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Amplitude da escuta na psicoterapia corporal reichiana

The scope of listening in Reichian body psychotherapy


Claudia Eliane Rocha da Silva
Centro Reichiano · Curitiba-PR · Brasil
José Henrique Volpi
Centro Reichiano · Curitiba-PR · Brasil
Revista Científica Eletrônica de Psicologia Corporal
v. 23 · 2022 · p. 26-35 · e-ISSN 3086-1438
Recebido: 02 mar. 2022 · Publicado: 10 mar. 2022

Resumo

O pensamento funcional reichiano, ao propor a análise do caráter do ponto de vista psíquico e somático, fundou as bases da Psicoterapia Corporal. Considerou o dinamismo relacional entre as dimensões histórica, biológica, social e psicológica como determinantes da estrutura biopsíquica. A escuta psicoterapêutica passou a incluir o corpo como objeto de reflexão, cuja chave de leitura é possível por meio da análise caracterológica e da apreensão sensorial.

Palavras-chave: Caráter; Escuta; Psicoterapia; Sensação de órgão.


Abstract

Reichian functional thinking, by proposing character analysis from both psychic and somatic perspectives, established the foundations of Body Psychotherapy. It considered the relational dynamics among historical, biological, social, and psychological dimensions as determinants of the biopsychic structure. Psychotherapeutic listening thus came to include the body as an object of reflection, whose interpretation becomes possible through character analysis and sensory perception.

Keywords: Character; Listening; Psychotherapy; Organ Sensation.


Após alguns anos investigando o fator econômico-sexual envolvido nos mecanismos que produzem e inibem o prazer, Wilhelm Reich extrapolou metáforas e analogias freudianas do erótico simbólico, e posicionou o corpo e a retomada de sua expressividade como importante fator no processo analítico. Segundo Volpi (2019), as experiências que Reich desenvolveu com os pacientes atendidos na Clínica Psicanalítica mostraram a importância da sexualidade na psicogênese das neuroses.

Suas descobertas no campo energético levaram à compreensão da equivalência dos elementos psíquico e somático na função econômico-sexual. A insatisfação sexual, ou a falta de descarga da excitação sexual, seria a origem dos desequilíbrios psíquicos, do estabelecimento e da retroalimentação da neurose. O orgasmo seria uma função psíquica que teria o importante papel de equilibrar o sistema através da descarga.

Reich (2009) descreveu que a função do orgasmo se revela como um ritmo de quatro tempos: tensão mecânica → carga bioenergética → descarga bioenergética → relaxamento mecânico, e afirmou ser esse um fenômeno biológico fundamental; “fundamental”, porque a descarga orgástica da energia ocorre na própria raiz do funcionamento biológico. O movimento da mecânica universal (contração e relaxamento) é espontâneo e intrínseco às formas de vida. A manifestação da função pulsatória não se restringe ao fenômeno orgástico sexual, é um movimento que Reich (2009) definiu como “reflexo orgástico”, manifesto em órgãos e funções corporais globais.

A energia é uma premissa que intrigou Reich desde o início, e dedicou toda a sua vida à pesquisa científica a fim de comprovar a realidade de uma energia que permeia toda a matéria-viva. Dadoun (1991, p. 56) assinala que:

> “(…) a energia é abordada, quer analise as vivências emocionais e os diferentes modos de expressão de seus pacientes; quer descreva as circulações (…) da energia orgástica, para assinalar os momentos de êxtase ou bloqueio, os ganchos, os pontos de ancoragem e rigidez; quer coloque na cena, política ou antropológica, as intervenções repressivas da sociedade, (…), ou quer examine os grandes fenômenos da natureza; (…) etc, Reich trata sempre da mesma realidade primordial, da mesma energia vital específica.”

Volpi (2019, p. 126) descreve diferentes conceitos acerca da energia:

> “A existência da presença de uma energia no organismo vivo é mencionada desde os primórdios da civilização. A medicina chinesa reconhece uma força de energia que denominou Chi, cujo método tradicional da acupuntura foi baseado nesse princípio. Na Índia, essa mesma energia recebeu o nome de Prana. O filósofo Henri Bergson denominou-a de élan vital, o biólogo Hans Driesch, de enteléquia e o psicólogo William McDougall, de energia hórmica. Charles Littlefield instituiu o conceito de magnetismo vital, Sigmund Freud falou de uma energia psíquica e Wilhelm Reich da energia orgônio.”

No sumário do livro *A Somatopsicodinâmica*, de Navarro, Dadoun (1995, p. 13) introduz a visão energética reichiana apontando que, no campo humano, a energia aparece sempre representada:

> “Simplificando ao extremo, diríamos que ela está ligada nas estruturas biológicas (órgãos, tecidos, sobretudo os musculares) até mesmo quando depositada em estases (energia estagnada), e que está representada nas formações psíquicas, especialmente nos traços de caráter. Estas são como incisões na corporeidade, e irão se manifestar na esfera psíquica e somática. Podem ser observados na reatividade específica da comunicação verbal e não-verbal: tom de voz, linguagem, gestos, modo de reagir, postura, expressões faciais, etc.”

Outro conceito relevante à compreensão dos processos de rigidez somática é o de “potência orgástica”, que Reich (1998) definiu como a capacidade de se entregar ao fluxo da energia biológica, sem quaisquer inibições; a capacidade de descarregar completamente, por meio de convulsões involuntárias e prazerosas do corpo, a excitação sexual acumulada. Conclui que o gozo puramente mecânico não leva à descarga do acúmulo da excitação necessária à retomada do livre fluxo da energia no corpo.

Quando publicou a teoria da Análise do Caráter, o autor propôs que a formação do caráter é um processo que se dá de modo relacional, na dialética do indivíduo e sociedade. O contexto no início do século XX era da ascensão capitalista, trazendo novos valores às relações, e tendo a ideologia cristã como aliada na moralização e disciplinarização dos corpos. A estrutura psíquica dos indivíduos, pressionada pelo impacto da assimilação dos mecanismos de normatização dos modos de vida, apresentava uma série de distúrbios patológicos.

Reich (1998, p. 7) considera que “a estrutura do caráter é o processo sociológico congelado de uma determinada época”, ou seja, se constitui ao longo da história do indivíduo através da qualidade das relações objetais nas etapas do desenvolvimento emocional. Deste ponto de vista, a principal funcionalidade do caráter é gestar a energia pulsional para manter o equilíbrio psíquico e energético. Ele conclui que:

> “De repente viu-se claramente onde se devia procurar o problema da quantidade: não podia ser senão na base orgânica, núcleo somático da neurose, a neurose atual que resulta da libido contida. Assim, portanto, o problema econômico da neurose, bem como sua cura, estavam, em grande medida, na esfera somática, isto é, só era acessível por meio do conteúdo somático do conceito da libido.”

Aqui se inicia a hipótese de pensar um substrato que foi identificado como manifestação de rigidez muscular em diferentes áreas do corpo e é denominada de couraça muscular. Esta seria equivalente à rigidez somática das dinâmicas psicofísicas típicas de cada indivíduo. Portanto, Reich (1998) concluiu que o caráter e a atitude muscular partilhavam da mesma funcionalidade energética, ou seja, integravam uma mesma unidade biopsíquica.

Na clínica, ele passou a atentar aos aspectos comportamentais, dando ênfase ao modo como a história pessoal é contada, e não somente às ideias que determinado conteúdo representavam. O conceito de material analítico passou a incluir, além do conteúdo verbal, a observação do caráter do analisante em seu modo de ser, agir e reagir.

Segundo Reich (1998, p. 41):

> “A avaliação unilateral, e por isso incorreta, do material analítico e a aplicação muitas vezes incorreta da tese freudiana, segundo a qual o analista deve partir da superfície psíquica, levam facilmente a mal-entendidos catastróficos e a dificuldades técnicas. Antes de mais nada, o que se deve entender por material analítico? Comumente considera-se que são as comunicações, os sonhos, as associações, os lapsos do paciente. Teoricamente, sem dúvida, sabe-se que o comportamento do paciente tem importância analítica, mas experiências inequívocas em seminário mostram que seu jeito, seu olhar, sua linguagem, sua expressão facial, seu vestuário, a maneira de apertar a mão etc., não só são amplamente subestimados em termos de sua importância analítica como, em geral, completamente desprezados.”

O foco da análise deveria ser a identificação do caráter e a específica resistência de cada analisante, antes de tomar interpretações precoces ao material comunicado nas sessões.

Segundo Reich (1998, p. 60):

> “Economicamente, o caráter na vida diária e a resistência de caráter na análise servem como meio de evitar o que é desagradável, de estabelecer e preservar um equilíbrio psíquico (ainda que neurótico) e, por fim, de consumir quantidades recalcadas de energia pulsional e/ou quantidades que escaparam à repressão. A ligação da angústia que flui livremente, ou a absorção de energia psíquica represada, é uma das funções principais do caráter.”

O corpo fala através de uma linguagem não-verbal, com seus modos de discurso, de como se movimenta ou se posiciona, a expressão emocional; ou seja, o conjunto de reações e formas são tão relevantes quanto as ideias representativas. Volpi (2019, p. 62) sintetiza o marco da aproximação de Reich ao corpo:

> “Ao ter clara a relação existente entre estrutura de caráter e rigidez muscular, Reich decidiu quebrar o tabu psicanalítico de não tocar o paciente e passou a trabalhar diretamente na couraça muscular, já que ela contém a história da pessoa, além de aprisionar a energia dentro de si. (…) A dissolução de uma couraça não só libera a energia vegetativa, mas também traz à memória recordação de situações infantis causadoras de tais encouraçamentos. Segundo ele, a neurose não é somente a expressão de uma perturbação do equilíbrio psíquico, mas muito mais profundo que isso. É a expressão de uma perturbação crônica do equilíbrio vegetativo e da motilidade natural do indivíduo como um todo.”

Referências

BEDANI, A. *A relação entre sensação e produção de conhecimento na obra de Wilhelm Reich*. Tese de Doutorado. São Paulo: USP, 2013.
DADOUN, R. *Cem flores para Wilhelm Reich*. São Paulo: Moraes, 1991.
NAVARRO, F. *Somatopsicodinâmica: sistemática reichiana da patologia e da clínica médica*. São Paulo: Summus, 1995.
NAVARRO, F. *Caractereologia pós-reichiana*. São Paulo: Summus, 1995.
RAKNES, O. *Wilhelm Reich e a orgonomia*. São Paulo: Summus, 1988.
REICH, W. *Análise do caráter*. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
REICH, W. *A biopatia do câncer*. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.
REICH, W. *O éter, Deus e o diabo; A superposição cósmica*. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
VOLPI, J. H. *Psicoterapia corporal: um trajeto histórico de Wilhelm Reich*. Curitiba: Centro Reichiano, 2019.
Sobre o(s) autor(es)

Claudia Eliane Rocha da Silva

Estudante de Psicologia Corporal no Centro Reichiano – Curitiba/PR. Shiatsuterapeuta e Kinesiologista. Terapeuta holística com formação em Reiki Usui (Sandra Caieiro – Santa Maria/RS) e técnicas do sistema de medicina do norte da Tailândia: Reflexologia Podal, Thai Yoga Massagem, Aromaterapia Corporal e Terapia vibracional Tok Sen (Ong´s Thai School – Chiang Mai).cacauilimitada@gmail.com

José Henrique Volpi

Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psico-corporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. volpi@centroreichiano.com.br

Como citar este artigo:

SILVA, Claudia Eliane Rocha da; VOLPI, José Henrique. Amplitude da escuta na psicoterapia corporal reichiana. Revista Científica Eletrônica de Psicologia Corporal, Curitiba, v. 23, p. 26-35, 2022. e-ISSN 3086-1438. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/artigos/amplitude-da-escuta-na-psicoterapia-corporal-reichiana/. Acesso em: 04/06/2026.