A linguagem do corpo na transferência como matéria-prima na clínica reichiana
The language of the body in transference as raw material in Reichian clinic
Resumo
Palavras-chave: Linguagem corporal. Reich. resistência de caráter. terapia corporal reichiana. transferência.
Abstract
Keywords: Body language. Reich. character resistance. Reichian body therapy. transference.
Wilhelm Reich foi um cientista multifacetado que foi pioneiro em trazer o paradigma da interconexão entre corpo e psiquismo para o ocidente.
Somos a soma do ontem e do hoje e o que fazemos com isso ditará o nosso amanhã. O corpo guarda, da fecundação ao agora, a carga genética e os estímulos que recebemos (como recebemos e como reagimos à eles). Sensações, sentimentos, acolhimento, abandono, alimentos, movimentos, liberdade, opressão, encontros e desencontros, família, amigos e “inimigos”… A vida é um mosaico de acontecimentos e cada ser é único. E é nele, no corpo, onde toda alquimia acontece.
O corpo é um ato falho constante e ininterrupto, algumas vezes livre, mas na maioria das vezes, cheio de amarras — nossas resistências. E foi isso que Reich percebeu: o potencial terapêutico do corpo, o qual “verbaliza” dramaticamente as emoções.
Sendo assim, foi além da psicanálise, sua primeira proposta clínica, sem negá-la, mas indo além. Reich trouxe o corpo para a cena, para o setting, como o protagonista que aqui interpreta a própria vida, não atuando na ficção, mas sim na expressão da vida real.
O corpo na clínica reichiana é um tema redundante em si, pois o corpo só veio a ter seu lugar na clínica por Wilhelm Reich. Foi Reich que percebeu que o corpo traz, de forma livre, tudo e todo o ser humano que o habita. Dessa forma, após sua saída do círculo psicanalítico, Reich coloca paciente e terapeuta frente a frente, ou seja, colocou o humano de frente a outro humano, inaugurando assim a técnica de Análise do Caráter.
Segundo Reich (1975, p.255), “toda rigidez muscular contém a história e o significado de sua origem.”
O corpo revela, fidedignamente, tudo, simplesmente tudo; se goza da liberdade de uma vida saudável, autorregulada ou não. O terapeuta, ao perceber o corpo do paciente com a devida atenção, ou seja, analiticamente, pode ler, nas entrelinhas, a história ali contada.
Somos seres que habitamos um corpo, nossa morada. Estaremos corpo enquanto pisarmos na face da terra. Sendo assim, este corpo é em si mais que uma condição biológica que busca a todo o momento sua sobrevivência. O corpo é um laboratório onde toda energia, emoção e pensamento se fundem, formando somaticamente reações da cabeça aos pés. Da mesma forma, concomitantemente, a alquimia se revela psiquicamente.
O conceito reichiano de unidade funcional considera a integração psique-soma como derivações de um mesmo impulso da energia vital que ele chamou de orgone. Não são, portanto, separados, como na concepção dualista na cultura ocidental, que separa o corpo da mente. Podemos dizer que Reich inaugura um novo paradigma:
“As couraças de caráter eram vistas agora como funcionalmente equivalentes à hipertonia muscular. O conceito de ‘identidade funcional’, que tive de introduzir, significa apenas que as atitudes musculares e as atitudes de caráter têm a mesma função no mecanismo psíquico: podem substituir-se e podem influenciar-se mutuamente. Basicamente, não podem separar-se. São equivalentes na sua função.” (REICH, 1975, p.230-231).
Este impulso energético de manifestação somática e psíquica gera uma pulsação no organismo que provoca uma expansão e contração de todo o sistema, podendo esta estar saudável (quando ela se propaga de forma livre) ou não (quando há bloqueios que impedem sua livre circulação). Reich entendeu isso e propôs a busca pela autorregulação como sua meta terapêutica.
Autorregulação é a capacidade que o ser humano tem de se reorganizar, consciente de si, dos seus limites e possibilidades, diante das adversidades naturais da vida. Quanto mais bem autorregulado está o indivíduo, mais o organismo pulsa de maneira plena e natural, e isto se reflete em atitudes e comportamentos mais saudáveis.
Por outro lado, uma inadequação no mecanismo de autorregulação pode levar ao que Reich chamou de processo de encouraçamento. Ele usou o termo “couraças” para descrever os mecanismos de proteção inconscientes que restringem a pulsação vital.
Essas defesas são necessárias para manter a integridade da própria vida, sendo comumente percebidas tanto no campo somático quanto no psíquico.
Portanto, o caráter reflete a forma como o indivíduo opera no corpo e na mente, além de seus padrões habituais de interação com outras pessoas e com o ambiente ao seu redor. De acordo com Reich (1998), o caráter se manifesta de forma dinâmica no comportamento característico de uma pessoa, incluindo seu modo de andar, postura, expressão facial e maneira de falar, sendo moldado por influências externas como proibições, inibições pulsionais e diversas formas de identificação.
A transferência como recurso de diagnóstico na clínica reichiana
Pronto, o corpo então foi colocado no setting terapêutico, mas não como coadjuvante, e sim como ator principal para tratar do seu posseiro que ali habita.
O objetivo terapêutico é ajudar o paciente a entender o que lhe impede de caminhar de forma saudável, livre e feliz; o que Reich chamou de uma vida orgástica, genital, autorregulada.
Embora pareça simples, posto que mencionamos que o corpo não mente, bastaria olhar o paciente de forma atenta e crítica e ler, escutar e sentir o que ele revela. Mas não, não é tão simples assim. O ser humano não se entrega tão facilmente ao outro, mesmo que este outro (terapeuta) esteja ali pronto e preparado para isto.
Diante da complexidade deste encontro, temos que iniciar nossas reflexões sobre as entrelinhas deste momento mais especificamente. Sendo assim, buscaremos entender o potencial da linguagem do corpo na transferência, incluindo sua importância na prática clínica reichiana. Para tanto, é preciso entender a relação terapeuta-paciente, o conceito de transferência e a resistência na transferência, para então conseguirmos usar a linguagem do corpo como matéria-prima na clínica reichiana.
A relação terapeuta-paciente se caracteriza pelo processo de interação entre os indivíduos que firmaram um acordo, visando um objetivo previamente esclarecido. Cada processo é único, pois cada indivíduo é único e está em constante transformação a todo o momento.
À medida que o encontro terapêutico é uma relação homem-homem, quando a simples presença de um altera o comportamento do outro, podemos definir a relação terapeuta-paciente como sendo um encontro que busca reabilitar o homem, quando assim o desejar, primeiro para si, antes que para a sociedade… […] Portanto, falar da relação terapeuta-paciente é estar disposto a falar de nossa visão de mundo, pois homem é aquele que avalia e cria o mundo para percebê-lo (JORGE, R. C, 1999, p. 9, 2).
Na psicanálise, o conceito de transferência é definido pelo processo pelo qual os desejos inconscientes se manifestam na realidade presente sobre determinados objetos, numa relação estabelecida entre eles no quadro analítico. Logo, pode ser considerada como um fenômeno que ocorre na relação terapeuta-paciente, no qual o desejo do paciente irá se apresentar atualizado, com uma repetição inconsciente dos modelos infantis.
Freud inicialmente considerava a transferência um obstáculo para o tratamento, mas mais tarde a reconheceu como parte essencial do processo terapêutico. “Toda neurose se deve ao conflito entre demandas ‘instintivas’— principalmente demandas sexuais infantis — e as forças repressivas do ego. Como essas demandas buscam satisfação, procuram um objeto: daí a transferência. (VOLPI, 2022b, p.82).
Wagner (2003) relata que a consequência prática das investigações deste fenômeno foi a de perceber “o quanto a cura psicanalítica dependia da cura da transferência”. Assim, a transferência pode ser entendida como uma manifestação inevitável da neurose, capaz de disponibilizar o material psíquico inconsciente ao tratamento. Por este motivo, ela é essencial no processo terapêutico.
Na clínica reichiana, a transferência é considerada um elemento central no processo psicoterapêutico, pois integra o trabalho corporal à Análise do Caráter. Segundo Wagner (2003), o trabalho corporal pode favorecer o processo analítico ao analisar a transferência, já que esta é carregada de excitações somáticas provocadas pela movimentação corporal na situação terapêutica. Assim, fica mais fácil trazer à consciência as representações mentais do paciente.
Além disso, a terapia reichiana se desenvolve a partir da relação terapeuta-paciente, utilizando-se de referências psicodinâmicas. Reich propôs a análise da transferência (e das resistências) como um caminho mais eficaz no processo da psicoterapia.
Aspectos da transferência e contratransferência são considerados matéria-prima na terapia, portanto, seu manejo se torna imprescindível para o sucesso do tratamento. Levam-se em consideração as resistências, recursos e estilo comportamental, tanto do paciente quanto do terapeuta.
A resistência é um mecanismo de defesa que o paciente apresenta, manifestando-se de várias formas, como negação, reclamações, desculpas, silêncio, desconfiança, oposição, arrogância, teimosia, restrições, faltas, atrasos, desvios de conteúdo, apatia, etc. Quando as atitudes do paciente não são tão claras e evidentes, elas podem se manifestar de forma indireta, o que Reich chamou de “resistência latente”:
Docilidade excepcional ou ausência completa de resistências manifestas são indicativos de uma resistência passiva escondida e, por isso, muito mais perigosa. Trato de atacar tais resistências latentes assim que as distingo, e não hesito em interromper o fluxo de informações quando aprendi tudo o que é necessário para compreendê-las. Porque a experiência ensina que se perde o efeito terapêutico das comunicações analíticas enquanto há resistências não dissolvidas. (REICH, 1998, p.41).
Geralmente, a resistência oculta, de maneira inconsciente, um sentimento negativo ou desagradável do passado. Na terapia corporal, a resistência também se manifesta de diversas maneiras, frequentemente mascarando uma transferência subjacente. Em muitas situações, resistência e transferência ocorrem simultaneamente. Volpi (2022b) aconselha que estejamos atentos aos fenômenos da resistência, da transferência, assim como da contratransferência em todo o processo terapêutico.
Portanto, é crucial que o terapeuta saiba ler os medos do paciente, acolher suas angústias e resistências, revelando assim, às escondidas, o seu caráter. Gradualmente, constrói-se uma relação de segurança em uma atmosfera de calor, facilitando a quebra das resistências. Consequentemente, cria-se um ambiente favorável para que a transferência seja positiva, condição sine qua non para o sucesso do tratamento.
Contudo, é essencial considerar a interação entre os traços de caráter do paciente e do terapeuta, já que o campo transferencial envolve ambos os participantes e é um fator essencial na dinâmica do processo terapêutico. Cada interação possui uma dinâmica específica que deve ser compreendida pelo terapeuta para alcançar os resultados almejados na clínica.
A exploração da transferência através da linguagem corporal
O corpo reflete quem somos, incluindo tudo, até mesmo aquilo que ainda não sabemos ou temos dificuldade para expressar: nossas resistências. É preciso, portanto, escutar com os olhos o que o paciente fala com o corpo.
O corpo é, em si, a melhor linguagem de expressão do ser humano. Wilhelm Reich incluiu a expressão física na análise, onde mais do que o conteúdo verbal, a forma como este conteúdo é expressado se torna primordial. Ao propor a Análise do Caráter, Reich trouxe a parte do corpo que faltava além da mente: o tronco, o quadril, os membros e o pescoço, este último sendo o elo da integralidade. Assim, completa-se a via de acesso à bioenergia, que está frequentemente bloqueada pelas couraças.
No caso da transferência, propomos aqui uma leitura corporal integral que inclua os gestos, a energia, o comportamento, a forma caracterológica do corpo, o conteúdo verbal e a maneira como todos são expressos.
Entre vários exemplos, podemos citar uma resistência quando o paciente começa a atrasar ou justificar sua falta em cima da hora. Ou então, o paciente chega sempre adiantado, batendo na porta, mesmo sabendo que seus horários são definidos. Também podemos identificar pacientes transferidos que começam a se arrumar demais para a sessão, como se estivessem indo a um evento; ou excessivamente cordatos e pacatos, concordando com tudo que o terapeuta fala. Gestos como cruzar os braços ao falar de uma questão podem representar uma resistência. Pegamos alguns pacientes em atos falhos corporais, quando a expressão corporal é antagônica à verbal. Pacientes que insistem em criar uma relação mais estreita com o terapeuta, abraçando-o e criando diálogos numa tentativa de evitar conteúdos mais profundos, imprescindíveis para o tratamento. Percebemos também pacientes com posturas arrogantes (hiper-orgonóticas), que se julgam excessivamente importantes, acima do terapeuta, querendo menosprezá-lo, não se entregando de fato ao processo. Em outros casos, não acreditam em si, demonstram uma postura hipo-orgonótica, mas na verdade querem mesmo é a aprovação constante do terapeuta, reeditando sua relação infantil com os pais. Também encontramos pacientes poliqueixosos que fogem do ponto central e aqueles que insistem em dizer que não acreditam em terapia, pois já tentaram várias abordagens e nada deu certo, porém continuam no processo.
Reich, mesmo antes de tocar no corpo do paciente, já observava atentamente suas atitudes corporais durante o tratamento. Wagner (2003) levanta a questão de se a interpretação de uma postura corporal por parte do analista já constituiria uma abordagem corporal. Ele ressalta que a abordagem corporal reichiana não se limita a uma série de manobras e intervenções predeterminadas no corpo biológico do paciente. O autor ainda enfatiza que a unidade funcional soma-psique se manifesta nas atitudes caracteriais, na couraça muscular, nas roupas, no estilo de vida, e assim por diante.
Este autor diz:
(…) a proposta reichiana de incorporar ao quê (o conteúdo do discurso do paciente) e o como (forma com o qual o paciente se expressa) pode ampliar o campo interpretativo da análise, tornando-a mais rica, mais abrangente, mais profunda. (…) todo analista que assinala (descreve, interpreta) o como seu paciente se expressa – movimentos corporais, expressões faciais, alteração do tom de voz, etc. – está, quer reconheça isto quer não, realizando uma leitura e uma intervenção corporal (WAGNER, 2003, p.83-84).
Conclusão
Reconhecemos a importância da compreensão da linguagem do corpo na transferência para uma abordagem terapêutica eficaz na clínica reichiana. A transferência, quando bem compreendida e trabalhada, pode revelar valiosas informações sobre os processos internos do paciente, facilitando a identificação e o desbloqueio de resistências de caráter.
Ao explorar esses caminhos, poderemos expandir nosso conhecimento sobre a terapia reichiana e aprimorar as práticas clínicas, beneficiando tanto terapeutas quanto pacientes. A compreensão aprofundada da linguagem do corpo na transferência e na resistência de caráter continuará a ser uma área essencial para a evolução da psicoterapia reichiana, contribuindo para uma abordagem eficaz na clínica.
Enfim, a leitura corporal em situações de transferência e resistência deve ser realizada no processo terapêutico, sendo matéria-prima essencial na clínica reichiana. Portanto, é nosso dever incorporá-la na análise reichiana, pois fará uma diferença considerável no processo terapêutico.
Para finalizar: “as palavras omitem e mentem; o corpo não”! (REICH APUD VOLPI, 2022a).
Referências
JORGE, R.C. Relação Terapeuta Paciente: Notas Introdutórias. Belo Horizonte: GES.TO, 1999.
REICH, W. Análise do Caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
REICH, W. Análise do Caráter. São Paulo: Martins Fontes, 2004. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. (Org.) Leitura Corporal do Caráter. Apostila do curso de Especialização em Psicologia Corporal. Módulo 1, Unidade 4. Curitiba: Centro Reichiano, 2022a.
REICH, W. A Função do Orgasmo. Traduzido do alemão por Maria da Glória Novak. São Paulo: Editora Brasiliense, 1975.
VOLPI, José Henrique. Resistência, Transferência e Contratransferência em Psicoterapia Corporal. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. (Org.) Apostila do curso de Especialização em Psicologia Corporal. Módulo 1, Unidade 1. Curitiba: Centro Reichiano, 2022b.
WAGNER, Cláudio Mello. A Transferência na Clínica Reichiana. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.
Sobre o(s) autor(es)
Flavio Lucio Assis Moreira
Terapeuta Ocupacional (CREFITO 4/4180 TO), Especialista em Ergonomia Aplicada à Saúde do Trabalhador (PUC-IEC/MG), com formação em Psicoterapia Ocupacional (GES.TO) e Massoterapia Clínica. Possui cursos em Princípios da Psicoterapia Corporal com Leonardo Libanio Christo, Terapia Corporal Reichiana (ITHER) e Massagem Reichiana (Centro Reichiano). Cursando Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuação como Terapeuta/Analista Corporal de abordagem Reichiana e Bioenergética pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR. flaviolucioam@yahoo.com.br
Claudia Luciana Barbosa Veloso
Graduada em Educação Física (CREF 007910-G), Pós-Graduada em Gestão de Pessoas pela FDC. Certificada pelo Método AYAMA. Possui cursos em Terapia Corporal Reichiana (ITHER) e Análise Bioenergética (Unyleya). claudinhaveloso79@gmail.com
José Henrique Volpi
Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psico-corporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. E-mail: volpi@centroreichiano.com.br