A relação entre narcisismo e amor
The relationship between narcissism and love
Resumo
Palavras-chave: Ferida narcísica; Lowen; Narcisismo; Relações afetivo-sexuais; Relações parentais; Questões de gênero.
Abstract
Keywords: Narcissistic wound; Lowen; Narcissism; Affective-sexual relationships; Parental relationships; Gender issues.
Atualmente, o tema do narcisismo vem sendo cada vez mais debatido no senso comum, principalmente nas redes sociais, onde houve um certo tipo de explosão da utilização do termo, mas ao meu ver de uma forma diferente de como a Psicologia encara essa discussão, apesar de que são muitos psicólogos que fazem o uso desse termo de forma equivocada também nesses espaços. Os temas do amor e das nossas relações parentais e afetivo-sexuais costumam ser muito mobilizadores, por sermos seres que se constituem através da relação com o(s) outro(s). E a relação entre esses dois temas vem me sendo muito cara por conta dessa via, pela via do amor e do laço com o outro. Poder refletir sobre o narcisismo a partir desse condutor tem me feito muito sentido.
O presente trabalho trata-se de uma discussão sobre o narcisismo e a ferida narcísica, com o intuito de abordar como o narcisismo se dá nas nossas relações parentais e posteriormente também se manifesta na vida adulta nas relações afetivo-sexuais.
Para isso vamos refletir sobre como autores como Lowen e Freud pensavam essas questões acerca do narcisismo. Vamos discutir também as questões de gênero, a partir de conceitos de Freud a respeito da posição feminina de amar (narcísica) e a posição masculina de amar (objetal), e para trazer uma visão mais contemporânea sobre a temática utilizaremos uma autora que se chama Valeska Zanello.
Iniciaremos então com a visão de Lowen (2017) a respeito do narcisismo. Para ele, o narcisismo do indivíduo ocorre de forma conjunta com o da cultura. A cultura é modelada de acordo com a nossa imagem e nós somos modelados por essa cultura, sendo borradas as fronteiras entre indivíduo e sociedade.
Para Lowen (2017) o narcisismo pode ser entendido como a perda de valores humanos, como uma ausência de interesse pelas outras pessoas, pelo ambiente e pela qualidade de vida. Quando ocorre uma grande valorização de bens materiais, progresso, riqueza, notoriedade, êxito, desempenho, acima do respeito que deveríamos ter por nós mesmos e pelos outros, podemos dizer que a própria cultura valoriza mais a “imagem”, e assim, pode ser considerada narcisista.
Lowen (2017) diz que a característica mais importante do narcisismo é a ausência de sentimento ou a negação dele, ocorrendo um esforço constante para suprimir todo o sentimento, para agir de acordo com a imagem que se projeta de si mesmo. Indivíduos narcisistas costumam ficar agarrados à própria imagem, são incapazes de distinguir como se imaginam do que realmente são, e as duas visões tornam-se uma. Identificam-se com a imagem idealizada, porque a autoimagem real se perdeu e não se comportam de acordo com a autoimagem real, por ser inaceitável.
As principais emoções sujeitas à inibição são a tristeza, raiva e o medo. Segundo Lowen (2017), elas se sobressaem porque sua expressão faz a pessoa sentir-se vulnerável. Sentir tristeza leva à percepção de uma perda e suscita o anseio e a nostalgia. O anseio/ necessidade por alguém deixa a pessoa vulnerável à possível rejeição e humilhação. A negação do medo tem um caminho parecido; quem não sente medo não se sente vulnerável, e assim não pode ser magoado. A negação da tristeza e do medo permite-nos projetar uma imagem de independência, coragem e força. Essa imagem esconde a vulnerabilidade de nós mesmos e dos outros.
De formas diferentes e também a partir dos atravessamentos sociais que nos compõem todos somos vulneráveis à dor, à rejeição, à humilhação. Mas nem todos negam seus sentimentos tentando projetar uma imagem de invulnerabilidade e superioridade. A diferença reside em nossas experiências da infância. Segundo Lowen (2017), esse ferimento decorre principalmente da humilhação, a experiência de ser impotente enquanto se está diante de uma pessoa que oprime através do poder e do controle. Em muitos casos, o poder é a força física, e os pais usam sua força física superior para obrigar a criança a se submeter, mas também humilham por meio de críticas para que ela se sinta incompetente e imprestável. Alguns pais riem ou zombam do(a) filho(a) quando cometem algum erro, rejeitam seus sentimentos, usam de sarcasmo…
Para Lowen (2017), o conflito entre pais e filhos(as) geralmente resulta do desejo parental de moldar o(a) filho(a) de acordo com uma imagem ideal, e da resistência dos(as) filhos(as) a isso. A criança pequena é indefesa e dependente ao extremo, e dessa forma pode ser facilmente controlada por meio de qualquer expressão de reprovação. Com as crianças mais velhas, a sedução, por meio da promessa de um tratamento especial e de intimidade com os pais é oferecida se a criança concordar com os seus desejos, sendo também esta uma forma de controle.
De acordo com Lowen (2017), em primeiro lugar acontece a experiência humilhante de impotência que em geral é acompanhada de rejeição; depois vem o processo de sedução, pelo qual se faz com que a criança se veja como muito especial. Depois de humilhada e rejeitada a criança é facilmente “seduzida” para fazer o que os pais querem. A sedução aqui é entendida a partir de sua derivação do latim que se constitui em “desviar”, “desencaminhar”. As crianças são desviadas de serem fiéis a si mesmas e aos seus sentimentos. Tal configuração de relação vivenciada pela criança com algum dos pais pode vir a desenvolver na idade jovem ou adulta alguns traços do caráter narcisista.
De acordo com Hilton (2023), a ferida narcísica ocorre durante a subfase de reconciliação do processo de separação e individuação do desenvolvimento emocional da criança. Neste momento, a criança está saindo de uma posição fusional e simbiótica com a mãe e dando início a movimentos menos próximos dela. Nesta exploração de limites, ela se encontra entre uma forte sensação de dependência (porque ainda é um bebê) e a maravilha de se expressar como um ser diferente da mãe no mundo exterior.
Para Hilton (2023) assim que a criança se move para o mundo exterior e busca sua individualidade, espera que o ambiente retribua sua natureza, e com isso a tendência dela é de se afastar da mãe e a rejeitar em certos momentos e depois retornar para ela, quando o ambiente se torna muito difícil de lidar sozinha. Quando a mãe é rejeitada pela criança, pode se sentir inadequada, porque, nesta fase de desenvolvimento, não recebe gratificação alguma da criança, de maneira que se sinta uma boa mãe. Se for entregue à criança um ambiente seguro, onde ela possa explorar essas polaridades de grandiosidade e impotência, ela poderá ficar em contato com seu corpo e descobrirá no seu próprio organismo sua força e fragilidade, sua independência e dependência. A base da ferida narcísica é estabelecida quando os pais não conseguem pôr limites para que a criança possa se experimentar, e também quando eles próprios não conseguem validar, estimular e participar com prazer dos movimentos espontâneos da criança.
Em 1914, Freud (2010) fez do narcisismo o tema de seus estudos. O termo foi originalmente colocado para descrever pessoas que tinham satisfação erótica com o seu próprio corpo, mas com o tempo percebeu-se que era possível encontrar características isoladas da conduta narcísica em muitas pessoas, concluindo que o narcisismo poderia ser parte do desenvolvimento sexual regular dos seres humanos. Nesse sentido, para Freud (2010), o narcisismo não seria uma perversão, mas o complemento libidinal do egoísmo do instinto de autoconservação, que é atribuído uma porção a cada indivíduo.
Originalmente, segundo Freud (2010), temos dois objetos sexuais: nós mesmos e a pessoa que cuida de nós. Isso se baseava na observação de que o bebê pode obter algum prazer erótico do próprio corpo, assim como do da mãe. Com isso em seu horizonte, Freud (2010) postulou a possível existência de um narcisismo primário em todos os indivíduos.
Freud (2010) lança uma pergunta importante de onde vem a necessidade que tem o psiquismo de ultrapassar as fronteiras do narcisismo e pôr a libido em objetos? Penso que uma pista para essa resposta está em uma outra fala dele, onde Freud (2010) diz que é necessário começar a amar, para não adoecer, ou seja, é necessário que a gente invista libido em outros objetos para que a gente não adoeça. Mesmo que ele complemente essa sua fala da seguinte forma, que quando não podemos amar por alguma frustração é quase impossível não adoecermos. Uma das vias de acesso ao estudo do narcisismo, para Freud (2010), constitui-se na vida amorosa dos seres humanos.
Reich (1993) diz algo que também se relaciona com o que Freud diz acima: “É provável que cada conversão permanente da libido objetal em libido narcísica ande de mãos dadas com o fortalecimento e enrijecimento da couraça do ego.” (REICH, 1993, p. 170). Isso significa que é necessário que possamos investir no próprio ego, mas não de maneira estritamente permanente; é necessário também um investimento em direção ao que é externo, ao mundo, ao(s) outro(s), para que ocorra esse movimento de troca e não aconteça de adoecermos nesse sentido.
De acordo com Freud (2010), quando vemos atitudes afetivas de muitos pais para com seus(suas) filhos(as), podemos reconhecer que estão experimentando novamente e reproduzindo seu próprio narcisismo, que foi abandonado. O amor dos pais, comovente e no fundo tão infantil, é o narcisismo dos pais revivido, que na sua transformação em amor objetal revela a sua natureza de outro tempo. Por isso, para Freud (2010) os pais são capazes de atribuir à criança todas as perfeições e ocultar a maioria dos seus defeitos, assim como são capazes de negar a sexualidade infantil.
Dessa forma, segundo Suy (2022), os pais amarão nos(as) filhos(as) a própria imagem idealizada e por isso tenderão a colocar a criança na posição de concretizar os seus sonhos não realizados, esperando que elas os restabeleçam de suas frustrações.
Mas, segundo Suy (2022), é importante que os pais também possam ajudar a criança a compreender que ela é um ser humano comum, como os outros, e não esse “ser especial” (narcisismo primário) com o qual ela se identifica por receber esse amor idealizado dos pais.
Para Suy (2022), quando os pais aceitam frustrar-se com os próprios ideais que colocam na criança, podem se dar conta de que seu (sua) filho(a) não é uma versão atualizada deles mesmos e sim uma outra pessoa. Para além de fazer o(a) filho(a) entrar em uma caixinha de filho(a) ideal (que colocaria os pais nessa mesma posição), os pais podem aprender a serem pais com o(a) filho(a) que possuem. A isso Freud (2010) chamou de narcisismo secundário, um amor pelo Eu que é falho, que sabe que não é perfeito e que não cabe em nenhum ideal.
De acordo com Hilton (2023) consciente ou inconscientemente, os pais usam a relação com a criança como uma tentativa de curar as próprias feridas narcísicas, sofridas nas mãos de seus próprios pais. Eles precisam da criança para confirmar que são importantes e assim repararem sua baixa autoestima. Isto é feito pela criança ficando agarrada a eles e se privando das suas próprias explorações. Quando a criança começa a se afastar, os pais sentem isto como sendo uma rejeição ao seu amor. Neste caso, eles, com frequência, afastam-se da criança, como seus próprios pais fizeram por também se sentirem feridos.
De acordo com Hilton (2023) neste afastamento, a criança descobre que os pais não são vinculados a ela como um indivíduo diferente e vivo; ao contrário, descobre que é ligada a uma imagem do que deveria ser ou a uma resposta que deveria dar para eles. Esta imagem ou resposta atende às necessidades dos pais e não reflete as necessidades de individuação da própria criança. Evidentemente, nem sempre os pais estão comprometidos em apoiar a vida independente da criança, mas, pelo contrário, a sua ligação com a criança tem como objetivo a satisfação de suas próprias necessidades insatisfeitas.
O autor Hilton ao longo de seu texto faz o uso do termo “mãe”, de forma geral os textos de psicologia e também de psicologia corporal se referem à função materna, e não necessariamente a figura da mãe, quando fazem o uso desse termo. Eu optei por manter o termo mãe em alguns momentos do texto, mas em outros utilizei o termo “pais” para ampliar o escopo e para não repetir o que é algo muito comum na nossa sociedade e infelizmente também na psicologia, de colocar todo o débito do que acontece de “errado” com a criança na conta na mãe. Lembrando que também o termo “pais” é colocado para as pessoas que desempenham essa função e nada tem a ver somente com pais biológicos.
A respeito do narcisismo, Lowen e Freud diferem em alguns pontos. Lowen (2017) não acredita no conceito de narcisismo primário, e considera todo narcisismo secundário. Ele coloca que é importante saber se existe ou não no desenvolvimento humano uma fase de narcisismo típica, e pensa que se for considerado enquanto existente, o desfecho patológico pode ser visto como um fracasso da criança em passar por essa fase em que ela toma a si mesma como objeto de amor (narcisismo primário) para a fase do amor objetal (alterdirigido). Para ele, não se trataria de uma possível disfunção no próprio desenvolvimento (narcisismo primário), e sim proveniente de alguns problemas no relacionamento entre pais-filhos (narcisismo secundário).
Para Lowen (2017) as crianças estão sujeitas, com frequência, a ambos os tipos de trauma: os pais não fornecem suficiente nutrimento e apoio emocional, na medida em que os pais não reconhecem nem respeitam a individualidade de seus(suas) filhos(as), mas também tentam, de modo sedutor, moldá-los de acordo com a imagem que alimentam de como eles deveriam ser.
A visão de Lowen (2017) difere da maioria dos psicólogos do ego, que identificam o narcisismo patológico como resultado da incapacidade de superar o estado do narcisismo primário. A crença em um narcisismo primário parte, predominantemente, da observação de que os bebês e as crianças pequenas só veem a si mesmas, pensam somente em si mesmas e vivem apenas para si mesmas.
Lowen (2017) contra-argumenta que isso ocorre por um breve período após o nascimento: os bebês sentem a mãe como parte deles próprios, como realmente era quando ainda estavam no útero. A consciência do recém-nascido não se desenvolveu a ponto de reconhecer a existência independente de outra pessoa, porém essa consciência se desenvolve rapidamente. Os bebês não tardam em mostrar que reconhecem a mãe como um ser independente (sorrindo para ela), embora ainda ajam como se a mãe existisse apenas para satisfazer as necessidades deles. Essa expectativa por parte do bebê, de que a mãe estará sempre a postos para lhe atender, tem sido chamada de onipotência infantil, porém Lowen não concorda com o uso desse termo, pois não existe um sentimento de poder por parte dos bebês.
Para Lowen (2017) a questão do poder pode participar do relacionamento entre pais e filhos. Muitas mães ressentem-se do fato de a criança considerar que ela estará sempre a postos para atender suas necessidades, independentemente dos próprios sentimentos. As crianças são muitas vezes acusadas de ambicionar o poder sobre seus pais, quando tudo o que elas querem é ter suas necessidades entendidas e satisfeitas. Os bebês são totalmente dependentes e só podem pedir auxílio por meio do choro. As crianças também são impotentes. De fato, os pais é que são onipotentes com relação a seus(suas) filhos(as), pois detêm literalmente o poder de vida e morte sobre eles(as). A ideia de onipotência infantil sugere grandiosidade que justificaria a hipótese de um narcisismo primário, porém Lowen (2017) acredita que tudo isso faz parte da conduta adulta. O narcisismo dos pais é projetado na criança: “sou especial e, portanto, meu (minha) filho(a) é especial”.
Segundo Hilton (2023), o medo da criança é que ao se afastar e dizer não às necessidades dos seus pais, não haverá mais o amor visceral por parte deles, que os mantêm conectados e vinculados a ela. Portanto, uma das origens da ferida narcísica está justamente na incapacidade, por parte dos pais, de apoiar com prazer a individualidade da criança, o que leva a criança, por sua vez, a inverter a posição com as figuras parentais e passar a agir para atender a demanda destas figuras. Para a criança, então, estar viva nessa situação é perder o amor da mãe; suprimir o seu corpo, e se impedir significa ganhar o amor da mãe.
Para Suy (2022) nascemos com a tarefa de receber amor de uma outra pessoa, que costumamos chamar de mãe, a partir disso nos identificamos com esse amor do outro por nós, e passamos a nos amar também. Esse primeiro tempo da relação amorosa foi o que Freud (2010) chamou de narcisismo primário.
De acordo com Suy (2022), pensar que somos tudo para quem cuida de nós faz parte da nossa constituição psíquica. Essa imagem de que somos tudo para o outro ou pensávamos que éramos é necessária até certo ponto, mas também pode levar a um grande sofrimento se não conseguimos perder essa imagem inteira, para ter acesso a uma imagem nossa que é falha e incompleta e que não é exatamente tudo para ninguém.
Segundo Suy (2022), será muito importante que ainda na infância a criança possa descobrir que ela não é a única razão da vida de deus pais. Será saudável que ela descubra que de certa forma eles estão sempre insatisfeitos e que não depende dela a solução disso. É apenas quando se descobre que não é responsabilidade dela tornar os pais felizes, porque eles têm a vida deles, que ela pode encontrar para a sua vida um sentido próprio.
Quando não se consegue chegar a esse tipo de resolução, constante colocado por Suy (2022) no parágrafo anterior, podemos passar a carregar feridas narcísicas profundas que podem ser projetadas nos mais diversos tipos de relações que venhamos a ter, sejam afetivosexuais, com amigos, no trabalho, etc. Não é responsabilidade nossa em qualquer relação dar conta da satisfação completa do outro e vice-versa; isso é humanamente impossível. Segundo Hilton (2023), as crianças, a partir da ferida narcísica, encontram uma forma de reprimir seu verdadeiro self para poder mostrar uma imagem que os outros, e nessa fase principalmente, os pais, possam amar e corresponder.
Para Hilton (2023) a solução desta ferida está na recuperação da vida que teve que ser negada. Nada mais pode compensar a perda do verdadeiro self. Dessa forma sugere que a solução para o problema narcisista é energética. Foi a expressão inaceitável de um corpo vivo que causou o problema, e então a capacidade para reivindicar essa força de vida torna-se a base da resolução. Não há resolução alguma separada da resolução no corpo. Somente no corpo pode-se reunir, com um profundo senso de dignidade, a grandeza e a vulnerabilidade de ser quem se é.
Segundo Hilton (2023) há três importantes níveis de interação que são necessários no processo terapêutico para se cuidar dessa questão, permitindo que o(a) paciente possa se mover do controle para a autoexpressão. O primeiro nível é levar a sério as defesas do egoadaptativo. O segundo é ajudar a pessoa a se identificar com a contração, e o terceiro é entrar em contato com a força básica da vida quando ela se reinsere no ambiente.
Para Hilton (2023) como terapeutas bioenergéticos, nos é pedido para avaliar e analisar as defesas do ego, trabalhar com os bloqueios físicos e dar suporte para que a energia primitiva da pessoa volte para o mundo. Uma vez que esta força se abre novamente e encontra suporte, a pessoa é capaz de se individualizar e reaver a dignidade que foi originalmente perdida. O paciente pode manejar a sua vergonha, através de um reconhecimento do valor da sua vida e da sua sexualidade. No momento em que a energia não está mais deslocada da pélvis, dando suporte ao falso self, pode ser usada para dar grounding ao verdadeiro self. Então a resolução é, num sentido muito profundo, uma resolução corporal. Foi a vivacidade do corpo, que é sexual por natureza, que produziu desprezo por parte dos pais inicialmente, e é a recuperação da vivacidade que permite a ferida original de curar-se.
Retomando a ideia mencionada anteriormente, para Freud (2010), uma das vias de acesso ao estudo do narcisismo se constitui na vida amorosa dos seres humanos, que para o autor se diferencia no homem e na mulher, existindo uma distinção entre as posições masculina (objetal) e feminina (narcísica) de amar. Nem sempre a mulher ama da forma feminina e nem sempre o homem ama da forma masculina, mas existe uma propensão para ele. Segundo Freud (2010), as meninas ficam muito suscetíveis ao olhar do outro devido às intensas mudanças físicas pelas quais passam na puberdade. Precisam do olhar do outro para constituir a sua relação com o seu corpo de modo que tenderiam a amar de modo mais narcísico que os homens.
As meninas ficam muito suscetíveis ao olhar do outro na puberdade, como diz Freud (2010), mas não somente porque passam por intensas mudanças físicas, e sim ao meu ver, porque seus corpos são sexualizados, erotizados e objetificados desde muito novas por conta da sociedade patriarcal e machista em que vivemos. É importante especificar que essa objetificação acontece de formas diferentes em relação a corpos brancos e negros, sendo que o corpo de uma mulher negra sofre ainda mais com isso, devido aos efeitos do racismo tão presente em nossa cultura e sociedade.
De acordo com Wolf (1992, p. 205 citada por ZANELLO, 2018, p. 104): “Os olhos das mulheres são voltados para os seus próprios corpos, olhando de relance para cima, só para verificar a imagem refletida nos olhos dos homens.” Como diz Wolf (1992, p.77 citada por ZANELLO, 2018, p.101) em um outro trecho: “Os homens olham as mulheres. As mulheres se observam sendo olhadas. Isso determina não só as relações entre os homens e as mulheres, mas também a relação das mulheres consigo mesmas”. Ver-se exclusivamente através do olhar do outro é perverso, e por isso é tão importante que mulheres possam construir um olhar sobre si mesmas.
De acordo com Firestone (1976, citada por ZANELLO, 2018), as mulheres são os únicos objetos de amor em nossa sociedade, a tal ponto que veem a si mesmas como eróticas. E isso ocorre devido a uma sociedade que nos objetifica, e desse modo passamos a nós objetificar também.
É preciso pontuar que há uma grande diferença entre feminino/feminilidade e mulher e também entre masculino/masculinidade e homem, por isso nem sempre esses padrões da posição de amar vão se dar dessa forma fechada, ou seja, as mulheres amarem a partir dessa via feminina (narcísica) e os homens amarem a partir da via masculina (objetal), por mais que Freud (2010) reafirme essa propensão. Apesar de existir toda uma sociedade que constrói a figura da mulher atrelada a uma construção do que é feminino e a empurra para a feminilidade, mulheres não se reduzem a isso, sendo da mesma forma com os homens. Fico pensando também que essas posições de amar, podem estar presentes nas formas mais variadas de expressar a sexualidade, não estando contida somente na expressão da sexualidade de forma heteronormativa.
Mas de acordo com essa propensão, Freud (1914, citado por LATEREU, 2021, p. 127) diz: “Sua necessidade não se acha na direção de amar, mas de serem amadas; e o homem que preencher essa condição cairá em suas boas graças.” Para Lutereau (2018) o que Freud está dizendo é que a partir dessa posição feminina de amar (narcísica), as mulheres vão amar, em si, o amor do homem, e esse amor é o que causa o sentimento de se sentir amada. No amor narcísico a gente ama o amor que o outro tem por nós.
Segundo Freud (2010) no modo narcísico de amar, o que se ama é a nossa imagem idealizada diante do olhar do outro, o que significa dizer que no amor narcísico eu amo no outro aquilo que eu fui, aquilo que eu sou, aquilo que eu gostaria de ser ou aquilo que já fez parte de mim algum dia.
Já de acordo com a posição masculina (objetal), à qual, segundo Freud (2010), os homens estão mais propensos, o que se ama é a relação que o(a) amado(a) tem com o seu narcisismo primário, que parece não ter sido abandonado.
No amor narcísico, a gente dependeria do amor do outro para se sustentar enquanto imagem completa. No amor objetal, a gente idealizaria a relação que o outro tem com o seu narcisismo.
Você pode se perguntar, mas qual seria o motivo para amar o narcisismo do outro? Para Freud (2010) o narcisismo de uma pessoa tem grande fascínio para aquelas que desistiram do seu próprio narcisismo e estão em busca do amor objetal. Ele até usa o exemplo de um bebê que exerce uma forte atração sob nós. Onde Suy coloca bem em seu livro “A criança do alto do seu narcisismo primário, não terá medo e vergonha de nada. Daí a sedução que ela exerce sobre as outras pessoas. É o tempo de fofura máster de uma criança, que se sente potente, como se nada tivesse a perder. Inclusive é um perigo. Uma fase onde os adultos precisam estar de olho na criança o tempo todo, que “não tem noção do perigo.” (SUY, 2022, p.32).
Seguindo a propensão que Freud reafirma, isso me leva a pensar que os homens só abandonariam o seu narcisismo e amariam através da posição masculina (objetal) porque socialmente é lhe dado condições para isso, para se tornar um sujeito, como diz Belotti (1983, citada por ZANELLO, 2018, p. 117) “há dois caminhos distintos para o menino e a menina. Dele, espera-se que se torne um indivíduo, que será considerado por aquilo que há de ser. Da menina, se espera que se torne um objeto, e será considerada por aquilo que irá dar”. E isso não é o mesmo que dizer que os homens não possuem traços narcisistas.
Nesse sentido as mulheres ocupam essa posição feminina (narcísica) que me parece uma posição infantilizada, como Freud mesmo utiliza o exemplo do bebê. Sempre preocupada com o que o estão achando, pensando e sentindo sob ela porque tem receio de perder o amor desse outro e infelizmente por consequência perder o amor por si próprias, se perderem o amor do outro.
O narcisismo tem um efeito outro para as mulheres, porque os homens, principalmente brancos e heterossexuais, vêm de uma história de validação da sua própria existência, “eu existo, eu sou amado, eu sou assim, eu correspondo de fato ao ideal do outro, eu inclusive sou o próprio ideal”. Quando o que eu sou, corresponde ao que foi imposto como ideal, é muito mais fácil eu ser quem sou e eu me amar.
Essa dita propensão nas posições de amar, afirmada por Freud, se dá por fatores culturais, sociais, históricos, que influenciam e demarcam de forma binária os papéis de gênero entre mulheres e homens, que ocupam papéis e modos de ser distintos na sociedade.
Segundo Zanello (2018), a posição objetal de amar – que é mais comum nos homens, segundo Freud (2010) – trata-se de escolher alguém que cuida ou protege como uma mãe ou como um pai, o sujeito ama quem cuida dele. Os homens se beneficiam do cuidado e da doação que as mulheres são obrigadas a performar. Sua escolha é baseada nesse “recebimento. Já para a mulher, a posição é narcísica, pois é identitária. Ela é necessária para o funcionamento psíquico devido aos processos de subjetivação pelos quais as mulheres são submetidas pela nossa cultura e sociedade. Elas se subjetivam, de forma gendrada, em uma carência a ser.
Segundo Zanello (2018) quando Freud aponta, que as mulheres buscam antes de mais nada serem amadas, se constitui em uma afirmação correta, porém as explicações para tal fenômeno dadas por ele, são insuficientes. Para Zanello (2018) tornar-se mulher, em nossa cultura é marcado, em primeira instancia, em uma falta a ser, no qual ser escolhida por um homem se torna um fator identitário, semelhante ao ser validada como “mulher” e a partir disso tornar-se passível de ser amada e só assim se amar.
Em um tempo não tão distante assim, as mulheres precisavam ser amadas por um homem para poderem existir. Precisavam se casar e maternar, porque era principalmente isso que esperavam delas. Precisavam de um homem para estudar, para votar, para trabalhar, isso quando essas possibilidades aconteciam. Ao longo do tempo, as conquistas feministas mudaram muitas condições em que as mulheres foram colocadas, permitindo que em certa medida possam hoje questionar a função e a importância do lugar do relacionamento afetivosexual e da maternidade em suas vidas. Mas mesmo que os avanços continuem a acontecer, ainda sofremos com os efeitos desses tempos.
Para Freud (2010), o amor dos pais pelo(a) filho(a) é narcísico e objetal ao mesmo tempo: narcísico porque o(a) filho(a) é parte deles e eles vão se identificar com a criança, e objetal porque a criança também desenvolve uma relação com o seu próprio narcisismo, que vai lembrar os pais do narcisismo deles mesmos.
Retomando a questão do narcisismo para Freud e Lowen, a meu ver, Freud direciona a questão do narcisismo mais a criança, por considerar que faz parte do desenvolvimento de todo e qualquer ser humano. Já Lowen direciona o narcisismo mais a uma questão parental por acreditar que o narcisismo emerge do conflito entre pais e filhos, onde os pais não consideram a criança enquanto um indivíduo diferente e usam do poder, da força física, da humilhação e também do afeto para manipular a criança a se tornar o que eles têm como ideal.
Pelo que fomos podendo compreender ao longo do que foi escrito aqui, o bebê precisa ter suas necessidades satisfeitas e o amor de outra pessoa para poder viver. É uma questão de sobrevivência. Desse modo, até certo ponto do desenvolvimento infantil ele considera que os pais existem apenas para satisfazer suas necessidades. Já os pais, com suas feridas narcísicas, passam a projetar na criança esse mesmo “olhar” que o bebê tem para com eles, ou seja, que a criança está ali para satisfazer suas necessidades enquanto pais. E quando se trata dessa relação pais-bebê, isso é verdadeiro até certo ponto do desenvolvimento infantil, porque se trata de uma questão de vida ou morte. Mas quando se trata da relação criança-pais, a criança não pode ocupar esse lugar exclusivo de satisfazer aos ideais dos pais porque não se trata desse lugar tão primário.
Por mais que nessas fases primárias a criança precisará que os pais satisfação suas necessidades para que o seu desenvolvimento ocorra, isso não acontece de forma completa, porque os pais são humanos e vão falhar em alguns pontos e além da própria humanidade, existe todo um contexto social e cultural que não favorece todo o cuidado que um bebê precisa, como falta de políticas públicas que possam amparar essa família nesse momento, falta de rede de apoio, creches de qualidade, precisar voltar o quanto antes para o trabalho por receio de ser demitida, enfim, são extensos os fatores que se relacionam com isso.
Se isso não acontece e, por meio da humilhação, da manipulação e do poder, a criança inverte a posição com a(s) figura(s) parental(ais), passando a agir para atender a demanda desta(s) figura(s), pode se ter a origem da ferida narcísica e de traços narcisistas, segundo Lowen (2017).
Até onde sei, Freud não analisa essa possível conduta dos pais que Lowen descreve. Ele e Suy como foi colocado ao longo do texto falam mais sobre como é importante tanto para os pais quanto para a criança à medida que ela cresce perderem essa imagem idealizada mútua e também esse lugar de que sua satisfação total deve vir dos pais, e de que a satisfação dos pais deve vir da criança. Dessa forma, ocorre a transição do narcisismo primário para o secundário e um sentimento de amor mais próximo da realidade, assim os pais reconhecem seus(suas) filhos(as) enquanto indivíduos e os(as) filhos(as) também reconhecem seus pais dessa maneira.
Quando se trata de outras formas de se relacionar é importante que isso também ocorra, que cada um possa se satisfazer na relação, mas que não se espere uma satisfação total vinda um do outro e que seja possível considerar a individualidade, a diferença, o espaço, e que cada um possa se ocupar também da própria vida e dos próprios desejos.
Em relação aos autores Freud e Lowen, assim como à Psicanálise e à Análise Bioenergética, a intensão do que foi escrito não é de trazer uma posição a respeito sobre qual visão é a “certa” e qual é a “errada”; o sentido é poder mostrar de forma sucinta o que esses dois autores e essas duas abordagens produziram a respeito do tema do narcisismo. Chegando realmente ao final do texto consigo perceber que as visões dos dois autores se complementam e não se excluem.
Bom, penso que até aqui o que foi proposto enquanto objetivo desse trabalho foi cumprido. Essa discussão é ampla e muito complexa e não se encerra por aqui, e o intuito foi poder ampliar a relação entre amor e narcisismo, que por aqui abordei através de três pontos: ferida narcísica, posições masculina e feminina de amar, e questões de gênero mais contemporâneas.
Referências
HILTON, R. Narcisismo e resistência do terapeuta em trabalhar com o corpo. In Volpi, J. H.; Volpi, S. M. (Org). Apostila do curso de Especialização em Psicologia Corporal. Módulo 4, Unidade 4. Curitiba: Centro Reichiano, 2023. Acesso em 24/02/2023.
LOWEN, A. Narcisismo. A negação do verdadeiro self. São Paulo: Summus, 2017.
LUTEREAU, L. Narcisismo, Amor e Gênero. Goiânia: Ares, 2021.
REICH, W. Análise do Caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
SUY, A. A gente mira no amor e acerta na solidão. São Paulo: Planeta do Brasil, 2022.
ZANELLO, V. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Curitiba: Appris, 2018.
Sobre o(s) autor(es)
Camila A. Gontijo
Psicóloga (CRP-09/13433) formada pela PUC-GO e instrutora de Yoga pela Unipaz-GO. Atua enquanto psicóloga clínica pela perspectiva da psicologia corporal, sendo Reich e Lowen os autores que lhe dão mais suporte teórico para atender adolescentes e adultos. Também atua na condução de grupos de movimento.
Sandra Mara Dall’Igna Volpi
Psicóloga (CRP-08/5348) (PUC-PR), Analista Bioenergética (CBT) e Supervisora em Análise Bioenergética (IABSP). Especialista em Psicoterapia Infantil (UTP). Psicopedagoga (CEP-Curitiba). Mestre em Tecnologia (UTFPR). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo) (IBRATE). Diretora do Centro Reichiano, Curitiba/PR. E-mail: sandra@centroreichiano.com.br