Temperamento, Personalidade e Caráter segundo a Psicologia Corporal Reichiana

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O temperamento diz respeito á constituição biológica. A personalidade à construção do psiquismo, mundo interno da pessoa e o caráter é a expressão da personalidade que se dá por meio do comportamento (gestos, postura, tom de voz, etc). Nada está separado e por esse motivo é que Wilhelm Reich inseriu o corpo dentro da psicoterapia, numa proposta que ele denominou de Análise do Caráter.


Temperamento, personalidade e caráter

São muitas as teorias que trazem informações a esse respeito sendo que muitas delas diferem entre si no conceito de temperamento, personalidade e caráter. Abordaremos esses conceitos do ponto de vista da Psicologia Corporal Reichiana porque na prática clínica, são conceitos que orientam o terapeuta reichiano na condução do tratamento de seus pacientes.

Temperamento – está ligado à constituição, ou seja, às bases congênitas do indivíduo. É formado durante a vida intra-uterina. São as particularidades fisiológicas e morfológicas que diferencias as pessoas umas das outras em termos de energia: baixa, normal ou alta. Em se tratando do conceito de energia, Wilhelm Reich utilizou o conceito de orgônio para se referir à energia da vida, presente dentro e fora do corpo. O orgônio dá vida e a coloca em movimento. É como dizer que cada bebê tem sua maneira individual de ser e agir, de acordo com seu temperamento.

Personalidade é o conjunto de características mentais que formam parte de um indivíduo e os diferenciam dos demais. Demonstra-se por meio do caráter. Portanto, é a soma do temperamento com o caráter, resultante dos conflitos internos e das demandas externas que a criança sofre ao longo de seu desenvolvimento.

Caráter – é a expressão do temperamento e da personalidade em termos de comportamento. É o que vemos no indivíduos, em seus gestos, posturas, tom de voz, vestimentas, forma de se relacionar, etc. É o corpo em sua linguagem e expressão. Juntamente com a personalidade, forma-se ao longo do desenvolvimento infantil.

Dessa forma, quando estudamos a personalidade, também estudamos o caráter e vice-versa. No entanto, algumas escolas da Psicologia, focam seu trabalho apenas na personalidade, na psiquê, ao passo que outras, como é o caso da Psicologia Corporal, trabalha tanto com o temperamento (energia), a personalidade (psiquê), quanto com o caráter (corpo). É um tripé onde a energia interfere no momento da mente (psiquê) e do corpo (caráter), da mesma forma que a mente e/ou o corpo, interfere na energia.

Reich usava esse símbolo para representar o movimento da inter-relação existente entre esses três elementos: mente, corpo e energia.

A partir desses conceitos, Reich determinou que a personalidade e o caráter poderiam ser altamente comprometidos (psicótico), levemente comprometidos (neurótico) ou não comprometidos (genital). E com isso, desenvolveu um modelo de personalidade e caráter saudável neurótico com base em algumas tipológicas, ligadas ao estresse que a criança sofre ao longo do seu desenvolvimento infantil, desde a gestação até a adolescência.

Etapas do Desenvolvimento Infantil

Isso significa que ao longo do desenvolvimento infantil, a criança passa por algumas etapas que poderão ser saudáveis ou não, de acordo com o estresse sofrido. Essas etapas são definidas por Volpi e Volpi (2002) como:

Sustentação – corresponde ao período de gestação e primeiros dias de vida. Etapa em que o bebê precisa ter a sensação de ser aceito pela mãe, sem se sentir ameaçado em sua sobrevivência. Isso é passado pelos hormônios durante a gestação, por um bom parto e um bom contato do cheiro da mãe, olhar da mãe, toque da mãe principalmente nos primeiros dias de vida.

Incorporação – corresponde ao período que vai do nascimento até o nono mês de vida. Etapa em que o bebê precisa ter a sensação de ser amado pela mãe, o que é passado por meio de uma amamentação de qualidade e um desmame por volta do nono mês de vida e sem estresses.

Produção – corresponde ao período que vai dos dois anos até 5 anos aproximadamente. Etapa em que o pai precisa estrar presente na relação, em que a criança precisa de regras, porém não frustrantes, que o coloca numa posição de humilhação ou submissão, sem joguinhos do tipo “toma lá, da cá”, sem ameaça de castração, etc.

Identificação – corresponde ao período que vai dos cinco aos 8 anos aproximadamente. Etapa em que a criança precisa ter consciência de seus atos certos e errados, de sua sexualidade como forma de obter o prazer e não como mercadoria de troca, de poder, etc. Aprender a respeitar para ser respeitado.

Estruturação da personalidade/caráter – corresponde ao período que vai dos 8 anos até a adolescência. Etapa em que todos os traços de personalidade e de caráter começam a amadurecer e se tornar mais evidente de acordo com os possíveis bloqueios sofridos nas etapas anteriores.

Se a criança passar bem por cada uma dessas etapas, sem estresse, sua energia será saudável o suficiente para desenvolver uma personalidade/caráter do tipo genital. Caso contrário, se a criança sofre estresses em uma ou mais etapas, irá desenvolver um caráter do tipo neurótico.

Partindo, portanto, da afirmação de que atuar sobre o caráter, significa atuar também sobre a personalidade e sobre o temperamento, iremos então utilizar apenas a denominação caráter referindo-se ao conjunto de traços que expressa do temperamento e a personalidade em termos de comportamento.

Caráter  Genital x Caráter Neurótico

O caráter genital é aquele que Reich considerou como não blindado, autorregulado, que tem potência orgástica. Podemos pensar que é uma condição praticamente difícil principalmente na sociedade em que vivemos. Ser sociável, viver em sociedade, significa, portanto, ser neurótico. Mas mesmo não tendo uma tipologia de caráter genital, podemos ter traços desse caráter que também nos permite sermos o mais saudável possível.

O caráter neurótico por sua vez é gerado a partir dos bloqueios da energia que a criança sofre ao longo de cada uma das etapas do desenvolvimento onde sofreu o estresse. Isso quer dizer que o estresse provoca um bloqueio da energia que por consequência irá formar um traço de caráter que irá propiciar uma tipologia de personalidade e de caráter condizente à etapa que foi bloqueada.

Porém, quando esses traços se tornam insustentáveis, geram os transtornos patológicos da personalidade e do caráter, classificados segundo o DSM – Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (2013) como sendo padrões que causam sofrimento significativo ou comprometimento funcional. Nesse caso, muitas vezes é preciso tratar esses pacientes tanto com psicoterapia como com medicamento, sendo essa última atribuição da psiquiatria.

Tipologias de caráter neurótico

Ter claro as tipologias ou seja os traços de caráter que os pacientes desenvolveram ao longo de sua infância, é um referencial para o terapeuta clínico para identificar as etapas onde ocorreram os estresses e bloqueios energéticos a fim de ajudar o paciente a tomar consciência disso e amadurecer esses traços de caráter para ser o mais saudável possível a fim de conseguir alcançar os traços do caráter genital.

Usamos as descrições de Wilhelm Reich (2005) e Federico Navarro (1995; 1996) para descrever resumidamente essas tipologias e seus comportamentos básicos. São comportamentos neuróticos, não patológicos, ou seja, todos nós temos um ou mais desses traços.

Usamos a denominação de traços porque podemos ter um ou mais traços, marcas que se interpõem em nossa personalidade. É importante também considerar que cada traço pode ser leve, moderado ou severo, o que irá determinar o tipo de comportamento de acordo com o grau de comprometimento. Resumidamente são eles:

1) Núcleo Psicótico

Não é psicótico e sim, possui um núcleo psicótico que traz características próprias do caráter.
Bloqueio – O estresse e bloqueio da energia se deu na etapa de sustentação (gestação, parto e primeiros dias de vida).

Comportamento –  pessoa mais racional, dificuldade de se relacionar socialmente, timidez, dificuldade de toque, etc. Tendência a fantasiar para fugir da realidade quando essa é difícil de ser encarada, erros de interpretação, etc.
Nível de energia –  baixa hipoorgonótico
Quanto for patológico – quando o traço neurótico se torna patológico, doentio, pode gerar transtornos psicóticos, Transtorno de Despersonalização/Desrealização, Transtornos Dissociativos, etc.

2) Borderline

Bloqueio – O estresse e bloqueio da energia se deu na etapa de incorporação (amamentação e desmame).
Comportamento – mais emotivo, afetivo, dependente. Pode ser introvertido (oral reprimido) ou extrovertido (oral insatisfeito). Tendência a dramatizar como forma de chamar a atenção, mau humor, etc.
Nível de energia –  normal, mas desorganizada. Não consegue manter (desorgonótico)
Quanto for patológico – quando o traço neurótico se torna patológico, doentio, pode gerar traços orais reprimidos como melancolia, ruminação, etc, ou orais insatisfeitos como depressão, apatia, tristeza profunda, etc. Em ambas as situações orais, o nível patológico provoca uma dependência excessiva (simbiose) e carência afetiva extrema, Transtorno bipolar, Transtornos Depressivos, Transtorno Disruptivo de Desregulação do Humor, Transtornos Alimentares (anorexia, bulimia), etc.

3) Psiconeurótico

Bloqueio – O estresse e bloqueio da energia se deu na etapa de produção (analidade, controle dos esfíncteres) que pode gerar subtipos como:

3.1. Masoquista
Comportamento – calado, ruminante, sofredor, etc.
Quanto for patológico – quando o traço neurótico se torna patológico, doentio, pode gerar traços de sofrimento extremo, Transtorno de Escoriação, Tricotilomania, etc.

3.2. Obsessivo-Compulsivo
Comportamento – organizado, metódico, sistemático, meticuloso, etc.
Quanto for patológico – quando o traço neurótico se torna patológico, doentio, pode gerar o TOC – Transtorno Obsessivo-compulsivo, Transtorno de Acumulação, etc.

3.3. Passivo-Feminino (Homens) ou Agressivo-Masculino (Mulheres)
Comportamento (homens) – suave, delicado, com aparência frágil, etc.
Comportamento (mulheres)-
 pouco feminina, endurecidas, masculinizadas, etc.

Quanto for patológico – quando o traço neurótico se torna patológico, doentio, pode gerar traços de submissão extrema ou agressividade extrema.

Nível de energia –  em todos os subtipos, o nível de energia é alta e mal distribuída pelo corpo = hiperorgonótico desorgonótico.

4) Neurótico

Bloqueio – O estresse e bloqueio da energia se deu na etapa de identificação (descoberta do prazer genital) que pode gerar subtipos como:

4.1. Fálico-Narcisista
Comportamento – sedutor, galanteador, poderoso, competitivo, etc.
Quanto for patológico – quando o traço neurótico se torna patológico, doentio, pode gerar traços de grandiosidade e megalomania exageradas, preocupação excessiva do paciente com a constituição de sua musculatura  (Dismorfismo Muscular), Transtornos Sexuais (impotência, ejaculação precoce), etc.

4.2. Histérico
Comportamento – sedutor
Quanto for patológico – quando o traço neurótico se torna patológico, doentio, pode ocasionar a busca exagerada de atenção, Transtornos Sexuais (frigidez, vaginismo), etc.

Nível de energia –  em todos os subtipos, o nível de energia é alta  = hiperorgonótico.


REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION.  Diagnostic and Statistical Manual of Mental disorders – DSM-5. Porto Alegre: Artimed, 2013.  

NAVARRO, F. Caracterologia pós-reichiana. São Paulo: Summus, 1995

REICH, W. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 2005

VOLPI, J. H; VOLPI, S. M. Crescer é uma aventura! Desenvolvimento emocional segundo a Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2008


COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO

VOLPI, José Henrique. Temperamento, personalidade e caráter segundo a Psicologia Reichiana. In: VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara. Psicologia Corporal. Revista Online. ISSN-1516-0688. Curitiba: Centro Reichiano, 2019. Disponível em: http://www.centroreichiano.com.br/artigos-cientificos-em-psicologia/ Acesso em: ____/____/____.