Centro Reichiano
Psicologia Corporal
📄 Anais dos Congressos de Psicoterapias Corporais
Trabalho publicado nos Anais

Compreender o caráter para resgatar a sensação de órgão

Understanding character to recover organ sensation

Leopoldo Feigel Neto Centro Reichiano · São Paulo-SP · Brasil leopoldofeigel@yahoo.com.br
Luiz Guilherme Sant’Angelo Andradas-MG · Brasil guisantangelo@hotmail.com
Anais do 28º Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais
· Edição 2025

Resumo

This article emerged from the workshop "Understanding Character to Recover Organ Sensation," presented at the 28th Brazilian Congress of Body Psychotherapies, promoted by Centro Reichiano and Volpi. The workshop aimed to deepen the perception of oneself, others, and the therapeutic relationship within Reichian and Bioenergetic psychotherapy, seeking to refine organ sensation and establish a radiant bridge with clients and patients. Based on the Reichian concepts of armor, character, and organ sensation, it provided a process of self-perception and integration of body, mind, and emotion. The article offers a critical reflection on the training of Reichian and Bioenergetic psychotherapists, emphasizing the importance of working through their own resistances and character armor. It concludes by addressing the relevance of contemporary clinical management in the field of body psychotherapy.

Palavras-chave: Couraça; Reich; Sensação de órgão; Caráter; Ponte radiante.

Abstract

This article emerged from the workshop "Understanding Character to Recover Organ Sensation," presented at the 28th Brazilian Congress of Body Psychotherapies, promoted by Centro Reichiano and Volpi. The workshop aimed to deepen the perception of oneself, others, and the therapeutic relationship within Reichian and Bioenergetic psychotherapy, seeking to refine organ sensation and establish a radiant bridge with clients and patients. Based on the Reichian concepts of armor, character, and organ sensation, it provided a process of self-perception and integration of body, mind, and emotion. The article offers a critical reflection on the training of Reichian and Bioenergetic psychotherapists, emphasizing the importance of working through their own resistances and character armor. It concludes by addressing the relevance of contemporary clinical management in the field of body psychotherapy.

Keywords: Armor; Reich; Organ sensation; Character; Radiant bridge.

Introdução

A psicoterapia corporal e bioenergética enraizada nas contribuições pioneiras de Wilhelm Reich, oferece uma perspectiva única sobre a interconexão entre corpo, mente e emoção. Ao longo das últimas décadas, essa abordagem tem se consolidado como um campo fértil para a compreensão dos processos psíquicos manifestos na corporeidade.

O presente artigo pretende aprofundar a discussão que se iniciou no laboratório “compreender o caráter para resgatar a sensação de órgão”, proposta para o 28º Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais, organizado pelo Centro Reichiano e Volpi. Este laboratório busca explorar a percepção de si e do outro no contexto terapêutico, com foco no refinamento da sensação de órgão e no estabelecimento de uma ponte radiante entre terapeuta e cliente.

Os conceitos reichianos de couraça, caráter e sensação de órgão são pilares fundamentais para a compreensão da dinâmica psicorporal. A couraça, entendida como uma armadura muscular e emocional, é uma defesa crônica que restringe a mobilidade psíquica e o fluxo energético. O caráter, por sua vez, representa os padrões psicorporais desenvolvidos a partir de vivências emocionais infantis, moldando a forma como o indivíduo se relaciona consigo e com o mundo. A sensação de órgão, um conceito central na obra de Reich, refere-se à percepção direta das reações corporais, funcionando como uma forma essencial de comunicação energética com o ambiente.

O artigo abordará a relevância desses conceitos para terapeutas e futuros terapeutas, as estratégias de cuidado-de-si e autorregulação para o profissional e a importância de práticas complementares como a respiração consciente e a construção de mandalas como recusrso para o processo de cura e autoconhecimento.

Além disso, faremos uma reflexão crítica sobre a formação do psicoterapeuta reichiano e bioenergético, a necessidade de que este trabalhe suas próprias resistências e couraças. Serão levantados pontos importantes sobre o manejo clínico a partir da abordagem reichiana na contemporaneidade, citando autores como Alexander Lowen, Federico Navarro, Jose Henrique Volpi e Sandra Mara Volpi.

Por fim, o artigo fará conexões com a teoria do trauma, novas descobertas das neurociências sobre o corpo no processo terapêutico e a Somatic Experiencing.

Conceitos fundamentais

Compreender a obra reichiana é um desafio, visto que Reich vai organizando e estruturando sua pesquisa ao longo de 30 anos. São muitos conceitos que vão se sofisticando e, para os desavisados, pode soar com muita estranheza e misticismo alguns deles.

Por isso, seguindo o rigor que recebemos durante a formação no Centro Reichiano e Volpi, entendemos a necessidade de sempre voltarmos às raízes da pesquisa de Reich, resgatando os conceitos, para que se evite confusões e distorções de um trabalho tão rico e potente como o dele.

O trabalho clínico a partir de uma abordagem reichiana e bioenergética, exige do terapeuta, além de domínio dos conceitos, um trabalho pessoal sobre sua própria caracterialidade.

Optamos pelo termo caracterialidade (VOLPI, 2025) e não caráter, para fazer jus ao ensino da escola dos Volpi, que preferem essa terminologia a fim de evitar uma compressão errônea e estanque do funcionamento caracterológico. Respeitaremos as citações feitas de Reich, Lowen e Navarro que usam o termo caráter; mas, sempre que pudermos ao longo do texto, usaremos caracterialidade.

Feito essas considerações, iniciemos pelo conceito de caracterialidades, que pode ser compreendido também como estrutura de defesa, que são padrões psicorporais formadas a partir de vivências emocionais, principalmente na infância, configurando a forma como a pessoa se relaciona consigo mesma, com o outro e com o mundo. Ou seja, a caracterialidade antecede o sintoma e pode ser a causa do mesmo. Reich nos mostra que o caráter é uma “mudança crônica do ego que se poderia descrever como um enrijecimento” (REICH, p. 151, 1998), ou seja, é uma forma defensiva/protetiva para que o ego não sofra com os perigos internos e externos. Como afirma Reich (1998), em “Análise do Caráter”:

Enquanto sintoma corresponde apenas a uma experiência definida ou a um desejo delimitado, o caráter, isto é, o modo de existir específico de uma pessoa, representa uma expressão de todo o seu passado. Por isso, um sintoma pode aparecer abruptamente, ao passo que cada traço de caráter individual requer muitos anos para o seu desenvolvimento. Não devemos nos esquecer também de que o sintoma não poderia aparecer de repente se não existisse já no caráter uma base de reação neurótica (p. 56).

Diante do panorama que fizemos sobre as caracterialidades, lançamos mão de outro conceito imprescindível na clínica reichiana e bioenergética, que está intimamente ligado à de caráter – estamos falando da couraça. Reich se deu o trabalho de, em diversas vezes, descrever esse fenômeno da vida psicofísica. No trecho a seguir ele diz sobre a origem e sua função,

A couraça de caráter forma-se como resultado crônico de choque entre exigências pulsionais e um mundo externo que frustra essas exigências […] É em torno do ego que essa couraça se forma, em torno precisamente daquela parte da personalidade que se situa na fronteira entre a vida pulsional biofisiológica e o mundo exterior. Por isso designamos como caráter do ego (REICH, p. 152, 1998).

No entendimento reichiano, as couraças são tensões musculares crônicas formadas como defesas emocionais. Reich (1998) nos alerta para o fato de que “A resistência do caráter não se expressa em termos de conteúdo, mas da forma” (p. 59). Elas se manifestam no corpo de diferentes formas e em diferentes segmentos: ocular, oral, cervical, torácico, diafragmático, abdominal e pélvico. Cada segmento está relacionado a emoções e experiências específicas, ao longo do desenvolvimento infantil.

A couraça muscular é, portanto, a manifestação corporal da couraça de caráter. Reich (1975, p. 166) afirmou que “a couraça de caráter e a couraça muscular são funcionalmente idênticas”. Isso significa que a forma como defendemo-nos psicologicamente se reflete diretamente na rigidez e nos bloqueios da corporiedade. Essa armadura impede a expressão espontânea dos afetos e a percepção plena das sensações corporais, resultando em uma restrição da mobilidade psíquica e do fluxo energético.

De modo a ampliar a compreensão caracterológica, beberemos na fonte de Alexander Lowen, um dos mais proeminentes discípulos de Reich e fundador da Análise Bioenergética, que expandiu a compreensão da relação entre a estrutura corporal e os padrões psicológicos.

Lowen (1975) argumentava que “o corpo é a história da pessoa”, refletindo as experiências de vida, traumas e defesas que moldam a personalidade. Ele desenvolveu uma base de tipos de caracterialidades que descreve como as experiências infantis e as respostas a elas se manifestam em padrões corporais e emocionais específicos.

Esses cinco tipos básicos de caracterialidade – esquizoidia, oralidade, psicopatia, masoquismo e rigidez – não são categorias fixas, mas sim, tendências e traços que se manifestam em diferentes graus em cada indivíduo, muitas vezes se compondo e se sobrepondo em camadas, representando estratégias de sobrevivência desenvolvidas para lidar com as demandas internas (pulsões) e as demandas do ambiente.

Apresentaremos a formação das caracterialidades por ordem cronológica, respeitando a flecha do desenvolvimento infantil, considerando desde a gestação até a fase edípica.

A caracterialidade esquizoide é formada a partir de experiências precoces de ameaça à existência desde o útero até os primeiros dias de vida, onde a criança se sente rejeitada ou não bem-vinda. Isso leva a uma dissociação da unidade funcional mente-corpo, como forma de proteção contra a dor de não ser aceita.

A pessoa de caracterialidade esquizoide frequentemente se sente desconectada de seus sentimentos e desejos, e pode ter dificuldade em formar conexões significativas com os outros, tendendo a se retirar de situações sociais devido ao medo da intimidade ou vulnerabilidade. Lowen (1975) descreve que o indivíduo esquizoide “vive mais em sua cabeça do que em seu corpo”, resultando em uma falta de grounding e uma sensação de irrealidade.

Em “O Corpo Traído”, Lowen (1977, p. 1) afirma: “Defino essa divisão como a perturbação esquizoide que está por trás de todo problema de identidade.” Corporalmente, pode apresentar um corpo alongado e magro, com pouca vitalidade e uma expressão facial que denota distanciamento ou apreensão. A energia é frequentemente retida nas extremidades, e há uma sensação de fragmentação corporal. O trabalho terapêutico visa ajudar a pessoa a se reconectar com seu corpo e suas emoções, desenvolvendo um senso de segurança e pertencimento.

Já a oralidade se desenvolve a partir de uma privação de apoio e nutrição na infância, seja física ou emocional, durante amamentação e desmame. A pessoa com essa caracterialidade busca constantemente aprovação e validação externa para se sentir amada e valorizada, tendo dificuldade em tomar decisões independentes.

Há uma tendência a se apegar aos outros e uma dificuldade em lidar com a solidão. Lowen (1975) observa que “a necessidade de ser amado e cuidado é a força motriz do caráter oral”. Em “O Corpo em Terapia”, Lowen (1975) descreve que o caráter oral frequentemente manifesta profundos sentimentos de solidão, desapontamento e desamparo, buscando atenção e elogios. Corporalmente, pode apresentar um corpo subdesenvolvido, especialmente nas pernas, com uma postura que sugere dependência ou busca por apoio. Os olhos podem ter uma expressão de súplica ou tristeza. A energia é frequentemente direcionada para a boca e a parte superior do corpo, refletindo a busca por gratificação oral. O trabalho terapêutico foca em construir a autoestima interna e a capacidade de se nutrir, desenvolvendo a autonomia e a independência emocional.

A psicopatia surge de experiências de traição e manipulação na infância, principalmente na fase de controle neuromuscular dos esfíncteres, onde a criança aprende que o poder e o controle são as únicas formas de garantir sua sobrevivência. A pessoa com tal caracterialidade tem dificuldade em formar conexões significativas com os outros e tende a tratar as pessoas como objetos ou meios para atingir seus próprios fins. Podem ter emoções limitadas, falhando em experimentar sentimentos como amor, compaixão ou empatia, e lutam com a confiança devido a um medo profundo de traição ou abandono.

Lowen (1975) afirma que o indivíduo psicopático “nega seus sentimentos para manter o controle sobre os outros”. Em “O Corpo em Terapia”, Lowen (1977) destaca que o psicopático busca poder e controle, muitas vezes à custa de suas próprias emoções e do contato com a realidade. Corporalmente, pode apresentar um corpo com uma parte superior mais desenvolvida e rígida, especialmente no peito e ombros, e uma parte inferior mais fraca, simbolizando a desconexão com o grounding e a realidade. A energia é frequentemente concentrada na cabeça e no tronco superior, com uma postura de superioridade ou desafio. O trabalho terapêutico visa desenvolver a capacidade de conexão autêntica e empatia, promovendo a integração entre mente e corpo.

Chegamos no masoquismo, que é resultado de uma infância onde a criança se sentiu sufocada e controlada, mas também amada de forma ambivalente, levando a uma submissão externa com uma hostilidade interna reprimida, provavelmente no desfralde e treino dos esfíncteres. A pessoa masoquista tem dificuldade em aceitar o prazer devido a sentimento de culpa ou indignidade, internalizando a dor em vez de expressá-la.

Lowen (1975) descreve que o masoquista “se sente preso e humilhado, mas não consegue se libertar”. Em “O Corpo em Terapia”, Lowen (1977) comenta que “o problema do masoquismo tem sido e ainda é um dos mais difíceis problemas terapêuticos para a psiquiatria analítica”, devido à tendência do paciente de repetir padrões de sofrimento. Corporalmente, pode apresentar um corpo compacto e musculoso, com pescoço curto e ombros curvados, como se carregasse um fardo. Há uma tensão crônica na pelve e nas pernas, e a expressão facial pode ser de sofrimento contido. A energia é frequentemente retida e há uma dificuldade em expressar raiva ou frustração. O trabalho terapêutico busca liberar a raiva reprimida e a capacidade de expressar as próprias necessidades, permitindo que o indivíduo experimente o prazer e a liberdade.

Por fim, temos a caracterialidade de rigidez, que se forma a partir de experiências em que a criança foi amada, mas sua espontaneidade e sexualidade foram reprimidas, no período edípico. A pessoa com essa caracterialidade tem dificuldade em se adaptar a mudanças e tende a se apegar firmemente às suas crenças por medo do desconhecido. Podem ter visões muito “preto e branco” da vida, acreditando que existem apenas respostas certas e erradas, sem espaço para áreas cinzentas.

Lowen (1975) observa que o rígido “se defende contra a entrega e a espontaneidade”. Em “Exercícios de Bioenergética”, Lowen (1979, p. 15) enfatiza a importância de liberar a rigidez corporal para alcançar a plenitude da vida: “A rigidez do corpo é a rigidez da personalidade.”

Corporalmente, pode apresentar um corpo bem proporcionado e atlético, mas com uma rigidez geral, especialmente na coluna e na pelve. Há uma dificuldade em se entregar ao prazer e à espontaneidade, e a energia é frequentemente controlada e direcionada para a realização. O trabalho terapêutico visa flexibilizar as defesas, permitindo a entrega ao prazer e à espontaneidade, e a expressão plena da sexualidade e da vitalidade.

A tipologia loweniana acima apresentada, está baseada em Reich e não é um fechamento em si, mas, um ponto de partida para se investigar. Como bem nos lembrou Reich “cada organização social produz as estruturas de caráter que de que necessita para existir (REICH, 1995, p. 4); isso fica como alerta, para evitarmos rótulos e diagnósticos fechados, pois há tantos tipos de caracterialidades, como pessoas no mundo.

Compreender as caracterialidades nos leva também a compreensão das couraças, como já exposto. Ambos os conceitos servem para demonstrar uma dialética em que caracterialidade molda a couraça, gerando uma estrutura e a estrutura molda a caracterialidade, reforçando a couraça.

Em última análise, Reich (1998) pontua que a couraça representa uma formação protetora crônica, uma “armadura” emocional e corporal que restringe a mobilidade psíquica. Essa restrição vai impedindo o organismo de pulsar e sentir suas próprias sensações, suas correntes vegetativas, gerando um modo de existir encouraçado. O encouraçamento do organismo, leva a formação de caracterialidade e esta faz com que se perca a sensação de órgão – outro conceito reichiano.

Por sensação de órgão podemos compreender a percepção direta das reações corporais que o organismo tem de si mesmo, sendo também uma forma essencial de comunicação energética com o outro e com o ambiente (REICH, 2003).

Delonguemo-nos um pouco mais: a sensação de órgão refere-se à percepção interna das manifestações somáticas ligadas a processos emocionais e psíquicos. Segundo Reich (1942/1989), as emoções não são apenas fenômenos subjetivos, mas expressões bioelétricas que se refletem na motilidade visceral e na corrente vegetativa do organismo. Em outras palavras, cada emoção possui um correlato corporal que pode ser sentido diretamente nos órgãos internos. Sensações como contração no estômago diante do medo, aperto no peito na tristeza ou expansão do diafragma em estados de alegria são exemplos de como a experiência emocional se traduz em termos fisiológicos.

Outro conceito reichiano que muito nos vale no fazer clínico é o de ponte radiante, que surge quando Reich (1979) está desenvolvendo suas pesquisas com bions. Ao observar que matéria se desintegrava, passava a um estado de não-vida, se reorganizava em vesículas de energia (bions) e formava novas formas de vida, Reich também identificou um tipo de radiação que se forma entre uma vesícula bionosa e outra. Mesmo elas não se juntando, essa radiação gerava um tipo de interação entre elas, uma influenciava a outra.

No contexto clínico, ponte radiante pode ser compreendida como a circulação da energia vital (orgone) e da interconexão entre os sistemas corporais e psíquicos da dupla terapeuta-paciente. A ponte radiante diz respeito ao campo energético que se estabelece entre paciente e terapeuta durante uma sessão, influenciando a qualidade da interação terapêutica e os processos de transferência e contratransferência.

Na abordagem psicorporal, os conceitos de sensação de órgão e ponte radiante são fundamentais para entender como a energia vital flui, se estagna ou se reequilibra na relação terapêutica. Dessa forma as sessões de psicoterapia corporal se tornam um espaço de interação profunda, em que, tanto o paciente quanto o terapeuta estão imersos em um campo de trocas linguísticas, simbólicas, emocionais e energéticas.

Navarro (1995) corrobora ao afirmar que a comunicação entre terapeuta e paciente não ocorre apenas por meio da linguagem verbal, mas também através de um campo energético compartilhado, no qual ambos os corpos absorvem, filtram, repelem e refletem informações sutis que emergem no processo terapêutico.

O terapeuta, ao adentrar esse espaço, não é um observador passivo, mas um organismo vivo que também recebe e responde às trocas energéticas. Sensações internas no corpo do terapeuta – como calor em determinadas regiões, tensões musculares, vibrações sutis ou até mesmo bloqueios – podem fornecer pistas valiosas sobre a qualidade da relação transferencial.

Para Boadella (1987), a capacidade do terapeuta de perceber sua própria sensação de órgão e os fenômenos energéticos que ocorrem na sessão é crucial para compreender o que está sendo processado no campo terapêutico.

Esses conceitos importam à medida em que a psicologia corporal, fundamentada nas contribuições de Wilhelm Reich e expandida por teóricos neo e pós-reichianos, compreendem o ser humano como um organismo complexo, como um sistema dinâmico que recebe, processa e expressa informações emocionais e energéticas, que extrapolam a linguagem falada, está na sutiliza e na potência do corpo e suas sensações.

A exploração honesta desses conceitos na prática terapêutica reforça a ideia de que o corpo não é um simples repositório de memórias emocionais, mas um sistema vivo, dinâmico e atuante que constantemente absorve, metaboliza e reflete as interações humanas.

O reconhecimento das caracterialidades, das couraças, da sensação de órgão e da ponte radiante na sessão, amplia a capacidade do terapeuta de interagir com o paciente de maneira mais profunda, intuitiva e eficaz, favorecendo um processo terapêutico mais autêntico e transformador. Assim, o estudo da sensação de órgão e da ponte radiante dentro da psicoterapia reichiana e pós-reichiana não apenas amplia a compreensão da interação terapeuta-paciente, mas também ressalta o papel essencial do corpo como mediador da experiência clínica.

Essa postura bioenergética e relacional traz implicações profundas para a prática psicoterapêutica, enfatizando a importância da sintonização corporal e do manejo da energia vital no processo de cura e regulação emocional.

Fundamentação do trabalho com respiração e as mandalas

A respiração consciente é uma prática essencial para a regulação do sistema nervoso vegetativo e a promoção do bem-estar físico e emocional. Ao integrar a respiração em práticas corporais, o participante adquire maior presença no aqui e agora, fortalecendo a conexão entre corpo, mente e emoções.

Ao focar na respiração, o indivíduo pode:

● Liberar tensões acumuladas no corpo, aliviando dores e rigidez muscular.

● Aumentar a oxigenação cerebral, melhorando a clareza mental e o foco.

● Reduzir a ansiedade e o estresse, estimulando a resposta de relaxamento.

● Ampliar a percepção corporal, facilitando a identificação de emoções e sensações internas.

A respiração é o sopro da vida, o fio que nos liga ao presente, um sopro sagrado que acolhe e transforma. Respirar de forma consciente é mais do que um ato fisiológico, é um convite ao reencontro com o próprio ser. A cada inspiração, um portal se abre para a calma e a renovação. A cada expiração, liberamos o peso das tensões, das memórias aprisionadas no corpo. Respirar é ter a chance de renascer, de sentir a vida pulsando em cada célula, conectar-se com o silêncio interno e encontrar um refúgio em meio ao caos. Esse simples gesto, quando conduzido com intenção, transforma-se em um ritual de cura e reconexão.

Reich observou que por meio da respiração muitos pacientes bloqueavam emoções, não apenas na musculatura, por meio de hiper ou hipotonia, por isso ele foi tão insistente em incluir respirações no setting analítico. Por meio da observação da respiração, Reich nos ensinou a enxergar nessa função biológica, um fractal do funcionamento caracterológico. E mobilizando a respiração, alcançamos também as defesas do caráter.

A opção por incluir o trabalho com mandalas junto ao respiratório, de deve ao fato de que as mandalas são formas, assim como o caráter, que tem suas próprias formas de manifestação. Poder transferir para um desenho tais formas, nos ajudam também a investigar os processos de encouraçamento de um paciente, já que o caráter é uma forma defensiva do organismo de agir e reagir ao mundo e isso certamente pode aparecer também na elaboração de mandalas.

Sabemos que as mandalas são ferramentas ancestrais e universais utilizadas para meditação, autoconhecimento e integração de vivências. Segundo Fincher (2003), a criação de mandalas permite organizar e dar forma ao caos interno, ajudando o indivíduo a acessar suas emoções mais profundas. De acordo o mesmo autor (FINCHER, 2003), o ato de construir mandalas permite integrar experiências fragmentadas e alcançar um estado de harmonia.

Considerando que as couraças fragmentam o organismo, o dividindo em partes, muitas vezes, isoladas umas das outras, a elaboração de mandalas, pode favorecer de forma bastante criativa e lúdica, um tipo de intervenção clínica, que pode levar o paciente a integrar suas partes. No processo de criação de mandala não há certo ou errado, apenas o fluxo livre do organismo, desenhando novos caminhos de expressão e descoberta.

A mandala nos abraça e nos convida a confiar na vida, a aceitar a impermanência e a celebrar cada momento, como pétalas que se abrem suavemente no tempo certo.

Principais Benefícios das Mandalas:

● Organização interna e equilíbrio emocional.

● Expressão simbólica de conteúdos inconscientes.

● Promoção do autoconhecimento por meio da arte.

● Redução de pensamentos ruminantes e estados de agitação.

● Fortalecimento da criatividade e da intuição.

Durante o processo criativo, a mandala funciona como um espelho da psique, podendo refletir estados emocionais, padrões internos e a caracterialidade. A integração desse trabalho no laboratório, favorece a elaboração de novas percepções sobre si mesmo, promovendo harmonia e, quem sabe, melhora a sensação de órgão.

As mandalas ou o círculo sagrado da vida, podem ser compreendidas também como mapas simbólicos da jornada interior, representações do cosmos que nascem de dentro para fora. Em seu centro, guardam segredos, memórias, sonhos e emoções que, muitas vezes, não conseguimos expressar em palavras, o que nos faz lembrar também das caracterialidades, que nem sempre aparecem claramente nas palavras, mas se revelam no corpo. Criar uma mandala é dançar com o inconsciente, deixar que as cores e formas contem histórias antigas, oferecendo novas perspectivas. Cada traço revela algo profundo, cada cor é uma semente de transformação. Ao preencher o círculo, reorganizamos o mundo interno, trazendo à luz aquilo que precisa ser visto, compreendido e curado, assim como o caráter.

A formação do psicoterapeuta reichiano e bioenergético

A formação de um psicoterapeuta reichiano e bioenergético vai além da mera aquisição de conhecimentos teóricos e técnicos; ela exige um profundo mergulho no próprio corpo e na própria história. A premissa fundamental é que o terapeuta, para auxiliar o paciente no reconhecimento e flexibilização de suas couraças e, na liberação de sua energia vital, deve, primeiramente, ter trabalhado suas próprias resistências e couraças.

Este processo de cuidado-de-si a partir da sua análise pessoal é contínuo e essencial para a eficácia clínica. Reich, ao desenvolver seus conceitos de couraça e caráter, já apontava para a importância da análise do próprio terapeuta. As couraças do terapeuta, se não for reconhecida e trabalhada, pode se tornar um obstáculo significativo no processo terapêutico, gerando uma contratransferência negativa.

Ela pode impedir a percepção sutil das manifestações energéticas do paciente, por meio da sensação de órgão, dificultar o estabelecimento de um vínculo seguro, por meio da ponte radiante e, em última instância, limitar a profundidade e a autenticidade da relação terapêutica.

Um terapeuta com couraças não flexibilizadas pode, inconscientemente, reforçar as defesas caracterológicas do paciente, em vez de auxiliar em sua dissolução, formando o que Gerda Boyesen chamou de couraça secundária – aquela que surge de um trabalho clínico malfeito.

Lowen, seguindo os passos de Reich, também enfatizou a necessidade de o terapeuta estar enraizado em seu próprio corpo e consciente de suas próprias tensões. A Análise Bioenergética, ao combinar o trabalho corporal, analítico e relacional, oferece um caminho para que o terapeuta explore suas próprias couraças musculares e de caráter.

Ao vivenciar em si mesmo o processo de flexibilização de tensões e a liberação do fluxo energético, o terapeuta desenvolve uma sensibilidade e uma empatia somática que são indispensáveis para a prática clínica. A reflexão crítica sobre a formação do psicoterapeuta reichiano e bioenergético passa, portanto, pela compreensão de que a teoria e a técnica são inseparáveis da experiência pessoal. Não basta conhecer os conceitos de couraça, caráter, sensação de órgão e ponte radiante; é preciso senti-los e vivenciá-los no próprio corpo. Isso implica em um compromisso contínuo com a terapia pessoal, a supervisão clínica e a participação em vivências e laboratórios que promovam a autopercepção e a integração corpo-mente-emoção.

Trabalhar as próprias resistências e couraças é gesto de desenvolver o que Navarro dizia sobre os três “H”: humildade, humanidade e humor (NAVARRO; VOLPI, 2003). Significa confrontar padrões defensivos arraigados, emoções reprimidas e memórias corporais dolorosas. No entanto, é precisamente nesse processo que o terapeuta desenvolve a capacidade de acolher e guiar o paciente em sua própria jornada de cura.

A autenticidade do terapeuta, sua capacidade de estar presente e de se conectar energeticamente com o paciente, depende diretamente de sua própria liberdade interna e de seu fluxo energético. O cuidado-de-si do terapeuta reichiano não é um luxo, mas uma necessidade. A intensidade das trocas energéticas na sessão terapêutica exige que o profissional desenvolva estratégias eficazes de autoproteção e autorregulação.

Como proposto no laboratório aplicado, a consciência das couraças, os bloqueios corporais, a gestão dos pensamentos e emoções, a supervisão psicológica, a higiene energética e o equilíbrio pessoal são pilares fundamentais para sustentar uma prática profissional saudável e duradoura. Um terapeuta que negligencia seu próprio cuidado corre o risco de absorver as cargas emocionais e energéticas dos pacientes, levando ao esgotamento e comprometendo a qualidade do atendimento.

Em suma, a formação do psicoterapeuta reichiano e bioenergético é um processo de constante aprimoramento pessoal e profissional. Ela exige um compromisso com (re)encontro consigo, a liberação das próprias couraças e o cultivo de um estado de presença e vitalidade. Somente assim o terapeuta poderá oferecer um espaço seguro e transformador para que seus pacientes também possam resgatar sua sensação de órgão e estabelecer pontes radiantes em suas vidas.

A relação terapêutica como ferramenta de transformação

No manejo clínico reichiano e bioenergético contemporâneo, a relação terapêutica assume um papel central como ferramenta de transformação. A interação entre terapeuta e paciente é vista como um campo dinâmico de trocas energéticas e emocionais, onde a autenticidade e a presença do terapeuta são cruciais.

A capacidade de estabelecer uma ponte radiante eficaz permite que o terapeuta se sintonize com as necessidades do paciente, oferecendo um ambiente seguro para o exercício do cuidado. Lowen (APAB, 2025) enfatizou a importância da relação terapêutica como um “lugar seguro no qual se inicia o processo de cura”. Essa segurança é construída através da empatia, do acolhimento e da capacidade do terapeuta de manter-se enraizado e presente, mesmo diante de intensas manifestações emocionais do paciente. A leitura do corpo, a ressonância energética e as devolutivas das percepções do terapeuta são elementos que fortalecem essa relação e facilitam o processo de autoconhecimento e transformação.

A supervisão clínica, nesse contexto, torna-se um espaço vital para que o terapeuta possa elaborar os desafios emocionais e energéticos que emergem na relação terapêutica, garantindo a integridade do processo. O manejo clínico contemporâneo também reconhece a importância de se trabalhar com as resistências do paciente de forma respeitosa e compassiva.

Atualmente as resistências são vistas não como obstáculos, mas como manifestações da couraça e do caráter, que precisam ser compreendidas e abordadas com sensibilidade. Ao invés de confrontar diretamente as resistências, o terapeuta reichiano e bioenergético busca flexibilizá-las, permitindo que a energia retida seja colocada em fluxo gradualmente e que o paciente possa acessar emoções e memórias reprimidas.

Além disso, a abordagem reichiana e bioenergética contemporânea valoriza a integração de diferentes técnicas e recursos terapêuticos, desde que estejam alinhados com os princípios da pesquisa desenvolvida por Reich, como a respiração consciente, os actings, a massagem reichiana, EMDR, a intervenção biofísica na couraça – proposta pela orgonoterapeuta Denise Dessaune – e outras intervenções corporais são utilizadas para mobilizar a energia, liberar tensões e promover a integração corpo-mente-emoção.

A escolha das técnicas é sempre personalizada, levando em consideração: a transferência, a contratransferência, as necessidades, os limites, as potencialidades e o ritmo de cada paciente.

O manejo clínico na abordagem reichiana e bioenergética contemporânea é um processo complexo e dinâmico, que exige do terapeuta uma profunda compreensão dos conceitos reichianos e bioenergéticos, uma sólida formação pessoal e um compromisso contínuo com o cuidado de si e a supervisão. A relação terapêutica, construída sobre a base da autenticidade, da presença e da segurança, torna-se o principal veículo para a transformação e, porque não, a cura.

Conclusão

O laboratório “compreender o caráter para resgatar a sensação de órgão” representou uma oportunidade ímpar para aprofundar a compreensão da psicoterapia corporal e bioenergética, bem como os conceitos reichianos. Ao integrar a teoria e a prática, a proposta do laboratório visou capacitar terapeutas e não terapeutas a reconhecerem e trabalharem suas couraças, refinarem sua sensação de órgão e estabelecerem uma ponte radiante mais autêntica e eficaz em suas relações, tanto pessoais quanto profissionais.

A exploração dos conceitos de couraça, caráter, sensação de órgão e ponte radiante, aliada a práticas como a respiração consciente, grounding, compartilhamento e a construção de mandalas, oferece um caminho para a integração corpo-mente-emoção. A ênfase no cuidado de si e na autorregulação do terapeuta reforça a importância de espaços pedagógicos, como oferecido no Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais; espaços de supervisão e de compartilhamento com os pares, para que se consiga uma prática clínica saudável e sustentável.

Fizemos uma aposta certeira e afetiva de que esse laboratório e outros, vivências, apresentações e todas as atividades oferecidas nesse 28º Congresso pôde contribuir para o desenvolvimento da psicoterapia corporal no Brasil, promovendo maior consciência das caracterialidades, das tensões e couraças, promovendo também novas produções de conhecimento, além de bem-estar e uma conexão mais profunda com a energia vital.

A atualidade da clínica reichiana e bioenergética é inegável, especialmente quando se estabelecem conexões com as teorias do trauma, as neurociências e o Somatic Experiencing. Essas abordagens contemporâneas validam e enriquecem a compreensão do corpo como um elemento central no processo terapêutico, reforçando a visão de Reich de que o corpo não é só o caminho para o inconsciente, mas é ele inteiro, o próprio inconsciente procurado por Freud.

A integração desses conhecimentos permite um manejo clínico mais abrangente e eficaz, capaz de lidar com as complexidades do sofrimento humano da nossa época e promover melhorias em um nível mais profundo. Práticas pedagógicas como o laboratório proposto neste Congresso são de suma importância para a formação e o aprimoramento de psicoterapeutas corporais e bioenergéticos, pois oferecem um espaço seguro e experiencial para que os profissionais e estudantes possam vivenciar em seus próprios corpos os conceitos teóricos, trabalhar suas resistências e couraças, e desenvolver a sensibilidade necessária para atuar de forma autêntica e eficaz.

Ao promover a percepção de si e a integração corpo-mente-emoção através do encontro com o outro, esses laboratórios contribuem para a formação de terapeutas mais conscientes, presentes e capazes de estabelecer relações terapêuticas verdadeiramente transformadoras.

Por fim, a psicoterapia corporal reichiana e bioenergética, em sua constante evolução e diálogo com outras áreas do conhecimento, reafirma sua relevância como uma abordagem terapêutica poderosa e atual. Ao focar no corpo como via de acesso à psique e ao promover a liberação das couraças e o restabelecimento do fluxo energético, ela oferece um caminho para a saúde integral e o florescimento humano e por que não, para um mundo mais afetivo e justo.

Referências

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Sobre o(s) autor(es)

Leopoldo Feigel Neto
Bacharel em Psicologia pela Universidade Nove de Julho (CRP-06-149124). Especialista em Psicologia Transpessoal pela Alubrat. Acolhimento e Integração das Ciências Psicodélicas pelo Instituto Phaneros. Cursando Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Psicoterapeuta/Analista Corporal Reichiano de abordagem reichiana e bioenergética, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR. E-mail: leopoldofeigel@yahoo.com.br

Luiz Guilherme Sant’Angelo
Psicólogo (CRP-04/45876) (Faculdade Pitágoras). Especialista em psicologia clínica psicanalítica. Cursando Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Psicoterapeuta e Analista Corporal de abordagem reichiana e bioenergética, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR. Coordenador da Comissão de Orientação em Psicologia Clínica do CRP-MG, subsede sul. E-mail: guisantangelo@hotmail.com

Como citar este trabalho

NETO, Leopoldo Feigel; SANT’ANGELO, Luiz Guilherme. Compreender o caráter para resgatar a sensação de órgão. In: Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais, 28, 2025. Curitiba: Centro Reichiano. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/anais/compreender-o-carater-para-resgatar-a-sensacao-de-orgao/. Acesso em: 05/06/2026.