Ser Psicólogo

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José Henrique Volpi* 

Quando entramos na Universidade, sonhos e expectativas não nos faltam, e em busca de um futuro melhor, somos movidos pelo desejo de aprender uma profissão. Alguns de nossos colegas trazem consigo a certeza da profissão sonhada; outros ainda não sabem ao certo o que fazer, mas mesmo assim continuam o curso até descobrirem novos potenciais que lhes permitem seguir até o fim; outros ainda, por incontáveis motivos, desistem no meio do caminho.

Aos que permanecem na jornada, superada essa primeira barreira do desejo, da identificação, várias outras dificuldades continuam se interpondo à vida acadêmica, fazendo com que o número de cadeiras vazias na sala de aula aumente a cada ano que passa.

Quantos de nós ainda não se recorda das dificuldades enfrentadas durante os cinco anos dedicados ao estudo da Psicologia? Quantos ainda não se recordam de momentos em que a teoria aprendida em sala de aula mobilizava nossos conteúdos emocionais de tal forma que acabava sendo motivo de muitas horas de psicoterapia? É… foram cinco anos de dedicação ao estudo do homem, de seu comportamento, de sua mente, de suas emoções. Foram cinco anos de busca de algo que pudesse preencher nossas lacunas intelectuais e emocionais, que pudesse nos fazer compreender e aprender a lidar com nossos próprios conflitos emocionais, para que no final, tivéssemos a certeza de poder ajudar aqueles que a nós recorressem.

Não é só com espinhos que nos deparamos em nossa formação. Também podemos encontrar a beleza e o perfume das flores, pois muitos são os momentos em que nos sentimos gratificados. A alegria do momento da colação de grau surge acompanhada de muita emoção, tanto por se ter conseguido alcançar o objetivo tão almejado, quanto por se ter superado as diversas dificuldades que foram aparecendo durante todo o percurso universitário. Talvez, muitos de nós, ali, naquele momento, não conheciam a dimensão dos desafios que estavam por vir.

A preocupação toma conta de alguns que ainda não conseguiram uma colocação no mercado de trabalho e com isso, uma nova batalha passa a ser travada, motivo de muitas desilusões, inseguranças e até mesmo desistências da profissão; ou então, motivo de novos desafios e da certeza do sucesso.

Não foram poucas as vezes que nesse caminho nos perguntaram ou nós mesmos nos perguntamos: por que sermos psicólogos? Quem somos? O que queremos? A inquietude perante si mesmo, tão característica do ser humano, não se cala quando somos colocados frente a frente com o compromisso social que assumimos e que nos confere uma identidade: a de psicólogos.

Será que somos capazes de precisar respostas a tais questionamentos? Será que devemos ter a pretensão de faze-lo?

A verdade é que imbuídos de nosso novíssimo título profissional, deparamo-nos com uma realidade bastante diferente daquela vivida por Freud, Jung, Skinner, Reich, Piaget e tantos outros teóricos que aprendemos em nossos anos de estudo. Vemo-nos diante de um país onde a Psicologia tem, hoje, como profissão, apenas algumas poucas décadas. E também nos vemos confrontados com um panorama social absolutamente diverso da Europa ou dos Estados Unidos da primeira metade do século passado. É em meio a tais constatações que, bravamente, dia após dia, vimos construindo a nossa identidade como psicólogos.

É inegável que muitos avanços foram feitos em relação ao reconhecimento da profissão, tanto na área da saúde, quanto da indústria e da educação. Cada um de nós conhece de perto o esforço demandado para expandir nossos limites em busca do estabelecimento de um espaço digno não apenas no mercado de trabalho, mas principalmente, na consciência da população. Espaço que nos garanta ser alguém que não o famoso “médico de louco” ou o “amigo remunerado”.

Ser psicólogo é conhecer sua própria identidade e ter coragem suficiente para questionar a si próprio  para mudar; é estar aberto ao inusitado, ao novo todo o tempo, tanto ao novo que surge perante si, quanto ao que surge em si mesmo; é ter um compromisso ético de estar aberto e de ser capaz de dar continência; é assumir como ponto central de seu interesse o mais surpreendente dos objetos de estudo: a emoção humana. E é jamais enrijecer-se e deixar de lado a possibilidade de com ela se surpreender e aprender.

Conhecer, conhecer-se são recursos indispensáveis em nossa atuação. E o conhecimento do psicólogo não é isolado de sua prática, mas um saber que gera ação. A ação, por sua vez, leva a novos conhecimentos e novas ações. O movimento que conduz a profissão não é linear nem estático, assim como não pretende um ponto final. É através de seu conhecimento e de seu trabalho que o psicólogo delimita seu espaço. Assim, pode realizar – tornar real – um retrato de si próprio, ainda que seja um retrato em constante mutação. De nada adianta o psicólogo se colocar no púlpito de seus conhecimentos, se não houver uma prática para comprova-los, questiona-los ou refuta-los, da mesma forma que de nada adianta o psicólogo se restringir a uma prática mecânica, desprovida de crescimento em termos de conhecimento, que o restringe – e por que não dizer: aprisiona – em seu próprio fazer.

A questão então é: qual é a intersecção, que une o conhecimento ao trabalho, a teoria à prática do psicólogo? Talvez uma resposta possível e que sintetiza em si tudo que se possa falar sobre a Psicologia e os psicólogos seja: amor. Amor num sentido que nos é difícil definir, mas que com certeza, com vontade, praticamos todos os dias. Sabemos que por mais que falemos as mais diferentes línguas da Psicologia, ela não seria nada sem o amor que lhe podemos dedicar. Se não houver amor pelo conhecimento, pelo trabalho e pelo sujeito de nosso saber e de nossa prática, nosso esforço será em vão.

É assim que vamos trilhando nosso caminho profissional: com muito esforço, dedicação, estudo, e sobretudo, muito amor tanto por aquilo que aprendemos, quanto por aquilo que fazemos. Já dizia Reich: “Amor, trabalho e conhecimento são as fontes de nossa vida; deveriam também governa-la.”


José Henrique Volpi / Curitiba / PR / Brasil
Psicólogo (CRP-08/3685), Analista Reichiano, Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Eriksoniana e Psicodrama. Mestre em Psicologia da Saúde (UMESP), Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento (UFPR). Diretor do Centro Reichiano-Curitiba/PR.

E-mail: volpi@centroreichiano.com.br