PSICOECOLOGIA REICHIANA: DAS ORIGENS BIOLÓGICAS DA SOLIDARIEDADE À DESERTIFICAÇÃO HUMANA E AMBIENTAL

Sem categoria

José Henrique Volpi *

RESUMO

Tendo como ponto de partida as contribuições de clássicos, teóricos e estudiosos da Psicologia e da Ecologia, procuraremos contextualizar o surgimento dessas duas grandes áreas de conhecimento e os seus respectivos pontos de vista, com a finalidade de demonstrar o quanto é possível estabelecermos uma relação dialógica, de associação entre ambas as ciências, construindo assim, novos saberes, numa proposta chamada Psicoecologia. Com a evolução, o homem tornou-se um ser sociável e solidário. Mas aos poucos foi perdendo essa capacidade, ficando mais individualista, egoísta e destrutivo. Perdeu seu contato com a natureza, mau uso dos recursos naturais, faz a cada dia agride o próprio meio em que vive e têm um comportamento predatório único, que o diferencia dos demais seres vivos. 

Palavras-chave: Ecologia; Psicologia; Psicoecologia; Ecopsicologia; Reich.


Seguindo as etapas da evolução humana, percebemos que sempre houve uma complexa rede de intercâmbios entre os seres humanos e a natureza. Desde a pré-história, o ser humano já dominava o conhecimento empírico das interações entre os organismos e o meio, praticando o conceito de desenvolvimento sustentável dos recursos naturais, com toda a consciência. Tal como os outros animais, o homem caçava para se alimentar e delimitava seu território como forma de se proteger de seus predadores, vivendo em harmonia com a natureza.

Conforme foi fazendo uso de seu mais novo cérebro, o neocórtex, que lhe confere a capacidade de lógica e raciocínio, o homem foi se aprimorando na caça e nos recursos utilizados para tal fim. Suas armas tornaram-se mais potentes, dando-lhe um maior poder sobre os animais e sobre o próprio homem, fato esse que levou-o também a dar início a uma série de conflitos com natureza.

Diz Freud (1976, p. 246):

É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto o que se passa em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo por que se excluir. (…) era a superioridade da força muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer sua vontade. A força muscular logo foi suplementada e substituída pelo uso de instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as melhores armas ou aquele que tinha a maior habilidade no seu manejo. A partir do momento em que as armas foram introduzidas, a superioridade intelectual já começou a substituir a força muscular bruta; mas o objetivo final da luta permanecia o mesmo.

Assim, desde a antiguidade o homem vem lutando, encontrando novas formas de conquistas, organizando-se social e economicamente. Entre os anos 4.000 a. C. e 3.000 a. C., já formava à sua volta Estados organizados e usava utensílios de bronze. Nessa época, da “Idade do Bronze”, a cultura também aflorou, levando-o estender seus laços de amizade entre as mais diversas civilizações.

Por volta do ano 1.100 a. C., Idade das Trevas, houve um investimento na organização política, social e artística e o aparecimento das primeiras provas atléticas que assumiam cada vez mais um papel proeminente na sociabilização. Em 750 a. C. ocorreu um substancial aumento da população, que obrigou muitos cidadãos a deixaram suas cidades de origem e fundarem as chamadas apoikias (lares distantes). Então, o modo de vida se expandiu além dos mares, o comércio experimentou um estrondoso desenvolvimento e o homem começou a vislumbrar o dinheiro, o poder e a fama.

Na Grécia, a cidade-estado assumiu seu formato definitivo, cuja principal característica era a participação política de toda a comunidade. Essa participação era obtida através de grandes pressões geradas sobre a classe dominante, a dos proprietários de terras. Dinheiro comprava terra, que por sua vez comprava “escravos”, que por conseqüência trazia o poder. Não demorou muito para que tivesse início às guerras greco-pérsicas, que mostravam que o homem podia ser o senhor do mundo e conquistar todos os espaços à volta dele. Portanto, quanto mais o homem evoluía em sua inteligência, em sua cultura, em sua sociedade, mais se afastava da natureza e mais se aproximava de sua ganância, egoísmo, arrogância, enfim, até faltariam adjetivos para denominá-lo. Na tentativa de compreender esse tipo de homem, ainda no século IV a. C. apareceu a filosofia. Foi o século de Sócrates, cuja filosofia exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo; de Platão (428-348 a.C.) que tinha como uma de suas preocupações, distinguir a verdadeira ciência e o verdadeiro conhecimento da mera opinião ou crença; de Aristóteles (384-322 a.C.), com sua filosofia essencialmente teorética, buscando decifrar o enigma do universo. E assim, vários outros filósofos surgiram brindando-nos com seus conhecimentos.

Dando um salto na evolução, a próxima etapa da história da humanidade foi marcada pela idade média e com ela, o surgimento de uma nova religião baseada em Jesus Cristo. Tratava-se de uma doutrina que se apoiava na idéia de que o mundo foi criado por um Deus único, onipotente, onisciente, livre e infinitamente bom, tendo criado o homem à sua imagem e semelhança. Assim sendo, tanto os seres humanos como a natureza eram resultado e manifestação do poder, da sabedoria, da vontade e da bondade de Deus. O nosso destino estava nas mãos de Deus da mesma forma que o conhecimento científico não podia negar os dogmas religiosos e deveria até fundamentá-los. Então, ciência e filosofia ficam submetidas à religião. A investigação livre deixa de ser possível e compreender a natureza passa a ser, no fundo, interpretar a vontade de Deus. Portanto, deveríamos obedecer a esse Deus, sem questioná-lo.

Aproveitando-se dessa crença, como forma de defesa, a Igreja Católica baniu os costumes pagãos e a adoração dos Deuses da religião antiga, substituiu os antigos festivais pelos novos feriados religiosos, transformou os antigos Deuses da Natureza e da Fertilidade em terríveis e maléficos demônios e diabos e baniu definitivamente as Deusas femininas como objeto de adoração. Surgiu a era da Inquisição e, a pedido do Papa João XXIII, em 1320, declarou-se oficialmente que a bruxaria e a antiga religião dos pagãos constituíam um movimento e uma “ameaça hostil” ao Cristianismo e, portanto, em nome de Deus todos deveriam ser queimados.

Com a descoberta da América em 1492, ocorreu uma transformação da natureza das relações entre as populações humanas e os ecossistemas locais, quando houve uma unificação agrícola do mundo, que por sua vez, gerou uma unificação microbiana, espalhando por todos os cantos vírus e germes contra os quais a humanidade ainda não possuía qualquer imunidade. “Muitas doenças do Velho Mundo eram na verdade o fruto envenenado de modos de vida agrícolas e sedentários, transmitidas à nossa espécie por animais domesticados ou não, mas em todo caso, difundidos nos novos habitats” (BOCCHI & CERUTI, 1999, p. 145).

Somado a isso, o filósofo francês René Descartes (1596-1656), lançou as bases para uma nova concepção da natureza que iria ser largamente aceita e desenvolvida durante muitos anos: o mecanicismo. Contrariamente ao organicismo anteriormente reinante que concebia o mundo como um organismo vivo orientado para um fim, o mecanicismo, via a natureza como um mecanismo cujo funcionamento era regido por leis precisas e rigorosas, mas submissas ao poder do homem.

Tempos depois aparece Kant (1724-1804), cujo pensamento é dominado pelas ciências da vida, contrapondo-se ao surgimento da revolução industrial em 1760, cujo início se deu na Inglaterra, caracterizada pela produção industrial em grande escala voltada para o mercado mundial, com uso intensivo de máquinas.

Riqueza, poder, avareza, etc, faziam parte do menu psíquico dos grandes líderes da época. Tal era o desejo de posse que em 1914, guerras, cruzadas, pragas e revoltas campesinas assolam toda a Europa que, com exceção da Itália, mobilizaram todas as potências a entrarem em conflito, dando início à Primeira Guerra Mundial, que durou até 1918.

Após um tempo de calmaria, com muitos ainda estarrecidos pela capacidade do homem matar seu próprio semelhante, não durou muito para que em 1933, na Alemanha, Hitler expulsasse todos os que não eram alemães puros, eliminando os traços de judaísmo da cultura, instituições e economia do novo estado. Judeus foram tirados de seus guetos e levados para campos de concentração onde eram mortos em câmaras de gás ou por envenenamento por monóxido de carbono. Depois de mortos, as obturações em ouro eram retiradas dos cadáveres e os cabelos cortados para uso industrial. Tempos depois, vários países não apenas se defenderam como também instigaram seus homens para a luta e conquista de novos territórios. Começa, então, a II Guerra Mundial que durou de 1939 a 1945.

O ataque surpresa do Japão contra a base norte-americana de Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941 abriu novas portas para o furor. Os Estados Unidos passaram a se esforçar ainda mais em desenvolver a indústria de guerra e reuniram uma produção bélica 50% mais poderosa que as da Alemanha e Japão juntos. Nos anos de 1943 e 1944, enquanto os americanos fabricavam um navio por dia, a cada cinco minutos, um avião japonês carregado de explosivos e dirigido por um piloto suicida atirava-se sobre o alvo de qualquer um que fosse tido por inimigo (Kamikazes).

Com isso, o maior exemplo de inteligência, aliada á ignorância humana, foi posto a prova, tanto para a humanidade quanto para o meio ambiente, no dia 6 de agosto de 1945, quando às 8h15m17s um avião americano que escapou dos radares japoneses lançou sobre Hiroshima uma bomba que explodiu a 617 metros do solo, sobre o centro da cidade. A temperatura chegou a 5,5 milhões de graus centígrados e tudo o que se encontrava a 500 metros do epicentro da bomba foi incinerado. Quase ninguém sobreviveu num raio de 800 metros e em menos de uma hora, mais de 70 mil pessoas haviam morrido. Três dias depois, em 9 de agosto, a operação se repetiu em Nagasaki, matando mais de 40 mil habitantes.

Vários outros acontecimentos e desastres foram se descortinando à frente da humanidade. Não bastasse a tragédia de Hiroshima e Nagasaki, ocasionada pelas próprias mãos do homem, quarenta anos depois, um outro grande fato marcou a história, quando na noite de 26 de abril de 1986, houve a explosão de um dos reatores da usina nuclear Chernobil, localizada na Ucrânia, provocando um dos maiores acidentes da história nuclear. O incêndio, que durou nove dias, liberou toneladas de material altamente radioativo, uma quantidade 200 vezes maior que as bombas de Hiroshima e Nagasaki, ocasionando a morte de 8.000 pessoas e adoecendo outros 120.000. Até hoje, uma área de 160.000 Km² (o tamanho da Holanda) permanece contaminada e inabitada.

E a cada dia aumenta a lista dos fatos marcantes, dos desastres, das atrocidades causadas pelo homem. Recentemente, todos puderam presenciar o ataque terrorista sobre os Estados Unidos no dia 11 de setembro de 2001 quando as torres do World Trade Center, literalmente viraram pó, deixando não apenas uma nação, mas o mundo todo atônito pela capacidade do homem, um certo tipo de homem, fabricar o seu próprio aniquilamento. Feridos em seu orgulho e irados pela sede de vingança contra o terrorista saudita Osama bin Laden, líderes americanos e da Grã-Bretanha, mesmo sob protestos no mundo todo e desaprovação da ONU (Organização das Nações Unidas), declaram guerra ao Iraque, sob alegação do atual presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, que o regime de Saddam Hussein desenvolvia armas de destruição em massa, o que até hoje não foi provado, demonstrando esta ser mais uma das chamadas guerra narcísica, onde a fama e o poder se sobrepõem a qualquer valor ou vida humana.

E assim, caminha a humanidade, sendo regida durante toda a sua existência pelo desejo de conquista, de guerra, de poder, de violência, perturbando a frágil relação existente entre o homem e a natureza e alongando consideravelmente a lista dos desastres ecológicos provocados nos últimos tempos.

Mas, então, que homem é esse que vive em busca de novas conquistas, construindo e ao mesmo tempo destruindo tudo e todos, que em nome de Deus faz a guerra e que coloca em risco toda a sua existência? O que leva esse homem a ser tido como o maior depredador da natureza? Que efeitos isso tudo causa na ecologia e na vida emocional das pessoas?

É inegável os efeitos destrutivos da espécie humana sobre o próprio homem, sobre as demais espécies animais e vegetais e sobre a biosfera como um todo. O homem tem em suas mãos a vida como mercadoria; joga como eterno ganhador, usa e abusa com a mais alta irresponsabilidade. Comete certas atrocidades com seu semelhante, com animais, com a natureza, sem levar em conta qualquer valor ético, moral, religioso, emocional… O homem foi quem se separou da natureza e não a natureza do homem. Mas, qual a gênese dessa separação? Talvez possamos dizer que o homem é um ser pensante e, portanto, superior a todos os animais. Esse é o pensamento cartesiano que faz com que o homem encare a natureza como seu objeto de uso (OST, 1995). Mas devemos considerar o homem como sujeito de direito só porque tem a faculdade de pensar?

Morin (1992), vê o homem como um ser complexo em seus pensamentos e atos e diz que é preciso compreendermos essa complexidade humana. Afirma que o homem é produto da dialógica entre a sapiência e a demência e que “e necessário abandonar o humanismo que faz do homem o único sujeito num universo de objetos e que tem como ideal a conquista do mundo” (p. 208). Mas para o dono do mundo, não há limites. Na década de 90, Coréia do Sul e Taiwan foram tidos pelo Banco Mundial como países modelo a serem seguidos pelos demais do terceiro mundo. Porém, os danos ambientais por eles cometidos não foram considerados. “Em Taiwan, por exemplo, os venenos usados na agricultura e na indústria poluíram gravemente quase todos os grandes rios. Em alguns lugares, a água, além de não ter peixes e não servir para beber, chega a pegar fogo” (CAPRA, 2002, p. 157).

Esse surto industrial, de modernização principalmente da agricultura, e de pseudo-cultura, também foi um marco na história do Brasil nos anos 60 e 70, colocando em evidência problemas ecológicos e emocionais até então não notados. Vejamos alguns exemplos.

O uso exagerado de fertilizantes, agrotóxicos e maquinários agrícola contribuíram para uma desertificação do solo tão grave que durante a conferência Mundial de desertificação, promovido pela ONU em 1977, em Nairobi, falou-se a respeito da formação do terceiro maior deserto do planeta, localizado no Brasil, que apenas é inferior aos desertos do Saara e da Arábia. No Nordeste, essa área atinge por volta de 50 mil quilômetros quadrados, tamanho dos estados do Alagoas e Sergipe juntos (AGUIAR, 1994). Em julho de 2000 cientistas encontraram no Pólo Norte um trecho de mar aberto, com aproximadamente um quilômetro e meio de largura, devido ao descongelamento das geleiras em decorrência do superaquecimento (CAPRA, 2002). A doença da moda, chamada estresse, que quase nunca aparecia a não ser por traumas significativos, hoje assola a humanidade a todo instante, sem escolher cor, raça ou idade. Em 2003 foi divulgada a Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção cuja lista anterior, divulgada há 13 anos, apontava 218 animais. Na edição revisada, foram registrados 395 animais ameaçados de extinção, dos quais oito estão seguramente extintos, estando entre eles a Arara-azul pequena, o Maçarico-esquimó e o Minhocoçu (BIODIVERSITAS, 2003).

Constantemente somos bombardeados com péssimas notícias de desmatamento descontrolado, derramamento de petróleo, guerras, armamentos e explosões nucleares, acidentes, poluição da terra, água e ar, etc, etc, etc.

Se por um lado o rápido avanço da tecnologia veio proporcionar ao homem uma melhor qualidade de vida, por outro, está destruindo tanto o planeta em que vivemos, quanto nossa saúde física e emocional.

Como podemos mudar nosso comportamento frente a isso tudo? Estamos equivocados em esperar uma consciência ecológica mundial? Talvez sejamos a ultima geração de humanos que tenha ainda possibilidades de fazer algo para reverter essa situação (SEED, 1993). Nós somos a natureza e da natureza. Portanto, devemos tomar como desafio constituir um saber da natureza, no qual os homens se reconheçam como parte integrante e não instância de dominação, estrangeira e hostil (DÉLEAGE, 1991).

Não precisamos nos munir de rótulos, nem de títulos de especialistas, mestres ou doutores para explicarmos esses acontecimentos, muito menos para agirmos em combate a isso. Mais do que isso: precisamos nos unir, juntarmos nossos saberes não apenas para construímos algo novo mas, principalmente, para impedir que tudo o que já existe seja destruído. Precisamos da inter, multi, pluri, transdisciplinaridade, entre as mais diversas áreas do conhecimento, entre os mais diversos cientistas, pesquisadores, pessoas comuns.

Nessa proposta, de um lado, encontramos a ecologia acadêmica, preocupada com a conservação das espécies animais. De outro, a ecologia humana, que considera as relações dos indivíduos e de comunidades humanas com o seu ambiente particular, a nível fisiográfico, ecológico e social.

Durante muito tempo, a ecologia subestimou ou ignorou os seres humanos como objeto de estudo, esquecendo-se que o ambiente é também a casa deles.

A ecologia é uma ciência natural que teve uma de suas origens a partir da história natural, ou seja, da história da vida dos organismos e dos ambientes em que vivem. Ecologia é uma palavra originada do grego oekologie, que literalmente significa “estudo da casa”. Foi introduzida pelo zoólogo alemão Ernst Haeckel em 1866 como proposta de substituição ao termo biologia, que na época tinha um sentido indevidamente restrito. É definida como sendo “a ciência da totalidade das relações do organismo com o ambiente, compreendendo, em sentido lato, todas as condições de existência” (HAECKEL apud DELÉAGE, 1993, p. 13). Mas ainda não há uma definição consensual da ecologia como ciência. Segundo Odum (1988) ecologia é o estudo de sistemas biológicos em níveis organizacionais acima da espécie. Krebs (2001), definiu ecologia como sendo o estudo científico das interações que determinam a distribuição e abundância dos organismos. Ricklefs (2003) falou de uma economia da natureza ou a ciência através da qual estudamos como os organismos interagem dentro e no mundo natural.

A primeira sociedade de ecologia, denominada British Ecological Society, foi fundada em 12 de abril de 1913 por naturalistas britânicos, mesma ocasião em que apareceu a publicação do primeiro boletim de ecologia, o Journal of Ecology (DELÈAGE, 1993). Portanto, é uma ciência moderna, porém, com uma história antiga que interage com diversas outras áreas do saber. Teve um desenvolvimento acelerado nos países anglo-saxões e germânicos no início do século XX, com a criação de sociedades científicas denominadas ecológicas e com o surgimento do movimento ambientalista.

Como já dissemos, sempre houve uma relação de intimidade entre os seres humanos e a natureza, pois é dela tiram seu sustento. No entanto, o aumento do capitalismo trouxe sérios impactos para a ecologia, para a natureza, para o homem e para o planeta como um todo. A ganância pelo dinheiro e poder, levou o homem a ficar cego frente aos conflitos que ele mesmo provocou no meio ambiente. E com isso, o princípio da solidariedade homem/universo foi substituído pelo da dominação da natureza pelo homem (DELEAGE, 1993, p. 218), tornando-o cada vez mais violento e agressivo.

A fisiopatologia da agressão e violência é um vasto campo por onde desfilam infindáveis hipóteses e pesquisas. Freud (1976) dizia que “existe um desejo de agressão e de destruição, denominado instinto de morte, que está em atividade em toda criatura viva e procura levá-a ao aniquilamento, reduzir a vida à condição original de matéria inanimada” (p. 254). E completa: “O instinto de morte torna-se instinto destrutivo quando, com o auxilio de órgão especial, (aparelho muscular) é dirigido para fora, para objetos. O organismo preserva sua própria vida, por assim dizer, destruindo uma vida alheia” (p. 254).

MacLean, com sua teoria da evolução do cérebro, que o divide em 3 unidades, aponta o reptiliano como sendo o responsável por esse comportamento agressivo, de autopreservação.

a) Cérebro primitivo, reptiliano, responsável pela autopreservação e agressão;

b) Cérebro intermediário, límbico, que responde pelas emoções;

c) Neocórtex ou cérebro racional, que nos capacita a pensar.

Portanto, a agressão e seu subproduto perverso, a destrutividade, requer o compromisso das estruturas cerebrais primitivas. Sem elas não haveria a verdadeira agressão. No entanto, quem freia essa agressão é o cérebro límbico e o neocortex. Mas determinadas pessoas não conseguem ter esse controle e ultrapassam todos os limites deixando-se levar única e exclusivamente pelos instintos, pelo reptiliano. E com isso, são classificadas pela psiquiatria clássica como portadoras de um transtorno da personalidade anti-social (DSM IV, 2004), cuja característica essencial é um padrão invasor de desrespeito e violação dos direitos dos outros. Essa fato tem seu inicio na infância ou começo da adolescência e continua na idade adulta. Este padrão é também conhecido como psicopatia, sociopatia ou transtorno da personalidade dissocial.

Reich (1975), também foi um dos precursores dos movimentos ecológicos em sua época e o primeiro psicólogo a estudar o comportamento do homem e da natureza, tanto no micro quanto no macrocosmos, buscando sempre compreender o modo como o homem está enraizado na natureza e sua relação com a mesma. Essa forma de pensar fez com que ele se tornasse um sério crítico do pensamento cartesiano e postulasse uma forma de pensar que fosse funcional, onde o homem, com seu comportamento, inteligência e emoção, fosse considerado parte da natureza e, portanto, não poderia ser estudado fora dela, da mesma forma que a natureza não deveria ser pensada sem a presença do homem. Um, interfere no movimento energético do outro. Portanto, nas palavras de Reich (1975, p. 23), “o homem é uma parte da natureza e brotou a partir de funções naturais. (…) com suas emoções, evoluiu a partir da natureza como um dos produtos de seu desenvolvimento”.

Reich indica em todo seu pensamento que é preciso uma mudança radical nas relações humanas, já que o próprio ser humano se autodestrói e o meio influi nesse processo. Sempre teve uma visão otimista do ser humano, acreditando que todos tinham possibilidade de livrar-se de suas couraças, portanto, de suas neuroses, condição essencial para se ter uma sociedade mais saudável onde os valores humanos pudessem ser respeitados. No entanto, há sempre aqueles que tentam impedir o crescimento da humanidade e que não se importam com a preservação nem da espécie humana, muito menos, da natureza. A esses, Reich (1995) atribui o termo peste emocional, para representar os indivíduos que apresentam uma contração biopática do organismo, semeada na criança desde os primeiros anos de vida. Segundo Reich, a manifestação da peste emocional se dá especialmente na vida social e suas explosões se mostram por violento sadismo que pode até mesmo chegar ao crime. O indivíduo acometido pela peste emocional não se contenta com uma atitude passiva, mas tem uma atividade social mais ou menos destruidora da vida. Seu pensamento é perturbado e governado por emoções irracionais. Sua ação é compulsiva e insensível. Não dá conta de aceitar a alegria, felicidade e sucesso do outro. A pessoa acometida pela peste “é produto de uma educação compulsiva e autoritária” (p. 319) e sua incapacidade de amar leva-o a uma raiva sádica destrutiva. Assim, diz Reich que a cura para esse tipo de biopatia está no estabelecimento da capacidade natural de amar.

Podemos seguramente afirmar que há uma crise ecológica, social e psicológica assolando nosso planeta e a inabilidade de nossa cultura para lidar com isso, faz com que grandes estudiosos busquem respostas para questões como: o que fazer para termos um planeta saudável? É a partir desses questionamentos que Theodore Roszak (2001) aponta a necessidade da criação de uma nova psicologia, cosmologia, e ecologia. Sugeriu, então, o nome de ecopsicologia, uma disciplina que integra ecologia, psicologia e outras ciências.

Ecologia e psicologia são duas ciências que buscam respostas para uma mesma questão: de que forma o homem pode estar inserido na natureza? De que forma a natureza se insere no homem? Como homem e natureza de relacionam? Portanto, a psicoecologia, como prefiro chamar, tem como proposta estudar o comportamento do homem e a forma com que este se relaciona com a natureza e tudo o que está à sua volta e o influencia. É uma ciência nova que pretende responder às necessidades atuais. É uma filosofia do homem e do ambiente que pretende reconciliar diversas polaridades: mente, corpo, emoção, alma, natureza, cultura, teoria e prática. Assim, tem um percurso de crescimento pessoal em busca de soluções eficazes da gestão da vida cotidiana, dos recursos do planeta, em sintonia com os valores mais belos e mais autênticos dos seres humanos. Laurie Tarkan (1997) dá uma definição específica como sendo o estudo da relação entre “psique humana e o ambiente natural” (p. 33).

A Psicoecologia une a sensibilidade do psicólogo, a consciência do ecologista, a experiência e a ética do ambientalista, para uma política ecológica mais efetiva e com bases filosóficas sólidas. Dessa forma, busca um tipo de planejamento educacional mais efetivo e para uma aproximação terapêutica que seja capaz de redefinir o conceito de saúde em um contexto também ambiental, examinando a psique como parte integral da natureza (DANON, 2004).

Não podemos nos sentir confortáveis se não restabelecermos a saúde do nosso planeta. Há um jargão que diz existir apenas dois tipos de empresas: as que estarão no catálogo telefônico do ano seguinte e as que não estarão no catálogo telefônico do ano seguinte. A questão, no entanto, é saber se nós, simples e humildes seres vivos iremos querer estar vivos para trabalhar nessas empresas sobreviventes. (ROSZAK et al, 1995). Portanto, o mundo pede mudança, um novo comportamento. Esse é o objetivo da psicoecologia, provocar esse novo comportamento.

O homem tenta se lapidar em seu conhecimento, mas se embrutece em suas emoções. Não basta termos apenas uma sociedade ecologicamente equilibrada, mas emocionalmente e socialmente neurótica. Reich já dizia: “O destino da raça humana dependerá das estruturas de caráter das `crianças do futuro´. Em suas mãos e em seus corações repousarão as grandes decisões” (1987, p. 17).

Gostaria de finalizar com as palavras de Capra, tomadas do filme “O ponto de mutação” (2000): “Quando percebermos que nós e o planeta somos, na verdade, um só, uma realidade, uma só consciência, teremos chegado ao ponto de descobrir que a nossa transformação não foi apenas uma atitude, mas uma mutação”.

Conclui-se, portanto, alertando os profissionais da psicologia, ecologia e outras áreas do conhecimento, para a necessidade de um trabalho conjunto, onde possamos, todos juntos, construir novos saberes.

REFERENCIAS

AGUIAR, R. C. Crise social e meio ambiente: elementos de uma mesma problemática. In:

BURSZTYN, M. (Org). Para pensar o desenvolvimento sustentável. 2a ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

BIODIVERSITAS. Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção. Disponível em <http://www.biodiversitas.org.br/releases_listafauna.htm>, 2003. Acesso: 29/04/2004.

BOCCHI, G; CERUTI, M. A complexidade do devir humano. Edgar Morin e o caráter inacabado do processo de humanização. In VEJA-PENA, A; NASCIMENTO, E. P. (Org.) O pensar complexo. Edgar Morin e a crise da modernidade. Rio de Janeiro: Garamond, 1999, p. 141-164.

CAPRA, F. O ponto de mutação. Filme VHS, 2000.

CAPRA, F. As conexões ocultas. Ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cultrix, 2002

DANON, M. E’ nata l’ecopsicologia. Disponível em: <www.ecopsicologia.it>. Acesso: 04/02/2004

DÉLEAGE, J. P. Histoire de l’écologie. Une science de l’homme et de la nature. Paris: Editions la Découverte, 1991

DSM.IV. Personalidade anti-social. Disponível em: <http://www.psiqweb.med.br/dsm/dsm.html>.

Acesso: 22/03/2004

DUPUY, J. P. Pour um catastrophisme éclairé. Quand li impossible est certain. Paris: Seuil, 2002

FREUD, S. Por que a guerra? In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, vol. 22, 1976

KREBS, C. J. 2001. Ecology: The experimental analysis of distribution and abundance. 5nd ed., Hardcover, 2001

MORIN, E. Le grand dessein. Paris: Seuil, 1992

ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988

OST, F. La nature hors la loi. L´écologie à l´épreuve du droit. Paris: La Découverte, 1995

REICH, W. Superimposizione cósmica. Milano: Sugarco, 1975

REICH, W. Bambini del futuro. Milano: Sugarco, 1987

REICH, W. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1995

RICKLEFS, R. E. A economia da natureza. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1993

ROSZAK, T. Awakening: The Ecological Unconscious. Ecopsychology: healing our alienation from the rest of Creation. USA, 2001. Disponível em: <www.context.org>. Acesso: 04/02/2004

ROSZAK, T. Ecopsychology: Restoring the Earth, Healing the Mind. New York: Sierra Press, 1995.

SEED, J. Ecopsychology. Ecopsychology. Symposium at the Australian Psychological Society’s. 28th Annual Conference. Gold Coast: 2/10/93 – updated 2001. Disponível em: <http://www.rainforestinfo.org.au/deep-eco/seed2.htm> Acesso: 28/02/2004

TARKAN, L. Nurtured by Nature. Paris: Shape, 1997


* AUTOR

José Henrique Volpi – Psicólogo, Psicodramatista, e Analista Reichiano. Mestre em Psicologia da Saúde (UMESP) e Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento (UFPR). Diretor do Centro Reichiano, Curitiba/PR.

E-mail: volpi@centroreichiano.com.br


COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO

VOLPI, José Henrique. Psicossomática Reichiana – Psicoecologia reichiana: das origens biológicas da solidariedade à desertificação humana e ambiental. In: VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara. CONVENÇÃO BRASIL LATINO AMÉRICA, CONGRESSO BRASILEIRO E ENCONTRO PARANAENSE DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS. 1., 4., 9., Foz do Iguaçu. Anais… Centro Reichiano, 2004. CD-ROM. [ISBN – 85-87691-12-0]. Disponível em: http://centroreichiano.com.br/anais-dos-congressos-de-psicologia/ Acesso em: ____/____/____.