Simetria e movimento
Uma análise comparativa entre o homem vitruviano e a teoria de Reich
Symmetry and movement
A comparative analysis between the Vitruvian Man and Reich’s theory
Centro Reichiano · Curitiba-PR · Brasil
Centro Reichiano · Porto Alegre-RS · Brasil
Centro Reichiano · Curitiba-PR · Brasil
ORCID: 0009-0004-2771-0798
Resumo
Haja vista que há uma notória similaridade na construção do Homem Vitruviano, de Da Vinci, e do Caráter Genital, de Reich, a proposta do presente estudo é destrinchar tais ideias, comparando-as desde suas origens, convidando também o terapeuta corporal a discutir as etapas de desenvolvimento do ser humano baseando-se no conhecimento psicossocial e na importância da anatomia, que foi fonte inspiradora artística para Da Vinci e fundamentadora dos conhecimentos de Reich. Busca-se um enriquecimento científico capaz de nortear o sucesso terapêutico, ampliando o olhar não apenas para ideias precursoras, mas para a maneira como essas ideias foram implementadas por grandes pensadores, permitindo que a Psicologia Corporal transcenda cada vez mais sua eficácia e beneficie mais pessoas.
Palavras-chave: Homem Vitruviano; Caráter genital; Psicologia Corporal; Posição anatômica.
Abstract
Given the evident similarity between Da Vinci’s Vitruvian Man and Reich’s Genital Character, the purpose of this study is to explore these ideas by comparing them from their origins, also inviting body therapists to discuss the stages of human development based on psychosocial knowledge and the importance of anatomy, which served as an artistic inspiration for Da Vinci and as a foundation for Reich’s knowledge. The study seeks a scientific enrichment capable of guiding therapeutic success, broadening the perspective not only toward pioneering ideas, but also toward how these ideas were implemented by great thinkers, allowing Body Psychology to increasingly transcend its effectiveness and benefit more people.
Keywords: Vitruvian Man; Genital character; Body Psychology; Anatomical position.
1. INTRODUÇÃO
O homem Vitruviano é uma obra de Da Vinci, e se tornou o mais famoso desenho de proporções do corpo humano no mundo, e seu objetivo era representá-lo em equilíbrio com a natureza. A obra foi inspirada no engenheiro e arquiteto Marcos Vitrúvio, o qual estabelecera o princípio que relacionava a proporcionalidade da bela arquitetura com a do homem de boa formação.
A obra, sem qualquer intenção, deu origem à posição anatômica, que hoje serve de guia referencial universal e padronizado para a fisiologia, e sua origem, inspirada nos processos de dissecação, remonta ao conhecimento da ortostasia, que é a posição ereta do corpo humano. Esse modelo referencial em anatomia serve não apenas como um padrão para estudos, mas sua representação, majoritariamente ilustrada através de desenhos, aparece como um modelo ideal de postura, representada com corpos perfeitos e com postura impecável em livros de anatomia, muito embora os estudantes de áreas relacionadas à saúde não tenham tão claramente explanada sua origem tão histórica e artisticamente expressiva.
O caráter genital, descrito por REICH (1998) em sua obra Análise do Caráter, é a representação também de um conceito ideal, porém no que tange ao entendimento do que seria o ideal de caracteres emocionais, capazes de proporcionar a um indivíduo a base necessária de ferramentas psíquicas e físicas, adquiridas em um processo de neuroamadurecimento progressivo, para se tornar um adulto plenamente desenvolvido.
Tal representação é oriunda da percepção que Reich teve sobre os casos de psicoterapia que apresentavam pouco ou nenhum sucesso, descritos por seus colegas psiquiatras e psicanalistas, na Convenção de Viena (REICH, 1986), e do entendimento, em seus casos clínicos, de que grande parte das afecções desses indivíduos eram causadas pelas suas histórias pregressas, onde houve abalos no processo de formação da estrutura emocional, formação neurológica e psicossocial na infância, e no entendimento de que, se tais abalos tivessem sido reparados em tempo, ou sublimados de forma saudável, essa seria a maneira eficaz dessas pessoas poderem adquirir a plenitude de sua maturidade emocional, através da aquisição de uma coleção completa de ferramentas e suficiente habilidade para usá-las perante as adversidades da vida.
A proposta do presente estudo é destrinchar tais ideias na construção da obra “O homem Vitruviano” e o conceito do caráter genital, haja vista que há uma notória similaridade, comparando-os desde suas origens, da maneira como foram pensados, a fim de compreender se existe uma correlação direta entre eles, convidando também o terapeuta corporal a discutir a importância da investigação das etapas de desenvolvimento do ser humano, utilizando-se do conhecimento psicossocial e do entendimento da importância da anatomia, que é fundamentadora dos conhecimentos de Reich, para que cada vez mais possa haver um enriquecimento de cunho científico capaz de nortear as avaliações e os objetivos terapêuticos a alcançarem sucesso, uma vez que o conhecimento da origem de tais modelos amplia o olhar, não apenas no sentido de nos basearmos em ideias precursoras, mas também na maneira como essas ideias foram implementadas por grandes homens que nos agraciaram com grandes feitos, para que a Psicologia Corporal possa cada vez mais comprovar sua eficácia e beneficiar mais pessoas.
1.1 O Homem Vitruviano
Ao dar vida à obra “O Homem Vitruviano”, personificada por um desenho de um homem com as pernas e braços abertos, que caberia perfeitamente dentro de um quadrado e de um círculo, com figuras geométricas perfeitas, e cujo centro do corpo é o umbigo, pode-se dizer que Da Vinci desenhou o mais famoso desenho de proporções do corpo humano no mundo, tendo como objetivo representá-lo em equilíbrio com a natureza.
Há, no meio acadêmico, uma suposição de que a obra possa ter sugerido referência ortostática (ficar em pé) ou até mesmo uma alusão, na época, despretensiosa ou inconsciente para o momento, da atual posição anatômica, uma vez que foi o primeiro desenho a evidenciar a posição ereta da estrutura física, aludindo proporções corpóreas, sendo reconhecida como um guia referencial para estudos em anatomia e fisiologia, de forma universal.
Inúmeros trabalhos e pesquisas científicas discorrem sobre sua importância em relação às proporções corporais, relações morfométricas e biotipológicas. A omissão de sua origem se dá, possivelmente, por estudiosos acreditarem erroneamente em sua obviedade, o que interfere diretamente no melhor entendimento de seu significado.
O que se pode dizer sobre a posição anatômica é que existem alguns poucos dados baseados na posição bípede do Homo erectus e que, embora não tenha sido encontrada nenhuma alusão direta à posição anatômica propriamente padronizada, a teoria cientificamente mais aceita aponta inspiração no conhecimento da ortostasia, nos processos de dissecação e nessa obra do grande gênio da humanidade, portanto, na anatomia em geral.
Da Vinci se inspirou nos escritos do arquiteto e engenheiro militar Marco Vitrúvius, o qual estabelecera o princípio que relacionava a proporcionalidade da bela arquitetura com a do homem de boa formação, dando ênfase então aos aspectos anatômicos no corpo morto, porém imaginado como se estivesse vivo.
Chagas, em sua obra História da Anatomia, discorre que as posições de cadáveres associadas à sua rigidez cadavérica pós mortem, de assassinos enforcados, cujos corpos eram deixados dependurados em lugares abandonados de caminhos incertos até antes de atingirem o estado de putrefação, ao adquirirem o estado de rigidez cadavérica ainda quase na posição em que o indivíduo estava contido e morreu, após o “relaxamento” dos músculos, sugerindo inclusive, pela ação gravitacional, estando ainda com o corpo suspenso pela corda, a posição assumida, é no mínimo sugestiva como de potencial importância e influência na construção da padronização da futura “posição anatômica”, mesmo de forma despretensiosa para a época e ainda sem qualquer registro.
Cabe lembrar que os processos de dissecação também foram fonte de inspiração de Da Vinci. Andreas Vesalius, um dos primeiros a praticar a dissecação do corpo humano e considerado o Pai da Anatomia, realizou um estudo sistemático da dissecação, sendo que uma das principais características desses desenhos é a tentativa de representar o corpo dissecado numa postura dinâmica, dando ênfase aos aspectos anatômicos no corpo morto, imaginado, apesar de dissecado, como se estivesse vivo.
Tal interpretação é compreendida pelo fato de que, no século XVI, não havia separação entre morfologia e função. Trinta anos mais tarde, Vesalius concebeu a dissecação do corpo, decompondo-o em partes, agora observadas enquanto peças e estruturas orgânicas, e é inegável que os desenhos de Da Vinci inspiraram sua obra, De humani corporis fabrica libri septem (Da Organização do Corpo Humano), transformando o interesse artístico em interesse científico e consagrando Vesalius como o pai da investigação científica moderna.
Pode-se dizer que o que foi iniciado por Da Vinci agora se estabelecia e se solidificava de vez com Vesalius, o qual estabeleceu a anatomia topográfica e sistêmica através da estratificação, método de dissecação utilizado até hoje e que convictamente se entende ter sido absolutamente influenciado por Da Vinci.
Para além disso, sua obra poderia perfeitamente ser pensada como uma coincidente analogia de representação artística e perfeita da simbolização do padrão físico daquele que REICH (1998) determinou como indivíduo de caráter genital, o qual é governado por uma firme alternância entre tensão e satisfação adequada da libido, de posse de uma economia da libido regulada tanto de forma qualitativa quanto quantitativa, tendo um aparelho muscular que lhe permite fugir ou combater e um intelecto que lhe permite prever e evitar perigos, descrito em sua fantástica obra Análise do Caráter.
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1.2 Análise do Caráter
Wilhelm Reich aprofundou-se em textos sobre a teoria freudiana do desenvolvimento psicossexual e os aspectos do funcionamento psíquico, o que possibilitou o surgimento de suas principais teorias e, consequentemente, o desenvolvimento do que seria a economia sexual e a análise do caráter.
Reich considerava um problema as limitações da técnica psicanalítica, visto que a sugestão de trabalhar com o corpo do paciente não foi bem aceita pelos praticantes da psicanálise tradicional na época. Em crítica, Reich cita: “O paciente precisa primeiro perceber que está resistindo, depois como faz, e finalmente contra o quê” (REICH, 1998, p. 18). Dessa forma, ele percebeu que existia uma contração muscular em seus pacientes quando citavam uma experiência traumatizante.
Na Psicologia Corporal, traumas são vistos como bloqueios energéticos, gerando uma contração muscular no corpo (VOLPI & VOLPI, 2012). O trabalho sistemático com a análise do caráter levou o pai da Psicologia Corporal à descoberta da couraça muscular (que só se deu graças ao seu conhecimento em anatomia e biomecânica) e fundamentou seu entendimento de que tensões crônicas se formam ao longo da vida para proteger o indivíduo de experiências dolorosas e ameaçadoras.
A sistematização da Psicologia Corporal foi realizada por seus seguidores. Um deles era Federico Navarro (1995), neuropsiquiatra italiano que, a pedido de Reich, por intermédio de Ola Raknes, desenvolveu uma metodologia específica para o desbloqueio das couraças: a Vegetoterapia.
O corpo guarda a história individual e é por meio dele que a Vegetoterapia busca resgatar as emoções mais profundas. Seu princípio fundamental é o “restabelecimento da mobilidade biopsíquica através da anulação da rigidez (encouraçamento) do caráter e da musculatura” (REICH, 1986, p. 17), por meio de movimentos específicos (actings), seguidos sempre da análise dos conteúdos verbalizados pelo paciente.
O desbloqueio das couraças (Vegetoterapia) começa pelo primeiro segmento (ocular) e avança em direção ao último (pélvico), permitindo, assim, o livre fluxo energético e uma mudança física e caracterológica ao excluir a raiz caracterológica e biofísica dos sintomas individuais, em outras palavras, a neurose de caráter. Ou seja, busca restabelecer a capacidade total de pulsação do organismo como um todo.
No artigo “O caráter genital e o caráter neurótico” (REICH, 1998), discute-se a importância do desenvolvimento saudável da energia sexual na formação do caráter, onde se argumenta que o caráter genital é caracterizado por uma expressão saudável da energia sexual, em que há uma integração harmoniosa entre os impulsos sexuais e as outras funções emocionais e psicológicas. Nesse estado, a pessoa é capaz de experimentar prazer sexual de forma natural e satisfatória, sem repressão ou conflito interno.
Por outro lado, o caráter neurótico é resultado de uma repressão ou distorção da energia sexual, levando a uma série de sintomas e comportamentos disfuncionais. De acordo com NAVARRO (1995), essa repressão pode ocorrer devido a influências familiares, sociais ou culturais que desencorajam a expressão autêntica de emoções e impulsos naturais. Ele argumentou que a repressão emocional leva ao acúmulo de energia psíquica no corpo, resultando em sintomas físicos e psicológicos associados ao caráter neurótico.
Através dos conceitos abordados por Reich e Navarro, GAIARSA (2019) determina que as características do caráter se tornaram visíveis para o outro, sensório-proprioceptivas e manipuláveis; trabalháveis com as mãos e com os movimentos do corpo pelo próprio sujeito ou por outro sujeito.
A obra Análise do Caráter, portanto, apresenta um conjunto de critérios com o objetivo de distinguir saúde de doença, no qual pressupõe a existência de uma linha com um polo em cada extremidade. No polo da saúde estaria o “caráter genital”, e Reich determinou como indivíduo civilizado (de caráter genital) o homem que é governado por uma firme alternância entre tensão e satisfação adequada da libido, de posse de uma economia da libido regulada tanto de forma qualitativa quanto quantitativa, tendo um aparelho muscular que lhe permite fugir ou combater e um intelecto que lhe permite prever e evitar perigos.
1.3 A Posição Corporal e o Processo Terapêutico
Diante do número e da complexidade das forças musculares, podemos dizer com certeza que jamais alguém se moverá inteiramente por querer, no sentido de, atuando e ao mesmo tempo presente, decidir a respeito de todas as unidades motoras, dos vários escalões posturais e da complexa movimentação do sistema oculomotor. Nunca nos será dado o controle voluntário do corpo inteiro (GAIARSA, 2019).
Nunca poderemos, portanto, em vida, assumir a “postura” da posição anatômica em sua magnitude, contraindo simultaneamente e de forma harmonizada e simétrica a musculatura agonista e antagonista para que, mesmo que simbolicamente, consigamos atingir a “postura perfeita”, sem termos que lutar contra a gravidade que incessantemente tenta nos derrubar e nos estimula a incansavelmente nos adaptarmos a ela, e sem que nossos encouraçamentos sejam perceptíveis, nem mesmo com a finalidade de sermos vistos (posição) pelo outro (observador).
Nunca conseguiríamos ser, portanto, um modelo vivo para a existência do Homem Vitruviano sem dependermos da magnífica imaginação criativa de Da Vinci, que conseguiu até mesmo dar vida aos mortos.
Esse paralelo pode também ser percebido no universo terapêutico, uma vez que raramente, em estudos de Psicologia, o terapeuta descreve o que está vendo, ficando subentendido que todos sabem do que se trata e que apenas aquele sentimento estava atuando de maneira isolada no paciente, o que pode tornar a percepção que ele, o terapeuta, tem do paciente algo parcial e tendencioso.
A falha na técnica observacional terapêutica pode inferir os sentimentos do paciente no terapeuta, que não descreve aquilo que vê, pura e imparcialmente, de sua posição de observador, mas sim o que interpreta daquilo que vê (a postura do paciente) e o descreve do seu ponto de visão (posição de terapeuta).
Para além da terapia, na vida social isso se reforça ainda mais, levando em conta que falar para o outro sobre suas expressões faciais, por exemplo, é tido como um ato social de mau gosto e falta de educação. Portanto, esse feedback acaba não chegando e sendo uma ferramenta muito pobremente desenvolvida, uma vez que o paciente não se vê como os outros o veem e não se percebe como os outros o percebem, dentro do seu ponto de visão, da sua posição de observado.
Ainda que, em um hipotético mundo ideal, conseguíssemos o melhor método terapêutico, o melhor processo de neurodesenvolvimento no melhor ambiente imaginável e, ainda quando crianças, vivêssemos aquilo que Reich acreditou — que, se passássemos por todas as etapas de desenvolvimento sem bloqueios, estresses ou fixações, seria possível alcançarmos a adolescência com um caráter genital —, permaneceria a questão.
O que se sabe é que as obras de Da Vinci, tal qual “O Homem Vitruviano”, têm uma importância inegável no mundo artístico, mas também no mundo científico, mundo esse que possibilitou os avanços em conhecimento em anatomia, biomecânica e fisiologia que alicerçam as obras de Reich e, em especial, a Análise do Caráter. O que tanto Da Vinci quanto Reich tiveram em comum foi dar vida a algo que era considerado morto. No caso de Leonardo Da Vinci, de forma literal; no caso de Reich, ao definir o caráter genital como um caráter idealizado em resposta a uma condição utópica, baseando-se nos casos insolúveis de seus colegas apresentados nos seminários de Viena e em seus próprios casos terapêuticos, que também não apresentavam nada de sublime.
2.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS
É possível observar uma similaridade importante quando comparamos a origem da posição anatômica, ou seja, a obra “O Homem Vitruviano”, procedente da ideia de simetria, conexão com a natureza e representação do homem de boa formação, associada ao conhecimento em anatomia, com a origem do entendimento de REICH (1998), em sua obra Análise do Caráter, que apresenta um conjunto de critérios com o objetivo de distinguir saúde de doença, no qual pressupõe a existência de uma linha com um polo em cada extremidade, onde no polo da saúde estaria o “caráter genital”, determinando como indivíduo civilizado aquele de caráter genital.
Poderíamos nos perguntar para que nos serviria todo o conhecimento de Reich se não há evidências de que possamos atingir o caráter genital. A importância de termos um modelo ideal de referência, porém, pode muito bem ser explicitada quando levamos em consideração que foi justamente a idealidade imaginada que permitiu a Da Vinci representar o homem perfeito, com figuras geométricas perfeitas, tornando sua obra o mais famoso desenho de proporções do corpo humano no mundo, ancorado no princípio de Marco Vitrúvius, que relacionava a proporcionalidade da bela arquitetura com a do homem de boa formação. Esse princípio inspirou o estudo sistemático da dissecação de Vesalius, pai da anatomia moderna, que ainda hoje nos fundamenta anatomicamente, tendo sua obra influenciado a origem da posição anatômica que fundamenta os estudos em anatomia de forma universal.
Da mesma forma, o imaginário do cenário perfeito possibilitou a Reich determinar como resultado o indivíduo de caráter genital, o homem civilizado que não precisa da argamassa do encouraçamento para lidar com o mundo externo, tendo preservada a principal função do caráter, que é usufruir de meios abundantes para se proteger dos verdadeiros perigos do mundo. Trata-se de um indivíduo governado por uma firme alternância entre tensão e satisfação adequada da libido, de posse de uma economia da libido regulada tanto de forma qualitativa quanto quantitativa, tendo um aparelho muscular que lhe permite fugir ou combater e um intelecto que lhe proporciona prever e evitar perigos imaginados a partir de um mundo não idealizado, mas que lhe permitiu muitos avanços terapêuticos em casos nos quais seus colegas estavam estagnados.
É inegável a semelhança na maneira de pensarem suas obras, Reich e Da Vinci. Não percebermos essa importância e os resultados que usufruímos a partir delas seria o mesmo que não percebermos que só conseguimos avançar o quanto avançamos hoje, cientificamente e emocionalmente, graças a esses grandes homens, que não tiveram o caráter genital, mas sim momentos grandiosos de genitalidade oriundos de sua imaginação norteada por um propósito.
Seguimos nos referindo aos músculos estriados esqueléticos como músculos voluntários, mas eles não o são. Eles são voluntariáveis; não nascem e nem se fazem voluntários de forma fatal ou automática. Portanto, tornar consciente o inconsciente não basta. É preciso tornar voluntário o involuntário (GAIARSA, 2019).
Se pensarmos nossos músculos sem nossos encouraçamentos, podemos, a partir dessa ótica, entender que podemos nos tornar mais genitalizáveis, em vez de mais genitais. Mais dinâmicos no lugar de mais estáticos. Mais vivos e menos mortos. Nosso processo muscular e emocional não terá fim, tal qual a gravidade não cessa sua força sobre nossa postura, e nossos músculos não interrompem a necessidade de se defenderem dela, nem do meio.
Não alcançarmos a perfeição estática não significa que não possamos almejar a busca pela evolução de forma dinâmica todos os dias. Não acaba a nossa necessidade de sobrevivência, nem mesmo nossa melhor ferramenta: a criatividade, mãe da imaginação, para nos permitirmos a vida, a vivência.
Enquanto houver vida, não cessará a nossa necessidade de evolução. O que já herdamos ou conquistamos até aqui é o que nos possibilita enxergar mais longe, por podermos nos debruçar sobre os ombros de Da Vinci e Reich, consagrados gigantes que, muito além de suas obras, por sua maneira de pensar a vida, nos convidam a criar para além daquilo que conhecemos, possibilitando-nos trilhar um caminho de construção e transcendência na busca de um propósito.
REFERÊNCIAS
CHAGAS, J. S. História da Anatomia Através da Dissecação do Corpo Humano. São Paulo: Paco, 2018.
DANTAS, M. Newton e Gravitação: a suposta primazia de Hooke sobre a Lei da Gravitação Universal. Relatório final para obtenção do título de Licenciatura em Física. Belém-PA: Universidade Federal do Pará, 2014. Disponível em: https://acrobat.adobe.com/id/urn:aaid:sc:VA6C2:70e53e74-0391-4524-b39b-2d42bd0d4c72. Acesso em: 24 fev. 2024.
GAIARSA, J. A. Couraça muscular do caráter. 7. ed. São Paulo: Ágora, 2019.
NAVARRO, F. Caracterologia pós-reichiana. São Paulo: Summus, 1995.
REICH, W. A Função do Orgasmo. São Paulo: Brasiliense, 1986.
REICH, W. Análise do caráter. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Psicologia Corporal: um breve histórico. In: VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara. Revista Online Psicologia Corporal. ISSN 1516-0688. Curitiba: Centro Reichiano, v. 13, 2012. Disponível em: http://www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: 13 fev. 2024.
Bacharel em Psicologia pela Universidade Positivo. Especialista em Terapia Familiar Sistêmica. Cursando Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Psicoterapeuta Corporal Reichiano, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR. E-mail: gbb.psicologia@gmail.com
Bacharel em Fisioterapia pelo Centro Universitário Metodista do IPA. Remedial Massage Therapist (NSW School of Massage). Instrutora de Pilates (Equilíbrio & Vida Pilates). Massoterapeuta (Tchukon Ltda). Cursando Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Terapeuta Corporal Reichiano e/ou Bioenergético, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR. E-mail: ligiarhoden@hotmail.com
Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psico-corporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. E-mail: volpi@centroreichiano.com.br
Como citar este trabalho:
BONINI, Giovana Bonagura; RHODEN, Ligia; VOLPI, José Henrique. Simetria e movimento. In: Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais, 27, 2024. Curitiba: Centro Reichiano, p. 1-5. ISBN 978-65-89012-04-7. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/anais/simetria-e-movimento/. Acesso em: 29/05/2026.