A dança da gueixa e do guerreiro
A busca pelo equilíbrio das polaridades através do movimento e universo arquetípico
The dance of the geisha and the warrior
The search for balance between polarities through movement and the archetypal universe
Resumo
Palavras-chave: Arquétipos; Dança; Equilíbrio; Movimento; Polaridades.
Abstract
Keywords: Archetypes; Dance; Balance; Movement; Polarities.
A repressão e o controle mantidos pelo capitalismo e o patriarcado são citados constantemente no trabalho de Wilhelm Reich como as principais causas da neurose e encouraçamento humano. O crescimento de um pensamento moralista e materialista nos levou a práticas destrutivas ao planeta e negação da existência da natureza em nós mesmos.
Segundo ele, “os seres humanos adotaram uma atitude hostil para o que é vivo dentro deles e, assim alienaram-se de si próprios. Essa alienação não é de origem biológica, mas sim de origem econômica” (REICH, 1971, p. 43).
Simbolicamente poderíamos atribuir esses acontecimentos a um adoecimento e desequilíbrio do que seria de origem dos aspectos masculinos na organização da sociedade, que atua diretamente sobre os corpos e subjetividades dos indivíduos. Como consequência, o que é de ordem dos aspectos femininos da psique passa a ser reprimido e rejeitado de maneira coletiva. Sendo assim, o reconhecimento do princípio feminino não só é de suma importância, mas apresenta-se como recurso para restabelecer o equilíbrio humano e ambiental.
Reconciliar-se com o nosso feminino é nos reconciliar com as nossas emoções. E com a expressão de nossas emoções. Com a expressão amorosa e com a expressão de nossa dor. Porque assim nosso corpo pode liberar a negatividade que ficou nele (LELOUP, 2013, p. 148).
Na tradição taoísta chinesa o Yin (feminino) representa o caos e o Yang (masculino) a ordem. Ambos os princípios da criação no universo possuem o mesmo grau de importância e juntos formam o “Ki” ou “Chi”, o que na tradição compreende-se como energia cósmica vital.
Entende-se que as polaridades regem o equilíbrio universal: corpo e espírito, consciente e inconsciente, interior e exterior, galhos e raízes, direita e esquerda etc.
Segundo este conhecimento, no corpo humano, o inconsciente e interior é aspecto Yin, funciona automaticamente e está atrelado ao sistema nervoso neurovegetativo, enquanto o Yang intermedia a relação com o mundo externo através dos cinco sentidos, dos órgãos de locomoção e dos órgãos transformadores.
O símbolo escolhido para representar o equilíbrio dos polos é um círculo dividido em duas metades iguais, o Yin ilustrado pela cor preta e o Yang pela branca. No meio da metade preta há um pequeno círculo branco e na branca um pequeno círculo preto. “Significa que todo caos contém em si o potencial de uma nova ordem, e toda ordem o potencial de um novo caos” (PELLEGRINI, 1993, p. 12).
Os arquétipos do feminino e masculino foram vastamente representados no universo simbólico. Na maioria das mitologias o feminino é associado à lua, à noite, à terra, à fertilidade, ao fluido, ao úmido, ao escuro, ao mistério, ao caos, ao inconsciente, à intuição e ao campo emocional. A autora Raissa Cavalcanti o descreve como intimamente ligado com a natureza e disponível para o encontro e relacionamento com o outro.
O masculino é conectado ao sol, ao dia, ao céu, à ordem, ao fálico, ao claro, à razão, à precisão, ao consciente, ao previsível, à sabedoria racional, ao social e civilizado. “A criatividade solar masculina se dirige sempre a um objetivo definido. Não há flexibilidade e maleabilidade quando a direção já foi determinada” (CAVALCANTI, 1993, p. 24).
Opostos e complementares, em termos sociais, físicos e psíquicos, precisam existir em harmonia para que possam estabelecer o equilíbrio e saúde integral em todos os seres.
O conceito das polaridades pode parecer abstrato quando o absorvemos somente em sua teoria, por isso a proposta deste artigo é explorar possibilidades práticas para que possamos compreender como essas duas energias podem agir em nosso corpo durante uma vivência que chamo de “A Dança da Gueixa e do Guerreiro”.
O objetivo deste trabalho é propor maneiras de materializar esses aspectos conscientemente, através da movimentação corporal dos participantes, que deverão ora reproduzir um movimento pré-estabelecido, ora criar o seu próprio movimento intuitivamente, buscando sempre o apoio em uma intenção poética e terapêutica, e nunca executar de maneira mecânica. A experiência com o feminino tem o intuito de gerar conexão com as emoções reprimidas e o mundo interior. O trabalho com o aspecto masculino possibilita o aprofundamento da capacidade do participante de se impor perante o mundo externo e o empenho para com a realização dos seus objetivos.
A prática aqui proposta é fundamentada no que Mary Starks Whitehouse chamou de “I am moved” e “I move”. O primeiro é o que conhecemos como movimento espontâneo, que nasce de um impulso interno e possui carga emocional. A sensação é como se o corpo estivesse sendo movido por algo. O segundo parte de uma decisão para ação e há controle do ego em sua manifestação.
A aplicação é feita a partir da dança, que foi escolhida pela sua qualidade como ferramenta artística, simbólica e terapêutica. O propósito é facilitar o acesso a conteúdos do inconsciente por meio de um processo que Carl G. Jung denominou “imaginação ativa”, o que também possibilita o desenvolvimento de novas perspectivas e a produção de emoções positivas.
Através da criação de um espaço seguro e orientações atreladas ao propósito da vivência, o participante será incentivado por meio da experiência a silenciar por alguns instantes a racionalização exacerbada e entregar-se ao movimento e fluidez da sua linguagem corporal e não verbal, para então posteriormente refletir sobre como relacionar o que foi revelado por seu corpo com a sua história e cotidiano.
“…a experiência supõe algo fora de nós que nos acontece e passa a ser nós mesmos, na medida em que nos transforma. Algo exterior que acontece dentro de nós. Larrosa Bondía diz que a experiência é um movimento de ida e volta. De ida porque supõe um movimento de externalização, e de volta porque nos afeta” (CARON, 2021, p. 34).
Segundo a teoria reichiana, é no corpo que está armazenada toda a memória de um indivíduo. Por isso a proposta é que possamos explorá-lo como caminho para expansão da consciência e de alcance a vias de acesso a novas possibilidades de encontro conosco, com o outro e com o mundo.
Para adentrar ao universo arquetípico das polaridades, nos apoiaremos nas figuras da Gueixa e do Guerreiro.
A gueixa
Este arquétipo foi escolhido para representar a polaridade feminina. A gueixa é um personagem da tradição japonesa que atravessa séculos de existência. Suas vidas são separadas da sociedade cotidiana, e suas identidades guardadas atrás da marcante e inconfundível caracterização, o que as envolve de mística, mistério e desperta certa curiosidade. Mulheres treinadas desde a adolescência para a arte de entreter. O termo “geisha” significa literalmente artista, e a profissão se originou por volta da década de 1600, primeiramente representada por homens, que eram músicos e comediantes, também conhecidos como bufões ou tamborileiros.
É contado que a primeira gueixa mulher aparece em meados de 1751, até que em 1780 as gueixas femininas já eram maioria.
Apesar de ainda haver confusão, as atividades das gueixas não envolvem prostituição. É uma vida dedicada ao treinamento e aprendizado das artes que são música, dança e interpretação. “A gueixa se esforça para que a arte a invada de tal forma que tudo o que faça seja decorrente dela, inclusive o modo pelo qual caminha, senta-se e fala.” (DALBY, 1998, p. 294).
Essa característica que muito define esta personagem deverá ser o principal ponto de foco durante o trabalho terapêutico na vivência. A arte cênica e a performance na dança como possibilidade de conexão e expressão do inconsciente.
A arte, como formula Freud, caminha com base no princípio do prazer e não no princípio da realidade. O artista lida com a transgressão, desobstruindo os impedimentos e as interdições que a realidade coloca […] O trabalho do artista de performance é basicamente um trabalho humanista, visando libertar o homem de suas amarras condicionantes. […] a performance resgata as ideias de uma prática da arte pela arte. (COHEN, 2013, p. 45).
O guerreiro
Em diversas civilizações espalhadas pelo mundo, a figura do guerreiro é associada à força, coragem, determinação e ao cultivo de virtudes como a sabedoria e a compaixão. Em muitas tradições orientais é visto como aquele que com maestria sabe equilibrar a mente racional, o corpo físico e o campo emocional. Um arquétipo que pode ser aplicado para inspiração no enfrentamento de medos e limitações, e ancoramento de pensamentos de bravura e confiança.
Importante destacar que o treinamento do guerreiro em variadas culturas envolve atividades físicas, práticas espirituais e de autoconhecimento. Sobre o xintoísmo, filosofia que influenciou o bushido (código de ética dos samurais no Japão), o autor Inazo Nitobe descreve:
Todo mundo observou que os altares xintós são visivelmente desprovidos de objetos e instrumentos de adoração, e que um espelho comum pairando no santuário forma a parte essencial de seu mobiliário. A presença desse objeto é fácil de ser explicada: tipifica o coração humano que, quando perfeitamente plácido e claro, reflete a própria imagem da Divindade. Dessa forma, quando você fica de pé diante do altar para adorar, você vê sua própria imagem refletida em sua superfície reluzente, e o ato de adorar é equivalente à velha injunção délfica, “Conheça a si próprio.” (NITOBE, 2005, p. 16).
Como ferramentas para incorporação do arquétipo do guerreiro, usaremos a meditação, a execução de movimentos inspirados no tai chi chuan, e em danças de guerra, como o haka do povo Maori da Nova Zelândia, o ram muay, dança realizada pelos lutadores de muay thai na Indonésia e a dança dos guerreiros Xhosa da África do Sul. Essas práticas provêm de conhecimentos ancestrais que despertavam habilidades como a paciência, resiliência, concentração, precisão e agilidade, necessárias para ocupar o cargo de guerreiro em determinadas comunidades. A finalidade na prática é instigar a percepção de emoções e ações diante de adversidades, e literalmente sentir no corpo a experiência de enfrentá-las com consciência e estratégia. Foi comprovado por cientistas do Japão e da Nova Zelândia que uma dança como o haka é capaz de despertar empolgação, provocação e a sensação de dominância motivacional.
É através do encontro consigo e com o outro, em uma experiência de incorporar arquétipos conscientemente, que este trabalho convida à possibilidade do equilíbrio das polaridades e a descoberta de formas saudáveis de lidar com questões existenciais.
É na prática e individualmente que poderemos compreender como esses símbolos podem nos ajudar, com sua sensibilidade e determinação, a nos conhecer profundamente, a transformar padrões de sofrimento e desenvolver firmeza para alcançar nossos objetivos.
Referências
CAVALCANTI, R. O casamento do sol com a lua: uma visão simbólica do masculino e do feminino. São Paulo: Cultrix, 1993.
CARON, M. Corpo transborda: educação somática, consciência corporal e expressividade. São Paulo: Summus, 2021.
COHEN, R. Performance como linguagem. São Paulo: Perspectiva, 2013.
DALBY, L. Gueixa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.
LELOUP, J. Caminhos da realização: dos medos do eu ao mergulho no ser. Petrópolis: Vozes, 2013.
LOVATT, P. O poder da dança: a ciência e arte de se tornar mais forte, mais esperto e mais feliz. Rio de Janeiro: Agir, 2023.
MARKERT, C. Yin yang: polaridade e harmonia em nossa vida. São Paulo: Círculo do Livro, 1983.
NITOBE, I. Bushido: alma de samurai. São Paulo: Tahyu, 2005.
RYCROFT, C. As ideias de Reich. São Paulo: Cultrix, 1971.
FARAH, M. H. S. A imaginação ativa junguiana na dança de Whitehouse: noções de corpo e movimento. Psicologia USP, [S. l.], v. 27, n. 3, p. 542-552, 2016. DOI: 10.1590/0103-656420150121. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/psicousp/article/view/133136. Acesso em: 20 abr. 2023.
Sobre o(s) autor(es)
Monique Ramos da Silva
Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psicocorporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento.