Os sete segmentos de couraça e seus bloqueios

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Esse artigo tem o objetivo de apresentar, de forma sucinta, a somatopsicodinâmica dos setes segmentos de couraça proposto por Frederico Navarro. Serão apresentados os motivos e as conseqüências dos bloqueios em cada um dos setes segmentos de couraça, conforme descritos por Reich,sendo eles o ocular, oral, cervical, torácico, diafragmático, abdominal e pélvico.


A somatopsicodinâmica, segundo Navarro (2013b), é o estudo das patologias humanas levando-se em conta a unidade funcional soma e psique. Entendimento alternativo à psicossomática onde o psíquico prevalece sobre o corpo.  Essa visão começou a ser possível à partir dos estudos de Reich, citado por Navarro (1996, 2013a, 2013b), ao perceber que todo sintoma físico tem uma significação funcional, ou seja, é sempre a expressão de uma emoção.

Navarro (1996), assim como Reich, diz que as doenças psíquicas estão inscritas no corpo, considerando sadio aquele indivíduo que alcançou uma maturidade emocional e psíquica afim de conseguir fazer circular por todo seu corpo a energia, sem que sejam encontrados bloqueios. Porém, dificilmente é possível encontrar um indivíduo que não tenha bloqueios e com isso desenvolva o que Reich chamou de caráter genital. Isso porque,a sociedade atual, com suas proibições e repressões, não permite essa fluidez no desenvolvimento. Nesse sentindo, o os traços caracteriais de uma pessoa é mercado pelas regras sociais, pela sua história de vida e por fixações desenvolvidas durante seu desenvolvimento psicológico e motor. Quando há uma imaturidade nesse desenvolvimento, que acontece pelas fixações (situações estressantes e traumáticas vivenciadas), pela rigidez das normas sociais e por falta de compensações de prazer e consequentemente uma dificuldade de autorregular a própria energia, então as patologias de cunho psicológico e fisiológico aparecem.

Tal compreensão possibilitou à escola reichiana o entendimento de que as resistências e conflitos psíquicos tem uma íntima relação com as tensões musculares. Ao observar o corpo de seus pacientes, Reich, citado por Navarro (2013b), percebeu que essas tensões estariam localizadas nos sete níveis segmentares ligadas entre si, provocando ali uma estase (acúmulo) energética ou uma falta energética, ocasionando um bloqueio da energia e consequentemente alterações no funcionamento da pulsação energética. Nesse sentido, a energia que deveria seguir o movimento de tensão, carga, expressão, descarga e relaxamento, não acontece inteiramente.

Em cada um dos setes níveis, esse bloqueio de energia irá afetar aspectos específicos do comportamento dos indivíduos. De acordo com Navarro (1996), quando o bloqueio energético acontece no primeiro nível (ouvidos, olhos, nariz e pele), há um prejuízo na leitura e interpretação que a pessoa terá do mundo e de si mesma; o segundo nível (boca-oral) influência nos aspectos depressivos de dependência e independência; no terceiro nível (pescoço) o prejuízo será nos aspectos narcisistas e de autocontrole; no quarto nível (tórax) influenciará nos aspectos da identidade e na ambivalência do sentir e posicionamentos de vida; o quinto nível (diafragma) influenciará nos aspectos masoquistas e ansiosos; o sexto nível (abdômen) influenciará nos aspectos compulsivos e anais; o sétimo nível (pélvis) influenciará nos aspectos genitais, na possibilidade de sentir prazer e no superego.

É de extrema importância reconhecer os bloqueios energéticos de uma pessoa, pois eles contribuirão para a formação da personalidade e do caráter individual. Outro fator que influência essa formação é o temperamento que segundo Navarro (2013a) são as bases congênitas, fisiológicas e morfológicas vindas do encontro do pai e da mãe e das experiências iniciais intrauterinas. Isso quer dizer que, desde o útero, o bebê já terá um aspecto importante da sua caracterialidade, que é a sua energia. Podendo ter uma energia hipoorgonótica (baixa) ou uma hiperorgonótica (alta).

Nesse sentido, “o “caráter”, na verdade, tornou-se a formação necessária para manter o equilíbrio psíquico e para defender-se das frustrações e das agressões do ambiente” (NAVARRO, 2013a, p. 18). Sendo assim,o que é considerado uma psicopatologia é a extrapolação dos traços caracteriais, que acontecem em situações de estresses e frustrações intensas, onde o Ego da pessoa entende como uma ameaça o que está ocorrendo e precisa se defender, intensificando suas couraças.

No que se refere ao bloqueio de energia do primeiro nível, o ocular, que engloba os olhos, os ouvidos, nariz e pele, Navarro (2013b) aponta que quando o bloqueio é total há a prevalência de uma psicose e quando é parcial, de um núcleo psicótico. Esse bloqueio, segundo o autor, acontece devido a traumas durante o período que vai da gravidez até os primeiros 10 dias de vida. A atenção dada aqui será para as características do núcleo psicótico, que são: prejuízo na percepção de si mesmo e do mundo, confusão de pensamentos e expressão, dificuldade de contato, baixa carga energética (hiporgonótico) e sentimento constante de um vazio existencial. As patologias ligadas a esse primeiro nível, segundo Navarro (2013b), se referem a um medo do contato, que se manifesta tanto por uma tentativa de afastamento ou de maior aproximação com a realidade. Como exemplos podemos citar o astigmatismo, a miopia, a hipermetropia, as alergias, enxaqueca, calvície e alopecia.

O segundo segmento, o oral, está ligado à boca e consequentemente à alimentação, que segundo Reich citado por Navarro (2013b) é o eixo da vida emocional. Os bloqueios nesse nível acontecem no período de amamentação (durante os noves primeiros meses do bebê), tanto por uma amamentação com desmame precoce ou brusco, quanto por uma amamentação inadequada e prolongada. Essas duas situações são sentidas pelo bebê como traumáticas, ocasionando uma oralidade reprimida no primeiro caso e uma oralidade insatisfeita no segundo. A condição borderline tem como características, uma depressão com relação à separação, dificuldade de estabelecer limites entre si e os outros, o que provoca uma dependência exagerada ou uma necessidade de independência e afastamento do outro. Na oralidade insatisfeita é bem comum que a compensação pela falta do objeto de amor venha pelas compulsões e na oralidade reprimida acontece uma compensação pela reatividade através do sentimento de raiva.

As patologias borderline, segundo Navarro (2013b), surgem quando a dependência do objeto de amor, que deveria ser superada aos poucos, não é. Um dos exemplos dessas patologias é a bulimia, que surge a partir da necessidade do indivíduo em incorporar o objeto amado para poder possuí-lo. Essa posição depressiva ansiosa manifestada através da bulimia acontece “muito frequentemente devido a um comportamento inadequado da mãe que provoca, na criança, uma ambivalência que se manifesta pelo vômito: vontade de tomar, incorporar, introjetar e, ao mesmo tempo, rejeitar.” (NAVARRO, 2013b, p. 56).

Já o terceiro segmento de couraça é denominado de cervical e engloba a região do pescoço. Segundo Navarro (2013b) os bloqueios energéticos nesse nível influenciam no narcisismo dos indivíduos e na necessidade de autocontrole e surgem devido à educação recebida. O narcisismo primário que acontece a partir do momento em que a criança começa a se relacionar com ela mesma, sentindo prazer com o autoerotismo, passa a sofrer repressão vinda da educação e se transforma em narcisismo secundário, comprometendo assim a capacidade criativa do indivíduo em ter prazer consigo mesmo e instalando a necessidade de ser reconhecido pelo outro. O bloqueio no pescoço torna a pessoa rígida, com uma visão limitada de si e do mundo, insatisfeito consigo mesmo, sempre necessitando se superar e valorizando a racionalidade em detrimento das emoções. As patologias ligadas ao terceiro segmento de couraça vão estar relacionadas a esses aspectos mencionados, demonstrando a rigidez com que o indivíduo lida com a vida. Como exemplo, podem ser citados os problemas na tireoide e o torcicolo.

No quarto segmento, segundo Navarro (2013b) estão localizados o peito e os membros superiores, sendo denominado de torácico ou peitoral. Órgãos vitais como o coração e o pulmão estão localizados nesse segmento, assim como a glândula timo, grande responsável pela imunidade. Bloqueios nesse segmento irão repercutir sob aspectos identitários da pessoa e na maneira como ela lida com as emoções e os afetos, fazendo com que a angústia surja. Outro aspecto importante é a ambivalência entre amor e ódio, que tenta ser suprimida pela pessoa através de um afastamento das emoções. De acordo com Navarro (2013b) o grande conflito dessas pessoas está ligado ao medo de não serem amadas, de serem rejeitadas e consequentemente terem seu narcisismo ferido. Para não precisarem lidar com essas questões, se afastam das emoções e dos prazeres, voltando-se para o trabalho e para o autocontrole. Tendem a respirar superficialmente para não se conectarem com suas emoções e com o que está acontecendo ao seu redor. Um exemplo de patologia citado por Navarro (2013b) que representa bem o bloqueio nesse segmento é o enfarte.

O quinto segmento de couraça é o diafragmático, que recebe esse nome por estar localizado na região do diafragma. De acordo com Navarro (2013b) fazem parte desse segmento o pâncreas, rins, vesícula, baço, fígado e estômago. A manifestação emocional ligada a esse nível é a ansiedade e o masoquismo se origina aqui. Esse músculo é determinante na respiração e auxilia na circulação e digestão, por isso não é possível encontrar um bloqueio total desse segmento, pois levaria a morte. São encontrados bloqueios parciais vindos de traumas relacionados a uma educação repressora e culpabilizante, o que ocasiona o comportamento masoquista, de tolerar o desprazer, se culpabilizar e de ser obediente às regras impostas. Devido a isso, vivem em um estado constante de ansiedade que pode gerar gastrites e úlceras, sendo patologias citados por Navarro (2013b).

Já o sexto nível é chamado de abdominal e abrange à região do abdômen, que segundo Navarro (2013b) está situada a função dos esfíncteres, exprimindo as pulsões da hostilidade, do ataque, da destruição e da posse. A partir do momento em que a criança passa a conseguir controlar seus esfíncteres, ou seja, ter consciência de quando está com vontade de libera-los, por volta dos 2 anos, ela passa a ter uma ideia de autonomia, mas com a educação social dada, essa função deixa de ser entendida como uma liberdade e passa a ser vivida sobre regras, instaurando a analidade no indivíduo. O bloqueio desse segmento acontece como consequência de traumas vivenciados nesse período de controle dos esfíncteres, o que vai gerar uma dificuldade de expressar sua agressividade, medo de destruir, necessidade de retenção e acúmulo e uma grande tendência a limpeza. O autor aponta que são “indivíduos desconfiados e muito críticos, e essa tendência os leva, de bom grado, a levar uma vida solitária.” (NAVARRO, 2013b, p. 117). Como exemplo de patologias desse segmento tem as colites, diarreias e prisão de ventre.

O último nível é o pélvico e nele estão localizados a pelves, cintura, músculo da bacia, membros inferiores, órgãos genitais e órgãos urinários. É o segmento da sexualidade genital, que é a representação máxima do sentir com a vida. Segundo Navarro (2013b) os bloqueios que acontecem nesse segmento sempre serão secundários devido aos bloqueios existentes nos níveis anteriores. A outra sede do superego, além do pescoço, também está localizado nos músculos internos das coxas, que representam o medo do julgamento dos outros, sendo essa a maior fonte de bloqueios. As alterações das funções sexo-genital acontecem pela censura excessiva do superego, que tem sua origem na educação repressora e punitiva. Com isso, a maior fonte de criatividade e prazer do indivíduo fica perturbada. Como patologias desse segmento podem ser citadas a impotência e a frigidez.

Dessa forma, Navarro (1996) aponta que a energia só consegue circular livremente no caráter maduro, que é o genital, podendo viver os prazeres relacionados à cada um dos setes níveis. Já as pessoas neuróticas ao tentarem bloquear e se defender do desprazer (medos, ansiedades, angústias…), também bloqueiam o prazer e a possibilidade de serem criativas (NAVARRO, 2013). O desprazer, que vem em um primeiro momento (intrauterino) de fora, ao longo do desenvolvimento e dos traços caracteriais, também começa a vir de dentro (intrapsíquico).

REFERÊNCIAS

NAVARRO, Frederico. Somatopsicopatologia. Trad. Silvana Finzi Foá. São Paulo: Summus, 1996.
NAVARRO, Federico. Caracterologia Pós-Reichiana. Curitiba: Centro Reichiano, 2013a.
NAVARRO, Federico. Somatopsicodinâmica das biopatias. Curitiba: Centro Reichiano, 2013b.

AUTORA

Luiza Figueiredo Lima da Rocha Fragoso/ Maringá / PR / Brasil
Psicóloga (CRP 08/20186) formada pela UEM (2013), com especialização em psicoterapia psicanalítica contemporânea pela EPPM (2015) e cursando especialização em psicologia corporal pelo Centro Reichiano. Atua fazendo atendimentos individuais, em casal, familiar e em grupo.
E-mail: luizafragoso@hotmail.com

ORIENTADOR

José Henrique Volpi / Curitiba / PR / Brasil
Psicólogo (CRP-08/3685), Analista Reichiano, Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Eriksoniana e Psicodrama. Mestre em Psicologia da Saúde (UMESP), Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento (UFPR). Diretor do Centro Reichiano-Curitiba/PR.
E-mail:volpi@centroreichiano.com.br


COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO

FRAGOSO, Luiza Figueiredo L. R.; VOLPI, José Henrique. Os sete segmentos de couraças e seus bloqueios. In: VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara. Psicologia Corporal. Revista Online. ISSN-1516-0688. Curitiba: Centro Reichiano, 2019. Disponível em: http://www.centroreichiano.com.br/artigos-cientificos-em-psicologia/ Acesso em: ____/____/____.