A flexibilização das couraças e o amadurecimento do caráter através da reatualização hipnótica
The flexibilization of character armor and character maturation through hypnotic reactualization
Resumo
Palavras-chave: Psicologia Corporal; Couraça; Hipnose; Flecha do tempo; Reatualização.
Abstract
Keywords: Body Psychology; Character Armor; Hypnosis; Arrow of Time; Reactualization.
A psicologia corporal e as profundas inter relações entre soma e psiquê
A Psicologia, nascida no final do século XIX, é considerada uma ciência bastante nova, multifacetada, complexa e longe de atingir o seu objetivo por completo: entender o ser humano. Como este seu objeto de estudo é extremamente complexo e com uma miríade de fenômenos humanos igualmente complexos, esta ciência acabou se dividindo em várias escolas psicológicas com visões de homem e de mundo bastante diferentes e divergentes entre si.
Uma das correntes psicológicas significativas é a Psicologia Corporal, que ancora a sua teoria e práxis em um elemento indissociável ao ser humano: o seu corpo. Segundo Volpi & Volpi (2022, p. 113),
> A Psicologia Corporal dedica-se a estudar as manifestações da mente sobre o corpo e do corpo sobre a mente, partindo do pressuposto de que ambos, mente e corpo, fazem parte de um único movimento energético, manifestando-se no comportamento. Em outras palavras, é uma abordagem humana que busca compreender todo ser vivo como uma unidade de energia que contém em si dois processos paralelos: o psiquismo (mente) e o soma (corpo), regidos por uma mesma energia: o orgônio. Tem por objetivo reencontrar a capacidade do ser humano de regular a sua própria energia e, por consequência, seus pensamentos e emoções, oferecendo a ele a oportunidade de alcançar uma vida mais saudável.
Apesar de qualquer ser humano minimamente capaz de refletir provavelmente concordar sobre a importância do corpo na existência de toda pessoa, coube a Reich, o pai das psicoterapias corporais, o pioneirismo na consideração da inter relação profunda entre os processos psíquicos e somáticos (VOLPI & VOLPI, 2022).
Tendo iniciado o seu trabalho terapêutico na psicanálise, ao lidar com as resistências dos seus pacientes, Reich observou a interconexão entre os conteúdos verbais trazidos por eles e suas manifestações não-verbais, como postura corporal, gestos, tom de voz, vestimentas. Com isso, ele tirou seu paciente do divã e passou a tratá-lo de uma forma mais ativa, conversando frente a frente. Além disso, apontava a forma como o corpo do seu paciente se expressava e como isso estava relacionado ao conteúdo verbal trazido por ele.
Com o desenvolvimento da sua prática clínica e pesquisas, Reich descobriu que, paralelamente à manifestação das defesas psíquicas – a chamada “couraça do caráter” –, o indivíduo também possui a “couraça muscular”: a manifestação somática a nível muscular da couraça psíquica. De acordo com Baker (1980, p. 36), “couraça é a resultante da energia contida por uma contração muscular, que não flui pelo corpo”. Para a constituição da teoria e da prática da Psicologia Corporal, foi fundamental a
> descoberta da couraça muscular, que é o equivalente corporal dos bloqueios emocionais, evidenciando que tudo o que está na mente, também encontra-se registrado no corpo, por meio de tensões crônicas físicas formadas ao longo da vida, cuja função é proteger o indivíduo e seu Ego de experiências dolorosas e ameaçadoras. Assim, para se defender, o corpo adota novas posturas, retendo emoções específicas como o medo, demonstrado pelos olhos arregalados, a raiva pela tensão no maxilar, etc. Embora a função da couraça seja a de proteger, também restringe a vitalidade do indivíduo (VOLPI & VOLPI, 2022, p. 116).
Paralelamente à descoberta da couraça muscular, também podemos falar de um processo de encouraçamento, que ocorre através das sucessivas etapas do desenvolvimento emocional e que “seguem uma sequência lógica, uma organização e um calendário maturativo. […] é durante essas etapas que irão se organizar o temperamento, a personalidade e o caráter” (VOLPI & VOLPI, 2022, p. 122).
De acordo com Volpi & Volpi (2022, p. 127),
> Todos os seres humanos passam pelas mesmas etapas, independentemente de tempo e lugar em que se encontrem. Tais etapas foram delimitadas com base no corpo, apoiando-se no desenvolvimento físico e nas funções vitais do organismo. Isso faz sentido se lembrarmos novamente que na base de tudo está a energia. Nosso corpo registra todos os acontecimentos vividos durante a nossa vida, principalmente aqueles ocorridos na primeira infância, quando as formas que encontramos para nos defender ainda são precárias. Esses acontecimentos muitas vezes deixam no corpo marcas profundas e irreversíveis.
Vale ressaltar que, para a Psicologia Corporal – ao contrário da Psicanálise freudiana –, a época da gestação e nascimento é considerada como a primeira etapa da vida humana, cuja vivência pode impactar profundamente na constituição psico-corporal do indivíduo. Assim, temos 4 etapas do desenvolvimento emocional: etapa de sustentação, etapa de incorporação, etapa de produção e etapa de identificação (VOLPI & VOLPI, 2022).
No decorrer dessas etapas, segundo Volpi & Volpi (2022, p. 125-126),
> Conforme a criança vai crescendo, desenvolvendo-se, vai apreendendo novas experiências que ficam registradas na memória celular em forma de imprintings, marcas, registros. […] Cada etapa é caracterizada por fenômenos específicos que desde o início trazem consigo, na bagagem genética da célula, valores biofisiológicos, emocionais-afetivos e intelectivos. […] Ao se completarem as etapas do desenvolvimento emocional, que vai dos seis anos até o início da adolescência, o que sucede é o estabelecimento definitivo do caráter, que é a forma do indivíduo agir e reagir perante todas as situações que o mundo lhe impõe (Reich, 1933). Portanto, “o caráter específico de cada indivíduo é a resultante de todas as experiências ocorridas desde a concepção até a maturidade” (LOWEN, 1958 apud VOLPI & VOLPI, 2022, p. 126).
Através da compreensão das etapas do desenvolvimento emocional e da investigação dos bloqueios energéticos e emocionais consolidados no corpo e na psiquê do paciente – com o entendimento de que esses bloqueios foram formados como defesas do ego com a finalidade de sobrevivência –, a análise reichiana visa a realização de um diagnóstico caracterológico (com diferenciação entre o traço caracterológico de base e a cobertura caracterológica) e de um projeto terapêutico, para nortear a condução do tratamento psicoterapêutico corporal e auxiliar o paciente no seu crescimento e maturação caracterológica de maneira mais efetiva.
O amadurecimento caracterológico é viabilizado mediante análise verbal e trabalho psico-corporal, de forma que gradativamente vai sendo realizada a flexibilização e dissolução das couraças musculares presentes no corpo do paciente.
> A situação pode ser aliviada através de uma inversão do processo de encouraçamento obtida pela dissolução da couraça, pela liberação e esvaziamento das emoções reprimidas uma camada depois da outra, desde o último até o primeiro dos bloqueios, até ser restabelecida uma função integrada a nível orgânico para se atingir a sexualidade natural (BAKER, 1980, p. 42).
Os actings da vegetoterapia e os estados alterados de consciência
Tradicionalmente, o trabalho psico-corporal fazendo uso das técnicas da Vegetoterapia Caracteroanalítica formulada por Reich e sistematizada por Federico Navarro é realizado através dos actings, movimentos corporais específicos que visam a liberação da energia contida em cada segmento de couraça.
É interessante notar que, por vezes, o trabalho psico-corporal pode gerar a alteração qualitativa do funcionamento mental do paciente, levando este a um estado alterado de consciência. Lowen relata uma experiência muito impactante que teve em uma das sessões que fez com Reich, tendo ingressado em um estado alterado de consciência típico de uma regressão, em que reviveu uma memória com todos os seus matizes emocionais e somáticos.
A reatualização hipnótica e a dissolução das couraças
Entretanto, a liberação da energia da couraça muscular não ocorre somente através de trabalhos psico-corporais, os quais podem fazer emergir estados incomuns de consciência. É possível também induzir o paciente a um estado alterado de consciência para que, em um trabalho que envolve liberação de energias emocionais e somáticas, haja flexibilização e dissolução de couraças. Roger Woolger relata um caso muito interessante de dissolução de couraça através do uso da hipnoterapia.
A validade do uso da regressão hipnótica na flexibilização e dissolução de couraças ganha uma dimensão maior ainda quando introduzimos na terapia reichiana o conceito de flecha do tempo. De acordo com Melo (2022), Reich revolucionou a análise ao introduzir o corpo através da análise do caráter e do trabalho psico-corporal, Navarro contemplou as etapas do desenvolvimento emocional para fazer a leitura corporal e análise caracterológica do paciente e Genovino Ferri acrescenta algo fundamental na análise reichiana: a flecha do tempo.
A flecha do tempo e a reatualização das experiências emocionais
> O tempo indica a passagem da flecha do tempo no movimento vital dentro da forma vivente. Ele define a história de uma forma em suas relações com o mundo e traz vivências que vão deixando suas “marcas” (traços de caráter) e caracterizando a estrutura e o caráter daquela pessoa.
> A flecha do tempo traz para o setting a dimensão do tempo interno da pessoa. O tempo vivido nas diferentes fases evolutivas têm ritmos diferentes. E a forma como a pessoa viveu uma determinada fase também influencia em como sentiu ou experienciou o tempo internamente, isto é, na vivência do seu tempo interno.
> É evolução na continuidade, de Navarro a Ferri. Neste processo, ganhamos precisão de focar cada fase na sua flecha do tempo, com sua vivência específica, seu ritmo específico, o objeto relacional específico e a forma como a relação foi vivida naquele “lá e então” daquela pessoa; O “lá e então” permanece no “aqui e agora” da pessoa, através do traço de caráter formado naquele momento passado (MELO, 2022, p. 34).
Porém, nessa perspectiva de Ferri, ao contrário do que se afirma na psicanálise e na hipnose, não há uma regressão, mas sim uma reatualização. “Não voltamos no tempo, não regredimos. O que acontece é que o tempo passado fica aprisionado no traço de caráter e é reatualizado no aqui e agora. Na vida, circunstâncias externas ou internas podem trazer de volta aquele tempo vivido no passado, e de repente, a condição passada está presente, energeticamente” (MELO, 2022, p. 35).
Da mesma forma que as circunstâncias podem reatualizar uma situação emocional vivenciada no passado e trazê-la à tona psicológica e corporalmente, “o acting reatualiza aquela condição energética gravada no nível envolvido e no traço de caráter envolvido e permite que esta condição seja transformada, equilibrada” (MELO, 2022, p. 34).
Assim, podemos pensar na utilização da hipnose não para uma mera regressão ao passado, mas, da mesma forma que o acting da vegetoterapia caracteroanalítica, para uma reatualização do passado que se torna presente e, desse modo, transformar e harmonizar as couraças musculares e os traços de caráter correspondentes.
O projeto terapêutico de amadurecimento do caráter do paciente pode contar dessa forma com a técnica de reatualização hipnótica, plenamente efetiva e capaz na flexibilização e dissolução das couraças. Com mais energia disponível fluindo e circulando pela sua estrutura somatopsicológica, o ser humano aprimora sua capacidade de autorregulação e de contato com o seu cerne biológico, usufruindo de uma vida mais saudável e resgatando a sua sexualidade natural.
Referências
LOWEN, A. Bioenergética. São Paulo: Summus, 1982.
MELO, M. Leitura corporal x gramática corporal – um salto evolutivo. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. (Org.) Apostila do curso de Especialização em Psicologia Corporal. Módulo 1, Unidade 4. Curitiba: Centro Reichiano, 2022. Acesso em: 10/09/2022.
VOLPI, J. H; VOLPI, S. M. Crescer é uma aventura! Desenvolvimento emocional segundo a Psicologia Corporal. 3ª ed., Curitiba: Centro Reichiano, 2022.
WOOLGER, R. As Várias Vidas da Alma. 14ª ed., São Paulo: Ed. Cultrix, 2015.
Sobre o(s) autor(es)
Daniel Martynetz
Bacharel em Psicologia pela UFPR. Terapeuta Holístico. Especialista em Psicologia Transpessoal, Hipnose, Terapia de Vidas Passadas e Constelação Familiar. Cursando Especialização em Psicologia Corporal, com habilitação para atuar como Terapeuta Corporal Reichiano //ou// Bioenergético, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR. daniel.olorum@gmail.com
José Henrique Volpi
Psicólogo (CRP-08-3685), Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Ericksoniana, Psicodrama e Brainspotting. Psicoterapeuta Corporal Reichiano, Analista psico-corporal Reichiano formado com o Dr. Federico Navarro (Vegetoterapia e Orgonoterapia). Especialista em Acupuntura clássica e Método Ryodoraku (eletrodiagnóstico computadorizado de medição da energia dos meridianos do corpo). Mestre em Psicologia da Saúde. Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento. volpi@centroreichiano.com.br