Centro Reichiano Centro Reichiano & Volpi Psicologia Corporal
Anais Científicos

Anais dos Congressos Brasileiros de Psicoterapias Corporais

Centro Reichiano • Desde 1997 • Congressos Brasileiros de Psicoterapias Corporais

Trabalho publicado nos Anais

Dinâmica corporal com as figuras curandeiro, guerreiro, bandoleiro, mago e sábio

Body dynamics with the figures Healer, warrior, bandit, magician, and sage

Antônia Rangel Centro Reichiano · Brasilia-DF · Brasil antoniarangel@gmail.com
Anais do 29º Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais
ISBN 978-65-89012-07-8 · Edição 2026

Resumo

Este artigo apresenta uma reflexão sobre a prática de Reorganização das Funções do Organismo pelo Movimento com o uso de cinco figuras (Curandeiro, Guerreiro, Bandoleiro, Mago e Sábio) como organizadores funcionais da experiência energética e somática. O movimento organizado, ancorado nos princípios da pulsação e do enraizamento (grounding), atua como catalisador da autorregulação e da recuperação da vitalidade do organismo, integrando corpo, emoção e consciência.

Palavras-chave: Autorregulação. Bioenergética. Vivência. Grounding. Terapia corporal

Abstract

This article presents a reflection on the practice of Reorganization of Organismic Functions through Movement, using five figures (Healer, Warrior, Bandit, Magician, and Sage) as functional organizers of energetic and somatic experience. Organized movement, grounded in the principles of pulsation and grounding, acts as a catalyst for self-regulation and the restoration of the organism’s vitality, integrating body, emotion, and consciousness.

Keywords: Self-regulation. Bioenergetics. Experiential practice. Grounding. Body therapy.

A compreensão do corpo na tradição ocidental foi definida por uma dicotomia herdada do pensamento cartesiano, que relegou o corpo à condição de mero objeto ou apêndice da mente. O corpo era visto como uma máquina a ser controlada, silenciada ou treinada, desprovido de uma inteligência própria ou de uma participação ativa na constituição da subjetividade. Segundo Leder (1984 apud SCORSOLINI-COMIN e AMORIM, 2008, p. 203), “o paradigma trazido por Descartes está presente na ciência e na cultura popular nos últimos trezentos anos, dificultando uma visão dos atos corporais para além dos aspectos físicos”.

A ruptura desse paradigma surge com o trabalho de Wilhelm Reich, que propõe a identidade funcional entre psique e soma. Para ele, o corpo contém a história do sujeito e é a própria expressão da totalidade psíquica em movimento. Como aponta Lowen (1982, p. 120), “a identidade funcional do caráter psíquico com a estrutura corporal ou a atitude muscular é a chave da compreensão da personalidade”. A terapia corporal estabelece-se como uma via de acesso privilegiada ao inconsciente, permitindo que os processos de autorregulação do organismo, muitas vezes obstruídos por defesas crônicas, sejam restabelecidos.

O presente artigo propõe uma reflexão sobre a prática de Reorganização das Funções do Organismo pelo Movimento, técnica desenvolvida e apresentada pela psicóloga Márcia de Oliveira (CRP 4674-06) no Congresso Reichiano de Orgonomia, do qual a autora integrou a comissão científica, há aproximadamente vinte anos¹[1]. A presente reflexão articula-se a partir da vivência da autora como paciente em grupos terapêuticos conduzidos por Márcia de Oliveira, orientados por essa técnica.

Fundamentada na perspectiva reichiana, essa abordagem compreende o movimento como um ato expressivo e regulador, no qual o movimento organizado, quando ancorado nos princípios da pulsação, do enraizamento e da livre circulação energética, opera como um catalisador da autonomia do organismo. Ao acessar diferentes qualidades de presença e ação, o sujeito pode desarticular padrões de rigidez e resgatar a capacidade de resposta flexível diante das demandas da vida, promovendo uma reorganização de suas funções vitais.

Fundamentação Reichiana e Bioenergética

O conceito de couraça caracterológica, desenvolvido por Reich (1995), ajuda a compreender como as experiências emocionais se tornam estruturas físicas. A couraça surge nas tensões musculares crônicas que funcionam como uma defesa psíquica erguida contra a angústia e impulsos não integrados. Sob essa ótica, a forma como as vivências moldam o corpo é descrita por Lowen:

A estrutura de corpo da pessoa nos diz alguma coisa sobre sua história. Todas as experiências deixam suas marcas no corpo. Experiências significativas modelam o corpo do mesmo modo como modelam a personalidade (LOWEN, 1980, p. 67).

Onde há um bloqueio no movimento, há uma restrição na capacidade de sentir e de agir. O organismo encouraçado perde sua plasticidade e sua capacidade de autorregulação, ficando aprisionado em padrões repetitivos de resposta que no passado foram necessários para a sobrevivência, mas que no presente limitam a vitalidade.

A saúde, sob a ótica reichiana, está ligada à equação funcional: tensão, carga, descarga e relaxamento. Esse ciclo permite que o organismo processe a energia vital e retorne à sua pulsação natural, princípio que será aprofundado adiante. Um organismo saudável é aquele que transita com fluidez entre os polos de expansão e contração, sem ficar fixado em nenhum deles. Quando a couraça impede essa alternância, a vida se torna estagnada e a energia deixa de circular de forma saudável.

Alexander Lowen, ao expandir o legado de Reich com a Análise Bioenergética, introduziu o conceito de grounding, ou enraizamento. Para Lowen, a energia não pode circular de forma segura e eficaz se o indivíduo não possuir uma base de sustentação sólida no próprio corpo e na realidade. Estar enraizado significa ter os pés no chão, sentir o apoio da terra e permitir que o fluxo energético percorra todo o organismo até as extremidades. Conforme diz Lowen (1980, p. 17), o “Grounding refere-se à conexão energética entre os pés da pessoa e a terra ou chão. Reflete o montante de energia ou sensação que ela permite fluir para a parte inferior de seu corpo.”

Com o grounding a descarga ocorre de forma consciente, fortalecendo o self e permitindo que o organismo se reorganize em um novo patamar de equilíbrio. A integração entre o físico e o analítico é descrita por Lowen da seguinte forma:

A análise bioenergética emprega muitas técnicas e exercícios físicos ativos que ajudam a pessoa a fortalecer sua postura, aumentar sua energia, ampliar e aprofundar sua autopercepção e acentuar sua autoexpressão. O trabalho corporal é realizado em coordenação com o processo analítico; corpo e mente se combinam para o enfrentamento dos problemas emocionais (LOWEN, 1980, p. 17).

A técnica de Reorganização das Funções do Organismo pelo Movimento utiliza a base teórica reichiana, buscando oferecer ao sujeito um caminho de retorno à sua potência vital através de movimentos que respeitam a integridade somatopsíquica. A leitura articulada entre essa base e as cinco figuras que estruturam a prática, apresentada nas seções seguintes, constitui elaboração da presente autora, construída a partir de sua experiência vivencial como paciente da técnica.

As Figuras como qualidades energéticas

Na proposta de reorganização do organismo pelo movimento, as figuras do Curandeiro, Guerreiro, Bandoleiro, Mago e Sábio devem ser compreendidas como qualidades energéticas e organizadores funcionais que residem no organismo humano. Cada uma dessas figuras representa uma função biológica e psíquica para a manutenção do equilíbrio e para a expressão da saúde. Ao teorizar sobre essas qualidades a partir de sua vivência nos grupos citados acima, percebe-se que elas compõem um mapa da dinâmica energética que permite ao sujeito transitar por diferentes estados de consciência e de ação no mundo.

A qualidade do Curandeiro refere-se à função de regulação, acolhimento e segurança, permitindo ao organismo sentir-se seguro o suficiente para explorar o ambiente interno, identificando as tensões. É a função de presença e nutrição, o solo fértil no qual a reorganização pode começar.

O Guerreiro personifica a qualidade de ativação, força e direção. É a energia da afirmação no mundo e do estabelecimento de fronteiras claras. Na economia energética, o Guerreiro representa o tônus necessário para ocupar o próprio espaço e defender a própria integridade. É uma força que permite que o sujeito se carregue e se coloque de forma assertiva.

O Bandoleiro representa a função de ruptura e descarga. É a qualidade que desorganiza padrões e desafia a rigidez da couraça para abrir espaço para o novo. É uma desestruturação criativa necessária para que a energia estagnada seja liberada e encontre seu caminho.

A qualidade do Mago introduz a transformação, a fluidez e a criação. É a capacidade de transmutar a energia que foi liberada pela ruptura (como tremores) em novas formas de expressão. O Mago é a função que integra os opostos, permitindo que o organismo transite entre a força e a suavidade, entre o dar e o receber, com naturalidade e plasticidade.

O Sábio representa a qualidade de testemunha e integração. É a consciência que observa, acolhe e dá sentido à experiência vivida. Ele é o lugar da presença, no qual o sujeito pode perceber as transformações ocorridas em seu corpo sem julgamento, permitindo a síntese final do processo.

Princípio organizador: a Pulsação

O ciclo de expansão e contração constitui a matriz de toda a vida orgânica, como o batimento cardíaco e o movimento respiratório. Na dinâmica corporal proposta, esse princípio é o eixo que sustenta toda a prática.

A alternância entre momentos de maior ativação energética e momentos de receptividade e quietude espelha o ritmo da natureza. A saúde é a capacidade de pulsar ritmicamente. Quando o movimento é organizado respeitando essa alternância, o organismo encontra o caminho para a autorregulação sem a necessidade de muitas intervenções externas impositivas.

A dosagem surge aqui como um princípio ético e clínico. Na tradição reichiana, compreende-se que forçar a abertura das defesas pode ser violento e contraproducente, gerando mais resistência ou fragmentação. A proposta da reorganização do organismo pelo movimento oferece ao corpo a oportunidade de se reorganizar em seu próprio ritmo, respeitando o tempo biológico e os limites de cada sujeito.

A respiração e o grounding desempenham papéis fundamentais. A respiração atua como ferramenta que permite que a energia se acumule e encontre canais de expressão e descarga, facilitando a dissolução gradual das tensões da couraça e o restabelecimento do fluxo vital. O grounding garante a segurança e a presença no corpo durante todo o trabalho. As investigações de Weigand (2005, p. 35) demonstram que “as posturas de grounding e as vibrações aumentam as ondas respiratórias e a excitação geral do organismo”, facilitando esse processo de liberação das tensões crônicas.

A música funciona como um organizador rítmico externo que dialoga diretamente com a pulsação interna do organismo e com cada qualidade energética acessada. As frequências, os timbres e as dinâmicas musicais são escolhidas para evocar as qualidades de cada figura correspondente.

A música opera como um convite ao movimento espontâneo, criando uma moldura segura para que a experiência se desenrole sem a necessidade de comando verbal constante. Ela é parte integrante do processo de reorganização, um veículo sonoro que acompanha e sustenta cada figura em sua função específica dentro do ciclo.

Considerações finais

A terapia do corpo, fundamentada nos preceitos reichianos e da bioenergética, deve ser vista como uma técnica que busca compreender o ser humano a partir de sua totalidade somatopsíquica. Afinal, como afirma Lowen (1982, p. 102), “o self não pode divorciar-se do corpo e a autopercepção não pode separar-se da consciência corporal”. A prática busca criar as condições seguras para que o organismo encontre seu caminho de cura e equilíbrio.

O papel do facilitador nesse contexto é o de sustentar o campo e garantir a segurança necessária para que o processo de reorganização ocorra. A reorganização do corpo é uma potência do próprio organismo que, ao ser liberado de suas amarras crônicas, tende naturalmente para a saúde e para a expansão. Ao devolver ao corpo sua dignidade como sujeito da experiência e ao movimento sua função de via para a pulsação vital, abre-se caminho para uma existência mais íntegra, consciente e conectada com a essência da vida.

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Notas

[1] Informação em mensagem de áudio fornecida por Márcia de Oliveira à autora, 2026, autorizando a citação da técnica como base deste trabalho. Segundo relato da autora da técnica, o trabalho encontra-se registrado junto à Fundação Biblioteca Nacional sob o título Reorganização das Funções do Organismo pelo Movimento.

Referências

LOWEN, Alexander. Medo da vida. São Paulo: Círculo do Livro, 1980.
LOWEN, Alexander. Bioenergética. São Paulo: Summus, 1982.
LOWEN, Alexander. Narcisismo: a negação do verdadeiro self. São Paulo: Summus, 1983.
REICH, Wilhelm. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
SCORSOLINI-COMIN, Fabio; AMORIM, Katia de Souza. Corporeidade: uma revisão crítica da literatura científica. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 14, n. 1, p. 189-214, jun. 2008. Acesso em: 1 agosto. 2026
WEIGAND, Odila. Grounding na análise bioenergética: uma proposta de atualização. 2005. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2005.

Sobre o(s) autor(es)

Antônia Rangel
Gestora e produtora cultural com mais de 20 anos de experiência em projetos nas esferas pública e privada, em níveis federal e estadual. Formada em História (Mestrado/UNESP e Graduação/UFG). Especialista em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Terapeuta e Analista Corporal de abordagem reichiana e bioenergética, pelo Centro Reichiano. Atuou em cargos de liderança no Ministério da Cultura e Governo do Maranhão, desenvolvendo expertise em coordenação de processos, articulação institucional, planejamento e execução de projetos culturais e audiovisuais. Atualmente trabalha como Assessora Institucional na CONTEE e Produtora Executiva na Arte & Alma Terapias e Produções.

Como citar este trabalho

RANGEL, Antônia. Dinâmica corporal com as figuras curandeiro, guerreiro, bandoleiro, mago e sábio. In: Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais, 29, 2026. Curitiba: Centro Reichiano. ISBN 978-65-89012-07-8. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/anais/dinamica-corporal-com-as-figuras-curandeiro-guerreiro-bandoleiro-mago-e-sabio/. Acesso em: 04/09/2026.