Ekos do corpo: pele, contorno e contato
Notas sobre a pele negra e a experiência do sensível
Ekos of the body: skin, boundaries, and contact
Notes on Black skin and the experience of the sensible
Resumo
Palavras-chave: Colonização. Contato. Encouraçamento. Pele negra.
Abstract
Keywords: Colonization. Contact. Armoring. Black Skin.
Este artigo tem como objetivo trazer a racialidade como tema relevante para pensar as corporeidades no Brasil. Ele se propõe a apresentar aspectos ainda de maneira preliminar sobre a construção de subjetividades em sociedades coloniais, quando abordamos o tema da pele como receptáculo de afetos transmitidos pelo mundo interno.
Faremos breve reflexão sobre o tema da racialidade e as teorias psicocorporais, com o objetivo de aprofundarmos camadas na compreensão da realidade brasileira que aparecem nos consultórios ou instituições com funções públicas e/ou privadas destes profissionais.
Para isso, abordaremos a pele como elemento central por meio do sentir, uma vez que a pele é o principal órgão de contato com o meio externo, possibilitando tanto o acesso as emoções quanto a inscrição de marcas na pele (Montagu, 1988), e no avesso da pele (Tenório, 2020).
A pele é o maior órgão do corpo humano, tornando-se um envelope para o corpo. Ela encapa os outros órgãos, os ossos, os músculos, as articulações e ligamentos, todos os sistemas, restringe a circulação dos líquidos do nosso corpo, entre outras funções.
Um aspecto sociocultural da pele pouco explorado, se refere a constatação que este órgão é o que primeiro vemos em uma pessoa. Também é por meio da pele, uma das formas que podemos enxergar a racialidade de um individuo.
Considerando que no Brasil aconteceu a identificação racial por meio de marca e não da origem. Isso significa dizer que na falta de expressões mais adequadas, o preconceito, da forma como se apresenta no Brasil, foi nomeado por preconceito de marca, diferenciando assim, para a modalidade em que aparece nos Estados Unidos a designação de preconceito de origem. A própria expressão “preconceito de marca” refere-se a uma reformulação da expressão “preconceito de cor”, quando tratamos do contexto racial no Brasil (Nogueira, 2006).
Se a pessoa é branca, negra, indiana, indígena ou de outra etnia facilmente detectada pela pela cor da pele.
A pele é um indicador de tratamento que a pessoa receberá na vida em sociedades racistas.
O tema pele, nos é um tema caro. Não apenas porque a pele é a principal característica que marca a racialidade de uma pessoa em um mundo que se organiza pela hierarquia racial. Mas também porque a pele em uma compreensão psicológica é onde se recebe o toque, o contato com outro corpo e a qualidade dessa presença.
Mesmo sem ver, ou identificar algo com o auxílio da visão, é possível sentir. A pele é o lugar do sentir, do perceber. A pele pode se fazer presente, antes mesmo do toque, sentimos a pele por meio do arrepio, do sensível, do olhar.
Essa diferenciação a partir da cor da pele acontece ainda muito cedo. A pesquisadora brasileira Jussara Santos (2016), constatou que as crianças negras são menos tocadas na educação infantil e são as últimas a receberem o colo nas instituições educacionais.
As pessoas negras, mulheres e homens também são menos tocados nas consultas médicas e a eles são solicitados menos exames clínicos para identificação de patologias. Na verdade, acreditou-se e ainda acredita-se em muitos espaços que as pessoas negras são mais resistentes à dor e aguentam mais trabalhos físicos. Sendo sua pele, seu corpo, colocado como lugar de “suportação” e/ou de resistência.
Sabemos que é na pele que acontecem os primeiros registros afetivos do ser humano. A pele é entendida como um órgão relacional, uma vez que ela demarca a fronteira física e emocional entre a organização interna e o mundo externo, ou seja, entre o eu e o outro (Dias e outros, 2007).
Na década de 1990, havia uma Campanha do Movimento Negro que dizia: “Reaja a Violência racial: Beije sua preta em praça pública”. Essa campanha falava dos afetos e a importância da demonstração deles. Mas sobretudo, abordava a importância da humanização de corpos negros que durante séculos de escravização, utilizou como estratégia de sustentação destas violências a desumanização e animalização de pessoas originárias do continente africano.
Sabe-se que a eugenia hierarquizou a população mundial a partir das características físicas, ancoradas nas teorias lombrosianas e eugenistas da superioridade racial. A sociedade estadunidense ainda no século XIX, tem um histórico de pesquisas eugenistas desenvolvidas por meio de comparação de desempenho entre pessoas de raças diferentes (Federico, 2021).
O próprio conceito de raça, foi apenas no século XX que deixou de ser compreendida como um aspecto biológico, passando a ser entendida como uma construção social. Isso porque biologicamente os genes que diferenciam as características raciais de uma pessoa é quase insignificante na genética entre seres humanos (Federico, 2021).
Entretanto, no estudo sobre a pele ainda que fisiologicamente a função de proteção seja a mesma independente da racialidade do indivíduo; psicologicamente o órgão que deveria proteger, também é o mais exposto e em alguma medida possibilita vulnerabilidades em uma sociedade racista.
Freud (1996) afirma que o ego é, primeiro e acima de tudo, um ego corporal, não sendo simplesmente uma área, mas ele próprio, a projeção desta dimensão.
Psicologicamente o envolvimento do indivíduo com o seu mundo interno e externo é compreendido na qualidade e característica das relações estabelecidas ao longo da vida. As primeiras relações estabelecidas acontecem no nível corporal, por meio da alimentação, cuidados, no toque na pele do bebê, reconhecimento do ambiente, entre outros aspectos (Dias e outros, 2007).
Desse modo, Dias e outros (2007) afirmará que o Ego, portanto origina-se das sensações corporais registradas desde o início da vida, onde o que é vivido na pele sustenta a construção de um psiquismo corporal.
Segundo Anzieri, a estruturação do ego ocorrerá na relação, iniciada a partir da pele, tornando-se a superfície em que o mundo interno e externo arquivará os conflitos. Sendo assim o bebê conhecerá o seu mundo, primeiro pelas experiências de contato no nascimento e na amamentação, e depois no conhecimento do ambiente e na fala. É através dele que o bebê internaliza os objetos primários, localizados inicialmente como bons e maus (Dias e outros, 2007).
Isso nos conta sobre a importância do ambiente familiar e/ou pessoas responsáveis pelos cuidados da criança para o seu desenvolvimento saudável.
Winnicott, acredita que serão as primeiras relações objetais que alicercearam as interações entre as necessidades da criança e o suporte das figuras parentais, oferecidos pela figura de cuidado, completamente separados de satisfação pulsional. Para ele, o bebê necessita de cuidados que serão introjetados como suficientemente boa ou não; incluindo nesta equação um ambiente de sustentação adequado (Dias e outros, 2007) para o crescimento desta criança.
Mas cabe a pergunta: Como é para a criança/pessoa negra?
O mesmo autor, acredita que o self nasce e se organiza por meio de experiências relacionais com cuidados maternos específicos. Designa, assim a função de holding materno, que ao realizar as necessidades físicas e afetivas do bebê, oferece a continência de seus impulsos agressivos.
Mas será que as mães e/ou as famílias suprem todas as necessidades da criança e consegue blindá-la ou protegê-la de um ambiente que a exclui e a pretere desde muito nova, muitas vezes antes que ela aprenda a falar?
Nossa pretensão aqui não é discutir o cuidado materno das famílias negras. Mas ao contrário disso, trazer luz para o impacto de um meio nas sensações de corpos negros.
A pele após o nascimento ajuda o organismo a responder ao ambiente auxiliando na adaptação de um meio ambiente mais difícil do que o vivenciado na fase intrauterina (Montagu, 1988). David Boadella, um corporalista corrobora nessa percepção da vida intra uterina como uma fase que constitui psiquicamente o indivíduo.
Isso significa dizer que um ambiente acolhedor é fundamental para uma construção positiva.
Sabemos que a pele tem uma função importante na formação da imagem corporal, também no sentimento de unidade da criança e na constituição de seu ego, sendo a pele uma forma sobre a qual se apoiaria o sentimento de ego (Dias e outros, 2007).
Frantz Fanon (2008), importante psiquiatra e autor do livro “Pele negra, Máscara branca, dirá que para a pessoa negra é difícil constituir o seu esquema corporal.
A pele compõe o esquema corporal, apresentando-se com notória representatividade nesse esquema. A cor chega primeiro sempre e a pele, como vimos acima, tem cor.
Na música “Negro drama”, dos Racionais MCs, inicia-se com o verso “Entre o sucesso e a lama; Dinheiro, problemas, invejas, luxo, fama; Nego drama; Cabelo crespo e a pele escura; A ferida, a chaga, à procura da cura”.
Para quem não conhece, os Racionais Mcs é um grupo de RAP, da cidade de São Paulo que desde a década de 90 tem projeção nacional, sobretudo para a população negra e periférica. Na letra o que é a ferida? O que é a chaga? A ferida e a chaga são a pele escura e o cabelo crespo. Ou seja, a pele que expõe e assim deixa vulnerável para a violência policial e inúmeras outras violências raciais.
A composição da pele, permite que haja sensações cutâneas, ainda no útero, que tende a despertar suas percepções e a consciência tanto de movimentos internos quanto externos.
No livro “Eu-pele” (1989), de Anzieu, a pele é tratada integrante importante de um corpo social. Anzieu reforça as ideias de Winnicott, afirmando que o soma-se a ideia de holding também a função biológica motivado pela forma como a mãe contorna o corpo do bebê, seja com o seu próprio corpo, seja com objetos intermediários que possibilitem a sensação do aconchego e da presença.
Anzieu (1989) acredita que a pele se constitui como o mais vital dos órgãos dos sentidos, pois se pode viver cego, surdo, sem paladar e sem olfato, mas sem a formação da pele a vida se torna impossibilitada de se efetivar.
Um dado importante sobre o desencadeamento das doenças de pele é a existência, permanente ou abrupta, de estressores, ambientes ou não.
O tato e o toque são fundamentais à estruturação e ao desenvolvimento da psique do indivíduo. Além disso, é o primeiro sentido a se desenvolver, ocorrendo este processo ainda na vida intrauterina (Yoshinaga e Galiás, 2018).
A compreensão de singularidade a partir da pele, ocorre tanto no aspecto de características específicas do corpo como da psique, reforçando que somos seres únicos e individuais. Um bom exemplo disso, são as nossas impressões digitais, que na sociedade moderna é um modo de identificação. Outro exemplo é a própria memória, uma vez que se constrói ainda na vida intrauterina. Tanto memórias corporais como emocionais (Yoshinaga e Galiás, 2018).
Os nossos registros são continuamente construídos ao longo da vida, atualizados e processados de forma dinâmica, como arquivos em várias linguagens, tais como imagens e sensações (Yoshinaga e Galiás, 2018).
A Pele como couraça social
O livro Pele negra, máscaras brancas (2008) faz referência ao corpo negro, em todo o seu conteúdo, uma vez que o corpo se materializa, por suas partes ou em sua percepção total de existência.
Fanon nos relata que a violência colonial é inscrita na pele negra de maneira tão dilacerante que expõe o subterfúgio de mascará-la para o mundo branco, com a máscara branca.
Fanon apresenta inúmeros desconfortos da pessoa negra que ao se perceber estranhamente tratada no mundo branco, sente incômodos corporais, sendo eles fisiológicos, musculares e energéticos (Silva, 2025).
Ao refletir sobre esses não lugares de existência humana para as pessoas negras, Fanon sugere a impossibilidade de se haver com suas questões subjetivas para além da cor de sua pele e suas características fenotípicas e, por isso, continua dizendo que o negro é um homem negro, sugerindo seus inúmeros prejuízos afetivos, está enclausurado em si mesmo.
Fanon se refere aos aprisionamentos da sociedade colonial, que, diante da cor da pele e outras características físicas, estimula, estipula e determina lugares, na intenção de modular afetos (Silva, 2025).
Isso é possivelmente o que quis ressaltar Fanon, ao dizer que, em alguns momentos, a pessoa negra fica aprisionada no próprio corpo.
Nesse sentido, cabe o entendimento reichiano das couraças, uma vez que, estes registros na pele demonstram o enclausuramento, descrito por Fanon, e o conceito de encouraçamento, que no funcionamento da couraça apresenta-se como uma força que não apenas impede o rompimento, mas que ao mesmo tempo, exerce uma pressão de fora para dentro do organismo, provocando a manutenção e a permanência do funcionamento, intencionando alguma satisfação (Silva, 2025). A rigidez do organismo será o resultado final, como meio para aliviar emoções represadas. São defesas encontradas pelo corpo para a sua existência (Reich, 2012) e sobrevivência.
Fanon, trata sobre a pele e o lugar social da inferioridade, que ele chamará de epidermização, onde a pele é localizada na inferioridade na relação social. A cor da pele, sobreposta com aspectos sociais, explicitará um lócus e um modo de funcionamento desse indivíduo (Silva, 2025).
Exemplo disso são, crianças que pedem para acordar brancas ou que usam produtos de limpeza na esperança de clarear suas peles. Ou uma indústria dermatológica que explora e alicerça como padrão desejado a pele alva.
Deivison Faustino (2018) ressalta que Fanon nomeia e dá ênfase aos aspectos da sociogênese, onde a inferiorização é sentida na pele e a partir da pele. A sociogênese é o estudo da origem e do desenvolvimento das funções mentais, dos comportamentos e dos fenômenos sociais a partir da vida em sociedade e da cultura. O conceito explica que o ser humano se forma e aprende por meio das trocas com outras pessoas.
Montagu (1988), no livro Tocar: o significado humano da pele, relata que a pele é o primeiro meio de comunicação do indivíduo, uma roupagem que cobre todo o corpo de maneira contínua e flexível. Refere, também, que é pela pele que ocorre a primeira forma de percebermos o mundo. Completamos, dizendo que a pele é a primeira maneira de sermos percebidos pelo mundo na sociedade colonial.
A pele como problema social e registro pesaroso costuma aparecer nos escritos de pessoas negras. Exemplo disso é o livro “O avesso da pele” (2020), de Jeferson Tenório que vai tratar de um professor que ao aparecer nas memórias contadas por seu filho, tem as marcas de sua vida e de sua morte restritos a cor de sua pele. O avesso da pele é um chamado a olhar por dentro de um homem que estava muito além da cor de sua pele. Ou o livro “Na minha pele” (2017), de Lazaro Ramos, que traz vivências de um menino, jovem e homem negro na cidade de Salvador em um mundo cheio de preconceitos. E o próprio “Pele negra, máscaras brancas”, de Frantz Omar Fanon, já citado nesta palestra que fez um estudo psicológico do ser negro na sociedade francófona.
Este aspecto aparece nas músicas também. Jorge Aragão, um importante sambista tem uma música que evidencia parte do que discutimos aqui:
“Podemos sorrir, nada mais nos impede; Não dá pra fugir dessa coisa de pele; Sentida por nós; Desatando os nós; Sabemos agora; Nem tudo que é bom vem de fora; É a nossa canção pelas ruas e bares que; Nos traz a razão, relembrando Palmares; Foi bom insistir; Compor e ouvir; Resiste quem pode; À força dos nossos pagodes; Um samba se faz; Prisioneiro pacato dos nossos tantãs; O banjo liberta; Da garganta do povo as suas emoções; Alimentando muito mais; A cabeça do compositor; Eterno reduto de paz; Nascente das várias feições do amor; Arte popular do nosso chão; É o povo quem produz o show e assina a direção.
Jorge Aragão traz a pele negra como lócus de resistência, identificação com um coletivo e com uma história de luta, mas também como espaço do sensível, da busca do afeto que faz sorrir e que pode amar acompanhados e libertados pelos banjos e tantãs. É na pele que o amor nasce, com consciência e autonomia.
Considerações Finais
O que foi e ainda é negado para a população negra nas relações interpessoais que podem lhe influenciar um desenvolvimento saudável?
Portanto, a pele pode ser clausura ou uma afago, dependerá dos registros impressos em sua memória corporal ao longo da vida. Vimos também que isso será determinado sobretudo em país colonizado, dependendo da cor de sua pele. Pessoas com a tez mais escura terão maior probabilidade de registros negativos, ancorados em vivências de preterimento, exclusão e violências.
É fundamental poder escutar o que ecoa dos diferentes corpos nos lugares onde atuamos. Sejam as clínicas públicas ou não. Por muito tempo a psicologia corporal negou os aspectos raciais em suas reflexões clínicas. Contudo, isso não se faz mais possível uma vez que este fato impede que a própria psicologia corporal possa alcançar outras existências e atingir a diversidade brasileira.
Em muitos dos escritos a pele negra é tratada como lugar de suporte, de “casca”, de camada dura, capaz de suportar e resistir, porém não se é considerada a pele como parte sensível do corpo, que capta e relata informações como afeto, cuidado, gentileza e amorosidade.
A experiência do sensível da pessoa negra tende a ser a experiência do preterimento e da exclusão em uma sociedade racista.
A psicologia corporal tem muito a contribuir com o cuidado em saúde mental da população brasileira, seja ela negra ou ela branca. Lélia Gonzalez, relevante intelectual do século XX apontou que a maior neurose cultural brasileira, é a negação do racismo. Quando uma pauta tão importante para compreender corpos a partir dos efeitos do colonialismo é negada, impede-se que de se acessar o cerne biológico em busca do verdadeiro eu de toda uma população, brancos e negros.
Referências
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Yoshinaga, Iara e Galiás, Iraci; A pele que somos e a pele que sentimos: Pele, símbolo, consciência;.Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analitica, 2º sem. 2018 vol 36-2; pág. 77-88.
Sobre o(s) autor(es)
Lidiane Aparecida de Araujo e Silva
Psicóloga (CRP-06/84164), psicoterapeuta, Analista Bioenergética – CBT; em Formação Reichiana pelo IFPW; Mestra pela UFF. Especialista em saúde coletiva. Diretora Científica da Federação Latino-Americana de Análise Bioenergética. Diretora de ensino e vice-presidente da SOBAB. Coordenadora do Curso de Introdução à teoria reichiana em intersecção com o contemporâneo (SOBAB). Associada da ABPN (Associação Brasileira de Pesquisadores Negros).
Luciana Antônio Faria
Psicóloga (06/56743), Analista Bioenergética – CBT/IABSP; em formação de Biossíntese; trabalhou em diversas instituições com projetos de inclusão social.