A contribuição da arte no diagnóstico vegetoterápico
Um estudo de caso
The contribution of art in vegetotherapeutic diagnosis
A case study
Resumo
Palavras-chave: Arte Terapia; Diagnóstico; Ícones; Navarro; Reich.
Abstract
Keywords: Art Therapy; Diagnosis; Icons; Navarro; Reich.
No livro Dinâmicas da Psicologia Corporal Aplicadas a Grupo (2015), os autores citam a pesquisa de Reich, que observou que todo ser vivo é uma manifestação de energia cósmica, que ele chamou de orgone. Possui um campo energético com amplitude e frequência próprias, de acordo com a sua própria natureza. Reich acreditava que o orgone era a fonte da vida e que uma boa saúde física e emocional dependia do equilíbrio desse campo de energia. Ele também desenvolveu técnicas para liberar bloqueios e tensões no corpo que poderiam afetar a circulação do orgone. Essas técnicas são conhecidas como orgonoterapia e ainda hoje são praticadas pelos terapeutas.
Seguindo o caminho dessa afirmação, também podemos fazer uso de desenhos ou símbolos (chamados de ícones) para ajudar a pessoa a identificar um problema de forma mais fácil. É como se fosse um atalho visual para mostrar o que precisa ser resolvido. E a ideia é usar a energia positiva da pessoa que quer resolver o problema para ajudá-la a encontrar uma solução mais rapidamente. Ou seja, ao identificar o problema fazendo uso de um objeto intermediário como é o caso de um ícone, a pessoa já começa a ter uma ideia de como resolvê-lo e fica mais motivada para agir. Quando o ícone é exibido, o indivíduo é estimulado a explorar suas emoções e pensamentos associados ao problema e encontrar novas formas de resolvê-lo. Essa abordagem é particularmente útil para pessoas que têm dificuldade em expressar seus sentimentos verbalmente e que poderiam se beneficiar de uma abordagem mais visual e simbólica.
Usar ícones para identificar um tópico nos ajuda a desenvolver a comunicação e a reflexão que irão esclarecer os pensamentos de um indivíduo. Por meio de perguntas e respostas relacionadas ao tema proposto, o indivíduo traz os motivos de suas dúvidas. Além disso, o uso de perguntas apropriadas é essencial para a compreensão de sistemas complexos, como o sistema familiar ou o sistema organizacional. Uma abordagem de sistemas considera que cada elemento do sistema afeta os outros, e as perguntas certas ajudam a identificar essas interações e seus efeitos. Dessa forma, a terapia pode ajudar o indivíduo a entender melhor sua posição no sistema e desenvolver estratégias que tragam novos entendimentos para sua vida.
Durante o processo do sistema de ícones, vários itens coletados diariamente são normalmente usados sem muitas regras, apenas itens de diferentes tamanhos e texturas que alguns terapeutas colocam em uma maleta ou equivalente como um recipiente. Nesse processo, o indivíduo escolhe um ícone de sua preferência para o tema proposto. Essa seleção é importante porque os ícones representam símbolos que um indivíduo associa a certos conceitos ou ideias, e a escolha consciente desses ícones pode ajudar a revelar padrões de pensamento e emoções.
Ao escolher ícones, é importante que o indivíduo se sinta confortável e confiante em sua escolha, sem medo de julgamentos externos. Os ícones podem ser objetos comuns do dia a dia, como uma caneta, um pedaço de pano ou um botão, ou até mesmo objetos incomuns ou pessoais, como uma pedra. O importante é que esses ícones tenham significado para o indivíduo e possam ser facilmente associados aos conceitos ou ideias do tema proposto.
Uma vez selecionados os ícones, o indivíduo pode organizá-los de acordo com o tema proposto e explorar as relações entre eles. Essa organização pode ser feita de várias maneiras, como agrupar ícones por semelhança ou contraste ou criar uma linha do tempo que represente uma história ou processo.
Em resumo, o processo de sistemas de ícones é uma ferramenta poderosa para explorar padrões de pensamento e emoções, permitindo que o indivíduo visualize e compreenda melhor seus próprios pensamentos e sentimentos. A escolha consciente dos ícones é necessária para que essa ferramenta seja eficaz e permita que o indivíduo se conecte com suas próprias emoções e ideias de forma mais profunda e significativa.
Neste mesmo sentido, segundo Volpi (apud Federico Navarro em seu livro Metodologia da Vegetoterapia Caractero-Analítica na página 24) cita:
Teste psicológico de “colorir figuras” de minha autoria (registrado no escritório científico de Florença, Itália), consiste em propor ao indivíduo escolher uma figura em um grupo de cinco e a colorir. A figura escolhida, as cores usadas, o tempo para colorir etc. fornecem indicações sobre a personalidade do indivíduo. Esse teste, repetido em intervalos de tempo no decorrer da terapia, fornece elementos para avaliar a evolução da terapia.
Nos chama a atenção o fato de que ao invés de ícones utilizam-se figuras que serão coloridas, enquanto no primeiro caso os ícones podem tanto ter forma, textura e/ou cores variantes.
Ao que parece, ambos os métodos produzem resultados eficientes, a tal ponto que Navarro registra seu teste de colorir figuras.
Ao examinar o sistema límbico humano, descobrimos que é a estrutura básica das emoções e memória. Cada indivíduo reage, enfrenta ou corre, ativando o cérebro reptiliano quando um gatilho emocional é ativado. Isso ocorre porque o cérebro humano é programado para detectar o perigo e mobilizar rapidamente o corpo para a ação quando uma situação ameaçadora é percebida.
No entanto, é importante notar que o cérebro tem uma capacidade de mudança e adaptação, também conhecida como plasticidade cerebral. Isso significa que as conexões neurais podem ser fortalecidas ou enfraquecidas com base nas experiências e ações que um indivíduo realiza. Quando entendemos o que acontece em nosso cérebro em resposta a certos estímulos emocionais, temos a oportunidade de mudar nosso comportamento e respostas emocionais.
Essa mudança é possível porque todas as áreas do cérebro estão envolvidas na resposta emocional. A ação emocional gera respostas neurofisiológicas que evocam memórias consolidadas na emoção. Quando um indivíduo é exposto a um estímulo emocional semelhante no futuro, essas memórias emocionais podem ser reativadas e afetar sua resposta.
Em resumo, o sistema límbico humano desempenha um papel fundamental na regulação das emoções e memórias emocionais. No entanto, com o tempo e a prática, o cérebro pode aprender a processar esses estímulos de maneira diferente, criando novas conexões neurais e padrões mais saudáveis de reações emocionais.
Os fatores mencionados me motivaram a procurar uma abordagem mais criativa e dinâmica que pudesse acessar os sentimentos mais profundos do indivíduo, muitas vezes ocultos em seu subconsciente. Como artista plástica e pedagoga por formação, decidi integrar a arte ao processo sistêmico, resultando no método que apresentarei a seguir.
Esse teste envolve a seleção de cores que representam pessoas e/ou eventos importantes para o indivíduo, que são então dispostas no papel em uma pintura livre que não exige nenhum conhecimento prévio. Com essa técnica, espera-se acessar as emoções e memórias emocionais que estão associadas às cores selecionadas, proporcionando uma oportunidade única para a expressão emocional.
Para este processo utilizo uma Canvas (tela de pintura), ou papel para pintura, conforme seja o caso/disponível no momento. Utilizo tintas acrílicas ou aquarela, que são de secagem rápida.
Digamos que desejamos analisar suas relações familiares, supondo que é casado e possui filhos, por exemplo.
Peço ao indivíduo que escolha cores para os pais, sogros, cônjuge, filhos, trabalho etc. As cores podem se repetir, mas são em número limitado e escolhidas previamente pelo terapeuta, e isso pode ser aleatório, sem problemas.
Peço que represente a si mesmo no papel, em seguida escolha outra cor e represente seu cônjuge, e assim sucessivamente.
Vamos analisar um caso concreto para melhor ilustrar o conceito.
Desenho 1

Esta chegou ao meu ateliê queixando-se de estar se sentindo muito sufocada e sem direção para onde ir.
- Explico que a folha de papel é o campo de vida dela.
- Solicito que escolha uma cor que represente a si próprio e registre na folha (nesse exemplo é a cor verde claro).
- Escolha uma cor para cada um dos filhos (um casal neste caso) e pinte-os na folha (cores: azul e rosa).
- Pedi que selecionasse a cor para o ex-marido (vermelho).
- Definisse uma cor para o pai e para a mãe (vermelho para o pai e roxo para a mãe).
- Para o trabalho escolheu a cor salmão.
- Para o aspecto espiritual escolheu o amarelo.
- Então, solicitei que escolhesse e representasse o passado no campo e escolheu a cor preta.
- Para o futuro selecionou o roxo novamente.
- E por último sua perspectiva de vida, para o qual usou o azul claro misturado com o roxo do uso anterior que havia ficado no papel e no pincel (misturou).
Com isto feito, analisando a pintura conclui que:
- Mostrei a razão por que se sentia sufocada, a família toda muito próxima sem espaço para si.
- O ex-marido e o pai com cores próximas mostram que ambos se comportam, ou ela vê, da mesma maneira ou muito próximo, e que ao mesmo tempo ainda está muito ligada ao ex-marido. Este era seu sustento e continua, pois seu trabalho está no futuro e sua mãe passou a ser parte do suporte que ela tinha dele.
- Seu trabalho no campo futuro mostra não consolidado ainda e o futuro em si possui a mesma cor da mãe, ou seja, depende fortemente desta para construir o futuro, talvez financeiramente e/ou emocionalmente.
- Sendo ela representada com uma cor fraca e os filhos muito próximos e com cores fortes, mostra que ela se sente incapaz de dar conta da situação em que vive.
- O passado mostra que ela já entendeu que sua relação marital havia finalizado e estava em processo de separação emocional. Os pais corretamente posicionados, mas ela sem forças para a caminhada.
- Ela projeta no trabalho e na espiritualidade sua nova maneira de viver.
- Os sonhos estão no futuro e a cor escolhida igual à do filho demonstra uma expectativa reprimida de que este tome o papel de liderança nesta caminhada.
Ao apresentar ao cliente esta análise, esta concordou que faz sentido para ela e que ela teria que se fortalecer como pessoa para seguir em frente, criando uma vida nova de acordo com suas expectativas e sonhos.
A cliente a partir deste encontro conseguiu lidar bem com o divórcio recente, não se deixando mais ser abusada emocional e financeiramente.
Entendeu que estava se sentindo pressionada e porquê e colocou advogados para tratar das finanças e uma funcionária para auxiliar no novo empreendimento. Aliado a isto, passou a ter muitas ideias novas no ramo escolhido e com o apoio da mãe, pois a princípio não desejava isso, pode dar forma ao empreendimento.
Recentemente ela lançou uma música no Spotify (com sua interpretação), que exigiu coragem, energia, determinação e disposição, coisa que ela não tinha naquele primeiro momento. A empresa dela, que iniciou timidamente, agora já está bem conhecida no segmento escolhido por ela.
Seguem pinturas de outros clientes para melhor ilustrar.
Desenho 2

Desenho 3

Referências
NAVARRO, F. Metodologia da Vegetoterapia Caractero-Analítica. São Paulo: Summus, 1996.
VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Apostila do curso de especialização em Psicologia Corporal. Módulo 2, Unidade 1. Curitiba: Centro Reichiano, 2022.
VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Apostila do curso de especialização em Psicologia Corporal. Módulo 2, Unidade 2. Curitiba: Centro Reichiano, 2022.
VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Dinâmicas da Psicologia Corporal Aplicada a Grupos. Curitiba: Centro Reichiano, 2015, vol. 2.
VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2003.
Sobre o(s) autor(es)
Telma Cristina de Jesus Luize
Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psicocorporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento.