A PRÁTICA DA VEGETOTERAPIA CARACTEROANALÍTICA

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José Henrique Volpi
Maria Beatriz de Paula 

RESUMO

A vegetoterapia caracteroanalítica é uma técnica desenvolvida por Wilhem Reich, a partir de seu trabalho com a análise do caráter. A proposta é encontrar pontos de bloqueios energéticos no corpo, por meio da massagem reichiana e, atuar com exercícios físicos sutis (actings) em cada bloqueio de forma a flexibilizar as couraças e liberar o fluxo energético para o corpo todo, resgatando dessa forma a livre integração entre a mente, o corpo e a energia.

Palavras-chave: Ecologia; Psicologia; Psicoecologia; Ecopsicologia; Reich.


Foi o trabalho sistemático com a técnica da análise do caráter que levou Reich a descobrir que os distúrbios psico-emocionais apresentam como equivalente somático, a couraça muscular. Couraças são tensões que se formam ao longo da vida, cuja função é proteger o indivíduo (ego) de experiências dolorosas e ameaçadoras. Inclui tensão ou flacidez crônicas da musculatura esquelética que são resultados de uma alteração nos comandos efetores do sistema extra-piramidal, que talvez envolva até mesmo alterações na atividade dos neurônios eferentes gama que são aqueles que regulam o tônus muscular. Mas a couraça não é apenas muscular. Podemos encontrá-la nos tecidos (tissular), envolvendo-se na dinâmica intesticial, e nas vísceras (visceral), como resultado de alterações crônicas no funcionamento do sistema nervoso autônomo, causando assim disfunções nas secreções e na musculatura lisa dos órgãos (BOYESEN, 1988).

Portanto, atuar sobre a couraça significa mobilizar todo o sistema neurovegetativo. Daí o nome vegetoterapia caracteroanalítica, incluindo num só conceito o trabalho nos aparelhos psíquico e físico.

Estando à procura de uma lei que pudesse governar esses bloqueios corporais, Reich percebeu que a couraça muscular está ordenada em segmentos e age como um anel que circula a região toda do corpo. Para uma melhor compreensão pedagógica, mapeou o corpo em sete segmentos de couraças a saber: ocular, oral, cervical, torácico, diafragmático, abdominal e pélvico, que impedem o livre fluxo energético. Para compensar, o corpo adota novas posturas como os olhos arregalados, uma forte tensão no maxilar, desvios na coluna, etc.

O interesse pelas pesquisas com a energia orgone desviaram Reich da continuidade do trabalho clínico com a vegetoterapia. Sabia ele que a técnica ainda precisava ser aprimorada, revista, complementada e foi quando encarregou um de seus colaboradores e amigo, o ex-psicanalista norueguês Ola Raknes dessa missão. Mas Raknes disse não se julgar capaz de tal proeza porque sentia que seus conhecimentos de neuropsicofisiologia eram precários visto não ser médico, nem psicólogo, e repassou o pedido de Reich ao seu aluno, o neuropsiquiatra italiano Federico Navarro.

A vegetoterapia caracteroanalítica sistematizada por Federico Navarro (1996) é a ferramenta base que utilizamos para trabalhar a couraça muscular caracterológica e o fluxo de energia no corpo. O objetivo é o de restabelecer a saúde biopsicosocial do sujeito, o fluxo das correntes plasmáticas no corpo em direção à pélvis (capacidade orgástica), a plena pulsação do organismo que possibilita o amor a si mesmo e aos demais, além de dissipar a couraça caracterológica para permitir o aparecimento da identidade singular do sujeito.

Através das emoções, a vegetoterapia caracteroanalítica reativa a história do sujeito desde a vida intrauterina, porque a estruturação caracterial se inicia com a vida e, a primeira relação dominante se dá com o útero materno. O caráter, a maneira de ser específica de uma pessoa, expressa seu passado, sua história, seu encontro/desencontro com o mundo. Mas também expressa um mecanismo de proteção narcísico, conservador e de adaptação que contém angústias e emoções.

Genovino Ferri (1998), no seu curso sobre Psicopatologia Funcional, ministrado para um grupo de Orgonoterapeutas, no Rio de Janeiro, revela um “continuum” de variáveis significativas na formação do caráter.

1 – Carga vital, espessura, densidade energética;
2 – Quantidade e qualidade energéticas do primeiro campo (mãe-útero);
3 – O modo como ocorreu a primeira grande separação (parto);
4 – Quantidade e qualidade energéticas do primeiro campo (mãe-seio)
5 – O modo como ocorreu a segunda grande separação (o desmame);
6 – Quantidade e qualidade energéticas do segundo campo (família);
7 – Ordem de nascimento;
8 – Sexo e caráter da figura líder do segundo campo;
9 – O modo “como” foi experimentada a primeira erotização genital;
10 – Quantidade e qualidade energéticas das impressões determinantes do segundo campo;
11 – O modo “como” foi experimentada a explosão energética da puberdade;
12 – Quantidade e qualidade energéticas do terceiro campo (social).

Essas variáveis emocionais, afetivas, dinâmicas, energéticas e pulsionais são válidas para a determinação das “fixações” que tem significado positivo ou negativo no plano energético e nos sete níveis reichianos.

Na perspectiva energética o ser humano é um núcleo de energia cósmica que se distingue do campo de energia que está imerso, por sua membrana. Ele é um fluxo de energia imerso em um grande fluxo de energia: o campo. A energia é o ponto central da realidade. Cada fase do seu desenvolvimento é caracterizada por relações energéticas com o campo que o circunda. Elas têm características peculiares ao momento vivido, real e objetivo. Os aspectos caracteriais são determinados pela complexidade dos campos de energia.

O diagnóstico energético observa o fluxo, a pulsação, a densidade da bioenergia no corpo e sua correlação somatopsíquica. Por isso, o vegetoterapeuta utiliza a massagem reichiana como instrumento de diagnóstico e de pesquisa, observa atentamente como o paciente executa cada acting (movimento), sente e compreende a transferência como uma experiência somatopsicoenergética.

O diagnóstico diferencial permite que o terapeuta saiba o tipo de estrutura caracterial do seu paciente e em que momento ele vai trabalhar com a análise do caráter ou com a análise dos actings, em que momento deve calar, deve aproximar-se ou afastar-se.

A complexidade do processo está no manejo da transferência e da contra-transferência em cada acting.

A complexidade do campo está na relação terapeuta-paciente, em cada momento do processo.

O corpo contém a história do indivíduo e é através dele que a vegetoterapia busca resgatar as emoções mais profundas, restabelecendo a mobilidade biopsíquica através da anulação da rigidez (encouraçamento) do caráter e da musculatura (REICH, 1995), mediante movimentos específicos (actings), seguidos sempre da análise dos conteúdos verbalizados pelo paciente. A execução “mecânica” de um acting, sem aliança terapêutica, irá dificultar ou até mesmo impedir o aparecimento das emoções reprimidas. Portanto, o terapeuta deve ter uma participação ativa durante a sessão a fim de observar “como” os actings são executados pelo paciente, antes que este verbalize o que sentiu ao realizá-los.

O trabalho prático da vegetoterapia segue um protocolo de forma progressiva, que começa a ser aplicado no primeiro segmento (ocular), em direção ao último (pélvico), levando o indivíduo ao amadurecimento caracterológico, aproximando-o cada vez mais do caráter genital.

Iniciamos a vegetoterapia pela aplicação da massagem reichiana que deve ser feita no início de sessão, até o final do processo do tratamento psicoterápico. Em seguida, procedemos com a continuidade de nossas investigações, voltadas agora à comprovação prática da sensação tida durante o período da gestação. Para isso, aplicamos a concha aberta (15 minutos) e depois, na sessão seguinte, da concha fechada (15 minutos). A fim de investigarmos as relações parentais, ainda nessa primeira sessão, fazemos uso da lanterna, tapando olho esquerdo, se o paciente for destro, e pedimos que olhe firmemente para o ponto luminoso (lanterna), colocada a uma distância de 20 a 30 cm de seu rosto, pelo tempo máximo de 15 minutos. Inverte-se o trabalho para o olho direito, não se esquecendo de sempre, ao final de cada trabalho, trabalhar a sensação e os pensamentos surgidos durante o acting.

A utilização da luz para o desbloqueio da couraça do segmento ocular, foi proposta por Bárbara Goldenberg, cujas pesquisas revelaram ser essa a melhor forma de se atingir o nível profundo da couraça no parênquima cerebral. Essa técnica é seguida de dois objetivos: “(1) a estimulação direta da luz sobre a substância cerebral propriamente dita; (2) forçar o paciente a ultrapassar o limiar do estímulo visual, de modo que ele seja obrigado a abandonar sua contenção ocular (BAKER, 1980, p. 73). Os relatos dos pacientes após o trabalho da luz sobre os olhos são sempre de um bem-estar e sentimento de segurança, ampliação da percepção e muitos outros efeitos benéficos. Alguns também chegam a relatar e a comprovar uma redução ou até mesmo eliminação de erros de refração da visão como astigmatismo, miopia, hipermetropia, etc.

Na segunda sessão de vegetoterapia, após a aplicação da massagem, seguida da aplicação da concha fechada, pedimos ao paciente que olhe atentamente, com os dois olhos o ponto lumisoso, pelo tempo máximo de 15 minutos. Após a verbalização dos conteúdos mobilizados, passamos para o trabalho intercalado com o segundo segmento (oral), que corresponde à boca, pedindo ao paciente que deixe-a aberta e entre em contato com as sensações. O tempo continua sendo de 15 minutos, seguido da verbalização. Para encerrar essa segunda sessão, pedimos que o paciente fixe um ponto imaginário no teto, durante 15 minutos. É importante que o paciente encontre seu próprio ponto e não que olhe um ponto demarcado pelo terapeuta. E assim, a cada sessão vamos verificando a possibilidade de aumentar o tempo dos actings até atingirmos o tempo máximo de 25 minutos, tempo esse necessário para estressar a musculatura do segmento trabalhado.

Finalizada a aplicação do primeiro “pacote” de actings (ponto fixo com boca aberta), que representa a gestação, parto e primeiros dias de vida, cujo bloqueio caracterial responde pelo núcleo psicótico e muscular pelo astigmatismo, damos início agora ao segundo pacote (convergência com boca em sucção). Esse pacote leva ao amadurecimento da situação oral, cujo comprometimento se deu durante o período de amamentação e desmame, responsável pelos traços depressivos e pela miopia. E assim, seguimos com o protocolo proposto pela escola de Navarro, através de outros actings, até chegarmos ao desbloqueio do segmento pélvico quando, depois de aproximadamente 80 sessões de uma hora e meia cada, o processo terapêutico finaliza.

REFERÊNCIAS

BAKER, E. F. O labirinto humano. Causas do bloqueio da energia sexual. São Paulo: Summus, 1980.
BOYESEN, G. Entre psique e soma. Introdução à Psicologia Biodinâmica. São Paulo: Summus, 1986.
FERRI, G. Psicopatologia funcional. Rio de Janeiro: EOFeN, 1998. Apostila de curso.
NAVARRO, F. Metodologia da vegetoterapia. São Paulo: Summus, 1996.
REICH, W. Análise do caráter. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995.


AUTORES

José Henrique Volpi – Psicólogo (CRP-08/3685), Psicodramatista, e Analista Reichiano. Mestre em Psicologia da Saúde (UMESP) e Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento (UFPR). Diretor do Centro Reichiano, Curitiba/PR.
E-mail: volpi@centroreichiano.com.br

Maria Beatriz de Paula – Psicóloga Clínica (CRP-05/18718), Analista Reichiana e Orgonoterapeuta Caracteroanalítica. Coordenadora e supervisora clínica de grupos de estudos reichianos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Professora do Curso de Especialização em Análise Reichiana no Chile, São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba.
E-mail: centroreichiano@centroreichiano.com.br