado que a participação em dança conjunta esteve associada ao fortalecimento de amizades e à melhora do bem-estar, com resultados relacionados à qualidade dos vínculos estabelecidos no grupo (Fong Yan et al., 2024).
Partindo para o ponto de vista da Psicologia Corporal nesse processo, Alexander Lowen, que foi um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da Análise Bioenergética, compreendia que o corpo participa diretamente da maneira como uma pessoa sente e expressa sua vida emocional. A respiração e o movimento constituem recursos importantes para ampliar o contato com as sensações e com a própria vitalidade (Lowen, 1982). Essa compreensão conduz a uma questão importante para este estudo: qual a sensação, em um nível corporal profundo, quando alguém encontra condições para se movimentar, respirar e expressar-se com maior liberdade?
Lowen (1982) compreende o corpo como parte fundamental da experiência emocional, relacionando respiração, movimento, sentimento e autoexpressão. A partir dessa compreensão, aquilo que é sentido pode encontrar movimento. A experiência corporal também pode favorecer uma percepção mais atenta das relações estabelecidas consigo, com o outro e com o ambiente. Entendendo a relevância desse processo para a vida humana, a vivência proposta busca criar condições para que cada participante possa experimentar o corpo de maneira mais consciente, respeitando seus próprios ritmos, limites e formas de expressão.
Um dos conceitos centrais da abordagem de Lowen (1982) é o grounding, que está relacionado ao contato dos pés com o chão e à percepção das pernas como estruturas de sustentação do corpo:
Estar grounded é outra maneira de dizer que o indivíduo está com os pés no chão. O termo também pode significar que ele sabe onde está e, portanto, sabe quem é. Ao adquirir o grounding, ele assume uma posição, ou seja, é “alguém”. Num sentido mais amplo, o grounding representa o contato do ser com as realidades básicas da existência. Ele está firmemente plantado na terra, identificado com seu corpo, ciente de sua sexualidade e orientado para o prazer (Lowen, 2020, p. 21).
Nesse sentido, estabelecer esse contato favorece uma maior percepção do próprio corpo e da realidade, contribuindo para uma sensação de estabilidade, presença e segurança corporal. O trabalho de grounding envolve perceber o apoio dos pés, a distribuição do peso, a firmeza das pernas e a relação do corpo com a superfície que o sustenta. Essa experiência pode favorecer uma atenção mais consciente às sensações corporais e à própria capacidade de sustentar-se, constituindo um importante recurso dentro da prática bioenergética (Lowen, 1982). Nessa vivência, esse conceito se torna essencial.
E o que pode acontecer quando essa experiência corporal recebe também uma dimensão simbólica e espiritual? Pensando nisso, o trabalho com os sete chakras é utilizado, servindo como um mapa para essa vivência. Associados historicamente a diferentes concepções de corpo sutil presentes nas tradições do Hinduísmo e do Yoga, os chakras foram descritos de diferentes maneiras ao longo da história. Os sete centros mais conhecidos no Ocidente são Muladhara, Svadhisthana, Manipura, Anahata, Vishuddha, Ajna e Sahasrāra, relacionados em diferentes tradições a práticas de meditação, mantras, visualização e experiências do corpo sutil (Prates, 2023). Nesta proposta, são utilizados como referências simbólicas e energéticas para organizar uma jornada que passa pelo enraizamento, fluidez, força, amorosidade, expressão, interiorização e expansão espiritual.
Os chakras também podem ser compreendidos a partir de uma perspectiva energética e psicológica. Brennan (2003), em sua abordagem sobre o campo energético humano, descreve os chakras como centros de energia relacionados às diferentes camadas desse campo e atribui a eles funções associadas às dimensões física, emocional e mental da experiência humana.
Quase todos reagimos a experiências desagradáveis obstruindo sentimento e detendo grande quantidade do fluxo natural de energia. Isso influi no desenvolvimento e na maturação dos chakras, do que resulta a inibição de uma função psicológica plenamente equilibrada. Se uma criança, por exemplo, for rejeitada muitas vezes tentando dar amor a outrem, deixará provavelmente de tentá-lo, e buscará interromper os sentimentos anteriores de amor, aos quais responde com atos. Para fazê-lo, terá de suspender o fluxo de energia através do chakra do coração. (Brennan, 2003, p. 124).
A partir dessas contribuições, os chakras podem ser utilizados como uma linguagem simbólica para aproximar corpo, emoções, energia e espiritualidade. Essa perspectiva permite olhar para a experiência corporal de maneira integrada, considerando aquilo que cada pessoa sente, percebe e expressa. Na vivência, movimentos específicos serão propostos para cada chakra, criando possibilidades para que cada participante encontre sua própria maneira de experimentar e atribuir sentidos ao que surgir durante o processo.
A bebida do Cacau participa dessa experiência como um ritual de abertura e preparação. Segundo Terra (2024), o Theobroma cacao, nome científico do Cacau, possui uma longa história de utilização cultural, medicinal e ritual nas Américas, estando relacionado a diferentes práticas sociais e espirituais ao longo do tempo. Historicamente, o cacau esteve presente em práticas de diferentes povos e assumiu significados relacionados à vida social, à espiritualidade e às relações com a natureza. Essa dimensão histórica permite compreender que o uso ritual do cacau é algo ancestral e cultural, embora suas formas contemporâneas tenham incorporado novos contextos e significados (Terra, 2024).
Nas práticas contemporâneas, as cerimônias de cacau têm sido estudadas como espaços que articulam elementos simbólicos, corporais, emocionais e comunitários. Valle-Kendall e Piñones-Rivera (2025) analisam essas cerimônias como espaços de produção de sentidos e de ressignificação da experiência, nos quais o cacau, o ritual, a música, a intenção e a convivência podem participar da construção de experiências subjetivas singulares. Os autores ressaltam, entretanto, que essas possíveis transformações devem ser compreendidas como interpretações teóricas, e não como efeitos terapêuticos comprovados. Nesta vivência, o Cacau Sagrado é vivenciado como elemento ritual e sensorial, contribuindo para a criação de um espaço de presença, preparação e conexão do grupo para a jornada corporal que será vivenciada.
Percebendo toda essa perspectiva espiritual do corpo, Lowen (1997) compreende a energia como aquilo que sustenta a vitalidade e possibilita uma experiência mais consciente de si. Para Lowen (1997), “A energia é a força que está por trás do espírito e, portanto, a base da espiritualidade do corpo. Usada de forma consciente, ela se transforma numa fonte de poder”. Quando essa energia é percebida e utilizada de maneira consciente, pode favorecer maior presença, expressão e contato com a própria experiência corporal. A espiritualidade, nessa perspectiva, também pode ser vivenciada através do corpo.
Assim, a proposta se desenvolve em diferentes camadas da experiência, mas mantendo o principal foco: o contato com o próprio corpo. A partir disso, a relação com o movimento, o encontro com o outro, a expressão emocional e a dimensão espiritual fazem da dinâmica um processo de expansão de percepções.
Ao reunir essas diferentes linguagens, a proposta considera o corpo como espaço de experiência individual e coletiva. Cada participante traz sua própria história, suas sensações e seus significados, enquanto o grupo se encontra para trocas e possibilidade de reconhecimento profundo. É nesse encontro entre o corpo que sente, o corpo que se movimenta e o corpo que se relaciona que a experiência vivencial encontra sua dimensão terapêutica e espiritual.
Referências
BRENNAN, Barbara Ann. Mãos de luz: um guia para a cura através do campo de energia humano. São Paulo: Pensamento, 2003.
FONG YAN, A.; NICHOLSON, L. L.; WARD, R. E. et al. A eficácia das intervenções de dança nos desfechos de saúde psicológica e cognitiva em comparação com outras formas de atividade física: uma revisão sistemática com meta-análise. Sports Medicine, v. 54, p. 1179–1205, 2024. DOI: 10.1007/s40279-023-01990-2.
LABAN, Rudolf von. Domínio do movimento. 5. ed. São Paulo: Summus, 1978.
LEVY, Fran J. Dance/movement therapy: a healing art. Rev. ed. Reston, VA: National Dance Association, American Alliance for Health, Physical Education, Recreation, and Dance, 1992.
LOWEN, Alexander. A espiritualidade do corpo: bioenergética para a beleza e a harmonia. São Paulo: Summus, 1997.
LOWEN, Alexander. Bioenergética. São Paulo: Summus, 1982.
LOWEN, Alexander; LOWEN, Leslie. Exercícios de bioenergética: o caminho para uma saúde vibrante. 9. ed. São Paulo: Summus, 2020.
PRATES, Luciana Cangussu. Noções introdutórias sobre os chakras no Hinduísmo. Interações, Belo Horizonte, v. 18, n. 1, e181c04, 2023. DOI: 10.5752/P.1983-2478.2023v18n1e181c04.
WHITEHOUSE, Mary Starks. Textos reunidos em: PALLARO, Patrizia (org.). Authentic Movement: essays by Mary Starks Whitehouse, Janet Adler and Joan Chodorow. London; Philadelphia: Jessica Kingsley Publishers, 1999.
Sobre o(s) autor(es)
Daiane de Souza
Educadora Física formada pela UNISINOS – RS, Especialista em Dançaterapia pela UNILEYA – SP, Cursando Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Psicoterapeuta e Analista Corporal de abordagem reichiana e bioenergética, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR.
Sandra Mara Volpi
Psicóloga (CRP-08/5348) (PUC-PR), Analista Bioenergética (CBT) e Supervisora em Análise Bioenergética (IABSP). Especialista em Psicoterapia Infantil (UTP). Psicopedagoga (CEP-Curitiba). Mestre em Tecnologia (UTFPR). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo) (IBRATE). Diretora do Centro Reichiano, Curitiba/PR.