O corpo na psicoterapia

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Wilhelm Reich foi o precursor das psicoterapias corporais. Primeiramente, focou seus estudos na teoria da libido e aos poucos percebeu que o paciente também expressava seus conteúdos inconscientes por meio do corpo, pela postura, tom de voz, vestimenta, etc. Tirou o paciente do divã e sentou-se frente a frente com o mesmo, o que lhe permitiu entrar em contato com a pessoa num nível além do da neurose em tratamento. Reich propõe uma abordagem psicoterapêutica onde a análise verbal deveria se somar aos trabalhos corporais e energéticos. Sua intenção era uma forma de psicoterapia que considera o corpo, a mente e a energia como uma unidade que deve ser tratada como um tripé, de forma conjunta e indivisível.

Wilhelm Reich foi o precursor das psicoterapias corporais. Mas antes disso, foi aluno de Freud, tornou-se psicanalista numa época em que a teoria psicanalítica ainda principiava de um modo peculiar e estabeleceu desde o início um rumo inovador de suas pesquisas empenhando-se na busca de um método que pudesse oferecer resultados mais eficazes dos que os obtidos até então naquela época.

Primeiramente, Reich (1998) focou seus estudos na teoria da libido, que tinha um papel central na psicanálise. Tratou dos desequilíbrios psíquicos segundo a proposta da psicanálise, analisando os sintomas neuróticos e dando ênfase à palavra, podendo contribuir muito para a evolução daquela ciência, mesmo sem ter tido tal reconhecimento. Segundo OlaRaknes,

As suas descobertas relativas a esse período tornaram-se, pouco a pouco, parte essencial da teoria e da técnica psicanalíticas, mesmo que frequentemente ainda sem que fosse mencionada a sua colaboração. (RAKNES, 1988, p. 20)

Aos poucos, Reich (1975) percebeu que o paciente também expressava seus conteúdos inconscientes por meio do corpo, pela postura, tom de voz, vestimenta, etc. Empenhado em trabalhar essas questões e fazer o paciente perceber e reconhecer algumas de suas atitudes neuróticas, tirou o paciente do divã e sentou-se frente a frente com o mesmo, o que lhe permitiu entrar em contato com a pessoa num nível além do da neurose em tratamento.

A análise dos gestos, posturas, vestimentas, etc, levou Reich a compreender de forma mais profunda a estrutura do caráter em que o sintoma se desenvolve visto que esse se forma como uma defesa do ego contra a ansiedade criada pelos intensos sentimentos sexuais da criança e o consequente medo da punição. Criou então sua primeira técnica de trabalho denominada análise do caráter, tenso sido “o primeiro psicanalista a formular uma teoria coerente do caráter” (RAKNES, 1988, p. 20). Concentrou-se mais no que o paciente mostrava e menos no que o paciente dizia.

O trabalho sistemático com a técnica da análise do caráter levou Reich a perceber que muitos pacientes, ao tomarem consciência de suas características, mudavam espontaneamente a postura corporal e o seu comportamento, além de permitir a expressão de emoções reprimidas na infância que até então não haviam podido se manifestar. Constatou também que os distúrbios psico-emocionais estão sempre associados a disfunções anátomo-fisiológicas, que por sua vez fazem parte de um sistema unitário. Este conjunto de disfunções corporais recebeu o nome de couraças musculares, que são tensões crônicas que se formam no corpo ao longo da vida, cuja função é proteger o indivíduo (ego) de experiências dolorosas e ameaçadoras. Inclui tensão ou flacidez crônicas da musculatura esquelética que são resultado de uma alteração nos comandos efetores do sistema extra-piramidal, que talvez envolva até mesmo alterações na atividade dos neurônios eferentes gama que são os que regulam o tônus muscular.

Mas a couraça não é apenas caractereológica ou muscular. Podemos encontrá-la nos tecidos (tissular), envolvendo-se na dinâmica intersticial, e nas vísceras (visceral), como resultado de alterações crônicas no funcionamento do sistema nervoso autônomo, causando assim disfunções nas secreções e na musculatura lisa dos órgãos (BOYESEN, 1986). Foi, então, que o trabalho que Reich vinha fazendo enquanto psicanalista deixou de ser uma terapia somente psicológica e passou a ser uma psicoterapia diretamente voltada ao corpo, ao sistema neurovegetativo. Por esse motivo é que recebeu o nome de vegetoterapiacaracteroanalítica, incluindo num só conceito o trabalho nos aparelhos psíquico e físico.

Para Reich tornou-se subtamente evidente que a couraça muscular, a qual consiste em espasmos, cãibras e tensões, não é outra coisa senão a expressão corpórea das emoções e das ideias, bem como a ancoragem somática das neuroses. (RAKNES, 1988, p. 21)

À procura de uma lei que pudesse governar esses bloqueios corporais, Reich percebeu que a couraça muscular está ordenada em segmentos e agem como um anel, um cinturão que circula a região toda do corpo. Para uma melhor compreensão pedagógica, mapeou o corpo em sete segmentos de couraças a saber: ocular, oral, cervical, torácico, diafragmático, abdominal e pélvico, que quando encouraçados, impedem o livre fluxo energético. Para compensar, o corpo adota novas posturas nessas regiões onde existe o bloqueio, (olhos arregalados, tensão no maxilar, desvios na coluna, etc).

Reich passou a trabalhar sobre o corpo, chamando a atenção do paciente a respeito das tensões crônicas e dissolvendo-as por meio de toque, manipulação, massagem, de forma que muitas vezes o paciente até podia trazer à consciência recordações até então sublimadas, ao mesmo tempo que sentia arrepios pelo corpo todo como se fossem correntes de energia. “Essas correntes pareciam partir do sistema nervoso vegetativo e autônomo, e Reich as chamou então de correntes vegetativas” (RAKNES, 1988, p. 22), que apareciam quando acontecia um desbloqueio ou relaxamento da couraça, permitindo o paciente relaxar e respirar tranquilamente.

O corpo contém a história do indivíduo e é através dele que a vegetoterapia busca resgatar as emoções mais profundas. Seu princípio básico é o “restabelecimento da mobilidade biopsíquica através da anulação da rigidez (encouraçamento) do caráter e da musculatura” (REICH, 1986, pg. 17), Quando sentimos alguma coisa, algo se move em nosso corpo (energia). Ela vibra, pulsa, se expande e se contrai. Segundo Eva Reich (1998), filha mais velha de Reich:

Existe algo que flui dentro de nós. Quando estamos felizes, nos alongamos, nos expandimos para o mundo. Quando temos medo, nos encolhemos, nos retraímos para dentro de nós mesmos. Nesse movimento, o que flui de lá para cá é nossa energia vital. (p. 29)

Reich propõe uma abordagem psicoterapêutica onde a análise verbal deveria se somar aos trabalhos corporais e energéticos. Sua intenção era uma forma de psicoterapia que considera o corpo, a mente e a energia como uma unidade que deve ser tratada como um tripé, de forma conjunta e indivisível. Sabia ele que a técnica da vegetoterapia ainda precisava ser aprimorada, revista, complementada e foi quando pediu ajuda a um de seus colaboradores e amigo, o ex-psicanalista norueguês OlaRaknes que julgou-se incapaz de tal proeza porque sentia que seus conhecimentos de neuropsicofisiologia não eram suficientes para cumprir com tamanha responsabilidade, mas que iria buscar alguém que achasse estar à altura desse pedido. Foi quando Raknes repassou essa missão a um de seus alunos, o neuropsiquiatra italiano Federico Navarro. brilhantemente revisou os trabalhos de Reich e reescreveu as tipologias de caráter (NAVARRO, 1995), bem como desenvolveu uma metodologia sistemática para a vegetoterapia (NAVARRO, 1996).

Novas pesquisas revelaram a Reich um tipo de energia até então jamais comentada pelos cientistas da época à qual ele deu o nome de energia orgone. Foi quando uma série de novas descobertas foram se descortinando à sua frente e sendo incorporadas à técnica da vegetoterapia. Então, o nome da técnica passa a ser agora, orgonoterapia e a ciência desenvolvida por Reich recebe o nome de Orgonomia.

A ciência da orgonomia está intimamente relacionada com as leis fundamentais da natureza. É, portanto, uma ciência extremamente ampla, que envolve todas as atividades naturais, as ciências físicas ou inanimadas, as ciências biológicas ou animadas e, e além disso constitui uma base científica para a compreensão de matérias não-científicas como a religião e a arte. (RAKNES, 1988, p. 9).

O interesse de Reich pela pesquisas com a energia orgone desviaram-no definitivamente da psicanálise, enveredando-se de cabeça e obtendo resultados que culminaram em aplausos, críticas e inúmeras acusações sem fundamentos. A consequência dessas acusações foi a proibição da continuidade de suas pesquisas com a energia orgônio, por parte das autoridades americanas e o desacato de uma ordem judicial levou Reich à condenação de dois anos de encarceramento. Faleceu em 1957, pouco tempo antes de sua liberdade.

Segundo Baker (1980), aluno e colaborador de Reich durante mais de dez anos, quem conhece a obra de Reich não consegue permanecer indiferente, cuja atitude era “sempre marcada pela cautela, pela honestidade e pela franqueza em admitir algo que não sabia” (p. 19). Um outro aluno e colaborador de Reich, OlaRaknes também comungava dessa opinião quando diz:

Cada vez que conversava com Reich sentia que ele se dedicava a seu trabalho com uma honestidade de intenções raramente encontrável em outros. Qualquer argumento sobre o qual tratasse – e para ele não existiam argumentos “frívolos” – era coligado naturalmente aos objetivos fundamentais da vida (RAKNES, 1988) pp. 53 e 54).

Após a morte de Reich, muitos de seus alunos deram continuidade aos seus trabalhos, levando em frente rigorosamente a Orgonomia ou também conhecida por Análise Reichiana. Outros, por mais que tenham baseado seus pilares epistemológicos nos ensinamentos de Reich, criaram suas próprias escolas e metodologias, sendo conhecidos como escolas neorreichianas.


REFERÊNCIAS

BOYESEN, G. Entre psiquê e soma. Introdução à Psicologia Biodinâmica. São Paulo: Summus, 1986

NAVARRO, Federico. Caracteorologia pós-reichiana. São Paulo: Summus, 1995

NAVARRO, Federico. Metodologia da vegetoterapia. São Paulo: Summus, 1996

RAKNES, O. Wilhelm Reich e a Orgonomia. São Paulo: Summus, 1988

REICH, Eva. Energia vital pela bioenergética suave. São Paulo. Summus, 1998.

REICH, Wilhelm. Analise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1998

REICH, Wilhelm. A função do orgasmo. São Paulo: Brasiliense, 1975


AUTOR

José Henrique Volpi / Curitiba / PR / Brasil
Psicólogo (CRP-08/3685), Analista Reichiano, Especialista em Psicologia Clínica, Anátomo-Fisiologia, Hipnose Eriksoniana e Psicodrama. Mestre em Psicologia da Saúde (UMESP), Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento (UFPR). Diretor do Centro Reichiano-Curitiba/PR.
E-mail:volpi@centroreichiano.com.br


COMO REFERENCIAR ESSE ARTIGO

VOLPI, José Henrique. O corpo na psicoterapia. In: VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara. Psicologia Corporal. Revista Online. ISSN-1516-0688. Curitiba: Centro Reichiano, 2019. Disponível em: http://centroreichiano.com.br/artigos-cientificos-em-psicologia/ Acesso em: ____/____/____.