Centro Reichiano
Psicologia Corporal
📄 Anais dos Congressos de Psicoterapias Corporais
Trabalho publicado nos Anais

A dança da gueixa e do guerreiro

A busca pelo equilíbrio das polaridades através do movimento e universo arquetípico

The dance of the geisha and the warrior

The search for balance between polarities through movement and the archetypal universe

Monique Ramos da Silva Centro Reichiano · São Paulo-SP · Brasil monique.ramosds@gmail.com
José Henrique Volpi Centro Reichiano · Curitiba-PR · Brasil volpi@centroreichiano.com.br
Anais do Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporaisº
ISBN 26 · Edição Bacharel em Comunicação Social - Cinema pela Universidade Anhembi Morumbi. Cursando Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Terapeuta Corporal Reichiana e/ou Bioenergética, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR.

Resumo

Com o uso de ferramentas artísticas e terapêuticas corporais podemos acessar camadas mais profundas da nossa subjetividade e permitir a externalização de emoções reprimidas e inconscientes. Na nossa sociedade, o feminino clama por reconhecimento e o masculino por equilíbrio. Este trabalho fundamenta teoricamente uma possibilidade prática de incorporação dos arquétipos da Gueixa e do Guerreiro, buscando aflorar de maneira saudável as características e potencialidades de cada polaridade e encontrar maneiras de absorver os aprendizados da experiência no cotidiano para um crescimento pessoal e uma existência plena daquele que a vivenciar.

Palavras-chave: Arquétipos; Dança; Equilíbrio; Movimento; Polaridades.

Abstract

Through the use of artistic and body-therapeutic tools, it is possible to access deeper layers of subjectivity and allow the externalization of repressed and unconscious emotions. In our society, the feminine calls for recognition and the masculine for balance. This work theoretically supports a practical possibility of incorporating the archetypes of the Geisha and the Warrior, seeking to healthily bring forth the characteristics and potentialities of each polarity and to find ways of integrating the lessons learned from the experience into daily life for personal growth and a fuller existence.

Keywords: Archetypes; Dance; Balance; Movement; Polarities.

A repressão e o controle mantidos pelo capitalismo e o patriarcado são citados constantemente no trabalho de Wilhelm Reich como as principais causas da neurose e encouraçamento humano. O crescimento de um pensamento moralista e materialista nos levou a práticas destrutivas ao planeta e negação da existência da natureza em nós mesmos.

Segundo ele, “os seres humanos adotaram uma atitude hostil para o que é vivo dentro deles e, assim alienaram-se de si próprios. Essa alienação não é de origem biológica, mas sim de origem econômica” (REICH, 1971, p. 43).

Simbolicamente poderíamos atribuir esses acontecimentos a um adoecimento e desequilíbrio do que seria de origem dos aspectos masculinos na organização da sociedade, que atua diretamente sobre os corpos e subjetividades dos indivíduos. Como consequência, o que é de ordem dos aspectos femininos da psique passa a ser reprimido e rejeitado de maneira coletiva. Sendo assim, o reconhecimento do princípio feminino não só é de suma importância, mas apresenta-se como recurso para restabelecer o equilíbrio humano e ambiental.

Reconciliar-se com o nosso feminino é nos reconciliar com as nossas emoções. E com a expressão de nossas emoções. Com a expressão amorosa e com a expressão de nossa dor. Porque assim nosso corpo pode liberar a negatividade que ficou nele (LELOUP, 2013, p. 148).

Na tradição taoísta chinesa o Yin (feminino) representa o caos e o Yang (masculino) a ordem. Ambos os princípios da criação no universo possuem o mesmo grau de importância e juntos formam o “Ki” ou “Chi”, o que na tradição compreende-se como energia cósmica vital.

Entende-se que as polaridades regem o equilíbrio universal: corpo e espírito, consciente e inconsciente, interior e exterior, galhos e raízes, direita e esquerda etc.

Segundo este conhecimento, no corpo humano, o inconsciente e interior é aspecto Yin, funciona automaticamente e está atrelado ao sistema nervoso neurovegetativo, enquanto o Yang intermedia a relação com o mundo externo através dos cinco sentidos, dos órgãos de locomoção e dos órgãos transformadores.

O símbolo escolhido para representar o equilíbrio dos polos é um círculo dividido em duas metades iguais, o Yin ilustrado pela cor preta e o Yang pela branca. No meio da metade preta há um pequeno círculo branco e na branca um pequeno círculo preto. “Significa que todo caos contém em si o potencial de uma nova ordem, e toda ordem o potencial de um novo caos” (PELLEGRINI, 1993, p. 12).

Os arquétipos do feminino e masculino foram vastamente representados no universo simbólico. Na maioria das mitologias o feminino é associado à lua, à noite, à terra, à fertilidade, ao fluido, ao úmido, ao escuro, ao mistério, ao caos, ao inconsciente, à intuição e ao campo emocional. A autora Raissa Cavalcanti o descreve como intimamente ligado com a natureza e disponível para o encontro e relacionamento com o outro.

O masculino é conectado ao sol, ao dia, ao céu, à ordem, ao fálico, ao claro, à razão, à precisão, ao consciente, ao previsível, à sabedoria racional, ao social e civilizado. “A criatividade solar masculina se dirige sempre a um objetivo definido. Não há flexibilidade e maleabilidade quando a direção já foi determinada” (CAVALCANTI, 1993, p. 24).

Opostos e complementares, em termos sociais, físicos e psíquicos, precisam existir em harmonia para que possam estabelecer o equilíbrio e saúde integral em todos os seres.

O conceito das polaridades pode parecer abstrato quando o absorvemos somente em sua teoria, por isso a proposta deste artigo é explorar possibilidades práticas para que possamos compreender como essas duas energias podem agir em nosso corpo durante uma vivência que chamo de “A Dança da Gueixa e do Guerreiro”.

O objetivo deste trabalho é propor maneiras de materializar esses aspectos conscientemente, através da movimentação corporal dos participantes, que deverão ora reproduzir um movimento pré-estabelecido, ora criar o seu próprio movimento intuitivamente, buscando sempre o apoio em uma intenção poética e terapêutica, e nunca executar de maneira mecânica. A experiência com o feminino tem o intuito de gerar conexão com as emoções reprimidas e o mundo interior. O trabalho com o aspecto masculino possibilita o aprofundamento da capacidade do participante de se impor perante o mundo externo e o empenho para com a realização dos seus objetivos.

A prática aqui proposta é fundamentada no que Mary Starks Whitehouse chamou de “I am moved” e “I move”. O primeiro é o que conhecemos como movimento espontâneo, que nasce de um impulso interno e possui carga emocional. A sensação é como se o corpo estivesse sendo movido por algo. O segundo parte de uma decisão para ação e há controle do ego em sua manifestação.

A aplicação é feita a partir da dança, que foi escolhida pela sua qualidade como ferramenta artística, simbólica e terapêutica. O propósito é facilitar o acesso a conteúdos do inconsciente por meio de um processo que Carl G. Jung denominou “imaginação ativa”, o que também possibilita o desenvolvimento de novas perspectivas e a produção de emoções positivas.

Através da criação de um espaço seguro e orientações atreladas ao propósito da vivência, o participante será incentivado por meio da experiência a silenciar por alguns instantes a racionalização exacerbada e entregar-se ao movimento e fluidez da sua linguagem corporal e não verbal, para então posteriormente refletir sobre como relacionar o que foi revelado por seu corpo com a sua história e cotidiano.

“…a experiência supõe algo fora de nós que nos acontece e passa a ser nós mesmos, na medida em que nos transforma. Algo exterior que acontece dentro de nós. Larrosa Bondía diz que a experiência é um movimento de ida e volta. De ida porque supõe um movimento de externalização, e de volta porque nos afeta” (CARON, 2021, p. 34).

Segundo a teoria reichiana, é no corpo que está armazenada toda a memória de um indivíduo. Por isso a proposta é que possamos explorá-lo como caminho para expansão da consciência e de alcance a vias de acesso a novas possibilidades de encontro conosco, com o outro e com o mundo.

Para adentrar ao universo arquetípico das polaridades, nos apoiaremos nas figuras da Gueixa e do Guerreiro.

A gueixa

Este arquétipo foi escolhido para representar a polaridade feminina. A gueixa é um personagem da tradição japonesa que atravessa séculos de existência. Suas vidas são separadas da sociedade cotidiana, e suas identidades guardadas atrás da marcante e inconfundível caracterização, o que as envolve de mística, mistério e desperta certa curiosidade. Mulheres treinadas desde a adolescência para a arte de entreter. O termo “geisha” significa literalmente artista, e a profissão se originou por volta da década de 1600, primeiramente representada por homens, que eram músicos e comediantes, também conhecidos como bufões ou tamborileiros.

É contado que a primeira gueixa mulher aparece em meados de 1751, até que em 1780 as gueixas femininas já eram maioria.

Apesar de ainda haver confusão, as atividades das gueixas não envolvem prostituição. É uma vida dedicada ao treinamento e aprendizado das artes que são música, dança e interpretação. “A gueixa se esforça para que a arte a invada de tal forma que tudo o que faça seja decorrente dela, inclusive o modo pelo qual caminha, senta-se e fala.” (DALBY, 1998, p. 294).

Essa característica que muito define esta personagem deverá ser o principal ponto de foco durante o trabalho terapêutico na vivência. A arte cênica e a performance na dança como possibilidade de conexão e expressão do inconsciente.

A arte, como formula Freud, caminha com base no princípio do prazer e não no princípio da realidade. O artista lida com a transgressão, desobstruindo os impedimentos e as interdições que a realidade coloca […] O trabalho do artista de performance é basicamente um trabalho humanista, visando libertar o homem de suas amarras condicionantes. […] a performance resgata as ideias de uma prática da arte pela arte. (COHEN, 2013, p. 45).

O guerreiro

Em diversas civilizações espalhadas pelo mundo, a figura do guerreiro é associada à força, coragem, determinação e ao cultivo de virtudes como a sabedoria e a compaixão. Em muitas tradições orientais é visto como aquele que com maestria sabe equilibrar a mente racional, o corpo físico e o campo emocional. Um arquétipo que pode ser aplicado para inspiração no enfrentamento de medos e limitações, e ancoramento de pensamentos de bravura e confiança.

Importante destacar que o treinamento do guerreiro em variadas culturas envolve atividades físicas, práticas espirituais e de autoconhecimento. Sobre o xintoísmo, filosofia que influenciou o bushido (código de ética dos samurais no Japão), o autor Inazo Nitobe descreve:

Todo mundo observou que os altares xintós são visivelmente desprovidos de objetos e instrumentos de adoração, e que um espelho comum pairando no santuário forma a parte essencial de seu mobiliário. A presença desse objeto é fácil de ser explicada: tipifica o coração humano que, quando perfeitamente plácido e claro, reflete a própria imagem da Divindade. Dessa forma, quando você fica de pé diante do altar para adorar, você vê sua própria imagem refletida em sua superfície reluzente, e o ato de adorar é equivalente à velha injunção délfica, “Conheça a si próprio.” (NITOBE, 2005, p. 16).

Como ferramentas para incorporação do arquétipo do guerreiro, usaremos a meditação, a execução de movimentos inspirados no tai chi chuan, e em danças de guerra, como o haka do povo Maori da Nova Zelândia, o ram muay, dança realizada pelos lutadores de muay thai na Indonésia e a dança dos guerreiros Xhosa da África do Sul. Essas práticas provêm de conhecimentos ancestrais que despertavam habilidades como a paciência, resiliência, concentração, precisão e agilidade, necessárias para ocupar o cargo de guerreiro em determinadas comunidades. A finalidade na prática é instigar a percepção de emoções e ações diante de adversidades, e literalmente sentir no corpo a experiência de enfrentá-las com consciência e estratégia. Foi comprovado por cientistas do Japão e da Nova Zelândia que uma dança como o haka é capaz de despertar empolgação, provocação e a sensação de dominância motivacional.

É através do encontro consigo e com o outro, em uma experiência de incorporar arquétipos conscientemente, que este trabalho convida à possibilidade do equilíbrio das polaridades e a descoberta de formas saudáveis de lidar com questões existenciais.

É na prática e individualmente que poderemos compreender como esses símbolos podem nos ajudar, com sua sensibilidade e determinação, a nos conhecer profundamente, a transformar padrões de sofrimento e desenvolver firmeza para alcançar nossos objetivos.

Referências

CAVALCANTI, R. O casamento do sol com a lua: uma visão simbólica do masculino e do feminino. São Paulo: Cultrix, 1993.

CARON, M. Corpo transborda: educação somática, consciência corporal e expressividade. São Paulo: Summus, 2021.

COHEN, R. Performance como linguagem. São Paulo: Perspectiva, 2013.

DALBY, L. Gueixa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

LELOUP, J. Caminhos da realização: dos medos do eu ao mergulho no ser. Petrópolis: Vozes, 2013.

LOVATT, P. O poder da dança: a ciência e arte de se tornar mais forte, mais esperto e mais feliz. Rio de Janeiro: Agir, 2023.

MARKERT, C. Yin yang: polaridade e harmonia em nossa vida. São Paulo: Círculo do Livro, 1983.

NITOBE, I. Bushido: alma de samurai. São Paulo: Tahyu, 2005.

RYCROFT, C. As ideias de Reich. São Paulo: Cultrix, 1971.

FARAH, M. H. S. A imaginação ativa junguiana na dança de Whitehouse: noções de corpo e movimento. Psicologia USP, [S. l.], v. 27, n. 3, p. 542-552, 2016. DOI: 10.1590/0103-656420150121. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/psicousp/article/view/133136. Acesso em: 20 abr. 2023.

Sobre o(s) autor(es)

Monique Ramos da Silva
Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psicocorporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento.

Como citar este trabalho

SILVA, Monique Ramos da; VOLPI, José Henrique. A dança da gueixa e do guerreiro. In: Anais do Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais, Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais, 2023. Curitiba: Centro Reichiano. ISBN 26. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/anais/a-danca-da-gueixa-e-do-guerreiro/. Acesso em: 08/06/2026.