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Corpos em conflito na bioenergética

Uma análise crítica da representação da homossexualidade masculina na obra “Amor e orgasmo”, de Alexander Lowen

Bodies in conflict in bioenergetics

A critical analysis of the representation of male homosexuality in Alexander Lowen's work “Love and Orgasm”


Marcos Roberto Batista
Centro Reichiano · Goiânia-GO · Brasil
Sandra Mara Volpi
Centro Reichiano · Curitiba-PR · Brasil
Revista Científica Eletrônica de Psicologia Corporal
v. 26 · 2025 · p. 10-16 · e-ISSN 3086-1438
Recebido: 21 mar. 2025 · Publicado: 22 mar. 2025

Resumo

O objetivo deste artigo é apresentar a abordagem da homossexualidade masculina na obra “Amor e Orgasmo”, de Alexander Lowen, publicada em 1965. Para isso, será realizada uma breve exposição sobre o tema, juntamente com uma contextualização histórica e uma análise da referida obra.

Palavras-chave: Amor; Homossexualidade masculina; Lowen; Orgasmo.


Abstract

The aim of this article is to present the approach to male homosexuality in Alexander Lowen's work “Love and Orgasm”, published in 1965. To this end, a brief discussion of the topic is presented, accompanied by a historical contextualization and an analysis of the work.

Keywords: Love; Male homosexuality; Lowen; Orgasm.


A problemática da homossexualidade masculina inclui uma série de questões complexas e multifacetadas, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos e sociais.

No âmbito biológico, ainda há muitas indagações acerca dos fatores que determinam a orientação sexual de indivíduos que se sentem atraídos pelo mesmo gênero.

No campo psicológico, esses sujeitos podem lutar contra sentimentos de culpa, ansiedade e vergonha, frequentemente internalizados por padrões heteronormativos.

Na esfera social, homens homossexuais enfrentam, com muita frequência, discriminação, estigmatização e preconceito, o que pode acarretar dificuldades na aceitação de sua própria identidade e no desenvolvimento de relacionamentos saudáveis.

Além disso, a homossexualidade masculina desafia os modelos tradicionais de masculinidade, agravando ainda mais a integração dessas pessoas na sociedade.

Historicamente, os estudos científicos sobre a homossexualidade começaram no século XIX, impulsionados pela reforma psiquiátrica europeia e pelo interesse em classificar os transtornos mentais. Conforme Spencer (1996), Karl Ulrichs, um advogado alemão e o primeiro ativista homossexual da história, publicou panfletos entre 1864 e 1868 defendendo que o amor entre homens é natural, cunhando o termo uranismo. Em resposta, Karl Westphal, da Universidade de Berlim, criou o termo *conträre Sexualempfindung*, considerando a homossexualidade congênita e não antinatural. Não obstante, a Alemanha criminalizou a homossexualidade em 1871, revogando essa legislação apenas em 1994. Psiquiatras como Valentin Magnan e Richard von Krafft-Ebing trataram a homossexualidade como degeneração e anomalia sexual. Ao mesmo tempo, Havelock Ellis, na Inglaterra, argumentou que ela era congênita e natural (Spencer, 1996).

Nesse contexto, surgiu a figura revolucionária de Sigmund Freud, que abordou a homossexualidade em vários textos, incluindo *Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade* (1996a), *Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância* (1996b), *O caso Schreber* (1996c) e *Psicogênese de um caso de homossexualidade numa mulher* (1996d), publicados pela primeira vez em 1905, 1910, 1911 e 1920, respectivamente.

Freud (1996a) considerava a homossexualidade uma orientação sexual autêntica, equiparando-a à heterossexualidade. Segundo o autor austríaco, essa orientação é fundamentada no complexo de Édipo e na bissexualidade original, sugerindo que a escolha do objeto sexual é independente do sexo, estando presente de forma inconsciente em todos os seres humanos.

Ele aduziu que tanto a homossexualidade quanto a heterossexualidade coexistem de forma latente em todos os indivíduos e que a Psicanálise visa permitir a expressão desses desejos latentes (Freud, 1996d).

Freud (1996a) declarou que a pulsão sexual humana não tem um objeto fixo e é diversificada, anárquica e plural, tendo como meta principal o prazer, distanciando a sexualidade da procriação. Ele refutou a criminalização da homossexualidade e defendeu que ela não é uma doença, mas sim uma variante natural da sexualidade humana.

Em uma carta de 1935, o pai da Psicanálise reiterou que a homossexualidade não é uma desonra nem um vício e que a análise psicanalítica pode ajudar o sujeito a encontrar paz psíquica, independentemente de sua orientação sexual (Vieira, 2009).

Prosseguindo cada vez mais em direção ao objetivo deste artigo, temos o médico e ex-psicanalista Wilhelm Reich, conhecido por suas contribuições fundamentais para as abordagens psicoterápicas corporais e pela análise da sexualidade em termos da economia psíquica.

Reich (1998) acreditava que a sexualidade tinha importância primordial no tratamento terapêutico, sendo a gênese das neuroses de seus pacientes. Ele argumentava que toda estrutura neurótica apresenta, de uma forma ou de outra, um distúrbio genital, provocando a estase sexual e, assim, fornecendo à neurose sua fonte de energia.

Para ele, restabelecer a genitalidade madura natural acarretaria o fim da neurose, promovendo uma vida saudável. Além disso, engajou-se em questões político-ideológicas com o objetivo de combater a repressão sexual, que considerava a origem da infelicidade e da disfunção sexual. Suas concepções políticas incluíam propostas radicais para a época, como a abolição das leis que condenavam as práticas homossexuais e a livre distribuição de anticoncepcionais (Raknes, 1988).

Embora tenha explorado amplamente a sexualidade, Reich deixou poucos escritos sobre a homossexualidade. Em *O combate sexual da juventude* (1978) e *A revolução sexual* (1979), publicadas originalmente em 1932 e 1936, respectivamente, ele aborda a homossexualidade sob um prisma geneticista, afirmando que ela poderia surgir de um desenvolvimento defeituoso na infância.

Mais tarde, Reich (1979) passou a conceber a homossexualidade como uma perturbação psíquica e sexual, embora não acreditasse que ela devesse ser punida ou condenada. Também fez duras críticas à criminalização da homossexualidade na Rússia, em 1934, alegando que ela não constituía um crime social e deveria ser equiparada à heterossexualidade, exceto em casos de abuso.

Observam-se, assim, aproximações e afastamentos nas visões de Freud e Reich acerca dessa questão, criando o palco em que se desenvolveram as ideias de Alexander Lowen a esse respeito.

Alexander Lowen foi um renomado terapeuta e escritor, célebre por desenvolver a Análise Bioenergética, uma abordagem psicoterapêutica que combina corpo e mente, inspirada nos princípios de Wilhelm Reich, com quem estudou e fez terapia por vários anos. Fundou o Institute for Bioenergetic Analysis (IIBA) em 1953 e, a partir daí, sua influência cresceu mundialmente, impactando sociedades em várias partes do mundo e internacionalizando o instituto em 1976.

Lowen explorou temas como energia orgástica, amor, orgasmo e depressão em obras icônicas como *O corpo em terapia* (1977), *Bioenergética* (2017) e *Amor e orgasmo* (1988), as quais foram publicadas pela primeira vez, respectivamente, em 1958, 1976 e 1965, sendo esta última a obra foco deste artigo.

*Amor e orgasmo* (1988) é estruturado em 17 capítulos, cada um abordando diferentes aspectos da sexualidade humana. O livro inicia-se com uma discussão sobre a sofisticação sexual em contraste com a maturidade sexual e continua examinando a complexa relação entre amor e sexo em dois capítulos consecutivos.

O autor também discute individualidade, morte e sexualidade, antes de investigar temas específicos como a homossexualidade latente. A heterossexualidade é abordada em um capítulo próprio, seguida por uma análise das diferenças entre a sexualidade masculina e a feminina e da distinção entre sexualidade e sensualidade.

Lowen (1988) dedica dois capítulos de sua obra ao orgasmo sexual e à impotência orgástica, tanto no homem quanto na mulher. O livro também trata do duplo padrão de moralidade sexual e dos papéis tradicionais de homens e mulheres, finalizando com uma reflexão sobre a verdade do corpo. Além disso, chama a atenção do leitor para o modo como a moderna sofisticação de seu tempo frequentemente encobre a imaturidade emocional e os conflitos internos, resultando em uma abordagem superficial do sexo, que valoriza o desempenho e a técnica acima da autenticidade e da satisfação emocional genuína do indivíduo.

Além disso, enfatiza que o sexo não pode ser completamente dissociado do amor, pois ambos compartilham uma conexão profunda e complexa, influenciada por experiências emocionais desde a infância até a vida adulta.

A teoria da homossexualidade de Lowen, apresentada no livro, baseia-se em quatro pressupostos centrais. Primeiro, ele sugere que o problema do homossexual se origina de relações disfuncionais com a mãe, nas quais ela busca satisfação emocional e sexual por meio do filho, criando uma relação incestuosa que afeta negativamente a identidade da criança.

Segundo, mostra como uma dinâmica familiar em que uma mãe sedutora e um pai rejeitador interagem pode contribuir para a orientação homossexual do filho. Segundo sua perspectiva, a hostilidade do pai pode afastar o filho da identificação masculina e aproximá-lo ainda mais da figura materna.

Terceiro, explica a fixação do homossexual em uma fase infantil de seu desenvolvimento psicossexual, na qual o amor por si mesmo se torna primordial. Argumenta que ele busca a completa realização por meio do amor a uma imagem idealizada de si mesmo antes de procurar um relacionamento maduro com o outro.

Finalmente, o autor descreve o homossexual como alguém com falta de vitalidade corporal, caracterizada pela desconexão entre sexualidade e sentimentos e pela ausência de expressão emocional.

Em geral, Lowen (1988) revela suas opiniões críticas e morais sobre a homossexualidade, enquanto busca fundamentar suas ideias em uma teoria psicológica. Ele argumenta que a heterossexualidade é a forma mais adequada e satisfatória de sexualidade, sugerindo que a homossexualidade pode ser reduzida ou eliminada por meio de intervenções terapêuticas.

Concluindo, pode-se observar que a visão de Lowen sobre a homossexualidade masculina, apresentada em *Amor e orgasmo*, sofreu a influência da heteronormatividade predominante em sua época. É importante considerar as críticas contemporâneas à sua abordagem, frequentemente vista como reducionista, moralmente tendenciosa e fundamentada em estereótipos de gênero.

Reconhece-se que, no tempo de Reich e de seus colaboradores, as discussões sobre gênero e sexualidade eram profundamente diferentes das atuais, o que chama a atenção para a importância de revisões modernas e inclusivas.

Todavia, as ideias de Lowen (1988) são relevantes para a compreensão histórica da homossexualidade masculina, uma vez que oferecem uma análise das dimensões emocionais e corporais da sexualidade, desafiando tabus e mitos e promovendo uma visão integradora das experiências afetivas e sexuais.

Espera-se que pesquisas futuras articulem as teorias da Psicologia reichiana com contribuições contemporâneas, de modo a oferecer uma perspectiva atualizada sobre a homossexualidade masculina.

Referências

FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: STRACHEY, J. (ed.). Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996a. v. 7, p. 123-245.
FREUD, S. Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância. In: STRACHEY, J. (ed.). Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996b. v. 11, p. 67-137.
FREUD, S. O caso Schreber. In: STRACHEY, J. (ed.). Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996c. v. 12, p. 9-78.
FREUD, S. Psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher. In: STRACHEY, J. (ed.). Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996d. v. 18, p. 147-172.
LOWEN, A. Amor e orgasmo: guia revolucionário para a plena realização sexual. São Paulo: Summus, 1988.
LOWEN, A. Bioenergética. 12. ed. São Paulo: Summus, 2017.
LOWEN, A. O corpo em terapia: a abordagem bioenergética. 11. ed. São Paulo: Summus, 1977.
RAKNES, O. Wilhelm Reich e a orgonomia. São Paulo: Summus, 1988.
REICH, W. Análise do caráter. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
REICH, W. A revolução sexual. 5. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
REICH, W. O combate sexual da juventude. 2. ed. Lisboa: Antídoto, 1978.
SPENCER, C. Homossexualidade: uma história. Rio de Janeiro: Record, 1996.
VIEIRA, L. As múltiplas faces da homossexualidade na obra freudiana. Revista Mal-Estar e Subjetividade, Fortaleza, v. 9, n. 2, p. 487-525, jun. 2009.
Sobre o(s) autor(es)

Marcos Roberto Batista

Licenciado em Ciências. Mestre em Geometria e Topologia (UFG). Doutor em Análise Matemática (UFG). Especialista em Psicanálise (IPOG). Especialista em Sexologia e Terapia Sexual. Cursando Especialização em Psicologia Corporal, pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR. Atualmente, é professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás, Câmpus Goiânia – GO. marcos.batista@ifg.edu.br

Sandra Mara Volpi

Psicóloga (CRP-08/5348) formada pela PUC-PR. Analista Bioenergética (CBT) e Supervisora em Análise Bioenergética (IABSP), Especialista em Psicoterapia Infantil (UTP) e Psicopedagoga (CEP-Curitiba), Mestre em Tecnologia (UTFPR), Diretora do Centro Reichiano, em Curitiba/PR. sandra@centroreichiano.com.br

Como citar este artigo:

BATISTA, Marcos Roberto; VOLPI, Sandra Mara. Corpos em conflito na bioenergética. Revista Científica Eletrônica de Psicologia Corporal, Curitiba, v. 26, p. 10-16, 2025. e-ISSN 3086-1438. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/artigos/corpos-em-conflito-na-bioenergetica/. Acesso em: 01/06/2026.